INTERDISCIPLINARIDADE EM MOVIMENTO: PERSPECTIVAS DA EDUCAÇÃO FÍSICA E COORDENAÇÃO PEDAGÓGICA EM DIÁLOGO COM PAULO FREIRE

  • Autor
  • EMILI ADRIANA STIZ
  • Co-autores
  • Thiago Uliano , Kelly Ayanna Peters Barros , Antonio José Müller
  • Resumo
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    1 INTERDISCIPLINARIDADE EM MOVIMENTO

     

    A pesquisa em andamento investiga as potencialidades de projetos educativos interdisciplinares, com foco na participação da disciplina de Educação Física e na articulação com a coordenação pedagógica, desenvolvidos nas séries finais do Ensino Fundamental das escolas públicas de Timbó/SC. Inserida na linha de pesquisa “Educação, dinâmicas sociais e diversidades” e vinculada ao grupo de pesquisa em Filosofia e Educação - Educogitans (PPGE/FURB), a investigação busca compreender o potencial das práticas interdisciplinares no fortalecimento da convivência e da educação emancipadora.

    Parte-se do pressuposto de que projetos interdisciplinares alinhados à educação cidadã, proposta por Paulo Freire, podem contribuir com o fortalecimento das relações humanas no espaço escolar e com a formação crítica e emancipadora dos estudantes.

    A problemática relaciona-se aos desafios enfrentados pela educação básica, entre eles a desmotivação e o desinteresse de estudantes e professores diante da construção coletiva do conhecimento. Marcada pela persistência de práticas pedagógicas fragmentadas, pouco conectadas à realidade dos estudantes e ao cenário tecnológico atual, a educação ainda sustenta uma lógica avaliativa que considera as taxas de aprovação como sinônimo de êxito escolar (Possa; Di Felice, 2024). Esse processo amplia a distância entre saberes, experiências e práticas, dificultando a formação crítica e emancipatória.

    Nessa perspectiva, a pergunta principal desta pesquisa é: Quais são as potencialidades de projetos educativos interdisciplinares, à luz da pedagogia freireana, para enfrentar a desmotivação dos estudantes e promover uma formação crítica e emancipatória? O objetivo é compreender as potencialidades de projetos educativos interdisciplinares, no contexto da educação física e na perspectiva da coordenação pedagógica, a partir dos conceitos freireanos, que favoreçam a motivação para uma educação emancipadora. O ponto de partida foi a) identificar projetos interdisciplinares que envolvem a educação física, relacionando-os à coordenação pedagógica para b) compreender qual a percepção desses profissionais sobre o desenvolvimento dos projetos em suas realidades e assim, c) analisar com base nos conceitos freireanos possíveis potencialidades dos projetos para o desenvolvimento da formação crítica e emancipatória. A pesquisa justifica-se pela necessidade de enfrentamento dos desafios emergentes na educação contemporânea, entre eles o desenvolvimento de práticas educativas que promovam sentido, diálogo e relação humana no processo de aprendizagem. O suporte teórico baseia-se nos estudos de Paulo Freire, Peter McLaren, Ivani Catarina Arantes Fazenda, Angel Pérez Gómez entre outros autores que discutem a pedagogia crítica, a interdisciplinaridade, a educação na era digital, as políticas públicas e o papel da Educação Física e da coordenação pedagógica na construção de uma escola comprometida com a emancipação social. A metodologia é de natureza aplicada, abordagem qualitativa e caráter descritivo com procedimentos bibliográficos e de campo, através de entrevistas semiestruturadas aplicadas a professores de Educação Física e coordenadores escolares de cinco escolas do município de Timbó/SC. A análise na perspectiva hermenêutica visa interpretar os sentidos atribuídos aos projetos educativos na busca de compreender suas potencialidades, desvelando caminhos para a interdisciplinaridade como instrumento potencializador da convivência escolar e da emancipação dos estudantes, a partir da Educação Física e na perspectiva da coordenação pedagógica em diálogo com Paulo Freire.

     

    2 PERSPECTIVAS DA EDUCAÇÃO FÍSICA E COORDENAÇÃO PEDAGÓGICA EM DIÁLOGO COM PAULO FREIRE

     

    A educação emancipadora, proposta por Paulo Freire decorre de um processo que visa a conquista da emancipação humana, que, por sua vez abarca uma gama complementar de processos contínuos, entendidos não como uma generalidade abstrata, mas como uma subjetividade engajada em gestualidades corporais e simbólicas que se universaliza numa saga historiadora (Passos, 2010). O trecho de Passos, retrata o movimento contínuo e coletivo, em que cada pessoa, ao refletir criticamente sobre sua realidade e agir sobre ela, constrói-se como ser histórico e social.

    Nesse sentido, compreende-se que emancipar-se é participar da construção histórica da humanidade e, nessa ação, formar também uma consciência crítica. Assim, cada pessoa reafirma o mesmo princípio: a emancipação é dialética. Conforme Freire (1983, p. 93) "a conquista implícita no diálogo, é a do mundo pelos sujeitos dialógicos, não a de um pelo outro”. A emancipação, portanto, não se efetiva na dominação, mas na transformação da relação dos sujeitos com o mundo, onde cada um, pela consciência de si e do mundo, ao se reconhecer inacabado, também se percebe condicionado e, ao mesmo tempo, capaz de ser livre (Freire, 1983). Nessa perspectiva, pensar e agir se fundem em práxis transformadora na busca de ser mais.

    O entendimento da emancipação fundamentado em Freire, expressa seu caráter ontológico e ético, tornando-se, assim, o ponto de partida do diálogo que se pretende estabelecer entre as perspectivas da Educação Física e da coordenação pedagógica, nesse movimento interdisciplinar da educação que ousamos sonhar.

    A consciência do sonho, assim como a consciência das atividades que exercemos e do mundo em que existimos – e por existir – também somos e fazemos história, nos instiga a buscar coletivamente uma educação libertadora. Nesse entendimento, como defende Freire (2000, p. 25), “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. Em oposição à educação bancária, a prática educativa pode ser compreendida como um processo de diálogo e criação de sentido, no qual educador e educando constroem o conhecimento em conjunto.

    Nessa ideia, os projetos interdisciplinares configuram um terreno fértil para a construção da liberdade, pois, por meio da autonomia e da consciência crítica cria-se um movimento de aproximação entre saberes, experiências e práticas para favorecer a formação crítica e emancipatória.

    Ampliando o diálogo para a Educação Física, que naturalmente transita entre corpo e pensamento, teoria e prática, saúde e educação, o movimento interdisciplinar ganha força. Estudos contemporâneos discutem termos como Aprendizagem Fisicamente Ativa (Mandelid, 2023) ou Educação Física Escolar Somática (Costa; Santos, 2022), evidenciando o corpo como núcleo da Educação Física: um corpo humano, histórico, social e individual, contrapondo à ideia de identidade (apenas biológica): padronizada, moldável, homogênea. Em vez disso, ressalta-se, nesses estudos, a necessidade urgente de uma nova epistemologia da Educação Física, fundamentada em uma compreensão crítica e trandisciplinar do corpo.

     

    A partir do momento em que aprendemos a nos mobilizar para o autoconhecimento, passamos, também, a potencializar-nos para a relação com o outro, conjugando esta autoafirmação com o outro. Esse processo é por demais complexo, pois vivemos em uma sociedade em que a emancipação está intimamente ligada ao poder sobre/e das coisas, e não à experiência somática (Costa; Santos, 2022).

     

     

    Essa compreensão crítica e transdisciplinar, no entendimento de Mandelid (2023), aparece no conceito de Aprendizagem Fisicamente Ativa, compreendido como multi, inter e transdisciplinar, que articula corpo, pensamento e aprendizagem em um mesmo processo (biológico, histórico, social).

    Ao trazer a integração entre movimento e reflexão para uma perspectiva contemporânea e mediada pela realidade da educação básica, é possível perceber a Educação Física como um espaço privilegiado de aprendizagem com o corpo, pelo corpo e para o corpo. Sendo este corpo entendido como presença humana, histórica, social, individual e inacabada (Freire, 1983) tem-se a oportunidade de superar o pensamento enviesado pelos vestígios higienistas, militares, tecnicistas, recreacionistas ainda presentes nas escolas brasileiras (Darido, 2003).

    Consequentemente, ampliam-se as possibilidades do reconhecimento deste corpo em diálogo com o mundo e do entendimento da Educação Física como área de conhecimento interdisciplinar (Brasil, 2019). Por tanto, a teoria integrada a prática e a reflexão dá início à caminhada de emancipação. Essa aproximação, favorece o potencial interdisciplinar presente em cada disciplina e sobretudo, o encontro do corpo, do diálogo, da reflexão, dando vida a um movimento propulsor que se concretiza na práxis transformadora. 

    Contudo, a ideia interdisciplinar que se pretende dialogar vai além do potencial de cada disciplina. Busca-se uma integração a partir da Educação Física, por sua característica e aproximação com o movimento humano, entretanto, requer a articulação da coordenação pedagógica, responsável por gerenciar as situações pedagógicas e administrativas pertinentes ao cotidiano escolar. Nesse sentido, a coordenação, ao promover o diálogo entre as áreas do conhecimento, torna-se espaço de escuta, reflexão coletiva e (re)construção do projeto pedagógico.

    Nessa perspectiva, a coordenação pedagógica atua como elo entre as disciplinas, que ao aproximarem-se também da Educação Física, possibilitam a diminuição das lacunas que dicotomizam ou fragmentam a aprendizagem em “caixinhas”. Ainda, pela compreensão ontológica presente em Freire, movimento, aprendizagem, saúde e educação deixam de ser dimensões isoladas para transformarem-se em solo fértil, onde o ato de aprender envolve intrinsecamente o ato de ser e de transformar-se.

     

    3 ETAPAS E RUMOS

     

    Compreender as potencialidades de projetos educativos interdisciplinares, no contexto da educação física e na perspectiva da coordenação pedagógica, a partir dos conceitos freireanos, que favoreçam a motivação para uma educação emancipadora e seus reflexos na convivência escolar indicam como ponto de partida a identificação de projetos interdisciplinares que envolvem a educação física, relacionando-os à coordenação pedagógica para compreender qual a percepção desses profissionais sobre o desenvolvimento dos projetos em suas realidades e assim, possibilitar a análise com base nos conceitos freireanos de suas possíveis potencialidades.  

    Ainda na etapa de aprofundamento bibliográfico, é possível perceber o potencial inerente aos projetos interdisciplinares. Conforme Fazenda (2021, p. 20) “Um projeto interdisciplinar de trabalho ou de ensino consegue captar a profundidade das relações conscientes entre pessoas e entre pessoas e coisas” e como consequência desse surgimento, a partir da vontade, nos projetos “não se ensina, nem se aprende: vive?se, exerce?se” (Fazenda, 2021, p. 20).

    A identificação dos projetos aconteceu por intermédio da Secretaria Municipal de Educação, que concedeu acesso aos Projetos Políticos Pedagógicos (PPP) vigentes de seis das sete escolas do município. O acesso aos documentos permitiu a identificação de 56 projetos, já estruturados e realizados anualmente. Destes, cinco projetos apresentaram indícios de uma estrutura interdisciplinar com possível participação da Educação Física em conjunto com outras duas disciplinas.

    Com a aprovação do comitê de ética, a etapa eminente é a ida a campo, para a realização das entrevistas semiestruturadas com os respectivos profissionais: coordenadores escolares das escolas selecionadas e professores de educação física envolvidos nos projetos.  Nessa formulação, o estudo apresenta-se como pesquisa aplicada, de abordagem qualitativa e caráter descritivo com procedimentos bibliográficos e de campo.

     

    4 HORIZONTES DA PESQUISA

     

    O vislumbre é de horizonte que se amplia nas possibilidades a partir da realidade. No desvelar daquele detalhe que cotidianamente nos passa batido. Para Fazenda (2021, p. 21) “Num projeto interdisciplinar, comumente, encontramo?nos com múltiplas barreiras: de ordem material, pessoal, institucional e gnoseológica. Entretanto, tais barreiras poderão ser transpostas pelo desejo de criar, de inovar, de ir além”.

    Movidos por esse desejo ou atitude interdisciplinar em parte, proveniente do senso comum, ao concordar com Fazenda e aproximar a teoria e a prática da reflexão, na ideia de práxis proposta por Freire, buscamos nesta pesquisa, construir uma perspectiva que contagie outros professores e pesquisadores a também dialogar, criar, inovar e ir além.

     

    5 CONEXÕES DO PERCURSO: UM MOVIMENTO DE BUSCA, NÃO DE DESTINO

     

    O diálogo, como bastão dessa caminhada, nos acompanha num movimento de busca, não de destino. Esse destino é horizonte que se expande, que pelo diálogo sempre se revela e se transforma. A caminhada, por consequência, é coletiva, permitindo que a solidão se dilua na troca do próprio diálogo.

    Essas conexões sugerem um percurso onde a subjetividade seja reconhecida intersubjetividade (Fazenda, 2021, p. 21) num exercício de superação da experiência subjetiva individual para o reconhecimento coletivo, sem, no entanto, perder-se a singularidade própria de cada corpo, de cada ser humano.

     

    REFERÊNCIAS

     

    BRASIL. Ministério da Educação. Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Documento de Área 21: Educação Física, Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional. Brasília, DF: CAPES, 2019. Disponível em: https://www.gov.br/capes/pt-br/centrais-de-conteudo/educacao-fisica-pdf. Acesso em: 27 out. 2025.

     

    COSTA, F. S.; SANTOS, A. M. Educação Física Escolar Somática: contribuições para as significações de corpo, saúde e qualidade de vida no currículo do ensino médio. Teoria e Prática da Educação, Maringá, v. 25, n. 2, p. 21-41, maio/ago. 2022. Disponível em: https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/TeorPratEduc/article/view/62302. Acesso em: 27 out. 2025.

     

    DARIDO, S. C. Educação Física na escola: implicações para a prática pedagógica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003.

     

    FAZENDA, I. C. A. Interdisciplinaridade: pensar, pesquisar e intervir. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2021.

     

    FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.

     

    FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 23. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

     

    MANDELID, M. B. et al. Approaching physically active learning as a multi-, inter-, and transdisciplinary phenomenon. Frontiers in Education, [s. l.], v. 8, p. 1-15, 2023. DOI: 10.3389/feduc.2023.10416638. Disponível em: https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/feduc.2023.10416638/full. Acesso em: 27 out. 2025.

     

    PASSOS, L. A. Tema gerador. In: GADOTTI, M.; TORRES, C. A. (org.). Dicionário Paulo Freire. Belo Horizonte: Autêntica, 2010. p. 472-474.

     

    POSSA, A. D.; DI FELICE, M. Desinteresse de estudantes do Ensino Médio pela escola: elementos do paradigma da Educação OnLIFE para compreensão de lacunas de desempenho do sistema de ensino brasileiro. Redin. Revista de Educação e Inovação, Taquara/RS, v. 13, n. 2, p. 98-116, 2024. Disponível em: https://www.eca.usp.br/acervo/producao-academica/003228503.pdf. Acesso em: 27 out. 2025.

     

    AGRADECIMENTOS

     

    À todos aqueles que acreditam no movimento interdisciplinar - não como destino, mas como horizonte que se amplia no olhar de quem ousa sonhar e na coragem de quem arrisca realizar.

     

  • Palavras-chave
  • educação emancipadora; interdisciplinaridade; Paulo Freire; educação física; coordenação pedagógica.
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