A GLOBALIZAÇÃO E O DEBATE EM TORNO DO CONCEITO DE “GESTÃO
EDUCACIONAL” NO BRASIL A PARTIR DA DÉCADA DE 1990
George Fellipe Zeidan Vilela Araújo
Kyanny Onofre Pompilio
PALAVRAS-CHAVE: Gestão Educacional. Globalização. Fundamentos da Educação.
Prática Pedagógica. História da Educação.
1 INTRODUÇÃO
Este trabalho trata de estabelecer uma relação entre a globalização e o debate
em torno do conceito de “gestão educacional” no Brasil a partir da década de 1990.
Antes de abordarmos o debate em torno do conceito de “gestão educacional”, cumpre
traçarmos certas considerações sobre o termo globalização, uma vez que nossa ideia
é justamente partir da influência exercida pelo processo de globalização nas
modificações ocorridas no conceito de gestão educacional.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
Muitos estudiosos e pesquisadores já ressaltaram as múltiplas dimensões do
processo de globalização. Não seria possível abordarmos todas elas neste trabalho,
mas queremos ressaltar que é preciso levá-las em consideração quando sepretende tratar do fenômeno. Portanto, ao se tratar de fenômeno tão complexo e
multifacetado, devemos estar atentos a todas essas características que o conformam.
As inextrincáveis dimensões econômica, política, social, cultural etc. presentes no
processo globalizatório fazem com que qualquer estudo que trate dele seja,
necessariamente, interdisciplinar. Dessa forma, a capacidade de relacionar campos,
fenômenos, estudos e perspectivas torna essencial e imperiosa a necessidade de
superação das tradicionais divisões disciplinares que costumam estar presentes nas
universidades.
De qualquer maneira, é inegável que o atual processo de globalização se
intensificou a partir da década de 1990. Os efeitos foram sentidos em todos os
âmbitos: cultura, comunicações, economia, relações interpessoais etc. A área da
educação não ficou à margem dessa dinâmica. No caso, interessa-nos um ponto
específico desse impacto sobre a área da educação, a saber: o debate em torno do
conceito de gestão educacional no Brasil a partir da década de 1990. Efetivamente, o
exame da genealogia do conhecimento em matéria de política, gestão e qualidade da
educação no Brasil, como em outras latitudes, nos remete a distintas concepções de
ser humano e distintos modelos de sociedade. De um lado, observamos como a lógica
econômica gerou as teorias do investimento em recursos humanos e formação de
mão de obra para atender as necessidades do desenvolvimento (SANDER, 2012, p.
1).
De fato, as concepções de gestão educacional não foram sempre as mesmas
e a própria adoção e emprego do termo foram atravessadas por conflitos que
ultrapassavam a própria esfera pedagógica e remetem a concepções díspares do que
é (ou deve ser) a educação, o ser humano e a sociedade de uma maneira geral. Aliás,
como pontuou Brenno Sander, pesquisador da política e gestão da educação na
América Latina, se há algo que a história da educação nos mostra é que “[…] o campo
educacional é uma arena de lutas em que seus atores vêm tratando de impor suas
opções políticas e arbitrários culturais e suas legítimas categorias de percepção e
apropriação” (SANDER, 2009, p. 69).
Geralmente, a gestão educacional figura entre os componentes curriculares
dos cursos de pedagogia no Brasil. Mas o que se entende por “gestão educacional”?
Como o termo foi criado? Como transformou-se em um conceito? Como se
desenvolveu ao longo do tempo? Como foi integrado aos cursos de pedagogia? Outroeixo de indagações diz respeito às relações entre globalização e gestão educacional.
Como o processo de globalização influenciou as transformações no entendimento do
próprio conceito de “gestão educacional”?
O texto foi desenvolvido através de uma revisão da bibliografia relevante
sobre o tema. Foram utilizados livros e artigos publicados em periódicos científicos,
visando uma compreensão atual e pormenorizada da questão. Apresentaremos
brevemente alguns dos principais autores que de alguma maneira tocaram no tema
em questão, ainda que marginalmente.
José Claudinei Lombardi (2006) defende a necessidade de uma abordagem
histórica sobre a gestão educacional, no sentido de entender criticamente a própria
ideia de escola como algo construído socialmente e não como “a panaceia” para a
solução de todos os males da sociedade contemporânea. É necessário, segundo o
autor, medir o que a escola é, o que pode fazer e quais seriam suas limitações e
contribuições à construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Essas
discussões precisam estar presentes em qualquer discussão sobre gestão
educacional. Por sua vez, Vânia Maria de Carvalho Honorato (2014) apresenta um
histórico crítico das concepções de administração e gestão que orientaram a
organização pedagógica e administrativamente o sistema escolar brasileiro até os
inícios do século XXI. No bojo dessas discussões, Adriana Croti,
Elisangela
Aparecida Bulla Ikeshoji e Adriano Rodrigues Ruiz (2014) argumentam que a partir da
década de 1990, o enfoque pedagógico para a gestão educacional ganhou um novo
direcionamento, afetado pelas transformações múltiplas em escala global.
Finalmente, as autoras Lenilda Molina Guerreiro Reis e Ângela Maria Gonçalves de
Oliveira (2017) sustentam que houve uma modificação do termo administração para o
de gestão no contexto escolar, nos últimos anos. Isso teria possibilitado um novo
modelo de administrar e permitido discussões sobre modelos de gestão mais
adequados para dirigir uma escola.
3 METODOLOGIA
Como afirmamos na introdução, a pesquisa foi desenvolvida através de uma
revisão da bibliografia relevante sobre o tema. Dessa forma, foram utilizados alguns
livros e artigos publicados em periódicos científicos, visando uma compreensão atual
e pormenorizada da questão.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO (se houver)
A maior parte dos estudiosos especialistas na temática da globalização
concorda que os efeitos do atual processo de globalização intensificaram-se a partir
da década de 1990. Dessa decorrência foram modificadas praticamente todos as
esferas da vida, tais como a cultura, os hábitos, os meios de comunicação, a
economia, as relações entre as pessoas etc. A
educação
formal
também
foi
impactada pelo fenômeno da globalização, incluindo um aspecto ao qual muitas vezes
não se dá a devida atenção: a gestão educacional.
Comecemos com a própria noção do que se entende por escola. De acordo
com o professor de Filosofia e História da Educação José Claudinei Lombardi, existem
visões anacrônicas e a-históricas, que devem ser combatidas. Afinal de contas, faz-
se necessário pensar a ideia de escola de forma crítica, reconhecendo que é uma
construção social e não uma solução para todos os problemas da sociedade atual
LOMBARDI, 2006, pp. 14-15). Segundo o autor, cumpre mensurar o que de fato a
escola é. Isso implica avaliar suas contribuições, mas também as limitações que
possui na busca por uma sociedade melhor, mais justa, mais livre e mais igualitária.
Com efeito, essas discussões precisam estar presentes em qualquer discussão sobre
gestão educacional.
Já a pedagoga Vânia Maria de Carvalho Honorato sustenta ser necessário
criticar o modelo fundamentado na lógica capitalista que, especialmente a partir da
década de 1990, forçou a implementação de um modelo de gestão pautado pelas
necessidades do mercado (HONORATO, 2014, p. 16). Na mesma toada, Adriana
Croti, Elisangela Aparecida Bulla Ikeshoji e Adriano Rodrigues Ruiz destacam que a
gestão educacional foi sendo repensada a partir dos anos 1990. Essa reorientação
está ligada às modificações sociais, culturais e econômicas ocorridas em todo o
planeta com o processo de globalização (CROTI et alli, 2014, p. 2).
Com efeito, vários autores apontam que tais modificações impactaram
decisivamente a noção de gestão educacional. Lenilda Molina Guerreiro Reis e Ângela
Maria Gonçalves de Oliveira, por exemplo, afirmam que, no contexto escolar, o termo
“administração” foi sendo substituído pela palavra “gestão”. Porém,
apesar de motivado principalmente pela nova configuração da economia globalizada, também
propiciou a possibilidade de se discutir a respeito de modelos mais eficientes e adequados de administração escolar. Isso teria possibilitado um novo modelo de
administrar e permitido discussões sobre modelos de gestão mais adequados para
dirigir uma escola (REIS; OLIVEIRA, 2017, p. 190).
Acreditamos que a bibliografia de referência expõe com clareza como a
própria noção de gestão educacional foi influenciada pelo processo globalizatório. Mas
é importante destacar o aspecto múltiplo e contraditório desse processo ou ficaríamos
com uma noção parcial e insuficiente do fenômeno e de seu impacto. Nesse sentido,
constate-se que se bem as pressões de uma economia capitalista globalizada
tensionam o entendimento do que deve ser uma escola e sua gestão, existem também
movimentos contrários a essa visão. Motivados também pela nova configuração
econômica e pelas novas demandas sociais que surgiram nas últimas décadas,
pensam em imprimir a escola e sua gestão rumo a uma direção menos preocupada
com o mercado e mais interessada em concepções pedagógicas que almejam a
construção de uma sociedade melhor, mais justa, mais livre, mais igualitária, mais
democrática e mais inclusiva.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho teve por objetivo apresentar o debate em torno do conceito de
gestão educacional no Brasil a partir da década de 1990. Como afirmamos, as últimas
décadas têm sido marcadas por grandes desafios para todos aqueles envolvidos com
a educação em função do sem número de mudanças sociais, tecnológicas,
econômicas e culturais. A escola, os diversos tipos de instituições de ensino e a
educação formal como um todo não ficaram alheios a esses câmbios, nem deixaram
de sofrer diversas modificações.
Vive-se um momento histórico desafiador para o campo educacional em
decorrência das grandes e significativas transformações sociais que ocorrem nas
últimas décadas, especialmente agora. Isto é, a escola que se tem na
contemporaneidade
resulta
de
dois
momentos
históricos
que
ocorreram
simultaneamente trazendo assim grandes complexidades à prática escolar. De um
lado, a escola contemporânea tem como fundamento epistemológico a racionalidade
moderna, tanto do ponto de vista da ciência de onde tem origem o saber praticado na
escola como meio e como fim e o comportamento das individualidades, ambos
utilizando-se o preceito da homogeneidade. Por outro lado, na contemporaneidade ocorreram importantes transformações, as quais produziram visibilidade às diferenças
e desigualdades sociais e estas se apresentam na escola desafiando o preceito da
homogeneidade ainda utilizado pelas práticas escolares (MACHADO et alli, 2020, p.
11).
Sem dúvida, a escola acompanha as mudanças que são verificadas na
sociedade e as demandas que eventualmente surgem dos distintos setores da
sociedade civil. E uma grande parte de todos os embates entre diferentes setores da
sociedade civil repercutem também na escola e nas maneiras de se conceber as
instituições de ensino e o próprio papel e sentido da educação. É nesse campo de
lutas e disputas que os pensadores da resistência educacional encontram um de seus
grandes desafios para manter o ritmo da construção teórica de vanguarda em matéria
de política e gestão democrática da educação. O desafio começa pelo exame crítico
das categorias analíticas e práticas de administração universitária e gestão escolar
concebidas na esteira da globalização da economia neoliberal. Este, no entanto, é
apenas o primeiro passo de um processo que só se completa com a adoção de
soluções político-pedagógicas superadoras concebidas na dimensão estruturante dos
direitos humanos e da cidadania na educação e na sociedade. Como estratégia
organizacional e administrativa impõe-se, assim, a gestão democrática, conceito
consagrado na Constituição cidadã de 1988, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional de 1996 e em numerosos instrumentos legais dos sistemas de ensino do
país. Este enquadramento jurídico alimenta hoje o discurso político e o movimento
intelectual dominante na gestão da educação brasileira. No entanto, ainda
enfrentamos o desafio de traduzir o discurso político para efetivas práticas
democráticas em numerosas instituições de ensino do país. Esse fato sugere a
necessidade de um renovado engajamento político dos educadores na construção da
democracia e da gestão democrática como caminhos efetivos para fazer frente às
poderosas forças do mercado que inspiram a organização e a gestão produtivista na
educação.
Conforme demonstramos, a análise comprovou o grande impacto que a
globalização teve não apenas no debate em torno do conceito de gestão escolar. A
própria ideia de administração de escolas e gestão das instituições de ensino também
passaram por modificações que refletem os processos sociais, políticos, econômicos
e culturais das últimas décadas. De qualquer maneira, esse impacto não foi unilateral ou isento dos mais variados conflitos e disputas. Sem embargo, embora as
pressões econômicas para o estabelecimento de um determinado tipo de gestão
pautado pelas diretrizes do capitalismo globalizado deram o tom geral dos caminhos
percorridos, também se observou que houve resistências e tentativas de se pensar a
escola e a educação a partir de valores como cidadania, solidariedade e participação
democrática. Em suma, longe de pretender esgotar o tema, este trabalho teve o
escopo de oferecer uma contribuição ao debate, uma vez que as discussões sobre o
conceito de “gestão educacional” permanecem em aberto.
REFERÊNCIAS
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Gestão escolar: reflexões e importância. Colloquium Humanarum, vol. 11, n.
Especial, Jul–Dez, 2014, p. 903-910.
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Revista Científica Semana Acadêmica. Fortaleza, ano MMXIV, Nº. 000066,
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LOMBARDI, José Claudinei. A importância da abordagem histórica da gestão
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19.
MACHADO, Dinara Pereira et alli. Formação de professores em diferentes
cenários: vozes da pedagogia, volume III. Curitiba: Dialética e Realidade, 2020.
REIS, Lenilda Molina Guerreiro; OLIVEIRA, Ângela Maria Gonçalves de. Um olhar
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SANDER, Benno. A gestão da educação e o plano nacional de educação. VII
Seminário Regional de Política e Administração da Educação do Nordeste. Cadernos
ANPAE, Recife, v. 13, 2012.
________________. Gestão educacional: concepções em disputa. Retratos da
Escola, v. 3, n. 4, 2009.