O presente trabalho apresenta parte do percurso do Comitê de Cuidados Socioambientais da escola, criado em 2012 como Comitê de Sustentabilidade. Um dos principais objetivos desse grupo é fortalecer uma cultura de responsabilidade coletiva em torno do cuidado com o ambiente, das relações humanas e destas com os demais seres viventes que nele se estabelecem. Além disso, o comitê busca consolidar-se como um espaço de escuta, diálogo e ação, mobilizando crianças, adolescentes e adultos em práticas sustentáveis e éticas no cotidiano escolar.
Em 2024, os representantes mapearam como o tema aparecia no currículo de forma vertical e escreveram um trecho do Projeto Político-Pedagógico (PPP), reafirmando a necessidade de tornar os cuidados socioambientais uma dimensão transversal do currículo e da convivência. A partir disso, o comitê vive um momento de expansão e fortalecimento, passando a contar com a participação de professores e educadores de diferentes equipes e setores visando desenvolver um plano de ação coletiva. Assim, almejamos a incorporação nas práticas e reflexões da concepção de comunidade de aprendizagens.
Para este ano, foi definido como foco de trabalho, estudo e reflexão, o eixo temático da alimentação na escola, compreendido como um campo de intersecção entre sustentabilidade, cultura e justiça social. A proposta busca investigar as práticas alimentares institucionais e cotidianas, promovendo a reflexão sobre seus impactos e significados. Cada curso foi convidado a construir seu próprio percurso metodológico de investigação, mapeando desafios, aprendizagens e possibilidades.
Na Educação Infantil, a equipe optou por realizar um mapeamento histórico das ações desenvolvidas em anos anteriores, pela equipe de educadores (as), reconhecendo não apenas os desafios, mas também os saberes, experiências e potencialidades já vividas. Essa escolha reafirma a importância da memória como instrumento de formação e continuidade das práticas educativas.
Uma das premissas do nosso currículo é a perspectiva antirracista. Nesse contexto, algumas referências orientam, inspiram e sustentam o trabalho pedagógico, aproximando teoria, reflexão e prática (Freire, 1970), em consonância com memória e invenção. Essa articulação nos convida a pensar uma educação comprometida com o reconhecimento das histórias, dos saberes e das presenças que foram historicamente silenciadas, assumindo o diálogo entre passado, presente e futuro como caminho ético e formativo.
Uma dessas referências é a concepção do símbolo Sankofa, filosofia adinkra do povo Akan (Gana), representada por um pássaro que olha para trás com o corpo voltado para frente. Essa imagem simbólica nos convoca a retornar ao passado para ressignificar o presente, reconhecendo a importância da memória como fonte de aprendizado e transformação. Segundo Songbe (2023),
“A filosofia Sankofa reforça a importância da memória na construção da nossa identidade, do nosso futuro. Tudo indica que além do seu valor estético, arquitetônico e cultural, os trabalhadores escravizados africanos deixaram de propósito e de forma subliminar essa mensagem para seus descendentes.” (SONGBE, 2023, p. 207)
No contexto escolar, o Sankofa nos lembra que o futuro se constrói a partir das experiências, saberes e histórias que nos antecedem, especialmente aquelas que foram invisibilizadas pela colonialidade, reafirmando a necessidade de cultivar uma relação viva, crítica e respeitosa com o passado.
Essa concepção dialoga com o tempo espiralar, elaborado por Leda Maria Martins (2021), que compreende o tempo como um movimento contínuo de revisitação e reinvenção. Ao romper com a linearidade ocidental, essa perspectiva permite pensar a educação como um processo em espiral, no qual o conhecimento se (re)constrói permanentemente em diálogo com a experiência, o corpo e a ancestralidade. No cotidiano da escola, esse olhar espiralar se revela nas práticas que acolhem o ritmo próprio das crianças e da natureza, reconhecendo o tempo como dimensão qualitativa da aprendizagem.
Em sintonia com essa concepção, Bondía (2002) alerta que, na sociedade contemporânea, “a experiência é cada vez mais rara, por falta de tempo. Tudo o que se passa passa demasiadamente depressa, cada vez mais depressa. E com isso se reduz o estímulo fugaz e instantâneo, imediatamente substituído por outro estímulo ou por outra excitação igualmente fugaz e efêmera”.
Ao refletir sobre a escola a partir desse diagnóstico, somos convocados a restituir o tempo da experiência, valorizando processos lentos, escutas profundas e aprendizagens que se inscrevem no corpo e na memória.
Nesse mesmo horizonte, Tupinambá Hãhãhãe (2023) propõe uma reflexão potente sobre o tempo espiralar dos povos indígenas, em contraposição ao tempo produtivista moderno:
“Para nós, povos indígenas [...] o tempo não é algo linear, nem uma corrida contra o relógio, como tantas vezes o vemos no mundo moderno. Ele é circular, ou melhor, espiralar — uma jornada que conecta passado, presente e a ficção temporal denominada futuro em um contínuo que transcende o imediatismo da vida digital. [...] Essa visão espiralar do tempo é fundamental para entender como nos comunicamos e vivemos. Nossos ancestrais ainda estão presentes na terra, no ar, nas águas, na energia do universo e, principalmente, na memória que carregamos em nossas falas e histórias. Comunicar, para nós, é um ato de resistência e de reconexão. Resistência contra a invisibilidade imposta pela modernidade e reconexão com a essência da nossa existência.” (TUPINAMBÁ HÃHÃHÃE, 2023)
A partir dessas referências, a escola se coloca diante do desafio de reencantar o tempo educativo, transformando-o em experiência viva, dialógica e ancestral. A espiral do tempo e a força da memória coletiva atravessam o cotidiano pedagógico, sustentando práticas que resistem à aceleração e reafirmam o valor da convivência, da escuta e da narrativa.
Por fim, o conceito de escrevivência, de Conceição Evaristo (2020), amplia essa discussão ao valorizar o conhecimento que nasce da experiência vivida, a palavra que emerge do corpo, da memória e da vida comum. A escrevivência nos convida a reconhecer o chão da escola como território de saber e resistência, onde cada narrativa, gesto e prática cotidiana constituem formas legítimas de conhecimento.
Ao incorporar essa perspectiva, o comitê e a escola reafirmam o compromisso com uma educação que se escreve a partir das vivências concretas das pessoas que a compõem — um movimento que transforma a experiência em linguagem, a linguagem em reflexão e a reflexão em ação coletiva, espiralar e antirracista.
Nosso percurso metodológico fundamentou-se em análises documentais, entrevistas abertas e rodas de conversa com educadores de diferentes setores. A partir desses encontros, realizamos análises, identificamos desafios e elaboramos proposições envolvendo distintos segmentos da comunidade escolar — direção, equipe de limpeza, equipe da cozinha, professoras(es) e crianças — reconhecendo todos e todas como educadores(as) no processo formativo.
Os resultados ainda não estão disponíveis, uma vez que o processo de construção de uma cultura escolar orientada pelos cuidados socioambientais encontra-se em curso. Entretanto, já foi possível elaborar algumas análises a partir do mapeamento de desafios realizado com as educadoras, bem como sistematizar proposições que serão apresentadas e aprofundadas no seminário.
O percurso desenvolvido pelo Comitê de Cuidados Socioambientais reafirma o compromisso da escola com a formação integral e com a consolidação de uma cultura de responsabilidade coletiva. Ao reconhecer que o cuidado com o ambiente implica também o cuidado com as relações humanas e interespécies, o comitê propõe uma pedagogia que articula ética, estética e política, tendo como horizonte a construção de um mundo mais justo e sustentável.
A investigação sobre o eixo da alimentação evidenciou a potência das práticas cotidianas como espaços formativos, revelando que as ações e hábitos — como o preparo dos alimentos, o descarte adequado dos resíduos ou o diálogo sobre as origens e significados da comida — podem se tornar momentos privilegiados de reflexão sobre justiça social, interdependência e sustentabilidade.
O processo metodológico, sustentado pela escuta e pela participação de diferentes sujeitos e setores da escola, possibilitou reconhecer e valorizar saberes plurais, destacando o papel formativo de todos e todas que compõem a comunidade educativa. Ao adotar princípios como o Sankofa, o tempo espiralar e a escrevivência, o trabalho reafirma a importância da memória, da ancestralidade e da experiência como dimensões constitutivas do conhecimento e da ação pedagógica.
Assim, mais do que um conjunto de práticas isoladas, a proposta delineada aponta para a construção contínua de um ethos educativo que compreende a escola como território vivo de aprendizagens, relações e transformações. O desafio que se coloca é o de seguir cultivando processos coletivos de reflexão e ação, capazes de sustentar, no cotidiano, a inseparabilidade entre educação, cuidado e vida.
REFERÊNCIAS
BONDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Trad. João Wanderley Geraldi. Revista Brasileira de Educação, n. 19, p. 20–28, jan./abr. 2002. Universidade de Barcelona, Espanha; Universidade Estadual de Campinas, Departamento de Lingüística. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/Ycc5QDzZKcYVspCNspZVDxC/?format=pdf&lang=pt
DUARTE, Constância Lima; NUNES, Isabella Rosado (orgs.). Escrevivência: a escrita de nós – reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo. 1. ed. Rio de Janeiro: Mina Comunicação e Arte, 2020. Ilustrações de Goya Lopes. p. 26–47. ISBN 978-65-992547-0-3. Disponível em: https://www.itausocial.org.br/wp-content/uploads/2021/04/Escrevivencia-A-Escrita-de-Nos-Conceicao-Evaristo.pdf
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970 [publicação original em 1968]. Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/espanhol/pdf/pedagogia_do_oprimido.pdf
MARTINS, Leda Maria. A performance do tempo espiralar: poética do corpo-tela. 2. ed. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2021, p.256.