Esta revisão integrativa, vinculada ao Grupo de Pesquisa sobre Trabalho e Formação Docente – GETRAFOR” do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade da Região de Joinville (UNIVILLE), objetiva analisar proposições para a formação continuada de professores em educação plurilíngue.
A contemporaneidade, marcada pela intensa circulação global de pessoas, ideias e culturas, torna a diversidade linguística uma realidade cada vez mais evidente na educação. Nela, coexistem línguas indígenas, afro-brasileiras, de imigração e de sinais, entre outras, frequentemente subalternizadas por um sistema norte/eurocêntrico[1], hegemônico, monocultural e monolíngue (Galante et al., 2024).
Nesse contexto, a Educação Plurilíngue emerge como uma contraproposta ao modelo tradicional, reconhecendo a complexidade dos repertórios linguísticos dos estudantes e a importância de um ensino que promova o acolhimento e o diálogo entre diferentes saberes e culturas (García, 2009). No entanto, para que o plurilinguismo não se limite a uma abordagem tecnicista, é crucial articulá-lo nas perspectivas "outras" ou críticas, capazes de superar esse paradigma colonial hegemônico norte/eurocêntrico.
A formação continuada de professores representa um espaço estratégico para a implementação dessas perspectivas. É fundamental refletir sobre a formação docente para que os professores possam atuar como mediadores plurilíngues e agentes do plurilinguismo. Diante disso, essa revisão se propõe a responder à seguinte questão: quais proposições à formação continuada de professores sobre educação plurilíngue?
Embora, a pesquisa propõe apresentar sua metodologia delineada ao objetivo de estudo, através de uma revisão integrativa da literatura com foco no plurilinguismo.
O cenário da diversidade linguística e cultural no Brasil é, em parte, um reflexo da modernidade e do Estado-Nação, cujo sistema colonial buscou homogeneizar identidades e apagar diferenças (Quijano, 2005). A hegemonia norte/eurocêntrica, monocultural e monolíngue subalterniza línguas indígenas, afro-brasileiras e de imigração. O desafio é garantir que o plurilinguismo vá além de uma abordagem tecnicista, articulando-se em perspectivas "outras" ou críticas, capazes de superar esse paradigma colonial.
A Educação Plurilíngue, como contraproposta, enfatiza o acolhimento e o diálogo entre saberes e culturas, reconhecendo a complexidade do repertório linguístico dos estudantes (García, 2009). Para isso, é crucial a formação docente, capacitando os professores para atuarem como mediadores plurilíngues e agentes do plurilinguismo na prática.
Esta pesquisa utiliza a revisão integrativa da literatura como metodologia. Baseando-se em Vosgerau e Romanowski (2014), o objetivo foi buscar, sintetizar e analisar criticamente a produção científica da Educação publicada no Brasil sobre educação plurilíngue entre 2020 e 2024. Este processo visa: i) identificar trabalhos sobre formação continuada de professores em educação plurilíngue nos últimos cinco anos; ii) analisar temas, convertendo-os em problematizações; e iii) enunciar proposições que visam despertar interesses para futuras pesquisas.
As etapas foram adaptadas das orientações de Botelho, Cunha e Macedo (2011, p. 127), conforme o Quadro 1:
Quadro 1. Relação entre etapas e delimitações da pesquisa.
ETAPAS | DELMITAÇÕES DA PESQUISA |
Estabelecimento de critérios de inclusão e exclusão | Teses e dissertações publicados nos últimos 10 anos (2015-2025); Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) e de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES); Trabalhos que abordassem explicitamente a articulação entre formação continuada de professores, educação plurilíngue e plurilinguismo. |
Identificação dos estudos pré-selecionados e selecionados | Com descritores como "formação continuada", "professores" e "plurilinguismo". |
Categorização dos estudos selecionados | Trabalhos serão agrupados em categorias, facilitando a síntese e a análise. |
Análise e interpretação dos resultados | Discussão crítica dos achados, identificando convergências, divergências e lacunas na literatura. |
Apresentação da revisão/síntese do conhecimento | Elaboração do texto da revisão, apresentando o percurso metodológico e os resultados da análise, culminando na apresentação das proposições. |
Fonte: Elaborado pelos autores (2025).
Após aplicar os critérios e descritores nas bases científicas, foram selecionados 08 (oito) trabalhos para leitura completa: (07) sete dissertações e 01 (uma) tese. Este resultado indica a necessidade de mais estudos científicos que dialoguem sobre esta temática crucial no cenário global do século XXI.
3.1 Conceitualizações e Políticas da Educação Plurilíngue no Brasil
Os trabalhos de Soares, (2021); Viana, (2023); Buonocore, (2023); Saviolli, (2022); Gomes, (2024) convergem ao considerar que a educação plurilíngue no Brasil é um campo em construção e expansão. Há debates sobre as terminologias (bilíngue, multilíngue, plurilíngue) e suas implicações.
As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Plurilíngue são um marco importante, mas sua implementação enfrenta desafios, como a necessidade de formação docente, investimentos, planejamento pedagógico e organização curricular condizente.
Viana (2023) e Buonocore (2023) apontam lacunas e "certa desarmonia" conceitual nos documentos oficiais. Observa-se a tensão entre visões monoglóssica e heteroglóssica da linguagem, com defesas por abordagens mais fluidas e inclusivas, como a translinguagem e as abordagens plurais. Diante dessas tensões e conceitos, os trabalhos resgatam o papel crucial da formação e da atuação dos professores como sujeitos ativos e transformadores.
3.2. Formação de Professores para Contextos e Práticas Plurilíngues
Há um consenso entre os trabalhos sobre a crítica à formação inicial de professores (Letras e Pedagogia), considerada insuficiente de preparar docentes para as especificidades da educação plurilíngue. Moura (2022) e Saviolli (2022) enfatizam os desafios enfrentados, como a falta de formação inicial, de diretrizes e políticas de valorização, de tempo para formação/planejamento e de recursos pedagógicos.
Os "saberes docentes" (Saviolli, 2022) para a educação plurilíngue são amplos, englobando conhecimentos disciplinares, curriculares, domínio linguístico, conhecimentos sobre aquisição de segunda língua, metodologias de Ensino Integrado de Língua e Conteúdo (CLIL) e competências plurilíngues.
3.3. Plurilinguismo e Inclusão da Diversidade em Contexto Escolar
A crescente presença de estudantes imigrantes nas escolas brasileiras intensifica a necessidade de abordagens plurilíngues, como destaca Gomes (2024). O plurilinguismo é apresentado como um "exercício ético-político da docência", fundamental para promover acolhimento, respeito às diferenças linguísticas e o diálogo entre os saberes culturais, criando ambientes acolhedores e democráticos.
Cavalheiro (2020) destaca como a formação multicultural levou professoras a uma maior conscientização e aproximação com a comunidade indígena local. A valorização de todas as línguas e culturas é um princípio chave para uma educação equitativa.
A escola refle a cultura, a história e as relações de poder, não sendo neutra, monolíngue e monocultural. É um espaço plural que precisa promover à diversidade linguística e cultural dos estudantes. Para isso, é preciso promover métodos e práticas plurilíngues para acolher e prevenir discriminações em contextos hegemonicamente norte/eurocêntricos.
3.4. Metodologias e Práticas em Salas de Aula Plurilíngues
Diversas abordagens metodológicas são mencionadas, com destaque o Content and Language Integrated Learning (Aprendizagem Integrada de Conteúdo e Linguagem – CLIL) que integra o ensino de conteúdos curriculares de língua social com a língua nativa dos estudantes. Gomes (2024) evidencia como professoras mobilizaram a intercompreensão entre línguas e atividades plurilíngues para facilitar a integração de estudantes migrantes e refugiados de Venezuela.
Saviolli (2022) discute a importância da linguagem acadêmica e da “biliteracia”. A translinguagem também é apontada como um conceito relevante para repensar as práticas pedagógicas menos compartimentalizadas e estereotipadas.
Os trabalhos analisados permitiram sintetizar as seguintes proposições, que trazem uma sinergia crítica para futuros pesquisadores, conforme os resultados da revisão.
Os trabalhos permitiram sintetizar temas emergentes que trazem uma sinergia crítica e aprofundada com premência para os futuros pesquisadores. No quadro a seguir, apresentam-se de maneira sucintamente as proposições da revisão.
Quadro 2. As proposições da revisão integrativa.
Palavras-chave