Nas últimas décadas, a educação brasileira tem sido progressivamente atravessada por iniciativas desenvolvidas no setor privado, em especial por fundações empresariais que se apresentam como agentes de transformação social. Sob o manto da filantropia essas instituições encontram na Educação um terreno fértil para cultivar seus interesses. Dentre essas, está a Fundação Lemann que se destaca como uma das organizações mais influentes na formulação e implementação de políticas públicas educacionais no país.
Criada em 2002 por Jorge Paulo Lemann, a entidade surgiu como desdobramento da Fundação Estudar, criada em 1991, ampliando seu escopo de atuação do financiamento de bolsas para a formação de lideranças para a gestão e inovação educacional em larga escala.
Sob o propósito inicial de “melhorar a qualidade da educação pública por meio de práticas gerenciais inspiradas na iniciativa privada, promovendo eficiência, avaliação de resultados e desenvolvimento de lideranças comprometidas com o país” (Lemann, 2025, n.p), sua atuação tem acendido debates acerca do papel da filantropia empresarial na educação e de suas conexões com o neoliberalismo, que busca reconfigurar as políticas públicas sob a lógica do mercado e da produtividade.
Este estudo objetiva analisar a trajetória da Fundação Lemann, suas estratégias de influência sobre políticas educacionais, em especial na formulação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e os impactos da filantropia estratégica na consolidação de um modelo de gestão educacional alinhado às práticas do setor privado.
Compreender a estratégia de atuação da Fundação Lemann exige mobilizar os conceitos de filantropia estratégica, neoliberalismo e governamentalidade. De acordo com Tarlau e Moeller (2020), a filantropia contemporânea ultrapassa o altruísmo tradicional, convertendo-se em instrumento político-econômico de intervenção em políticas públicas. Essa modalidade, aqui nomeada filantropo-neoliberalismo, aplica lógicas empresariais à resolução de problemas sociais, operando sob os princípios de investimento, mensuração de impacto e retorno social.
O neoliberalismo, conforme discutido por Foucault (2008; 2016), Barbosa, Leão e Rodrigues (2024) e Laval (2019), constitui-se como uma racionalidade política que visa submeter todas as esferas da vida à lógica do mercado. Essa forma de governamentalidade desloca o Estado de provedor de direitos para mediador e garantidor das condições de concorrência. Nesse contexto, a educação passa a ser tratada como instrumento de formação de capital humano, ajustada às demandas produtivas e à eficiência empresarial.
Autores como Bhanji (2008) e Anderson (1995) apontam que a filantropia estratégica na educação não apenas supre lacunas estatais, mas redefine agendas e prioridades, produzindo uma “privatização técnica” do ensino público. Essa tendência se fortalece com a influência de grandes fundações globais, como Gates, Ford e Rockefeller, e, no caso brasileiro, com a assenção de instituições como Fundação Lemann, Instituto Unibanco e Itaú Social, que atuam de forma articulada no âmbito do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas).
Nesse cenário, o papel da Fundação Lemann mostra-se paradigmático: ao mesmo tempo em que se apresenta como uma entidade apartidária e filantrópica, sua atuação revela um engajamento político intenso na formulação de políticas públicas. Tal fenômeno reflete o que Foucault (2002, p. 22) define como a “continuação da guerra por outros meios”, isto é, a ocupação estratégica de espaços institucionais para a manutenção de relações de poder e dominação simbólica.
O presente resumo é resultando de uma tese, em desenvolvimento, e adota uma abordagem qualitativa e documental, baseada na análise de relatórios institucionais da Fundação Lemann, textos acadêmicos e registros oficiais sobre políticas públicas educacionais no Brasil.
A principal análise compreende o material descritivo da trajetória institucional da Fundação, de 1991 a 2025, incluindo: i) Histórico de criação da Fundação Estudar (1991) e da Fundação Lemann (2002); ii) Estrutura organizacional e conselho administrativo; iii) Programas e projetos voltados à formação de lideranças e docentes; iv) Parcerias institucionais com órgãos públicos, universidades e organizações não governamentais; e v) Atuação no processo de construção da BNCC (2013–2017).
A metodologia se ancora na análise de discurso foucaultiana, que permite compreender as práticas filantrópicas como tecnologias de poder e dispositivos de governamentalidade. Assim, o estudo não busca julgar a atuação da Fundação, mas identificar como suas práticas discursivas e institucionais moldam políticas educacionais e reproduzem determinadas racionalidades econômicas e políticas.
Desde sua criação, a Fundação Lemann consolidou uma rede de atuação nacional e internacional, composta por universidades (Stanford, Harvard, Columbia), governos estaduais e federais, organizações do terceiro setor e investidores privados. Essa rede, denominada pela Fundação como “Ecossistema de Impacto”(Lemann, 2025, n.p), é apresentada como uma comunidade colaborativa comprometida com a melhoria da educação pública. Contudo, essa estrutura revela um modelo de governança híbrida, em que o setor privado assume protagonismo na formulação e implementação de políticas públicas. Nesse sentido, vários Programas como Vamos- Transformar Lideranças; Programa Motriz; Fortalecer; Rede de Mulheres Negras Líderes no Setor Público; e Ensina Brasil demonstram-se como uma estratégia de formação de lideranças e gestores públicos orientada por princípios de meritocracia e gestão empresarial.
A influência da Fundação Lemann na formulação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) representa um marco de sua influência política. A partir de 2013, a instituição organizou e financiou seminários internacionais Yale (2013) e Stanford (2016), nos quais reuniram políticos, pesquisadores e gestores públicos brasileiros com o objetivo de discutir e desenhar um novo currículo para o Brasil, introduzindo o Common Core estadunidense no país e enfatizando padronização curricular, avaliação de desempenho e accountability. Documentos traduzidos por especialistas estrangeiros foram distribuídos aos convidados, incluindo representantes do Ministério da Educação e de secretarias estaduais.
Tarlau e Moeller (2020), apontam que o Movimento pela Base Nacional Comum, criado em 2013 com apoio financeiro da Fundação Lemann, foi essencial para articular atores públicos e privados em torno da BNCC. A coalizão resultante, que envolvia membros do MEC, Consed, Undime e movimentos como Todos pela Educação, promoveu uma reforma curricular de amplitude nacional, com forte influência de modelos de gestão educacional de matriz neoliberal.
Tal atuação evidencia o fenômeno da filantropia estratégica, em que o investimento privado busca transformar setores públicos por meio de inovação, eficiência e mensuração de resultados. Essa lógica corresponde à filantropia de risco, que adota práticas de gestão corporativa para moldar políticas educacionais (Tarlau e Moeller, 2020).
Estratégias como as desenvolvidas pela Lemann refletem a racionalidade neoliberal, que, segundo Foucault (2014) e Laval (2019), submete o sujeito à lógica empresarial e transforma o Estado em gestor de riscos e mediador de interesses de mercado. Assim, a educação deixa de ser um direito social e passa a ser um instrumento de formação de mão de obra e de reprodução de valores competitivos.
Embora atue sob o discurso da “educação de qualidade para todos”, fundações e instituições ligadas ao terceiro setor priorizam modelos gerenciais e tecnocráticos, centrados na medição de desempenho e na eficiência administrativa. O discurso filantrópico dissimula a reconfiguração das políticas educacionais sob parâmetros empresariais, reforçando hierarquias sociais e econômicas.
A robusta rede de parcerias da Fundação Lemann inclui instituições públicas e privadas, como ENAP, Fundação Estudar, Instituto Singularidades, Khan Academy, Columbia Global Centers. Essa articulação cria um ambiente de cooperação institucional e de dependência simbólica e financeira, em que as políticas públicas passam a ser influenciadas por diretrizes de investidores privados.
Além disso, a fundação desenvolveu estratégias de gestão da opinião pública, financiando reportagens e treinando jornalistas para tratar temas educacionais sob uma ótica positiva. Como relatado por Michetti (2020), a proximidade com grandes veículos de comunicação, como a Folha de S. Paulo, contribuiu para legitimar a BNCC como uma pauta consensual e “necessária”, mesmo diante de críticas de educadores e especialistas.
Embora a Fundação Lemann enfatize a participação democrática e o comprometimento social, a centralização de decisões e a dependência financeira das parcerias privadas evidenciam uma contradição estrutural. O que se apresenta como colaboração público-privada se traduz, na prática, em captura política e epistemológica do campo educacional na qual a influência da fundação sobre políticas públicas reforça a lógica neoliberal de governança, que desloca o papel do Estado e redefine o sentido do público. O consenso produzido em torno de reformas como a BNCC, portanto, não reflete necessariamente pluralidade ou diálogo social, mas sim a hegemonia de uma racionalidade técnica e gerencial.
A análise da trajetória e da atuação da Fundação Lemann evidencia como a filantropia privada, ao ocupar o campo educacional, reconfigura fronteiras entre público e privado, política e mercado. Sob o discurso da inovação e da eficiência, a fundação opera como agente de governamentalidade neoliberal, transformando a educação em instrumento de gestão e controle social.
Em última instância, a Fundação Lemann exemplifica a transição de uma filantropia assistencialista para uma filantropia de poder, em que o capital privado não apenas financia, mas orienta e define políticas públicas. A reflexão crítica sobre essa dinâmica é essencial para compreender os rumos da educação brasileira e os desafios de preservar o caráter público e emancipatório da escola frente à crescente mercantilização do ensino.
REFERÊNCIAS
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