1 INTRODUÇÃO As Funções Executivas (FEs), conforme Diamond (2013), se referem às habilidades cognitivas e orgânicas, pelas quais o indivíduo controla comportamentos, emoções e processos cognitivos, voltados a atingir um objetivo e se adaptar-se às exigências ambientais e sociais. Com o desenvolvimento das FEs possibilita-se manter-se o foco nas tarefas, gerir ideias, enfrentar novos desafios e planejar ações, antes de agir “impulsivamente”. Assim, infere-se sobre a importância de valorizar práticas educativas, em diferentes contextos educativos, que valorizem o desenvolvimento das FEs. Com base nisso, objetivou-se nessa pesquisa bibliográfica, do tipo estado da questão, inventariar e caracterizar investigações do campo da neurociência e funções executivas em suas relações com práticas educativas em contextos não formais para o ensino de ciências. 2 REFERENCIAL TEÓRICO O interesse de investigação sobre as FEs é na relação com os contextos de educação não formal. Conforme Degrande e Torre (2022) a educação pode ser entendida em três esferas, formal, não formal e informal: A educação formal é aquela que ocorre em espaços institucionalizados, estruturados especificamente para o ensino e a aprendizagem. Ela se organiza em sistemas e níveis de ensino, possui caráter classificatório e culmina na atribuição de certificações ao final de cada etapa. Além disso, caracteriza-se por avaliações padronizadas, planejamento sistemático e, na maioria das vezes, por sua obrigatoriedade ou relação com a obtenção de títulos acadêmicos (Degrande; Torre, 2022). Já a educação não formal se desenvolve em espaços planejados, mas com maior flexibilidade em relação à obrigatoriedade de participação. Envolve grupos que buscam atender às necessidades individuais dos participantes, utilizando dinâmicas e técnicas socioculturais diversas. Embora não atribua notas ou graus de aprendizagem, esse tipo de educação permite a coleta de dados relevantes sobre o desenvolvimento humano, valorizando processos formativos mais amplos e participativos (Degrande; Torre, 2022). Por fim, a educação informal é aquela que se constitui de maneira espontânea, a partir das interações cotidianas nos contextos familiar, social e cultural. Desde o nascimento, o indivíduo está imerso em um ambiente no qual aprende valores, desenvolve preferências, constrói identidades e adquire conhecimentos que orientam suas ações. Essa forma de educação, ainda que não planejada, é profundamente significativa, pois resulta da vivência e da experiência com o mundo ao redor — com a família, amigos, leituras, músicas e outras expressões culturais (Degrande; Torre, 2022). Nesta pesquisa, busca-se conhecer o que já se pesquisa de FEs nos contextos de educação não formal, como: museus, zoológicos, parques ambientais, institutos de pesquisas, planetários, jardins botânicos, clubes, cinemas, teatros, praças, feiras, associações, rua, casa etc. Pressupõe-se que nesses contextos, quando há intencionalidades no planejamento de práticas educativas que consideram as FEs, esses se tornarão ainda mais ricos os ambientes educativos. Observar e estimular as Funções Executivas (FEs) em contextos de educação não formal é fundamental, pois esses espaços, como projetos socioculturais, favorecem situações de aprendizagem que envolvem tomada de decisão, resolução de problemas e autorregulação, condições essenciais ao desenvolvimento das FEs. Valorizar as FEs em práticas educativas não formais, portanto, significa reconhecer a importância da aprendizagem integral, que envolve aspectos cognitivos, emocionais e sociais. Além disso, contribui para a formação de sujeitos mais autônomos, capazes de gerir suas ações, lidar com frustrações e construir estratégias diante de diferentes desafios. Assim, a observação e o estímulo das Funções Executivas tornam-se elementos centrais para potencializar o desenvolvimento humano e a aprendizagem significativa em qualquer contexto educativo. Nessa perspectiva, o que já se investiga sobre? 3 METODOLOGIA Na busca para entender o que é investigado dentro da grande área de conhecimento da neurociência e funções executivas em contextos de educação não formais para o ensino de ciências, realizou-se um levantamento de pesquisas divulgadas na produção acadêmica. Interessante mencionar que o levantamento bibliográfico do estado da questão, segundo os autores Nóbrega-Therrien e Therrerien (2004, p. 7) consiste em : [...]e levar o pesquisador a registrar, a partir de um rigoroso levantamento bibliográfico, como se encontra o tema ou o objeto de sua investigação no estado atual da ciência ao seu alcance. Trata-se do momento por excelência que resulta na definição do objeto específico da investigação, dos objetivos da pesquisa, em suma, da delimitação do problema específico de pesquisa. O levantamento de pesquisas divulgadas na produção acadêmica limitou-se entre os anos de 2015 e 2025 por meio das seguintes bases de dados: Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD); Google Acadêmico; Catálogo de Teses e Dissertações CAPES e Portal Brasileiro de Publicações e Dados Científicos em Acesso Aberto (Oasisbr) e assim direcionou-se o estudo. Inicialmente, utilizou-se as palavras-chave “Neurociência” e “Espaços não formais”, obtendo (352) resultados. Na sequência, acrescentou-se as buscas as palavras-chave: “Funções Executivas” e “Espaços não formais”, com as quais foram encontrados (104) resultados. Ao todo, foram identificados (456) trabalhos correlatos. No quadro 1 reunimos a quantidade de trabalhos encontrados em cada base de dados: QUADRO 1: QUANTIDADE DE TRABALHOS ENCONTRADOS NAS QUATRO BASES DE DADOS COM OS DESCRITORES “NEUROCIÊNCIA”, “FUNÇÕES EXECUTIVAS” E “ESPAÇOS NÃO FORMAIS”.
BASE QUANTIDADE Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) 10 Google Acadêmico 315 Catálogo de Teses e Dissertações CAPES 119 Portal Brasileiro de Publicações e Dados Científicos em Acesso Aberto (Oasisbr) 12 Fonte: Autor - Dados da pesquisa (2025).
Dentre os estudos encontrados, havia títulos repetidos, com temáticas que não se alinhavam aos objetivos da pesquisa, então, selecionou-se de maneira mais fidedigna as produções acadêmicas com base nos resumos, palavras-chave e títulos apresentados, adotando os seguintes critérios de inclusão: 1) foco em Neurociência ou Funções Executivas, 2) abordagens em espaços não formais, 3) inserção em um contexto educacional e 4) estar dentro do tempo estabelecido. Critérios de exclusão: 1) foco em neurodivergências, como TEA, TDAH, Hiperatividade, Déficit de atenção, entre outras; 2) ausência de contexto educacional, 3) estudos voltados exclusivamente para aplicações na área da Saúde e 4) estar fora do tempo estabelecido. Após a aplicação desses critérios, restaram apenas (34) estudos considerados relevantes para análise. No quadro 2 apresentam-se os trabalhos classificando-os quanto ao tipo textual em Monografias, Trabalhos de Conclusão de Curso, Dissertações de Mestrado, Teses de Doutorado e Artigos Acadêmicos e por datas de publicação.
QUADRO 2: CLASSIFICAÇÃO QUANTO AO TIPO TEXTUAL E DATAS DE PUBLICAÇÃO. TIPO TEXTUAL QUANTIDADE DATAS DE PUBLICAÇÃO Monografias 1 2020 Trabalhos de Conclusão de Curso 2 2016, 2020 Dissertações de Mestrado 9 2015, 2016 (2), 2018, 2019 (2), 2021, 2022 (2) Teses de Doutorado 3 2015, 2019 (2) Artigos Científicos 19 2015, 2016, 2017, 2018 (2), 2019 (2), 2020 (3), 2021 (2), 2022 (2), 2023 (3), 2024 (2). Fonte: Autor - Dados da pesquisa (2025).
A partir da análise dos tipos textuais encontrados, observou-se que existe uma significativa produção acadêmica no Brasil voltada para a área neurocientífica e educação em um período de 10 anos. Esse aumento se deve, sobretudo, à necessidade de compreender melhor o desenvolvimento cognitivo, explorar as potencialidades do cérebro humano, qualificar os métodos de ensino e aprendizagem em todos os níveis educacionais e considerar as contribuições de diferentes espaços formativos. 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO Após a organização dos dados nas tabelas, buscou-se identificar padrões e tendências nos trabalhos analisados. Focou-se nesta investigação, nos Objetivos das Pesquisas, na figura 1 é destacado propositalmente cores diferentes, para os aspectos que chamam atenção e que são essenciais para elaborar as categorias de análises. Conforme o quadro 3, os objetivos foram agrupados por categorias mais relevantes identificadas:
FIGURA 1 - TABELA DAS PESQUISAS SELECIONADAS, ORGANIZADA POR TÍTULO, PLAVRAS-CHAVES, OBJETIVOS, PÚBLICO-ALVO E SE DISPONIBILIZAVA PRODUTO EDUCACIONAL.
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QUADRO 3: DADOS GERADOS COM O ESTADO DA QUESTÃO - CATEGORIZAÇÃO DOS 34 OBJETIVOS. CATEGORIAS NÚMEROS TOTAL NEUROCIÊNCIAS E EDUCAÇÃO (GERAL) 1, 5, 10, 13, 16, 17, 24, 27 e 30 9 PRÁTICAS PEDAGÓGICAS 3, 4, 6, 11, 21 e 25 6 FORMAÇÃO DOCENTE (INICIAL/CONTINUADA) 3, 15, 20, 22, 28 e 34 6 TECNOLOGIA E JOGOS EDUCATIVOS 7, 31 e 32 3 LITERATURA CIENTÍFICA E REVISÕES 2, 19 e 25 3 ESPAÇOS NÃO FORMAIS 8, 12, 18, 22, 23, 28 e 33 7 DIVULGAÇÃO DO CONHECIMENTO EM NEUROCIÊNCIA / DESMISTIFICAÇÃO 9, 14, 26 e 29 4 ENSINO DE CIÊNCIAS 10, 11, 23 e 28 4 Fonte: Autor - Dados da pesquisa (2025). As cores nas linhas de categoria facilitam a localização das respectivas referências disponíveis. Uma mesma referência pode aparecer em mais de uma categoria.
Observando o quadro 3 destaca-se que muitos trabalhos utilizaram os conhecimentos da neurociência para suas fundamentações teóricas e assim compreender como as práticas educacionais podem ser influenciadas e melhor adaptadas, mas que existe uma lacuna em como introduzir tais fundamentos no sistema educacional, desde a formação inicial do docente até a inserção nas instituições escolares. Segundo os autores Zardo (2022) e Albuquerque et al. (2023), mensuram que ao iniciarem suas carreiras como docentes, a falta de contato com disciplinas com abordagem inerentes a Neurociência no contexto educacional, dificultou a compreensão desses profissionais acerca dos processos de aprendizagem dos alunos. Poucos professores arriscam-se em abordar as neurociências na educação. Em alguma medida, falar sobre neurociências no campo da educação, de maneira transdisciplinar, parece configurar-se como um desafio que, mesmo diante de seu potencial, traz pouca credibilidade. Dos trabalhos que tratavam de espaços não formais, em sua maioria, não necessariamente embasaram-se em neurociência, mas buscavam compreender de que maneira tais espaços poderiam contribuir no processo de ensino e aprendizagem e nas interações cognitivas. De acordo com Araújo e Costa (2022), em muitos desses espaços são desenvolvidas práticas socioculturais capazes de mobilizar diversos processos cognitivos, na busca de soluções para situaçõesproblemas vivenciadas pelos sujeitos que transitam ou habitam ambientes. Relacionando o ensino de ciências nesta discussão, podemos concluir que a neurociência nesse aspecto é bastante abordada, assim como em matemática, mas ainda é preciso continuar aprofundando estudos significativos para esses e os demais componentes curriculares, visto que há uma escassez de pesquisas na área da educação a respeito das neurociências educacionais e assim garantir que todos possam usufruir das possibilidades positivas que seu entendimento traz para agregar as práticas pedagógicas. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir da análise dos dados levantados, constatou-se a ausência de estudos que abordem de forma explícita o desenvolvimento das funções executivas em espaços não formais no contexto do ensino de Ciências para o Ensino Fundamental. Embora temas como neurociência, práticas pedagógicas e ensino de Ciências sejam recorrentes, poucos trabalhos exploram a articulação entre esses elementos em ambientes educativos não convencionais. Essa lacuna evidencia o caráter inovador da presente pesquisa.
REFERÊNCIAS
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ARAÚJO, Mara Dalila Ferreira de; COSTA, Lucélida de Fátima Maia. Espaços não formais e a mobilização de processos cognitivos: implicações ao ensino de ciências no estado do Amazonas. REAMEC - Rede Amazônica de Educação em Ciências e Matemática, Cuiabá, v. 10, n. 3, p. e22052, 2022. DOI: 10.26571/reamec.v10i3.14029. Disponível em: https://periodicoscientificos.ufmt.br/ojs/index.php/reamec/article/view/14029. Acesso em: 16 out. 2025.
DEGRANDE, D. H. S.; TORRES, J. C. T. Atuação profissional dos professores do campo: educação formal, informal e não formal. Educação em Foco, [S.l.], v. 27, n. 1, p. 27070, 2023. DOI: 10.34019/2447-5246.2022.v27.38764. Disponível em: https://periodicos.ufjf.br/index.php/edufoco/article/view/38764. Acesso em: 16 out. 2025.
DIAMOND, Adele. Executive functions. Annual Review of Psychology, [S.l.], v. 64, n. 1, p. 135-168, 3 jan. 2013. DOI: 10.1146/annurev-psych-113011-143750. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1146/annurev-psych-113011-143750. Acesso em: 22 abr. 2025.
NÓBREGA-THERRIEN, Sílvia Maria; THERRIEN, Jacques. Trabalhos científicos e o estado da questão. Estudos em Avaliação Educacional, [S.l.], v. 15, n. 30, p. 5, 30 dez. 2004. DOI: 10.18222/eae153020042148. Disponível em: http://dx.doi.org/10.18222/eae153020042148. Acesso em: 16 out. 2025.
ZARDO, Andressa Loise. Convergências entre educação e neurociências: funções executivas na educação infantil. 2022. 101 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Centro de Educação, Comunicação e Artes (CECA), Universidade Estadual do Oeste do Paraná – Unioeste, Cascavel, 2022. Disponível em: https://tede.unioeste.br/handle/tede/6252. Acesso em: 16 out. 2025.
AGRADECIMENTOS Agradecimento à Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (FAPESC) edital CP61/2024 pelo apoio financeiro e ao Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências Naturais e Matemática (PPGECIM/FURB).