Este trabalho, derivado da pesquisa de mestrado da primeira autora, vinculada à linha de Pesquisa Formação de Professores, Políticas e Práticas Educativas e ao Grupo de Pesquisa em Formação de Professores e Práticas Educativas (GPFORPE) do Programa de Pós-Graduação em Educação da FURB (PPGE/FURB), tem como foco a formação de professores para a educação de bebês.
O estudo visa compreender quem são as professoras de bebês, como se constituem como docentes e quais saberes orientam suas práticas cotidianas. Parte-se da premissa de que, ao escolher a docência, assumimos o compromisso de ensinar em suas múltiplas dimensões. Contudo, ao adentrar o cotidiano da Educação Infantil, especialmente nos espaços que envolvem educar e cuidar, essa convicção inicial é constantemente desafiada.
Refletir sobre o berçário como espaço legítimo de práticas educativas ainda representa um desafio no cenário educacional brasileiro. Por isso, torna-se fundamental problematizar esse espaço a partir das vozes e percepções das professoras, que vivenciam no cotidiano as orientações e legislações que normatizam seu fazer pedagógico. Compreender a docência com bebês é, portanto, um exercício de escuta, análise e valorização dos saberes da prática, em um campo historicamente marcado pela desvalorização e invisibilidade social.
A reflexão que sustenta este estudo parte da compreensão de que o ato educativo é indissociável do contexto histórico, social e político em que se insere. Assim, analisar as práticas pedagógicas e os modos de ser professora de bebês é também reconhecer a docência como campo de luta e construção da identidade docente, atravessado por relações de poder, gênero e classe.
A identidade profissional docente não se constitui de forma isolada, mas é fruto de um pertencimento a uma classe social e de uma trajetória histórica construída nas políticas públicas e legislações da Educação Infantil. Thompson (1987) contribui ao compreender a classe como um fenômeno histórico, que unifica acontecimentos díspares e aparentemente desconectados, tanto da experiência quanto da consciência. Para o autor, a classe não é uma estrutura fixa, mas algo que efetivamente acontece nas relações humanas, como no caso das professoras de bebês inseridas no espaço coletivo da creche.
Nesse mesmo movimento, Sader (1988) propõe o conceito de sujeitos novos, definidos como aqueles que se constituem nas práticas sociais e políticas populares, emergindo da experiência coletiva e da ação. Tais sujeitos são forjados nas lutas sociais e comunitárias, como os clubes de mães e as comunidades eclesiais de base, que tiveram papel crucial na conquista da educação infantil pública e gratuita e na valorização da mulher como protagonista social e educativa.
As professoras de bebês, ao se afirmarem em um contexto historicamente marcado pela desvalorização da docência e pela divisão sexual do trabalho, também se configuram como sujeitos novos. Constroem estratégias próprias de atuação e resistência, apoiadas em tradições familiares, experiências pessoais e vínculos comunitários que atravessam suas práticas pedagógicas.
No campo da formação docente, Nóvoa (2022) entende que a profissionalização vai além da aquisição de técnicas: trata-se de um processo de vivência, socialização e construção coletiva de saberes. O autor destaca que o trabalho docente é coletivo e público, e que o conhecimento profissional se desenvolve no diálogo entre experiência e cultura partilhada.
Complementarmente, Sader (1988) reforça que o coletivo é o espaço onde se elabora uma identidade e se organizam práticas de resistência e criação. Assim, o saber pedagógico das professoras de bebês nasce da prática, alimenta-se da experiência e se fortalece na partilha cotidiana entre pares.
A pesquisa, de natureza qualitativa e interpretativa, fundamenta-se nos princípios da pesquisa etnográfica, buscando compreender as experiências e sentidos atribuídos à docência com bebês.
O campo empírico foi constituído por quatro professoras que atuam em turmas de berçário em uma instituição pública do município de Witmarsum, Santa Catarina. Duas delas atuam em uma turma vespertina, com bebês de quatro a doze meses, e duas em uma turma matutina, com bebês de doze a dezoito meses.
Os instrumentos de coleta de dados foram as entrevistas semiestruturadas e as observações participantes. As entrevistas buscaram compreender as trajetórias pessoais e profissionais das professoras, os sentidos que atribuem à docência e os desafios enfrentados no cotidiano. Já as observações tiveram como objetivo registrar as interações, gestos e práticas que compõem o fazer pedagógico com bebês.
A análise dos dados ocorreu por meio da análise de conteúdo proposta por Bardin (2011), o que possibilitou identificar categorias emergentes relacionadas à constituição da identidade docente, às condições de trabalho e aos saberes da prática.
Os resultados indicam que as professoras de bebês constroem uma pedagogia própria, baseada na escuta, no afeto e na observação sensível. Embora enfrentem lacunas na formação inicial e pouco reconhecimento institucional, essas docentes elaboram estratégias criativas e coletivas para dar sentido pedagógico às experiências do dia a dia.
No contexto de Witmarsum, município pequeno e predominantemente rural, a docência representa não apenas uma profissão, mas também uma forma de ascensão social e emancipação feminina. Muitas professoras veem na educação uma alternativa às lidas do campo e às malharias locais, transformando o berçário em um espaço de resistência.
Os dados também indicam que, diante da escassez de formação específica, essas profissionais aprendem com a prática e com o coletivo docente, constituindo redes informais de apoio, solidariedade e partilha. Essa dimensão coletiva confirma o que Santos (2024) aponta: os sujeitos que vivem e fazem o currículo detêm saberes fundamentais, ainda que nem sempre legitimados pelos discursos acadêmicos ou institucionais.
As falas e práticas observadas mostram que, para essas professoras, ensinar e cuidar não se opõem, mas se entrelaçam na criação de vínculos e experiências significativas desde os primeiros meses de vida. O conhecimento docente, nesse contexto, é situado, relacional e afetivo, configurando uma pedagogia que combina ternura e luta, delicadeza e resistência.
Compreender a docência com bebês exige reconhecer o berçário como espaço educativo legítimo e as professoras como sujeitos históricos e políticos. O estudo indica que o conhecimento profissional docente é produzido no coletivo e sustentado por práticas de partilha e solidariedade, constituindo uma cultura profissional própria da Educação Infantil.
Reconhecer o saber das professoras de bebês é reconhecer a potência transformadora da educação infantil e o papel filosófico, ético e social da docência como prática de emancipação. Como lembra Nóvoa (2022), há muitas maneiras de ser professor, mas todas têm em comum o caráter coletivo e público do conhecimento profissional.
Essas professoras, ao se constituírem como sujeitos novos, reafirmam o lugar da docência como ato político e de criação de sentido, revelando que educar bebês é também educar o mundo para a sensibilidade, o cuidado e a humanidade.
REFERÊNCIAS
ANDRÉ, Marli Eliza Dalmazo Afonso de. Etnografia da prática escolar. Campinas: Papirus, 1995.
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2011.
NÓVOA, António. Profissão professor: o tempo e a vida. Lisboa: Tinta da China, 2022.
SADER, Eder. Quando novos personagens entram em cena: experiências, falas e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo (1970-1980). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
SANTOS, Marlene Oliveira dos. Currículos praticados com bebês. São Paulo: Pimenta Cultural, 2024.