FORMAÇÃO DOCENTE EM TEMPOS DE DESENCANTAMENTO E DE CRUELDADE: A ARTE COMO CONTRA-PEDAGOGIA NA AMÉRICA LATINA

  • Autor
  • Jéssyca Eiras Jatobá Santos
  • Co-autores
  • Fabiola Colombani , Letícia Florêncio Vieira , Alonso Bezerra de Carvalho
  • Resumo
  • RESUMO EXPANDIDO

    Grupo de Trabalho (GT): Filosofia e Epistemologia da Educação

    Modalidade do trabalho: comunicação oral

    Formato de apresentação: on-line

    Título: FORMAÇÃO DOCENTE EM TEMPOS DE DESENCANTAMENTO E DE CRUELDADE: A ARTE COMO CONTRA-PEDAGOGIA NA AMÉRICA LATINA

    Jéssyca Eiras Jatobá Santos

    Fabiola Colombani

    Letícia Florêncio Vieira

    Alonso Bezerra de Carvalho

    RESUMO

    Este trabalho, resultado de estudos no âmbito do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação, Ética e Sociedade (GEPEES/CNPq), problematiza os impactos da modernidade e de sua racionalidade instrumental no processo de desencantamento do mundo e suas reverberações na educação. Apoiando-se no conceito de "pedagogias da crueldade", cunhado por Rita Segato (2018), discute-se como a naturalização da violência e a coisificação da vida, enraizadas em estruturas patriarcais, são reproduzidas no contexto escolar e na formação de professores. De caráter teórico-bibliográfico, o trabalho articula a filosofia e a epistemologia decolonial para analisar criticamente esses fundamentos e apontar caminhos de resistência. Em contraposição, propõe-se a arte e uma espiritualidade laica como contra-pedagogias capazes de fomentar um reencantamento do mundo. Inspiradas em contribuições de Jung e na pedagogia antroposófica de Steiner, tais práticas surgem como alternativas para uma formação docente ética, estética e sensível, preparando educadores para instaurar práticas pedagógicas dialógicas e comprometidas com a emancipação, a partir de um lugar situado na América Latina.

    PALAVRAS-CHAVE: Filosofia da Educação; Epistemologia; Formação de Professores; Pedagogias da Crueldade; Reencantamento.

     

    1 INTRODUÇÃO

    A modernidade consolidou um paradigma de ser e estar no mundo ancorado na racionalidade instrumental, no domínio técnico da natureza e na objetificação das relações. Esse processo, entendido como "desencantamento do mundo", implica a perda do mistério, do simbolismo e da transcendência nas experiências humanas, no contexto do capitalismo moderno (Weber, 2021). Esta não é apenas uma dinâmica material, mas uma estrutura epistêmica que molda o espírito de nossa época, expressando-se na ciência, na ética e na educação. A ciência moderna, aliada a projetos coloniais e capitalistas, ao reduzir o real ao mensurável, instaurou uma visão fragmentada da vida, onde o valor é subordinado à utilidade e à eficiência.

    No seio da dinâmica capitalista, esse desencantamento se intensifica, fundando-se, como argumenta Segato (2018), na coisificação da vida. Pessoas, territórios e corpos tornam-se mercadorias, transformando vínculos e alteridade em objetos de apropriação. É nesse contexto que a antropóloga introduz o conceito de pedagogias da crueldade: um conjunto de práticas, discursos e modos de interação que ensinam sistematicamente a insensibilização e a transformação do vivo em coisa. A crueldade, assim, não é acidente, mas um aprendizado social que naturaliza a desumanização.

    O patriarcado é identificado como o terreno histórico onde essas pedagogias florescem, modelando relações hierárquicas e violadoras que se estendem a raça, classe e natureza. A educação convencional, herdeira dessa racionalidade, frequentemente espelha esse desencantamento. Reduzida à transmissão de conteúdos e à lógica meritocrática, ela reproduz hierarquias e invisibiliza subjetividades, convertendo o aluno em mero receptáculo, na crítica freireana (Freire, 2021).

    Assim. este trabalho propõe-se a: a) problematizar os fundamentos epistemológicos do desencantamento e suas manifestações nas pedagogias da crueldade; e b) refletir, a partir de um lugar situado na América Latina, sobre como a arte e a espiritualidade podem atuar como contra-pedagogias na formação docente, inspirando práticas transformadoras e emancipatórias. O trabalho é de natureza teórico-bibliográfica, construído a partir de discussões no seio de um grupo de pesquisa, articulando autores como Segato, Freire, Jung e Steiner.

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

    O referencial teórico que fundamenta esta análise articula-se em torno da crítica ao desencantamento do mundo enquanto expressão de uma epistemologia da dominação. Ancoramo-nos no conceito de "pedagogias da crueldade", formulado por Segato (2018), para compreender os processos sociais que ensinam a coisificação da vida e a naturalização da violência como linguagem relacional. Esta estrutura opera de modo paradigmático no espaço escolar, que, herdeiro da racionalidade iluminista e da disciplina fabril (Foucault, 2014), frequentemente reproduz uma "pedagogia da obediência" que domestica corpos e mentes, conformando sujeitos à lógica produtivista e os alienando de sua potência criativa e de sua conexão com a natureza.

    Em oposição a essa matriz epistêmica, o referencial se completa com as contribuições de autores que propõem fundamentos alternativos. A filosofia da alteridade de Levinas (2000) oferece um fundamento ético na responsabilidade para com o Outro. A crítica decolonial de Krenak (2020) recupera o sentido de interdependência com a natureza, e a proposta das "espécies companheiras" de Haraway (2016) reconhece o caráter relacional e cocriativo da existência. A convergência dessas perspectivas aponta que a superação do desencantamento exige a construção de novos modos de habitar o mundo, ancorados na escuta sensível, na reciprocidade e no cuidado.

    3 METODOLOGIA

    O presente estudo, de natureza teórico-conceitual, adota a revisão bibliográfica como seu principal procedimento metodológico. Esta abordagem consistiu na seleção, análise e interpretação crítica de um corpus fundamentalmente teórico, composto por obras de autores centrais que fundamentam a problemática investigada. Foram mobilizados, em especial, os escritos de Rita Segato, para a discussão das "pedagogias da crueldade"; de pensadores da crítica ao desencantamento do mundo e da modernidade, como Max Weber e Foucault; e de autores que oferecem perspectivas de superação, como Paulo Freire, na educação; Levinas, na filosofia da alteridade; Ailton Krenak, no pensamento decolonial; e Carl Jung e Rudolf Steiner, no que tange às dimensões simbólica, espiritual e integral do ser humano. A revisão bibliográfica permitiu a construção de um arcabouço teórico sólido para analisar como as estruturas epistêmicas da modernidade impactam a

    educação e, reciprocamente, como contra-narrativas filosóficas e pedagógicas podem fundar práticas educativas emancipatórias.

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

    Os resultados desta investigação apontam que a superação das pedagogias da crueldade na formação docente exige a constituição de um novo horizonte formativo, no qual a arte e a espiritualidade se apresentam como eixos centrais de uma contra-pedagogia. A análise demonstra que a criação artística, ao romper com a lógica da padronização, restitui ao futuro professor a possibilidade de vivenciar e expressar sua singularidade. Esse processo tem um duplo efeito: no plano pessoal, fortalece o processo de individuação, na acepção junguiana (JUNG, 2011), permitindo que o educador integre suas dimensões consciente e inconsciente, razão e emoção; no plano profissional, desenvolve uma sensibilidade aguçada para reconhecer as linguagens plurais dos estudantes. Dessa forma, o educador formado nessa perspectiva torna-se mais apto a ampliar sua escuta pedagógica, valorizando a subjetividade em detrimento da mera transmissão de conteúdos.

    Em complemento, a discussão evidencia que a espiritualidade, compreendida como abertura ao mistério e à alteridade – tal como operacionalizada pela pedagogia antroposófica de Steiner (2002) –, atua como um pilar fundamental para a ampliação da consciência ética do professor. O resultado direto dessa abordagem é a constituição de um olhar pedagógico dirigido ao estudante como um ser integral (corpo, alma e espírito), inserido em uma rede de relações que inclui a natureza e o cosmos. Esta visão promove uma prática educativa que substitui a padronização por ambientes pedagógicos centrados no vínculo, no respeito e no cuidado. Conclui-se, portanto, que a arte e a espiritualidade, quando assumidas como dimensões estruturantes da identidade docente e não como meros conteúdos, formam um educador capaz de mediar o reencantamento do mundo. Este professor, assim constituído, configura-se efetivamente como uma trincheira de resistência e criação contra a lógica desumanizadora das pedagogias da crueldade.

    4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Se a modernidade desencantou o mundo através de uma epistemologia da dominação e das pedagogias da crueldade, a tarefa urgente da educação é o seu

    reencantamento. Este não significa uma regressão romântica, mas a criação ativa de novos modos de estar no mundo, nos quais o vínculo, a alteridade e a sensibilidade ocupem o centro.

    A formação de professores é um eixo estratégico para essa transformação. São os educadores que, no cotidiano escolar, podem reproduzir ou subverter as lógicas de coisificação. Para que possam assumir um papel de resistência e criação, sua formação precisa transcender a dimensão técnica. É imperativo incorporar a arte, a filosofia e a espiritualidade como eixos formativos, desenvolvendo nos futuros professores a sensibilidade, a empatia e uma consciência ecológica profundamente arraigada.

    A arte, como contra-pedagogia, restitui a densidade simbólica da existência e abre passagens entre o individual e o coletivo, o humano e a natureza. A espiritualidade, enquanto abertura ao mistério, funda uma ética do cuidado e da responsabilidade. Juntas, elas oferecem os alicerces para uma formação docente reencantada, capaz de preparar educadores que não apenas transmitam saberes, mas que mediem processos de humanização, individuais e coletivos.

    Inspirações como a pedagogia antroposófica demonstram a viabilidade de uma educação integral, que respeita os ritmos da vida e integra as dimensões corporal, anímica e espiritual. A partir de um lugar situado – a América Latina –, é possível articular esse rigor conceitual com as demandas concretas de nossa realidade, fomentando práticas pedagógicas verdadeiramente dialógicas, transformadoras, conviviais e comprometidas com a emancipação dos sujeitos. Reencantar a formação docente é, assim, um ato epistemológico e político vital para a construção de futuros educativos mais justos e plenos de sentido.

    REFERÊNCIAS

    FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 80 ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2021.

    FREIRE, Paulo. Ação cultural para a liberdade. 5. ed., Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1981

    FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete.42. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.

    HARAWAY, Donna J. Manifesto das espécies companheiras: cachorros, pessoas e práticas de significação. Tradução de Maria Filomena V. M. Loureiro. Lisboa: Edições 70, 2011.

    JUNG, Carl Gustav. Símbolos do inconsciente. Tradução de Maria Luíza Appy e Dora Mariana R. Ferreira da Silva. 12. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.

    JUNG, Emma; VON FRANZ, Marie-Louise. Para ler Jung. Tradução de Nélio Schneider. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.

    KRENAK, Ailton. A vida não é útil. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

    KRENAK, Ailton. O futuro é ancestral. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

    LEVINAS, Emmanuel. O rosto do outro: ensaios sobre a alteridade. Tradução de Paulo Neves. Petrópolis: Vozes, 2000.

    SEGATO, Rita. Contra Pedagogías de la Crueldad. 1 ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Promoter libros, 2018.

    SEGATO, Rita. Las estructuras elementales de la violencia. Ciudad autónoma de Buenos Aires: Prometeo Libros, 2021.

    STEINER, R. As entidades espirituais nos corpos celestes e nos reinos da natureza: dez conferências proferidas em Helsingfors (Helsinki) de 03 a 14 de abril de 1912 (GA – 136). São Paulo: Sociedade Antroposófica no Brasil, 2002 (apostila).

    WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. Tradução de Leonidas Hegenberg e Octany Silveira da Mota. São Paulo: MEDIAfaschion: Folha de São Paulo, 2021.

     

  • Palavras-chave
  • Filosofia da Educação, Epistemologia, Formação de Professores, Pedagogias da Crueldade, Reencantamento.
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 2 - Filosofia e Epistemologia da Educação
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