Construindo Espaços de Diálogo e Respeito: Ações Interdisciplinares na Escola

  • Autor
  • Cristiane Aparecida Andreatta
  • Co-autores
  • Jane Elisabeth Kammer Pinheiro
  • Resumo
  • 1 INTRODUÇÃO

    O projeto foi desenvolvido em decorrente das demandas levantadas por uma Unidade Escolar (UE) da rede estadual de ensino da Coordenadoria Regional de Educação de Timbó/SC - CRE/35 referente a situações cotidianas relacionadas a conflitos envolvendo prática de violência verbal e física tanto entre alunos, quanto de alunos para com os professores.As fragilidades destacadas pela UE referiam-se a um aluno com diagnóstico do transtorno do espectro autista e transtorno desafiador opositivo que apresentava comprometimento em seu desenvolvimento no processo de ensino aprendizagem em decorrência de comportamentos disruptivos que influenciavam também o desempenho da coletividade.

    Em parceria com a rede intersetorial (Centro de Referência de Assistência Social - CRAS; Conselho Tutelar; Centro de Referência Especializada em Assistência Social - CREAS; Saúde) para atendimento, acompanhamento, orientação e fortalecimento de vínculos familiares, foi alinhado estratégias de intervenção junto à turma com o objetivo de auxiliar os profissionais da UE quanto a técnicas de manejo comportamental e de auto regulação emocional, utilização de reforçadores (WEBER, 2012), rotina visual (ARAÚJO; BENATTI; ACHETE,  2023) e suporte técnico.

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

    Solucionar conflitos não é algo que pode ser feito de maneira teórica e abstrata. Exige atenção e capacidade de ação, de concretizar iniciativas que contribuam para a construção de práticas de resolução e mediação de conflitos de forma inclusiva. Lidar com expressões de violência física e verbal requer adotar técnicas e estratégias que proporcionem espaços de reflexão nos quais os alunos aprendam formas alternativas para resolver conflitos e busquem soluções que sejam satisfatórias para todos (SANTA CATARINA, 2015).

    A política pública do NEPRE (Núcleo de Educação, Prevenção, Atenção e Atendimento às Violências na Escola) “[...] integra ações de educação, prevenção, atenção, e atendimento, articuladas em rede intersetorial, objetivando a promoção de uma educação em e para os direitos humanos (SANTA CATARINA, 2011, p.26). Baseia-se em normativas e legislações que norteiam a atuação da equipe multiprofissional junto a política pública de educação no estado de Santa Catarina.

    A atuação do Núcleo de Educação Especial da CRE/35, está ancorado na Política Estadual de Educação Especial que possui como objetivo orientar, acompanhar e avaliar a educação de estudantes com deficiência, transtornos e/ou altas habilidade, “[...] oferecendo suporte ao atendimento escolar de qualidade, de modo a contemplar as necessidades de aprendizagem do seu público, em todas as etapas e modalidades da Educação Básica” (SANTA CATARINA, 2018, p.35).

    Metodologias baseadas em reforçadores sociais e materiais, atividades reforçadoras (WEBER,2012), rotina visual antecipatória (PEREIRA; SOUSA, 2025), autorregulação emocional (TRIGO, 2025) bem como práticas baseadas em evidências (LIBERALESSO; LACERDA, 2020) são estratégias que possuem resultados satisfatórios na construção de um espaço escolar com melhor desempenho no processo de ensino, aprendizagem, convivência e interação junto ao público da educação especial, na perspectiva da educação inclusiva.

    3 METODOLOGIA

    Caracteriza-se como uma pesquisa quantitativa e qualitativa, de cunho exploratório-descritivo e delineamento de campo. Realizou-se levantamento das demandas junto à unidade escolar, categorizando os comportamentos de difícil manejo, (gritar, bater e chutar), as fragilidades (permanência em sala de aula e a delimitação de espaço) e os aspectos relacionados ao processo de ensino e aprendizagem  (assimilação de orientações e a realização de atividades). 

    Participaram da atividade 22 alunos com idades entre sete e oito anos, matriculados no 1º ano do Ensino Fundamental de uma escola estadual do município de Rodeio/SC, professora regente, duas professoras auxiliares e a equipe gestora. A intervenção desenvolvida teve caráter coletivo, com o objetivo de colaborar com o processo de adaptação do aluno X à nova unidade escolar e de minimizar situações relacionadas a práticas de violência verbal e física. A avaliação dos dados foi realizada a partir de entrevistas semiestruturadas com os profissionais envolvidos, por meio de análise temática.

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

     Foram realizadas reuniões com todos os setores envolvidos no processo e alinhamento de estratégias com construção de plano de ação pelo NEPRE e Núcleo de Educação Especial. A desenvolvimento da ação foi autorizada pela supervisão de Ensino da CRE, sendo realizados encontros com a turma e as orientações junto aos profissionais da escola envolvidos, constituindo-se em dois eixos de atuação:

    1. Suporte e orientação técnica junto aos profissionais: tipos de reforçadores; rotina visual antecipatória; manejo em situação de frustração e crise; uso dos materiais adaptados em sala de aula; construção cantinho regulação emocional; acolhida com ação de escuta e orientação sobre manejo de comportamentos, utilização estratégias pedagógicas e de autorregulação.

    2. Atividade coletiva junto a turma: Contação história: “As mãos não são para bater” (Martine Agassi, 2018); construção coletiva de cartaz com categorização de comportamentos adequados e inadequados; técnica de regulação emocional; contação de história: “O palavrão do passarinho” (Jacob Grant, 2021); dinâmica: nossas emoções; categorização e nomeação das emoções utilizando cards com situações; oficina: o voo do passarinho.

    A análise da entrevista semiestruturada, trouxe compreensão quantitativa e qualitativa dos avanços do aluno X, sendo os dados coletados de junho a 10 de outubro de 2025. No início do acompanhamento, o aluno apresentava média de dois episódios de gritos por dia; atualmente, essa ocorrência reduziu-se para um a dois episódios por semana. Os episódios de agressividade física, como bater, que antes eram diários, passaram a ocorrer, em média, uma vez por semana, havendo períodos sem registro. 

    Em relação ao comportamento de chutar, observa-se uma melhora expressiva, sendo possível que o aluno passe semanas sem manifestações desse tipo. Em momentos de frustração, ainda demonstra comportamentos como rasgar o caderno ou jogar objetos, principalmente quando contrariado, mas de forma mais controlada.

    Os reforçadores utilizados incluíram placas com imagens de boa convivência, estímulos positivos por meio de elogios e reconhecimento verbal, além de combinados estabelecidos e revisados periodicamente, envolvendo também visitas a espaços de interesse, como a biblioteca, o refeitório e a sala do Atendimento Educacional Especializado - AEE. 

    O comportamento do aluno apresenta variações conforme o manejo das segundas professoras em seus dias de trabalho. Nas segundas, terças e quartas-feiras, costuma realizar duas saídas diárias; a primeira antes do recreio, geralmente para lanchar, e a segunda por volta das 16 horas, com destino ao banheiro, biblioteca ou ao AEE, retornando à sala após breve pausa. Nas quintas e sextas-feiras, demonstra melhor regulação, permanecendo em sala nos períodos previstos e saindo apenas quando há real necessidade (exemplo: fome ou banheiro). 

    Os espaços oferecidos para autorregulação foram a sala do AEE, a biblioteca e o refeitório. O tempo médio de permanência em sala de aula varia entre 15 e 30 minutos, conforme o nível de engajamento e estímulo da atividade proposta. No processo pedagógico, o aluno participa de atividades diversificadas com ênfase em recursos concretos e visuais, como material dourado, blocos lógicos, LEGO, jogos silábicos, leitura de imagens, desenhos, pinturas, recortes e colagens. As orientações técnicas incluíram o uso de fichas de rotina, tempo adicional para execução de atividades, recursos diferenciados e estratégias preventivas de contenção de possíveis agressões físicas. 

    O aluno demonstra crescente interesse pelo processo de alfabetização. As atividades são adaptadas para favorecer sua participação ativa e explorar seus interesses, especialmente o gosto por desenhar, o que tem sido utilizado como ponto de partida para o trabalho com leitura e escrita. Foi adaptado um quadro individual, no qual desenha e escreve com canetões, semelhantes aos utilizados pela professora, relacionando suas produções com tabelas silábicas e numéricas. 

    Nas primeiras semanas de outubro, passou a aceitar atividades em folha com imagens ilustrativas, sílabas, letras e números, ainda necessitando de apoio constante. A professora regente utiliza comunicação clara, objetiva e direcionada, além de materiais concretos e jogos pedagógicos, o que favorece o engajamento e a compreensão das propostas. Atualmente, o aluno escreve seu próprio nome de forma independente, reconhece os números até 30 e realiza somas simples com quantidades unitárias.

    Em entrevista livre com a gestora da escola, pode-se perceber resultados satisfatórios em relação à permanência do aluno em sala de aula, diminuição de comportamentos que denotem frustração, uso de práticas de violência física e verbal. Destacou que o aluno demonstra melhor interação com os colegas e professores e que pela “primeira vez conseguiu realizar as atividades nas aulas de educação física” (sic).

    Nas orientações e suporte técnico com as 2ª professoras do aluno, pode-se observar que em decorrência da utilização de reforçadores sociais e materiais e tempo de pausa, houve uma redução significativa nos comportamentos disruptivos. O uso da rotina antecipatória demonstrou resultados satisfatórios. Visualizar a ordem das atividades que ocorreriam em sala de aula, permitiu que o aluno tivesse um certo nível de previsibilidade, sendo assim, “Os Suportes Visuais (VS) são dicas concretas que fornecem informações sobre uma atividade, rotina ou expectativa e/ou suporte para alguma habilidade (LIBERALESSO; LACERDA, 2020 p.54). 

    Os resultados observados indicam avanços significativos no comportamento e na aprendizagem do aluno, especialmente no controle emocional, na interação social e na participação nas atividades escolares. A intervenção coletiva e o trabalho articulado entre NEPRE, Núcleo de Educação Especial, equipe pedagógica e rede intersetorial mostraram-se fundamentais para promover um ambiente mais inclusivo, acolhedor e favorável ao desenvolvimento integral.

    De modo geral, a experiência reforça que práticas baseadas em reforço positivo, rotina estruturada, suporte intersetorial e formação continuada de professores são eficazes tanto na mediação de conflitos quanto na construção de processos educativos mais inclusivos e humanizados.

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    As intervenções realizadas junto à escola evidenciaram avanços significativos tanto no aspecto emocional e comportamental, quanto no processo de ensino e aprendizagem dos alunos. A redução dos episódios de desregulação emocional demonstra a efetividade das estratégias pedagógicas e comportamentais aplicadas, baseadas no uso de reforçadores positivos, rotina antecipatória, técnicas de regulação emocional e manejo comportamental, que contribuíram diretamente para a diminuição de comportamentos de frustração, crises e condutas disruptivas.

    Essas ações reforçam a importância de um trabalho coletivo, articulado entre a escola, a rede intersetorial e os profissionais especializados, promovendo uma mediação efetiva e a prevenção de situações de violência verbal e física, especialmente em contextos que envolvem a inclusão de estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno Opositor desafiador (TOD).

    Nesse sentido, reforça-se que o papel da equipe multiprofissional do NEPRE e do Núcleo de Educação Especial da CRE/35, devem atuar de maneira integrada junto às unidades escolares, na construção, implantação e implementação de projetos e ações que acolham as demandas que impactam o processo de ensino e aprendizagem. Tais resultados reafirmam que a colaboração intersetorial e o olhar inclusivo são caminhos essenciais para a formação integral dos alunos, promovendo o desenvolvimento de suas potencialidades, o fortalecimento dos vínculos escolares e a consolidação de práticas educativas que respeitem as singularidades.

    Considera-se que o projeto contribuiu para a construção de conhecimento científico, acadêmico e social, ao criar espaços de reflexão e diálogo que possibilitaram intervenções socioeducativas mais amplas e humanizadas, sempre fundamentadas nas normativas que orientam as práticas da Psicologia e da Educação Especial no contexto educacional.

     

    REFERÊNCIAS 

    AGASSI, Martine. As mãos não são para bater. Porto Editora. 2018.

    ARAÚJO, Vanessa Freitag de; BENATTI, Lucas Men; ACHETE, Brenda. A construção da rotina escolar para o desenvolvimento de alunos com transtorno do espectro autista. In: Autismo: uma abordagem multiprofissional - ISBN 978-65-5360-414-8- Vol. 1 - Ano 2023 - Editora Científica Digital. Disponível em: <https://downloads.editoracientifica.com.br/articles/230713900.pdf>.  Acesso em: 30 set. 2025.

    LIBERALESSO, Paulo; LACERDA, Lucelmo. Autismo: práticas baseadas em evidências (livro eletrônico). 1. ed. Curitiba: Marcos Valentin de Souza, 2020. Disponível em: < LIVRO AUTISMO_PDF.pmd>.  Acesso em: 30 set. 2025.

     

    PEREIRA, Amanda Mendes; SOUSA, Eliene Rodrigues. A importância da rotina e da previsibilidade para a aprendizagem de crianças e adolescentes com TEA. ISSN: 2358-8829. CONEDU - IX Congresso Nacional de Educação. Disponível em: <TRABALHO_COMPLETO_EV185_MD4_ID7553_TB7127_20112023111808.pdf>. Acesso em: 30 set. 2025.

    SANTA CATARINA. 1º CADERNO PEDAGÓGICO: Reflexões para implementar a Política de Educação, Prevenção, Atenção e Atendimento às violências na Escola.  Diretoria de Educação Básica e Profissional - Florianópolis: DIOESC, 2015.

    SANTA CATARINA. Política de educação, prevenção, atenção e atendimento às violências na escola. Florianópolis: Secretaria de Estado da Educação, 2011.

    SANTA CATARINA. Política de educação especial. Núcleo de Educação Especial. Secretaria de Estado da Educação. Florianópolis: Santa Catarina: COAN, 2018.

    TRIGO, Ana Paula Nascimento. Autorregulação de estudantes com TEA para Promoção da Inclusão Escolar. International Integralize Scientific. v 5, n 45, Março/2025 ISSN/3085-654X. Disponível em:< http://iiscientific.com/artigos/95049d/> Acesso em: 21 ago. 2025.

    WEBER, Lídia. Eduque com carinho. 4º Ed. Curitiba: Juruá, 2012.

     

    AGRADECIMENTOS 

     

    Aos profissionais da Equipe multiprofissional do NEPRE (Assistente Social, Psicóloga e Educador); Equipe do Núcleo de Educação Especial; Gestão escolar e professores da Escola e CRE/35 que colaboraram no desenvolvimento do projeto.

     
  • Palavras-chave
  • educação inclusiva, rotina, reforçadores, comportamento disruptivos
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