MOVIMENTOS E SENTIMENTOS: OFICINAS DE DANÇA E O ENFRENTAMENTO DA VIOLÊNCIA ESCOLAR EM UMA ESCOLA PÚBLICA DO INTERIOR DE SÃO PAULO

  • Autor
  • Marília Gabriella Borges Machado
  • Resumo
  •  

     

                                                                               

     

    RESUMO EXPANDIDO

     

    Grupo de Trabalho (GT):

     

    Modalidade do trabalho: comunicação online

     

    Formato de apresentação: on-line

     

    MOVIMENTOS E SENTIMENTOS: OFICINAS DE DANÇA E O ENFRENTAMENTO DA VIOLÊNCIA ESCOLAR EM UMA ESCOLA PÚBLICA DO INTERIOR DE SÃO PAULO

     

    Dra. Marília Gabriella Borges Machado[1]

                                                                                       

    PALAVRAS-CHAVE: Dança, Escola, Educação.

     

    1 INTRODUÇÃO

    Comecei a dançar para me encontrar. Mas, só soube me perder nas encruzilhadas. Quitéria disse para eu ir para lá, Marabô me puxou pra cá. Padilha me deu a mão, Caveira disse sempre que não. Jurema gritou comigo, Mariazinha me sorriu carinhosa. Maria Conga me levou pra África e Navalha me trouxe de volta. Mirim me cuida. Oyá me ventania e Oxumaré dança comigo. Assim me fiz, me faço, me torno, me giro. Giro. Reviro. Não sei nada fazer além de dançar. Dancei no deserto. Dancei no mar. Dancei na areia da praia. Dancei para homens e mulheres. Dancei para gatos e paredes. Dancei para crianças, jovens, adultos e velhos. Dancei para olhos que me enxergaram, me desabrocharam, me amaram e, assim, aprendi a dançar para mim (Uragano, 2025).

     

    Este trabalho tem como objetivo principal desenvolver uma breve reflexão e compreensão acerca da importância da dança na vida humana. Enquanto relato de experiência, na metodologia será explicado como trabalhar dança na educação é uma das formas de desenvolver um ambiente saudável, sem competitividades e de autoconhecimento entre meninas e mulheres.

    Nesse sentido, compreender os aspectos técnicos e expressivos que constituem a prática da dança torna-se fundamental para reconhecer seu potencial educativo e formativo. Um dos temas recorrentes no campo dos estudos em dança refere-se à articulação entre técnica e expressividade. Embora seja comum considerar a dança como uma manifestação direta e espontânea das emoções, a expressividade resulta de um processo complexo de elaboração. Para que sentimentos e afetos possam ser comunicados por meio do corpo em movimento, é necessária a transformação dos gestos e movimentos cotidianos em uma linguagem artística específica, o que ocorre por meio da aplicação de procedimentos técnicos e formativos.

    A essência da dança é o movimento — o movimento do corpo no ato de dançar. No entanto, a forma assumida por esse movimento é, por natureza, efêmera, fugaz e transitória. A dança se realiza na impermanência do gesto, em movimentos que emergem e se dissipam quase instantaneamente, desconstituindo-se no mesmo momento em que se constituem. Como afirma Katz (1994, p. 58), “Quando irrompe no corpo, o movimento, ele mesmo, já um resultado, se presentifica como um único. Irrepetível. Porque é da qualidade do movimento morrer a cada vez que nasce”.

    Nesse sentido, este trabalho desenvolverá aspectos essenciais que nos auxiliará a compreender a relação entre dança-emoção-sentimento-movimento, com olhar diretamente da educação física, mas sem perder de vista a importância da dança no processo de transformação do ser humano. Enquanto metodologia, serão analisados artigos acadêmicos sobre a temática da dança, dançaterapia e a dança na educação física para que se sustente teoricamente o que se propõe: demonstrar que é possível a dança transformar o ser humano.

     

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

    Em Arteterapia: os benefícios da dança no processo psicoterapêutico para ansiedade (Bezerra, Silva e Sá, 2024, p.02), as pesquisadoras realizam uma análise sobre a influência da dança no combate à ansiedade. Compreende-se que a ansiedade tem sido um dos problemas recorrentes e presente em nossa sociedade, sendo prejudicial à saúde mental e à saúde física, que pode “afetar o desenvolvimento de afazeres do dia, o abandono de atividades, afastamento do campo social, tudo por medo de desencadear sintomas e até mesmo uma possível crise”, além de afetar a autoestima.

    Um dos aspectos abordados pelas autoras é que com a dança é possível desenvolver um olhar para si mesmo, por mais que a pessoa não tenha ainda tido a devida percepção, até pelo fato de o próprio corpo ser “um canal do inconsciente com o seu mundo externo, além de ser uma ferramenta do qual amplia o lado afetivo do indivíduo, a confiança e autonomia para ir se libertando aos poucos” daquilo que impacta diretamente no cotidiano e nos medos (Bezerra, Silva e Sá, 2024, pp.03-04).

    Em definição, a arteterapia pode ser entendida como um instrumento capaz de possibilitar o autoconhecimento e a simbolização de emoções, sentimentos, traumas e problemas. Para tanto, é utilizada na possibilidade de resolução de conflitos, prevenção e promoção de saúde física e emocional. Pintar, desenhar, modelar, cantar, plantar, construir, dançar, entre outras atividades são capazes de construir um processo ativo na escolha de materiais, cores, estilos, linhas e texturas. O fazer criativo e artístico é capaz de contribuir para o fortalecimento dos sentimentos de dignidade e de autonomia (União Brasileira e Associações de Arteterapia, 2017).

    No artigo Corpo: instrumento de autoconhecimento na dança e dançaterapia, Santos (2010), além de sua experiência como bailarina e coreógrafa, realiza uma pesquisa bibliográfica e identifica elementos essenciais para compreendermos a importância da dança, da música e da expressão corporal.  

     

    A dança e a dançaterapia são formas de linguagem não verbais que permitem uma abertura para a afetividade, sensibilidade, criatividade, espontaneidade e comunicação. A música é uma das principais ferramentas e fontes de inspiração e exploração, tanto para a dança como para a dançaterapia. O nosso corpo é o canal, um instrumento de vida, de expressão e de energia interior. O objetivo da dança e da dançaterapia é ajudar o indivíduo a retomar sua natureza primária e perceber o pulsar da vida dentro de si. A dança não é natural. Ela é social, histórica e adquirida. Quando se trabalha com a consciência do movimento, esta consciência produz um processo de autoconhecimento, de libertação e de criatividade que permitem ao indivíduo estar bem mais situado na sociedade e na (re)construção de sua própria identidade (Santos, 2010, p. 02).

     

    Na área da educação física, compreendemos que a dança, assim como a ginástica e o movimento corporal são estratégias que auxiliam na promoção de saúde e de doenças como o estresse, a ansiedade, a depressão. As práticas de movimentar o corpo estão diretamente relacionadas com o bem-estar, de maneira que a autoestima é melhor trabalhada e promove alegria e prazer, impactando positivamente na qualidade de vida.

    A dança é corpo; é alma. Inseri-la no sistema educacional pode ser um instrumento extremamente positivo, tanto para interatividades acadêmicas, como de parcerias entre alunos, mas, contudo, devem-se observar as anuências que cada um carrega consigo. Incentivar sempre, obrigar jamais. As fases da vida mais conturbadas do indivíduo encontram na adolescência. São muitos hormônios circulando pelo corpo e isso causa inquietação entre os jovens, também nas crianças (Souza, 2013, p.13). 

    Sendo assim, a dança pode ser transformada em dançaterapia ao oferecer diversos benefícios biopsicossociais. Na parte cognitiva e sensorial, é possível desenvolver a memória auditiva, corporal, espacial e sensorial, enquanto no aspecto físico a dança fortalece os músculos, amplia a flexibilidade corporal e articular e estimula o sistema nervoso (Santos, 2010).

     

    3 METODOLOGIA

    A metodologia adotada neste trabalho fundamenta-se na perspectiva da pesquisa-ação e do relato de experiência, compreendendo o ambiente escolar como espaço de formação integral e de vivência corporal, afetiva e social. Partindo da constatação de que a escola pode, muitas vezes, reproduzir práticas de violência simbólica e competitividade, especialmente entre meninas adolescentes — expressas por padrões estéticos, gordofobia, racismo e controle sobre os corpos femininos —, buscou-se desenvolver ações pedagógicas que promovessem a valorização da diversidade corporal, o autoconhecimento e a expressão artística.

    As atividades foram realizadas em uma escola do interior do estado de São Paulo, em 2026, em diferentes momentos do calendário letivo, com foco na construção de um espaço educativo de acolhimento, diálogo e criação coletiva. As práticas envolveram oficinas de dança, leitura, escrita e produção artística, articulando aspectos históricos, culturais e expressivos da experiência feminina.

    A primeira ação, intitulada “Março: Mulheres em lutas, mulheres de lutas”, teve como objetivo desenvolver uma compreensão histórica das diferentes lutas travadas pelas mulheres ao longo do tempo, em âmbito nacional e internacional. Foram promovidas rodas de conversa e uma oficina de escrita intitulada “De mulheres para mulheres”, na qual as estudantes elaboraram mensagens de apoio e sororidade destinadas a outras mulheres da escola. Os bilhetes foram reunidos em uma “caixinha de acolhimento” na sala de leitura, podendo ser revisitados sempre que as alunas desejassem uma palavra de incentivo. Essa atividade estimulou a reflexão sobre o ser mulher, a valorização de escritoras brasileiras como Carolina Maria de Jesus, Clarice Lispector e Cora Coralina, além do desenvolvimento de habilidades socioemocionais e de convivência em grupo.

    A segunda ação ocorreu no mês de maio, também na sala de leitura, e teve como eixo a dança cigana artística e a valorização das tradições familiares. A atividade foi composta pela leitura de um conto, seguida de uma roda de conversa e de uma produção de textos individuais sobre tradições familiares. As alunas foram orientadas a refletir sobre práticas cotidianas e memórias afetivas, relacionando-as à importância dos laços familiares e culturais. Foram elaborados livros e cartazes com os relatos, integrando literatura, memória e arte. No mesmo período, realizou-se uma apresentação de dança cigana artística, conduzida por mim – também bailarina e educadora física, na qual busquei demonstrar a potência simbólica e expressiva do corpo em movimento.

    A terceira ação, intitulada “Corpos livres – o feminino em movimentos”, foi uma oficina de dança do ventre realizada em maio, no período noturno. Nessa oficina, discutiu-se o caráter histórico e simbólico da dança do ventre, desde suas origens no Egito Antigo e na Mesopotâmia até sua ressignificação contemporânea como prática de empoderamento e liberdade corporal. A proposta enfatizou que a dança do ventre é para todos os corpos, promovendo a autoexpressão, o reconhecimento da força e da sensualidade feminina, e permitindo que cada participante desenvolvesse seu próprio estilo e narrativa corporal.

    Por fim, em setembro, durante as atividades do Setembro Amarelo – Valorização da Vida, foi promovida uma roda de conversa, apresentação artística e oficina de dança, com o intuito de fortalecer vínculos afetivos, promover o acolhimento emocional e reafirmar a importância da expressão corporal como ferramenta de cuidado e valorização da vida.

    Todas as ações integraram dimensões educativas, artísticas e emocionais, reafirmando o potencial da dança e da arte como instrumentos de formação crítica, empoderamento feminino e promoção de saúde mental no contexto escolar.

     

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

    Os resultados das ações demonstraram que a dança pode atuar como instrumento pedagógico de emancipação e enfrentamento da violência escolar, especialmente das violências simbólicas que incidem sobre corpos femininos e racializados. As oficinas possibilitaram a criação de um espaço de acolhimento e solidariedade, rompendo com a lógica competitiva e disciplinadora presente no cotidiano escolar e favorecendo relações de empatia e respeito entre as estudantes.

    Na perspectiva marxista, compreende-se que a escola reflete as contradições sociais e reproduz desigualdades. Assim, a inserção da dança como prática educativa crítica contribui para superar a alienação e promover a formação integral, articulando corpo, emoção e consciência social. O gesto e o movimento tornam-se linguagem, e o corpo, historicamente controlado, passa a ser reconhecido como meio legítimo de expressão e transformação.

    Assim, as experiências confirmam que a dança na escola vai além do aspecto estético: é ação política e pedagógica que contribui para a construção de uma educação libertadora. Ao valorizar o corpo, a arte e a coletividade, o projeto possibilitou resistir à alienação e às formas de violência, reafirmando o papel da escola como espaço de formação crítica, acolhimento e transformação social.

     

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Para tanto, a dança quando aliada com a dançaterapia se torna uma ferramenta terapêutica potencial que forma e transforma sujeitos mais conscientes, emocionalmente equilibrados e mais autônomos. Seja nas aulas de educação física, no cotidiano ou em escolas especializadas, as aulas de danças se tornam essenciais para os benefícios já demonstrados anteriormente.

    Observa-se que a inserção da dança nas aulas de Educação Física possui potencial para contribuir na desconstrução de concepções restritivas de masculinidade e feminilidade, favorecendo o reconhecimento e o respeito às individualidades dos alunos. Entretanto, para que tal contribuição se concretize, é imprescindível que a dança seja efetivamente incorporada ao currículo escolar e às práticas pedagógicas. Ressalta-se ainda que, embora a dança possa atuar como ferramenta no enfrentamento de manifestações sexistas, essa não deve ser sua única finalidade. Sua eficácia depende do desenvolvimento de ações integradas e reflexões compartilhadas entre os diversos atores que compõem o cotidiano escolar e familiar, promovendo, assim, um ambiente educativo mais inclusivo e respeitoso.

    Portanto, a dança, enquanto expressão cultural, constitui um importante instrumento de inclusão social, ao possibilitar o desenvolvimento de sentimentos, a formação de uma consciência crítica e a promoção da aceitação e integração dos indivíduos no grupo. Ao oportunizar experiências de respeito e igualdade, a prática da dança permite que cada participante se sinta valorizado e reconhecido em sua participação nas atividades coreográficas. No contexto da Educação Física escolar, ressalta-se que o objetivo não é a formação de profissionais da dança, mas sim proporcionar aos estudantes a possibilidade de expressarem suas emoções e ritmos por meio do movimento, favorecendo o desenvolvimento integral e o aprimoramento das habilidades psicomotoras e socioemocionais.

     

    REFERÊNCIAS

    BEZERRA, Gabrielly Lourenço Abel; SILVA, Jéssica Martelosso da; SÁ, Jeferson Souza de. Arteterapia: os benefícios da dança no processo psicoterapêutico para ansiedade. Revista Conversas em Psicologia, v. 5, n. 2, e002, 2024. DOI: 10.33872/conversaspsico.v5n2.e002. Disponível em: https://revistaconversasempsicologia.com/artigo/e002. Acesso em: 10 jun. 2025.

    DANTAS, Mônica Fagundes. Movimento: matéria-prima e visibilidade da dança. Movimento, Porto Alegre, ano 3, n. 6, p. 51–60, 1997.

    PACHECO, A. J. P. Educação física e dança: uma análise bibliográfica. Pensar a Prática, Goiânia, v. 2, p. 156–171, 2006. DOI: 10.5216/rpp.v2i0.148. Disponível em: https://revistas.ufg.br/fef/article/view/148. Acesso em: 10 jun. 2025.

    SANTOS, Kênia Soares Moreira dos. Corpo: instrumento de autoconhecimento na dança e dançaterapia. Olhares & Trilhas, v. 12, n. 2, 2010.

    SOUZA, Thais Wanderley de. Dança na Educação Física Escolar. 2013. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Educação Física) – Faculdade de Ciências da Educação e Saúde, Centro Universitário de Brasília – UniCEUB, Brasília, 2013.

    UBAAT – União Brasileira de Associações de Arteterapia. Contribuição da Arteterapia para a Atenção Integral do SUS. Rio de Janeiro, 2017. Disponível em: https://bit.ly/2QGZwRo. Acesso em: 10 jun. 2025.

     


    [1] Doutora em Ciências Sociais, UNESP/FFC, Università degli Studi di Cagliari – Itália, m.machado@unesp.br

     

  • Palavras-chave
  • Dança, Escola, Educação.
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 1 - Convivência escolar e enfrentamento à violência: práticas que desenvolvemos para a melhoria da qualidade da escolarização
Voltar Download
  • GT 1 - Convivência escolar e enfrentamento à violência: práticas que desenvolvemos para a melhoria da qualidade da escolarização
  • GT 2 - Filosofia e Epistemologia da Educação
  • GT 3 - Mudanças Climáticas: educação ambiental, saúde e produção de alimentos
  • GT 4 - Educação Física e Esporte
  • GT 5 - Divulgação científica/Ensino de Ciência
  • GT 6 - Arte e Educação
  • GT 7 - Educação Profissional e Tecnológica
  • GT 8 - Novas Tecnologias na Educação
  • GT 9 - Questões Étnico-Raciais na Educação
  • GT 10 - Agricultura, Sociedade e Educação
  • GT 11 - Educação Superior
  • GT 12 - Educação Comparada
  • GT 13 - Desafios, tendências e impactos das políticas públicas na educação: qualidade, equidade e gestão em perspectiva nacional e internacional
  • GT 14 - Educação Inclusiva
  • GT 15 - Plurilinguismo na Educação
  • GT 16 - Linguagens e letramentos na Educação