Partimos do pressuposto de que os processos de formação continuada precisam estar articulados às reais necessidades dos professores, provocando a reflexão crítica sobre suas práticas por meio de propostas colaborativas. Entendemos com Canário (2006), que os professores, não só os estudantes, aprendem na escola, a partir das suas relações de pensamento, competências cognitivas e reflexão crítica na elaboração e condução de suas práticas pedagógicas. Ao passo que isso não significa que os professores aprendem só na escola.
O fazer pedagógico é compreendido como uma forma de desenvolvimento profissional docente, quando a comunicação escrita de suas práticas assume estratégia formativa. Por isso, objetivamos analisar uma experiência de formação continuada, por meio de um evento científico para professores da educação básica, intitulado 1º MOVEPROFI - Movimento de práticas pedagógicas entre professores de Ibirama/SC.
Nessa direção, a formação docente continuada, reforçada nas metas do Plano Nacional da Educação - PNE 2014-2024 (Brasil, 2015), visando como necessária e urgente, nos mobiliza a trazer reflexões sobre o desenvolvimento profissional docente. Assim, concordamos com Lüdke, Cruz e Boing (2009, p. 465) que: “Ainda é pouco desenvolvida entre nós a prática do envolvimento de professores da educação básica em projetos de pesquisa desenvolvidos em colaboração ou em cooperação com pesquisadores da universidade [...]”.
Isso também vem ao encontro do que Bihringer (2019 p. 22) identifica, que os professores da escola não escrevem por diferentes motivos como “limitações na formação docente; a falta de condições de trabalho (tempo, materiais...) para o professor escrever; a pouca valorização profissional para sua escrita, dentre outros.” Por isso, essa trabalho é parte de uma pesquisa mais ampla, cujo desenvolvimento de um movimento de compartilhamento de práticas pedagógicas entre professores atuantes no município de Ibirama/SC – 1º MOVEPROFI – surge como estratégia de formação continuada de professores por meio da escrita de relatos de experiências educativas entre e com seus pares.
O desenvolvimento profissional perpassa novos modelos de socialização profissional, em outras palavras, uma concepção de aprendizagem permanente dos professores em situações profissionais. Essa noção de experiências de formação profissional (Canário, 2006; Imbernón, 2011; André, 2016; Nóvoa, 2017) partem das organizações escolares enquanto mobilizadoras ao desenvolvimento profissional docente, a considerar que “as práticas profissionais e os modos de interação entre profissionais serem ‘emergentes’ dos contextos de ação coletiva” (Canário, 2006, p. 66).
Esse contextos, compreendidos na escola, favorecem a aprendizagem ao coletivo, baseando-se na troca de experiência, no diálogo, como estratégias para alcançar objetivos comuns na escola:
Outro conceito importante é a troca de experiências entre iguais, ou seja, que cada um possa aprender com o outro, valorizando a diversidade de opinião, de pontos de vista, de conhecimentos e de práticas. Que haja respeito ao saber do outro, acolhimento a contribuições divergentes, empenho na construção de consensos, disposição para compor projetos comuns. Esse esforço coletivo só se efetivará na existência de um projeto institucional que contemple as metas desejadas com o processo educativo, as estratégias para sua implementação, a definição de papéis e responsabilidade de cada um dos atores escolares e as formas de monitoramento das ações e dos resultados (André, 2016, p. 32).
Nessa perspectiva, a estratégia formativa é circulada pela escrita dos professores, que relacionada ao desenvolvimento profissional, supera aquela da funcionalidade burocrática da escola e se amplia para ser dispositivo de posicionamento público do dizer dos professores. Escrever, nessa concepção, é uma prática social que necessita ser aprendida na profissão docente. Sabemos que a escrita é um acontecimento que exige trabalho intenso e exercício de pensamento, mas que permite alcançar o outro com palavras, que mobiliza a reflexão e a produção de outros sentidos. Dentre as estratégias de formação a partir do evento científico MOVEPROFI, escrever está relacionado à comunicação da escola pelos seus professores, concebidos na “posição” de produtores de saberes acerca do contexto escolar.
Sobretudo, destacamos que a relação entre a universidade e a escola acontece quando compreendemos o sentido de pertencimento em pesquisar a escola, que o evento científico MOVEPROFI propõe. Desse modo, escreve-se sobre e a partir da escola, demonstra um avanço na interlocução entre a Educação Básica e o Ensino Superior, como uma sala de aula que relaciona a pesquisa e a produção científica com o diálogo e o compartilhamento dessas produções em contextos de ação coletiva.
Em Ibirama, a premiação Professor Destaque é regida pela Lei nº 3.793, de 8 de julho de 2025, que institui e regulamenta a concessão do prêmio. Essa lei revogou a anterior (Lei nº 3.394/2019) para reconhecer e premiar professores atuantes nas redes pública e privada de Ibirama cujas práticas merecessem destaque. O formato adotado inicialmente não previa um momento de compartilhamento e divulgação dos trabalhos inscritos entre os participantes e menos ainda para a comunidade.
Diante disso, houve uma reestruturação da proposta, a pedido dos próprios professores para desprender-se de uma cultura mercadológica de “Premiação” dos professores pelo poder legislativo, sem que houvesse a divulgação e/ou o compartilhamento das práticas e trabalhos desenvolvidos pelos docentes. Nesse sentido, a Secretaria de Educação propôs relacionar o calendário de formação continuada de professores, um evento científico para a Educação Básica, como estratégia formativa e, assim surgiu o 1º MOVEPROFI. O evento identifica os professores destaques em diferentes categorias, buscando um patamar mais acadêmico para esse momento de troca entre os docentes participantes.
Por essa contextualização, caracterizamos esta pesquisa como pesquisa-ação, pois por meio da observação de um problema, desenvolveu-se uma intervenção que contribuiu para a transformação de processos, além de promover a interação entre os pesquisadores, os docentes, participantes e o meio social circundante (Thiollent; Colette, 2014). Nessa direção, a pesquisa-ação é uma metodologia participativa voltada para compreender uma realidade ao passo que a investiga. Entre as principais etapas, identificamos o problema, pela necessidade de motivar os professores a estudar e pesquisar suas práticas pedagógicas.
Em segundo movimento, houve planejamento da ação, cujo plano de intervenção teve objetivo de mobilizar a autoria, por meio da escrita, sobre as práticas pedagógicas para a inserção em um evento científico. A implementação da ação incluiu oficinas de escrita de resumo científico e por fim, o movimento de compartilhamento de práticas pedagógicas, organizado com site para submissão e avaliação dos resumos. O envolvimento dos participantes perpassou professores, estudantes e comunidade acadêmica na UDESC, campus Ibirama, que mediou o contexto do evento científico.
Os dados foram gerados por meio dos resumos submetidos ao evento. A escrita e publicação dessas práticas como estratégia formativa, nos permitiu reconhecer os professores da Educação Básica como produtores de conhecimento e, que na relação com a universidade puderam refletir e comunicar suas experiências na escola.
Os dados gerados foram analisados e sistematizados em duas categorias a priori, com base na pesquisa de Bihringer (2019), cuja pesquisa interpretou sentidos atribuídos por professoras da Educação Básica às suas experiências de desenvolvimento profissional docente e suas relações com a escrita. As categorias são: Acontecimentos de escrita para desenvolvimento de reflexão da prática e Acontecimentos de escrita para desenvolvimento de relações com os outros.
Na primeira categoria, inferimos que a proposta do MOVEPROFI fomentou nos professores a leitura e, por conseguinte, produção escrita por meio da reflexão da prática. Observamos nos textos que quando os professores circulam pela escrita sobre suas práticas pedagógicas, passam a analisar suas experiências a partir dela, o que se refere ao refinamento da prática docente. Esse refinamento pode ser entendido como um impulso à construção de conhecimentos que extrapolam a cotidianidade da sala de aula, o que denominamos de reflexão da prática:
[...] destaca-se que não há uma separação entre conhecimento prático e o formal ou teórico. Deste modo, supõe-se que o conhecimento que os professores precisam para ensinar bem é produzido quando os mesmos tomam sua própria prática como contexto de investigação ou análise e como instrumento de interpretação e análise, conhecimentos produzidos por outros especialistas (Crecci, Fiorentini, 2018, p. 6).
Assim, os Acontecimentos de escrita para desenvolvimento de reflexão da prática aproximou os participantes de produções científicas da área, conferindo aos professores uma reflexão crítica. Esses acontecimentos de escrita integram diferentes aspectos da profissionalidade e oportunizam aos professores adotarem estratégias que convergem à construção de conhecimentos em um espiral: a prática, a escrita amparada na teoria e a reflexão da prática, como podemos inferir nesse excerto: “As dificuldades observadas evidenciam a importância de atividades similares para consolidar conceitos financeiros e estimular o pensamento estratégico” (Professora autora VK). Portanto, a circulação de conhecimentos dos professores em eventos científicos permite o desenvolvimento de habilidades outras, bem como conceitos que organizam o pensamento, favorecendo interpretações de situações de sua profissionalidade.
Na segunda categoria, Acontecimentos de escrita para desenvolvimento de relações com os outros, interpretamos que motivação à troca de conhecimentos, uma interlocução com outros coletivos, acenam que os professores estabelecem relações que perpassam a comunicação de suas práticas pedagógicas, e consequentemente de suas escolas. Por isso, destacamos o excerto que demonstra que a circulação dos saberes elaborados como estratégia formativa para a relação com outros contextos, sujeitos, instituições e comunidades: “O trabalho fortaleceu a integração entre escola e família, incentivando a participação coletiva na consolidação de um ambiente educativo mais colaborativo” (Professores autores GA). Assim, interpretamos que a proposta de a escola comunicar para além de seus contextos imediatos seus fazeres, envolvendo os professores em tarefas de socialização profissional, corrobora Nóvoa (2017, p. 1129): “Uma das tendências mais fortes é a abertura da escola ao espaço público da educação. A configuração deste espaço implica uma participação mais ampla da sociedade nas questões educativas”.
Analisando uma experiência de formação continuada, por meio de um evento científico para professores da Educação Básica, intitulado 1º MOVEPROFI - Movimento de práticas pedagógicas entre professores de Ibirama/SC, compreendemos como essa iniciativa assume estratégia formativa para a troca e a reflexão crítica das práticas pedagógicas na relação com a universidade. Portanto, o 1º MOVEPROFI fortaleceu a formação continuada dos professores, os inserindo em eventos científicos, ao mobilizar a escrita sobre as práticas pedagógicas e assim, com os anais do evento, permitiu a divulgação de pesquisas pela circulação de conhecimentos entre os professores da escola, interagindo em uma construção da sua própria posição de autores.
Por essa perspectiva, a inserção dos professores da Educação Básica em um evento científico valoriza o contexto escolar articulado ao contexto de pesquisa, fomentando um engajamento dos professores à pesquisa em Educação, assumindo seus contextos de prática como objeto de estudo e de investigação. Nesta direção, escrever e, também publicar acerca das práticas pedagógicas assume dimensões formativas, provocando a reflexão crítica sobre as situações da docência e a relação colaborativa entre os coletivos da escola e a universidade.
Assim, a produção de conhecimentos sobre ensinar não recai exclusivamente às universidades, mas passamos a reconhecer que os professores da escola também têm proposições que podem contribuir para discussão do trabalho cotidiano e “reivindicar” que se criem as condições de trabalho para que a formação continuada aconteça.
REFERÊNCIAS
ANDRÉ, M. E. D. A. Práticas Inovadoras na Formação de Professores. São Paulo: Papirus, 2016.
BIHRINGER, K. R. B. Experiências do desenvolvimento profissional de professores que escrevem sobre suas práticas pedagógicas e as reverberações na comunicação de uma escola pública. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Regional de Blumenau, FURB, 2019.
CANÁRIO, R. A escola tem futuro?: das promessas às incertezas. Porto Alegre: Artmed, 2006.
CRECCI, V. FIORENTINI, D. Desenvolvimento Profissional em Comunidades de Aprendizagem Docente. Educ. Rev. [online]. 2018, vol.34, e172761. Jan 18, 2018. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S0102-46982018000100111&lng=en&nrm=iso&tlng=pt > Acesso em : 12 set 2018.
IMBERNÓN, F. Formação docente e profissional: formar-se para a mudança e a incerteza. São Paulo: Cortez, 2011.
LÜDKE, M.; CRUZ, G. B.; BOING, L. A. A Pesquisa do professor da educação básica em questão. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 42, v. 14, p. 456-468, 2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbedu/v14n42/v14n42a05.pdf> Acesso em: 15 abr. 2018.
NÓVOA, A. Firmar a posição como professor, afirmar a profissão docente. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 47, n. 166, p. 1106-1133, 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/cp/a/WYkPDBFzMzrvnbsbYjmvCbd/abstract/?lang=pt. Acesso em: 25 out. 2025.
THIOLLENT, M. J. M; COLETTE, M. M. Pesquisa-ação, formação de professores e diversidade. Acta Scientiarum. Human And Social Sciences, [S.L.], v. 36, n. 2, p. 207, 5 dez. 2014. Universidade Estadual de Maringa. Disponível em: http://dx.doi.org/10.4025/actascihumansoc.v36i2.23626. Acesso em: 25 out. 2025.