Este estudo analisa as tendências epistemológicas que orientam as pesquisas sobre competências digitais na Educação Básica nos contextos brasileiro e mexicano, considerando como diferentes marcos teóricos e metodológicos se articulam às concepções de conhecimento, formação docente e prática pedagógica com tecnologias digitais. Foram analisadas 31 pesquisas publicadas entre 2012 e 2022, sendo 25 brasileiras e 6 mexicanas, com duas pesquisas brasileiras excluídas da contagem percentual por restrições de divulgação, resultando em 29 estudos válidos para análise comparativa. A análise revelou predominância da tendência crítico-dialética em ambos os países, seguida pela fenomenológico-hermenêutica. Tendências empírico-analíticas, pós-críticas e híbridas também se destacam, especialmente no Brasil.
O estudo fundamenta-se na perspectiva de Educação Comparada de Schriewer (2018, 2019), que propõe considerar como modelos internacionais são reinterpretados nos contextos locais, levando em conta especificidades históricas, culturais e institucionais. A pluralidade epistêmica descrita por Sánchez Gamboa (2006) é central, articulando seis níveis interdependentes: técnico-instrumental, metodológico, teórico, epistemológico, gnosiológico e ontológico, classificando as abordagens em empírico-analítica, fenomenológico-hermenêutica e crítico-dialética. As teorias pós-críticas (Paraíso, 2004; Dentz, 2015) e decoloniais (Quijano, 1996, 2005; Mignolo, 1995, 1999) enriquecem esse arcabouço, questionando os cânones modernos, reconhecendo a pluralidade de saberes e problematizando a colonialidade do saber. Autores como Adell (1997, 2005), Behar, Schorn; Silva (2019) e Moran (2007) também são referenciados para discutir as dimensões das competências digitais e a integração de tecnologias na educação.
A pesquisa é de natureza mista e finalidade básica, articulando procedimentos quantitativos e qualitativos (Creswell; Plano Clark, 2018), com enfoque explicativo. O recorte temporal de 2012 a 2022 justifica-se pela intensificação da produção acadêmica, digitalização de teses e dissertações, e transformações no uso de tecnologias digitais, acentuadas pela pandemia da COVID-19. Brasil e México foram escolhidos pela relevância geopolítica e educacional na América Latina, apresentando desafios semelhantes e especificidades como a BNCC (2017) no Brasil e a Agenda Digital Educativa no México (2019). O estudo utilizou repositórios de acesso aberto: BDTD e Capes no Brasil; UNAM e Repositório Nacional do México. Os critérios de seleção contemplaram dissertações e teses sobre competências digitais na Educação Básica, organizadas e analisadas segundo roteiro de leitura que permitiu a inferência das epistemologias subjacentes, apoiando-se no esquema paradigmático de Sánchez Gamboa (2006). A comparação entre os países ancorou-se no método funcional-configurativo de Schriewer (2018, 2019).
A análise das tendências epistemológicas nas pesquisas brasileiras e mexicanas revelou que a tendência crítico-dialética é predominante em ambos os países (56,5% no Brasil e 66,7% no México). A fenomenológico-hermenêutica também se destaca (39,1% no Brasil e 33,3% no México). A tendência empírico-analítica foi identificada em 21,7% das pesquisas brasileiras, mas não de forma predominante nas mexicanas. As tendências pós-crítica e decoloniais estão presentes em 43,4% das pesquisas brasileiras e emergente em uma pesquisa mexicana. Abordagens híbridas representam 47,8% das pesquisas brasileiras e 16,7% das mexicanas, indicando flexibilidade metodológica.
Em geral, as investigações defendem que as competências digitais devem ser compreendidas em sua dimensão política, histórica e social, buscando a transformação e a crítica das estruturas existentes. As pesquisas fenomenológico-hermenêuticas valorizam as experiências vividas e a subjetividade. As pesquisas empírico-analíticas focam na medição e avaliação. As abordagens pós-críticas e decoloniais desafiam narrativas tradicionais e valorizam vozes marginalizadas.
No México, Tapia Álvarez (2025) observa que persistem dificuldades significativas na apropriação pedagógica das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), especialmente no que se refere à integração crítica e criativa desses recursos nos processos de ensino e aprendizagem. Para o autor, ainda há uma lacuna entre o uso técnico das ferramentas digitais e sua utilização como mediadoras do conhecimento. Nessa perspectiva, Quiñonez Pech, Zapata González e Canto Herrera (2020) enfatizam a importância de considerar a sensibilidade cultural no uso das tecnologias, destacando que a incorporação das TIC na educação deve respeitar as identidades locais, os contextos socioculturais e as formas próprias de produção de saber. Já Silva e Behar (2019) chamam atenção para a amplitude e complexidade do conceito de competências digitais, que envolve não apenas habilidades técnicas, mas também dimensões cognitivas, éticas e críticas, necessárias para uma atuação consciente e transformadora no ambiente digital.
No âmbito das práticas pedagógicas, Moran (2007) defende o ensino híbrido como caminho para integrar o potencial das tecnologias digitais à interação presencial, promovendo metodologias mais flexíveis e centradas no protagonismo do estudante. Complementarmente, Castañeda, Esteve e Adell (2018) alertam para a necessidade de uma revisão constante das competências docentes, uma vez que o avanço tecnológico impõe mudanças contínuas nos modos de ensinar e aprender. Por sua vez, Domínguez et al. (2014) e Álvarez-Flores, Núñez-Gómez e Rodríguez-Crespo (2017) apontam lacunas persistentes na formação de professores, demonstrando a urgência de políticas educacionais que garantam o desenvolvimento profissional voltado ao uso pedagógico das TIC e à construção de práticas inovadoras e contextualizadas.
O estudo conclui que a tendência crítico-dialética é predominante nas pesquisas sobre competências digitais na Educação Básica no Brasil e no México, confirmando o compromisso com a transformação social. A presença significativa da tendência fenomenológico-hermenêutica em ambos os contextos revela a valorização da experiência vivida e da subjetividade. A incidência da tendência empírico-analítica no Brasil, ausente nas pesquisas mexicanas, pode indicar uma diferença na tradição investigativa. A emergência das abordagens pós-críticas e decoloniais, especialmente no Brasil, demonstra uma sensibilidade crescente às teorias que problematizam hierarquias epistêmicas. A expressiva presença de abordagens híbridas confirma a complexidade do objeto estudado.
As implicações desse panorama são que a discussão sobre competências digitais não pode ser reduzida a questões técnicas, mas deve ser situada em disputas epistemológicas, políticas e culturais. Reforça a importância da formação docente e aponta para a necessidade de políticas públicas mais consistentes, que reconheçam a pluralidade epistêmica e valorizem práticas pedagógicas contextualizadas. O estudo demonstra que a construção do conhecimento nesse campo é dinâmica e plural, contribuindo para uma educação digital mais inclusiva, reflexiva e transformadora.
REFERÊNCIAS
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