Para além do paradigma biomédico: práticas integrais de saúde e o papel da educação física

  • Autor
  • Wagner Eduardo Estácio de Paula
  • Co-autores
  • Matheus Ricardo Comper , Camile Ribeiro Lemos
  • Resumo
  •  

    1 INTRODUÇÃO

    A compreensão de saúde restrita à ausência de doença consolidou, ao longo do século XX, uma gramática institucional e clínica que privilegia a intervenção pontual e a hierarquia de especialidades. Herdeiro de uma racionalidade mecanicista, esse paradigma fragmenta o corpo em partes e traduz a vida em indicadores (CAPRA, 1996). Embora os avanços técnico-científicos sejam evidentes, sua suficiência tem sido tensionada por agravos complexos e socialmente determinados (MARMOT, 2005).

    A pandemia recente tornou explícitas desigualdades sociais que atravessam o processo saúde-doença, evidenciando que risco e proteção se distribuem conforme trabalho, renda e território. Nos serviços, prevalecem circuitos produtivistas e prescritivos, que tendem a negligenciar experiências, vínculos e contextos (CECÍLIO, 2001). Nesse cenário, torna-se decisivo avançar do enfoque curativista e reducionista para uma concepção integral de cuidado, que reconheça usuários e equipes como coprodutores da saúde.

    Este trabalho propõe reconstruir criticamente elementos do paradigma biomédico hegemônico e apresentar fundamentos para práticas integrais inspiradas no modelo biopsicossocial (ENGEL, 1977) e na Promoção da Saúde (OMS, 1986). Defende-se que essa transformação requer intersetorialidade, participação social e reorganização dos processos de trabalho, situando a Educação Física como campo estratégico para articular corpo, cultura e movimento em contextos escolares, comunitários e de atenção básica.

     

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

    A crítica ao reducionismo biomédico parte do modelo biopsicossocial, que propõe uma visão ampliada da saúde ao integrar dimensões biológicas, psicológicas e sociais (ENGEL, 1977). Essa perspectiva rompe com a causalidade linear e introduz um pensamento complexo sobre os fenômenos humanos, em sintonia com abordagens sistêmicas que reconhecem interdependências entre corpo, mente e sociedade (CAPRA, 1996; MORIN, 2000).

    A partir da década de 1980, a Promoção da Saúde consolidou-se como alternativa paradigmática, orientando políticas públicas e práticas voltadas à criação de ambientes saudáveis e ao fortalecimento comunitário (OMS, 1986). Tal marco amplia a noção de cuidado e redefine responsabilidades, articulando ações intersetoriais e protagonismo social.

    Os determinantes sociais da saúde, por sua vez, explicitam que desigualdades econômicas e culturais moldam vulnerabilidades e oportunidades de viver com qualidade (MARMOT, 2005). Assim, políticas de saúde efetivas devem atuar não apenas sobre doenças, mas sobre condições estruturais que as produzem (SOLAR; IRWIN, 2010).

    Nesse horizonte, a integralidade emerge como princípio organizador dos serviços, orientando práticas que reconhecem singularidades, constroem vínculos e compartilham decisões (CECÍLIO, 2001). A Educação Física insere-se como campo capaz de mediar corpo e território, potencializando autonomia, afetividade e pertencimento por meio das práticas corporais, especialmente em contextos vulneráveis (FIGUEIREDO et al., 2014; COSTA, 2022).

     

    3 METODOLOGIA

    A pesquisa, de natureza bibliográfica e enfoque crítico-interpretativo, reuniu obras clássicas e recentes sobre o paradigma biomédico, determinantes sociais e integralidade do cuidado. O corpus incluiu autores que fundamentam o modelo biopsicossocial, a Promoção da Saúde e a reorganização dos processos de trabalho. As leituras foram agrupadas em três eixos: limites do reducionismo; reconfiguração dos sistemas de saúde; e papel da Educação Física na produção de vínculos e autonomia.

    As discussões foram desenvolvidas no âmbito do Grupo de Pesquisa Cultura Corporal do Movimento Humano (Unifebe), em encontros que permitiram confrontar interpretações e alinhar a coerência teórica entre categorias e exemplos aplicados.

     

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

    A análise evidencia que a hegemonia do paradigma biomédico privilegia a doença como unidade de gestão, medindo êxitos por volume de procedimentos e metas de produtividade. Tal racionalidade produz cegueira para dimensões relacionais e culturais do cuidado e, por vezes, converte a clínica em ato de prescrição que solicita obediência, não parceria. Em contextos de vulnerabilidade social, a insistência exclusiva em comportamentos individuais resulta em culpabilização e baixa efetividade, pois desconsidera barreiras materiais e simbólicas que limitam escolhas.

    Em contraponto, o modelo biopsicossocial recoloca a pessoa e o território no centro do cuidado, expandindo a escuta para abarcar narrativas, redes de apoio e condições de vida. A Promoção da Saúde, desde a Carta de Ottawa, propõe políticas públicas saudáveis, ambientes favoráveis, ação comunitária e desenvolvimento de habilidades, deslocando a ênfase do tratamento pontual para processos contínuos de produção de saúde. Essa virada requer equipes aptas a construir planos terapêuticos singulares, pactuados com usuários e familiares, e a articular redes intersetoriais que enfrentem determinantes sociais, do saneamento ao trabalho digno.

    A Educação Física emerge como campo privilegiado para materializar essa mudança por articular corpo, cultura e movimento em experiências coletivas. Em escolas, grupos comunitários e unidades básicas, práticas corporais ampliam repertórios expressivos, fortalecem vínculos e configuram sentidos positivos de corporeidade, frequentemente negligenciados quando a clínica se reduz a biomarcadores. Ao reconhecer a corporeidade como dimensão simbólica, afetiva e política, a área contribui para cuidados que transbordam a prevenção de riscos e se afirmam como experiências de autonomia e cidadania.

    Do ponto de vista organizativo, a integralidade implica rever métricas e governança do trabalho em saúde. Indicadores exclusivamente centrados em produção de procedimentos não capturam evolução de vínculos, confiança e autonomia — elementos decisivos para resultados sustentáveis. A incorporação de dispositivos como acolhimento qualificado, consulta compartilhada, grupos de práticas corporais, visitas domiciliares e educação em saúde situada no território reconfigura o cuidado e melhora sua efetividade. Ao mesmo tempo, exige formação permanente e espaços de reflexão sobre o trabalho, sob risco de que a retórica da integralidade se esgote em documentos sem alterar a micro-política das relações.

    A discussão também evidencia que práticas centradas apenas na doença tendem a obscurecer determinantes sociais, reproduzindo iniquidades. Em bairros com infraestrutura precária e violência, por exemplo, recomendações de atividade física desvinculadas da realidade podem ser inviáveis. A resposta integral envolve criar ambientes e tempos protegidos, em parceria com escolas, associações e lideranças locais, onde o movimento ganhe segurança e sentido. Tais arranjos organizacionais, ainda que demandem recursos e coordenação intersetorial, retornam em adesão, qualidade de vida e redução de agravos preveníveis.

    A integralidade, portanto, se mostra não apenas desejável, mas necessária para que sistemas respondam a problemas complexos. A combinação de clínica ampliada, promoção da saúde e práticas corporais territorializadas redesenha o encontro entre trabalhadores e usuários, produzindo cuidado como bem relacional e público. Isso supõe deslocar o foco da mera conformidade a protocolos para a construção compartilhada de caminhos terapêuticos, com avaliação que valorize processos e resultados vividos, para além de métricas exclusivamente biomédicas.

     

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Conclui-se que a crítica ao paradigma biomédico não implica negar seus aportes, mas reconhecer seus limites quando confrontado com agravos complexos e socialmente determinados. A integralidade emerge como eixo estruturante para reorientar políticas, serviços e práticas, permitindo que a saúde seja concebida como tecido vivo, tecido por relações, territórios e histórias. Nesse horizonte, a participação social, a intersetorialidade e a clínica ampliada constituem estratégias complementares para produzir respostas mais justas e efetivas.

    A Educação Física ocupa lugar decisivo nessa reconfiguração ao articular movimento, cultura e afeto, favorecendo vínculos e autonomia. Ao transformar o corpo de objeto de intervenção em sujeito de experiências significativas, práticas corporais ampliam a potência de viver e abrem caminho para projetos terapêuticos mais coerentes com a vida real das pessoas. Tal aporte se torna particularmente relevante em contextos de vulnerabilidade, nos quais a criação de espaços seguros e coletivos de cuidado pode mitigar barreiras materiais e simbólicas.

    Outro aspecto decisivo é o potencial educativo das práticas corporais como dispositivos de produção de sentido. Ao promover experiências coletivas, cooperativas e criativas, a Educação Física amplia a compreensão de saúde como potência de viver, não apenas como ausência de doença. O movimento, entendido como expressão e linguagem, converte-se em estratégia de cuidado e fortalecimento de vínculos sociais, sobretudo em territórios marcados por vulnerabilidade. Assim, a área se consolida como componente essencial da saúde coletiva e das políticas públicas orientadas à promoção da vida em sua totalidade.

    Para que tais transformações sejam sustentáveis, é necessário revisar governança e métricas do trabalho em saúde, incorporando indicadores sensíveis a processos relacionais e à redução de iniquidades. Recomenda-se institucionalizar formação permanente, fortalecer dispositivos coletivos de cuidado e pactuar responsabilidades intersetoriais que incidam sobre determinantes sociais. A justiça social, mais do que um valor abstrato, deve operar como critério de avaliação da política e do trabalho em saúde, orientando escolhas de investimento e priorização de agendas.

     

    REFERÊNCIAS

    CAPRA, Fritjof. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 1996.

    CECÍLIO, Luiz Carlos de Oliveira. As necessidades de saúde como conceito estruturante na luta pela integralidade e equidade na atenção em saúde. In: PINHEIRO, Ricardo; MATTOS, Ruben Araujo (org.). Os sentidos da integralidade na atenção e no cuidado à saúde. Rio de Janeiro: IMS/UERJ, 2001. p. 113-126.

    COSTA, Luisa Gabriel. Crítica à concepção de saúde hegemônica. Revista Longeviver, São Paulo, v. 1, p. 1-10, 2022. Disponível em: https://revistalongeviver.com.br. Acesso em: 15 out. 2025.

    ENGEL, George L. The need for a new medical model: a challenge for biomedicine. Science, Washington, v. 196, n. 4286, p. 129-136, 1977. DOI: https://doi.org/10.1126/science.847460.

    FIGUEIREDO, Maria Cristina Barboza et al. O modo hegemônico de produção do cuidado. In: FIGUEIREDO, Maria Cristina Barboza et al. Formação de facilitadores de educação permanente em saúde. Rio de Janeiro: EAD/ENSP, 2014. Disponível em: https://www.epsjv.fiocruz.br. Acesso em: 15 out. 2025.

    MARMOT, Michael. Social determinants of health inequalities. The Lancet, London, v. 365, n. 9464, p. 1099-1104, 2005. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(05)74234-3.

    MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. 8. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

    OMS. Carta de Ottawa para a Promoção da Saúde. Genebra: OMS, 1986. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/ottawa-charter-for-health-promotion. Acesso em: 15 out. 2025.

    SOLAR, Orielle; IRWIN, Alec. A conceptual framework for action on the social determinants of health. Geneva: World Health Organization, 2010. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789241500852. Acesso em: 15 out. 2025.

     

  • Palavras-chave
  • Saúde; Reducionismo; Determinantes Sociais; Integralidade; Promoção da Saúde.
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
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