ESTÁGIO CURRICULAR SUPERVISIONADO EM EDUCAÇÃO FÍSICA: EXPERIÊNCIAS COM PRÁTICAS CORPORAIS DE AVENTURA NA EDUCAÇÃO INFANTIL

  • Autor
  • Georgia Lorena de Mattos da Silva
  • Co-autores
  • Leticia Ito Reimão , Thaís Rodrigues de Almeida , Franciane Maria Araldi
  • Resumo
  • 1 PERCURSO INICIAL E FUNDAMENTOS TEÓRICOS

    A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB - Lei nº 9.394/1996) estabelece a Educação Infantil como a primeira etapa da Educação Básica, destinada a crianças de zero a cinco anos, com caráter formativo e preparatório para o ensino fundamental. Além disso, a Constituição Federal de 1988, assegura o direito à educação desde a primeira infância, determinando a responsabilidade do Estado em garantir acesso a creches e pré-escolas, promovendo o desenvolvimento integral das crianças em um ambiente seguro e educativo (Brasil, 1988). Nesse sentido, a Base Nacional Comum Curricular destaca a importância dos campos de experiência na Educação Infantil (Brasil, 2017). 

    A Educação Física na Educação Infantil está contemplada principalmente nos campos “o eu, o outro e o nós” e “corpo, gestos e movimentos”, que visam promover a expressão corporal, o conhecimento do próprio corpo, a interação social e o desenvolvimento de habilidades motoras: “a criança explora, aprecia e representa o mundo por meio de movimentos, gestos e da expressão corporal, estabelecendo relações consigo mesma, com os outros e com o ambiente” (Brasil, 2017).

    Para tanto, pensando no contexto deste relato de experiência, destaca-se que a Lei n° 11.788/2008 define o Estágio Curricular Supervisionado como um componente curricular obrigatório da formação inicial de professores, onde ocorre uma via de mão dupla entre os conhecimentos adquiridos ao longo do curso com a prática docente. Como afirmam Pimenta e Lima (2012, p. 61), “o estágio é um campo de conhecimento que articula, na práxis, os saberes necessários à constituição da identidade docente”.

    No âmbito da Educação Física, o estágio representa um momento essencial de aproximação com a realidade escolar, permitindo observar, intervir e refletir criticamente sobre os processos educativos, consolidando a construção da identidade profissional do futuro professor. Segundo Kreuger e Ramos (2021) o estágio se configura como espaço de aprendizagem da docência, marcado por reconhecer, aprender, validar e ressignificar práticas cotidianas dentro de repertórios, de esquema de ação, sobre como vir a ser um professor. De acordo com Bikel e Benites (2025) é o espaço responsável pela relação mais profícua entre teoria e prática e que se trata de uma preparação para a docência

    Diante deste contexto, o objetivo deste estudo é relatar as experiências vivenciadas durante o Estágio Curricular Supervisionado em Educação Física, com ênfase nas práticas corporais de aventura desenvolvidas com crianças da Educação Infantil.

     

    2 CONTEXTO DA EXPERIÊNCIA

    O relato de experiência constitui uma forma de produção de conhecimento que descreve vivências acadêmicas vinculadas aos pilares da formação universitária, fundamentando-se em embasamento teórico e reflexão (Mussi; Flores; Almeida, 2021). Este relato de experiência refere-se ao Estágio Curricular Supervisionado I realizado na Educação Física da Educação Infantil, com carga horária total de 90 horas, sendo 36 destinadas às atividades na universidade e 54 à escola-campo. O estágio compreende etapas de diagnóstico institucional, elaboração do plano de trabalho (planejamento, organização, execução e avaliação das ações) e realização da intervenção supervisionada. Ao final, elabora-se um relatório que sistematiza o processo formativo e a documentação produzida.

    A experiência foi desenvolvida em um Núcleo de Educação Infantil localizado em Florianópolis, Santa Catarina. O espaço conta com três áreas externas: uma na entrada, composta por parquinho com balanços, escorregador, casinha de boneca e playground em formato de tartaruga; e outras duas, com árvore, túnel, casinha, playground em formato de barco. No ambiente interno, o corredor central distribui as salas de aula, a sala dos professores, o refeitório com duas mesas que atendem as crianças, além da cozinha, banheiro unissex e sala da direção. Esses espaços possibilitam diversas vivências corporais, lúdicas e educativas, integrando o cotidiano da instituição.

    As atividades ocorrem em período integral, das 7h30 às 18h30, com algumas crianças frequentando apenas o turno vespertino. A turma é composta por 20 crianças, sendo 11 com quatro anos e 9 com três anos de idade. Entre elas, há dois alunos estrangeiros, um dos quais ainda não se comunica em português, o que dificulta sua interação com colegas e professoras. O grupo também inclui três crianças com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), que realizam acompanhamento terapêutico semanal.

     

    3 VIVÊNCIAS COM PRÁTICAS CORPORAIS DE AVENTURA 

    As práticas corporais de aventura, reconhecidas por seu potencial pedagógico, integram movimento, desafio e exploração do ambiente, proporcionando experiências significativas no contexto da Educação Física na Educação Infantil. As práticas corporais de aventura ocorrem em ambientes naturais ou urbanos, essas práticas compartilham características essenciais, como a diversificação de vivências corporais e a interação com diferentes espaços (Almeida, 2009). Essa temática, portanto, constitui uma oportunidade para a ampliação de experiências pedagógicas e corporais. No decorrer deste relato, serão apresentadas as práticas desenvolvidas durante o estágio curricular supervisionado, as quais são: caminho sensorial pelos quatro elementos, parkour e surf.

     

    Caminho sensorial pelos quatro elementos

    Como forma de contextualizar o conteúdo a ser desenvolvido, iniciamos o momento da Educação Física reunindo as crianças em roda e apresentando a “caixa dos quatro elementos”. De dentro dela, retiramos representações dos elementos da natureza em formato de personagens: fogo, terra, água e ar. Em seguida, questionamos o que as crianças já conheciam sobre cada um deles e qual poderiam associar a uma aventura. Após a explicação sobre os elementos, iniciamos a “aventura pelo ar”, utilizando cata-ventos de papel. As crianças foram convidadas a assoprar para fazer os cata-ventos girarem, explorando de forma lúdica a força e a presença do ar.

    Em seguida, apresentamos às crianças o elemento fogo, utilizando um tecido cheio de buracos que representava o “vulcão”. As crianças deveriam atravessá-lo sem pisar fora dos buracos, simulando uma passagem segura pelo fogo. Após essa atividade, foi necessário encaminhar metade do grupo para o jantar. Com as crianças que permaneceram na sala, realizamos a passagem pela terra, montando caixas sensoriais dispostas em um caminho, pelo qual as crianças passaram descalças, explorando as diferentes texturas presentes na natureza. O percurso incluía areia, folhas e pedras, permitindo uma rica experiência tátil.

    Para finalizar o caminho pelos quatro elementos, apresentamos o elemento água. Em uma bacia, misturamos amido de milho, água e corante azul, formando o chamado “mar mágico”, no qual as crianças puderam tocar, misturar e explorar livremente a substância, vivenciando de forma lúdica as propriedades da água. 

    Para finalizar o momento, retomamos a ideia de que os aventureiros iriam vivenciar os quatro elementos da natureza, relacionando-os às práticas corporais de aventura. Nesse momento, entregamos o “mapa dos aventureiros”, que apresentava um percurso com todas as etapas das aulas de Educação Física. À medida que as crianças realizassem cada atividade, receberiam um adesivo com o personagem correspondente ao elemento relacionado à prática corporal de aventura explorada. Como este momento teve caráter introdutório e de contextualização para os próximos encontros, todas as crianças receberam um adesivo de cada personagem, colando-os no mapa como primeiro passo da jornada dos aventureiros.

     

    Parkour

    O Parkour é uma atividade de aventura que tem por objetivo transpor obstáculos naturais ou não, com a maior eficiência e segurança possível, deslocando-se de um ponto a outro e superando desafios do caminho (Pereira; Armbrust, 2010). Essa proposta amplia as possibilidades de trabalho nas aulas de Educação Física na Educação Infantil, permitindo observar o comportamento das crianças em diferentes situações motoras. 

    Para contextualizar o tema, iniciamos com uma roda de conversa no parque, questionando as criançasse sabiam o que é o parkour? Se alguém já praticou o parkour? Ou, vocês já viram alguém praticando o parkour?. Embora o conhecimento fosse limitado, demonstraram grande entusiasmo para a realização da atividade. Em seguida, distribuímos faixas de “aventureiros”, criando um símbolo coletivo que nos acompanhou durante o estágio. Por fim, realizamos o “passeio na floresta mágica”, um circuito com arcos, cones, cordas e túnel lúdico, simulando uma corrida com obstáculos. O percurso foi guiado por uma narrativa imaginária, como a de atravessar rios, desviar de árvores e escapar de animais, integrando elementos lúdicos e motores. Durante toda a atividade, permanecemos próximos para garantir a segurança e o envolvimento das crianças. 

     

    Surf                                                                           

    Dal Moro (2024) destaca a importância do surf como uma prática que integra o respeito à natureza ao esporte, estabelecendo uma relação entre os elementos da terra e as práticas corporais de aventura. O surf, nesse sentido, promove a integração entre o corpo e o ambiente, desenvolvendo a consciência corporal e ambiental. Nesta experiência, com o objetivo de promover a adaptação ao meio líquido de forma lúdica, natural e espontânea, foi realizada uma atividade no parque da instituição. Para o início da aula, as crianças foram reunidas em torno de uma piscina plástica com água, sendo convidadas a tocar e sentir a água com as mãos, explorando suas propriedades. Em seguida, foram colocadas folhas de árvore na água e, relacionando com o elemento ar, as crianças foram estimuladas a assoprar as folhas, observando seus movimentos sobre a superfície.

    Na sequência, foi explicada e demonstrada a técnica de respiração no meio aquático, inspirando pela boca e expirando pelo nariz. Posteriormente, as crianças foram organizadas em fila, e, individualmente, entravam na piscina para molhar os pés e, em seguida, caminhavam sobre uma lona, dando continuidade à vivência de adaptação ao meio líquido. A lona foi preparada com água e uma pequena quantidade de sabão, a fim de favorecer o deslizamento durante as atividades. Inicialmente, mediante orientação, as crianças foram convidadas a assumir a posição do surf, com os joelhos semiflexionados e os braços estendidos para a frente, simulando o equilíbrio sobre a prancha.

    Na sequência, as crianças repetiram a postura sobre macarrões de piscina, o que provocou desequilíbrios controlados e exigiu maior consciência corporal e ajuste postural. Para ampliar a vivência, foram disponibilizadas pranchas de isopor, nas quais as crianças subiam e eram impulsionadas suavemente sobre a lona, mantendo a posição do surf durante o deslizamento. Em um momento posterior, a intervenção direta foi reduzida, permitindo que as crianças experimentassem sozinhas o equilíbrio, o deslize e o contato com o meio líquido, desenvolvendo autonomia e percepção corporal. Ao final, as crianças foram retiradas gradualmente da lona, encaminhadas para secar-se e trocar de roupa. Encerrando o momento, retomou-se o “mapa dos aventureiros”, no qual colaram o adesivo correspondente ao elemento água, representando a vivência da prática corporal de aventura do surf.

     

    4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    As experiências relatadas tiveram como objetivo explorar diferentes práticas corporais de aventura por meio dos elementos da natureza (ar, fogo, água e terra) nas aulas de Educação Física na Educação Infantil. Ao longo das vivências, as estagiárias desenvolveram um olhar mais crítico e sensível em relação à atuação nesse contexto, reconhecendo a importância da atenção, do cuidado e do vínculo afetivo com as crianças como aspectos fundamentais para favorecer a participação, o envolvimento e o desenvolvimento integral infantil nas atividades propostas.

    Considerando que este foi o primeiro estágio supervisionado das graduandas do curso de Licenciatura em Educação Física, ressalta-se a relevância das adaptações pedagógicas nas propostas de práticas corporais de aventura, uma vez que, nessa faixa etária, o foco não se concentra na aprendizagem dos esportes em si, mas sim na vivência lúdica das aventuras em seus diversos contextos. Dessa forma, as experiências possibilitaram ampliar as formas de expressão, interação e movimento das crianças, contribuindo para o seu desenvolvimento global e para a formação docente das estagiárias.

     

    REFERÊNCIAS 

     

    ALMEIDA, A. C. P. C. Esporte, Aventura e Natureza: o praticante e a responsabilidade ambiental. In: MARINHO, A.; UVINHA, R. R. (org). Lazer, Esporte e aventura: a natureza em foco. Campinas: Editora Alínea, 2009.

     

    BIKEL, R. L.; BENITES, L. C. O estágio curricular supervisionado: compreensões e significados a partir do seu cotidiano. Reveduc, São Carlos, v. 19, n. 01, p. 1-24, 2025. Semanal. DOI: https://doi.org/10.14244/reveduc.v19i1.6950. Acesso em: 27 set. 2025.

     

    BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil.

    Diário Oficial da União, Brasília, 5 out. 1988. Disponível em:

    http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 27

    set. 2025.

     

    BRASIL. Lei nº 11.788, de 25 de setembro de 2008. Dispõe sobre o estágio de estudantes. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 26 set. 2008.

     

    BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União, Brasília, 23 dez. 1996. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em: 28 set. 2025.

     

    BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/. Acesso em: 28 set. 2025.

    DAL MORO, E. B. Surfe como ferramenta de promoção da Educação Ambiental em jovens e crianças. 2024. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Educação Física) – Centro de Desportos, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2024. 

    KREUGER, Sarah Berrios; RAMOS, Paula. A formação docente e seus dilemas no campo da educação física: uma revisão da literatura. Revista Exitus, Santarém, v. 11, 2021. DOI: https://doi.org/10.24065/2237-9460.2021v11n1id1534. Acessos em 28 out. 2025.  

    PIMENTA, Selma Garrido; LIMA, Maria Socorro Lucena. Estágio e docência. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2012.

     

    ZABALA, A. A prática educativa: como ensinar. Porto Alegre: Artmed, 1998, p. 42. 

     

    MUSSI, R. F. F.; FLORES, F. F.; ALMEIDA, C. B. Pressupostos para elaboração de relato de experiência como conhecimento científico. Práxis Educacional, v. 17, n. 48, p. 60-77, 2021. DOI: https://doi.org/10.22481/praxisedu.v17i48.9010. Acesso em: 27 set. 2025.

     

    PEREIRA. D. W.; ARMBRUST, I. Pedagogia da aventura: os esportes radicais, de aventura e de ação na escola. Jundiaí: Fontoura, 2010.

     

    SANTANA, J. R. M; SOUZA, G. L.; MARTINS, A. C.; ARALDI, F. M. Inserção das práticas corporais de aventura na Educação Física infantil: experiências do estágio supervisionado. Revista Humanidades e Inovação, Palmas, v. 12, n. 3, 2025. Disponível em: https://revista.unitins.br/index.php/humanidadeseinovacao. Acesso em: 27 out. 2025.

     

  • Palavras-chave
  • Estágio; Educação Física; Educação Infantil; Práticas corporais de aventura.
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
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