Filosofia e inclusão digital: Caminhos para refletir sobre a cibercultura

  • Autor
  • Gabriele Caroline Fontanive
  • Resumo
  •  

                                                                

     RESUMO EXPANDIDO

     

    Grupo de Trabalho (GT): GT 2 – Filosofia e Epistemologia da Educação 

    Modalidade do trabalho: Comunicação Oral 

    Formato de apresentação: Presencial 

    Filosofia e inclusão digital: Caminhos para refletir sobre a cibercultura

    Gabriele Caroline Fontanive

    Doutoranda em Filosofia

    Programa de Pós-Graduação em Filosofia

    Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

    Florianópolis, Santa Catarina, Brasil

    gabrielecfontanive@gmail.com

                                                                           

    PALAVRAS-CHAVE: Cibercultura, competências digitais, ficção cyberpunk

     

    1 INTRODUÇÃO

    Resultados da Pesquisa de Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) Domicílios 2022, organizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, comprovam que o acesso ao ciberespaço já é mais do que habitual, quando 81% da população brasileira acima dos 10 anos de idade é usuária de internet. Entre os mais jovens, A TIC Kids Online 2023 demonstra que as proporções de uso são ainda maiores, com 95% da população brasileira entre 9 e 17 anos sendo usuários frequentes da internet.

    No livro Cibercultura (1999), o filósofo Piery Lévy afirma que ao mesmo tempo que o ciberespaço propicia ambientes para o rápido desenvolvimento dos conhecimentos, através dele, a desigualdade de acesso e permanência na cibercultura pode aumentar, tornando as disparidades sociais ainda mais evidentes. Na visão de Lévy, as tecnologias não determinam a sociedade e a cultura, mas as condicionam, ou seja, criam e facilitam as condições de novas possibilidades sociais.

    A tecnologia pode ser considerada um fenômeno social com alta capacidade de transformação, sendo que nas últimas décadas, métodos de trabalho, estudo, política e outros componentes da vida social se tornaram indissociáveis do espaço digital e sua conectividade. Contudo, muitas dessas transformações vêm sendo experienciadas sem um processo de reflexão sobre o desenvolvimento e aplicação destas tecnologias, o que pode nos levar a construção de um ciberespaço que reforce as desigualdades sociais.

    Pensando no ciberespaço como um universo ainda aberto e com valores que não estão totalmente definidos, é importante desenvolvermos formas para avaliar e discutir as condições de vida em uma sociedade profundamente marcada pela tecnologia. Em busca de amenizar os possíveis efeitos negativos desta relação irrefletida, este trabalho busca desenvolver uma proposta para estimular o desenvolvimento de competências e letramento digital entre estudantes do ensino médio, abordando a criação de ficção científica como uma forma de pensar criticamente sua relação com a tecnologia.

     

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

     

    Otto Neurath e Utopias: da ficção à reflexão sobre o real

    Apesar de ter vivido há cerca de um século e não estar ciente das transformações tecnossociais atuais, Otto Neurath escreveu sobre a complexidade e pluralidade da sociedade que são também notáveis no desenvolvimento da cibercultura. O filósofo fez parte do grupo de pensadores que compunham o mundialmente reconhecido Círculo de Viena[1], no qual discutiam e refletiam sobre a ciência, seu papel e aplicabilidade em sociedade.

    Para Neurath, a característica de ter que lidar com um objeto complexo por meio de abordagens disciplinares limitadas é um desafio para a metodologia nas ciências sociais. E esse desafio se torna ainda maior quando notamos que as ciências sociais se restringem a estudar arranjos sociais existentes ou passados, o que Neurath considera uma coleção muito limitada de objetos de estudo. É nesse sentido que o filósofo sugere que as ciências sociais se voltem para os arranjos sociais possíveis, mas não realizados e talvez nem mesmo realizáveis. Ao discutir essa questão, Neurath compara o trabalho com arranjos sociais ao trabalho da engenharia:

    Um engenheiro mecânico pode discutir muitos tipos de aeronaves possíveis sem ter qualquer razão para esperar que a realização de um de seus projetos tenha mais chance que a de outro. De maneira similar, um ‘engenheiro social’, um ‘planejador’, pode lidar com muitos padrões sociais possíveis sem tentar predizer qual deles será realizado (Neurath, 1970[1944], p.30).

     

    O utopianismo científico de Neurath pode ser compreendido (cf. Linsbichler; da Cunha, 2023) como uma proposta metodológica na qual se sugere que os cientistas sociais devem se engajar na elaboração e comparação de ordens sociais imaginárias que possibilitem idealizar o máximo de efeitos possíveis da aplicação de determinada proposta. Em busca de estimular a comunidade a imaginar os diferentes possíveis futuros de sua sociedade local, as utopias de Neurath serviriam como modelos guias do debate social; com exercícios de comparação entre essas sociedades imaginárias, os cidadãos desenvolveriam mais consciência das diferentes possibilidades de futuro, auxiliando assim a comunidade a tomar decisões informadas. 

    O papel da ciência, para Neurath, vai além do desenvolvimento de teorias. Esta também deve servir para o desenvolvimento de uma sociedade cientificamente educada, que seja capaz de participar de forma ativa e democrática nas tomadas de decisão sociais que as afetarão diretamente. Em busca de estimular a comunidade a imaginar os diferentes possíveis futuros de sua sociedade local, as utopias de Neurath serviriam como modelos guias do debate social. Com exercícios de comparação entre essas sociedades imaginárias, os cidadãos desenvolveriam mais consciência das diferentes possibilidades de futuro, auxiliando assim a comunidade a tomar decisões informadas.

    As utopias científicas de Neurath, então, são construções teóricas de sociedades imaginárias, a partir das quais elementos importantes de nossa sociedade podem ser discutidos. Estas utopias viabilizam também a discussão sobre diferentes possíveis caminhos para a construção da sociedade futura, por meio da comparação entre diversas ordens sociais imaginárias e existentes, torna-se possível avaliar e debater politicamente, por exemplo, propostas de inovações tecnossociais. Através do desenvolvimento do utopianismo científico, a ciência também é capaz de democratizar o acesso ao conhecimento e à tomada de decisões, quando contribui para estimular a imaginação da comunidade em busca de informações e valorações dos possíveis efeitos da implementação da proposta que ainda está sendo imaginada.  

    Cyberpunk: distopias tecnológicas e reflexões sobre o futuro

    Em Cyberpunk and cyberculture, Dani Cavallaro (2000, p. 5) afirma que a partir da década de 1950 a ficção científica se demonstrou cada vez mais interessada em trabalhar com os efeitos da tecnologia no dia a dia. Movimentos artísticos e literários que surgiram naquele momento tratavam de questões como a poluição ambiental e a relação da tecnologia com crimes e sexualidade. Nesse contexto, as vertentes que compõem o movimento literário cyberpunk focaram seus roteiros nos impactos da tecnologia nas sociedades presentes e futuras, tendo adicionado, para além disso, elementos da tecnologia computacional.

    Essas correntes se desenvolveram refletindo sobre o avanço da tecnologia nas sociedades, chegando a abordar temas que as aproximam da filosofia contemporânea:

    A cibercultura, ambiente saturado pela tecnologia eletrônica, e sua representação ficcional no cyberpunk nos obrigam a reavaliar drasticamente as ideias de tempo, realidade, materialidade, comunidade e espaço. A lacuna entre o presente e o futuro torna-se cada vez mais estreita, à medida que as fantasias futuristas da ficção científica clássica se tornam partes integrantes do aqui e agora. (CAVALLARO, 2000, p. 11)

     

    Ao lembrarmos que o utopianismo científico de Neurath sugere que trabalhemos com ordens sociais imaginárias para explorar as possibilidades de futuro da sociedade existente, buscando ir além do conhecimento sobre o passado e sobre o presente. É possível aplicarmos essa teoria em conjunto com as ideias centrais das obras de ficção do universo cyberpunk, que podem servir como guias para exploração da forma de aplicação de determinadas ferramentas tecnológicas em sociedade. Para isso, é necessário ainda explorarmos brevemente a metodologia desenvolvida pela filósofa Sarah Uckelman em seu artigo Fiction Writing as Philosophical Methodology.

    Segundo a autora, o processo de escrever ficção, principalmente as curtas e especulativas, é uma metodologia moderna e legitima de fazer filosofia, visto que, escrever ficção é, basicamente, um processo de argumentação. E, através do processo de escrita, é possível desenvolver e germinar novas ideias. Assim como proposto por Neurath, Sara acredita que por não estar tão presa aos fatos e verdades do mundo, o processo de escrever ficção faz com que desenvolvamos opiniões próprias, pensando o que, realmente, eu penso sobre determinado assunto.

    Dessa forma, acreditamos que, como a filósofa sugere, a escrita de obras de ficção tem um início muitas vezes baseado na pergunta “e se?”. E algumas das nossas perguntas centrais são: “E se a tecnologia continuar se desenvolvendo sem uma reflexão anterior?”; “e se a legislação não for capaz de amenizar os danos trazidos pelas corporações tecnológicas?”; “e se eu não questionar o que estou consumindo online?”; “e se eu não questionar as bases construtivas desse universo digital que estamos frequentando?”.

     

    3 METODOLOGIA

    Método de pesquisa bibliográfico, somado à metodologia didática apresentada pela filósofa Sarah Uckelman explorando a criação de obras de ficção como metodologia para gerar ideias e reflexões filosóficas.

    4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    A autora de ficção científica Ursula LeGuin afirma que nós, enquanto sociedade, precisamos de escritores que imaginem territórios reais para a liberdade e a esperança. Muitas vezes, somos condicionados a ter uma visão de mundo limitada ao que já é conhecido, em sistemas políticos, econômicos e educacionais. O futuro das nossas sociedades tecnológicas, em contrapartida, ainda é desconhecido. Pierre Lévy afirmou que “a cibercultura expressa o surgimento de um novo universal, diferente das formas culturais que vieram antes dele” (1999, p. 15). Donna Haraway também acredita que as mudanças tecnológicas podem trazer consigo mudanças substanciais nas expectativas e formas de ver o mundo.

    Assim sendo, é possível concluir que o utopianismo científico de Neurath sugere que trabalhemos com ordens sociais imaginárias para explorar as possibilidades de futuro da sociedade existente, buscando ir além do conhecimento sobre o passado e sobre o presente. Ursula LeGuin, escritora de ficções premiadas, incentiva as pessoas a se tornarem escritores que explorem possibilidades diferentes de mundo. Sara Uelckman, defende a ideia de desenvolvimento de histórias curtas de ficção para explorar problemas filosóficos. Nesta pesquisa então, objetivamos a aplicação de projetos em escolas públicas do Ensino Médio, onde professores de filosofia ou sociologia (os cientistas sociais que Neurath defendia) apresentem aos estudantes a problemática e conceitos principais referentes ao espaço digital. Dessa forma, os educadores poderão atuar como mediadores do conhecimento, fazendo com que os estudantes se tornem o centro, buscando problematizar o mundo digital a partir da sua própria visão.

    Como defendido por Sarah, o desenvolvimento de histórias de ficção funciona como uma ferramenta epistemológica pode promover um espaço para germinar e desenvolver ideias. Nesse processo de escrita que parta das ideias apresentadas em universos cyberpunks, questionando a realidade em que vivemos, é possível iniciar um uma reflexão necessária para desenvolvermos um ciberespaço mais inclusivo. É necessário incentivar no público estudantil um trabalho imaginativo, para criar universos de esperança, possibilidades e mudanças tecnológicas ainda inexploradas.

    Assim sendo, buscaremos então aplicar as teorias de Neurath e Uckelman em conjunto, utilizando as obras de ficção científica cyberpunk como guias para a exploração da forma de desenvolvimento, aplicação e funcionamento de determinadas ferramentas tecnológicas em sociedade.

     

    REFERÊNCIAS

     

    BRASIL, Comitê Gestor de Internet do; CETIC; UNESCO; NIC. TIC Domicílios 2023. Brasil: Cetic, 2023.

    CAVALLARO, Dani. Cyberpunk and Cyberculture: Science Fiction and the Work of William Gibson. London: The Athlone Press, 2000. 258 p.

    HARAWAY, Donna; Manifesto Ciborgue: Ciência, Tecnologia e Feminismo-Socialista no Final do Século XX. In: TADEU, Tomaz (Org.). Antropologia do Ciborgue: as Vertigens do Pós-Humano. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2000[1985].

    LE GUIN, Ursula. Discurso no National Book Awards. Estados Unidos, 2014. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=wntFiJ7OrzM&t=1s. Acessado em 01/10/2023.

    LÉVY, Pierre. Cibercultura. Rio de Janeiro: Editora 34, 1999.

    LINSBICHLER, Alexander; DA CUNHA, Ivan F. Otto Neurath’s Scientific Utopianism Revisited. A Refined Model for Utopias in Thought Experiments. Journal for General Philosophy of Science 54, pp. 233-258, 2023.

    NEURATH, Otto. Utopia as a Social Engineer’s Construction. In: NEURATH, Marie; COHEN, Robert s (ed.). Otto Neurath. Empiricism and Sociology. Boston: D. 98 Reidel, 1973[1919]. p. 150-155.

    NEURATH, Otto. Anti-Spengler. In: NEURATH, Marie; COHEN, Robert s (ed.). Otto Neurath. Empiricism and Sociology. Boston: D. Reidel, 1973[1921]. p. 158-213.

    NEURATH, Otto. International Planning for Freedom. In: NEURATH, Marie; COHEN, Robert s (ed.). Otto Neurath. Empiricism and Sociology. Boston: D. Reidel, 1973[1942]. p. 422-440.

     

    AGRADECIMENTOS (se houver) 

    Agradeço aos estudantes que participaram desse projeto, escrevendo histórias de futuros possíveis. Vocês são minha inspiração e força de movimento.

     

     

     

     


    [1] O Círculo de Viena é mais conhecido por seus trabalhos com a abordagem lógica da ciência, mas cada vez mais se reconhece a importância da obra de autores como Otto Neurath e Philipp Frank, que realizavam estudos sobre a relação entre ciência e sociedade. Para mais informações, cf. Stadler (2001), Uebel (1991), Uebel (1992), Damböck; Tuboly (2022). As razões para que essas discussões tenham ficado em segundo plano na imagem que temos do Círculo de Viena a partir da metade do século XX, conforme discutido por Reisch (2005), têm mais a ver com o momento político posterior à Segunda Guerra Mundial do que com motivos filosóficos propriamente ditos.

     

  • Palavras-chave
  • Cibercultura, competências digitais, ficção cyberpunk
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 2 - Filosofia e Epistemologia da Educação
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