‘PENSAR EM MOVIMENTO’ EM PAULO FREIRE: UMA METODOLOGIA DE APRENDIZAGEM

  • Autor
  • Cláudio Roberto Brocanelli
  • Resumo
  •  

    1 INTRODUÇÃO

    Este texto é fruto de conversas anteriores e de estudos, com reflexões de textos de Paulo Freire que nos deram a oportunidade de aproximar pensamentos e elaborar movimentos possíveis para a compreensão da escola como um todo, germinando ideias que até então não eram consideradas devidamente. Freire nos oferece uma oportunidade de recriar as relações intramuros da escola, firmando a cada vez a forma como acreditamos ser verdadeira a sala de aula com uma aprendizagem que acontece com o envolvimento de todos, sem exceção, num formato que caracteriza uma comunidade de investigação. Portanto, meu desejo é que a partir deste momento, com novas reflexões e novas leituras e releituras e discussões, o Pensar em Movimento como Metodologia de Aprendizagem se torne uma realidade efetivamente nos meios acadêmicos, valorizando uma Filosofia de Educação própria e próxima do espaço em que estamos, ‘daqui’.

    A intenção é pensar modos possíveis e/ou já existentes em outros ambientes, os quais poderiam ser vividos também na escola, na educação oficializada. Há uma falha na escola que se repete na medida em que dá enfoque a um ensino como uma reprodução do mesmo, de saberes já existentes que apenas são reproduzidos em tais ambientes. Parece-nos que a escola se esquece da vida já vivida pelas crianças, jovens e adultos, oferecendo a informação repetida e desprezando as experiências de vida de cada um que ali está, seja antes do seu ingresso na escola ou durante a sua permanência nela; vida é integralidade e é o que deve estar nas raízes das relações.

     

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

    A partir de escritos de Paulo Freire, a proposta é a de ver a escola como um lugar que também é vida. É troca, é humanização, é dialogicidade que se volta à aprendizagem como círculo, lugar de participação de todos os envolvidos. No mesmo sentido, proponho o Pensar em Movimento como Metodologia de Aprendizagem, ao invés de Metodologia de Ensino, de forma que antes de qualquer soberba ou arrogância daquele que ensina, esteja o desejo e as disposições de/para aprendizagem de todos os envolvidos, como uma abertura aos possíveis sem a pretensa matéria imposta. Paulo Freire (1961) nos oferece uma compreensão para que a educação tenha uma característica de ‘Pensar em Movimento’ e que a sala de aula seja um ambiente de produção de conhecimentos a partir de experiências particulares partilhadas por meio do diálogo numa comunicação constante.

    Em seus escritos contidos em Pedagogia do Oprimido, obra que retrata a importância de uma pedagogia que brota dos lugares próprios e do ser aí, daquele que está intimamente ligado à realidade vivida e experimentada cotidianamente, vemos a possibilidade de olhar e verificar a educação em nossos dias e como ela pode atender e responder aos anseios de nosso alunado. Para que seja possível chegar a uma resposta a esse desafio lançado, devemos perguntar onde está a educação verdadeiramente, como um processo formativo integral e integrado com a realidade vivida, valorizando a humanização, destacada pelo autor, bem como realizar um processo de visita às nossas escolas, especialmente da escola da qual fizemos parte algum dia, olhando novamente para suas raízes e para tudo o que vivenciamos nela e que nos formou do modo como somos.

    Para realizar esse mesmo Pensar em Movimento, carecemos aqui de fazer e trazer um questionamento para nossos dias, à luz de nossas vivências anteriores, buscando a compreensão do momento e as possibilidades de formação em nossos dias; além disso, é sumamente importante pensar a educação a partir da nossa realidade, conforme nos orienta Freire.

     

     

    3 METODOLOGIA

    Este texto está sendo construído a partir de leituras de textos de Paulo Freire a fim de coletar os termos ou conceitos ‘pensar’ e ‘movimento’ ao mesmo tempo em que tais termos constituam a indicação de um Pensar em Movimento; Freire demonstra esse pensar constante e a reflexão permanente de modo que cada pessoa possa alcançar a consciência de si e do mundo de maneira mais elaborada, crítica e com o pensar certo. Para ele, o diálogo, ou a dialogicidade, é uma ferramenta importante para que se dê esse movimento contínuo de formação de todos os envolvidos com a escola e a educação como um todo, em todos os seus ambientes e formatos. Para isso, ainda que apenas com algumas obras, o texto aqui apresentado é constituído a partir de uma pesquisa bibliográfica qualitativa com apoio na revisão de literatura restrita às suas obras.

     

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

    Fundamentalmente, Freire (1961) prioriza pensar uma Pedagogia do Oprimido na perspectiva de revelar a importância de cada um dizer a sua palavra; isso implica na valorização de cada pessoa ser considerada em todas as suas dimensões, ou seja, o que cada pessoa é de acordo com toda a sua história e trajetória de vida.

    Comumente, nos espaços escolares, não há momentos para se pensar a respeito de tudo o que nos educa, nos forma, nos indica caminhos perante a vida; a prisão à grade curricular nos coloca a todos numa forma (fôrma) quadrada que deve ser seguida, ‘uniformemente’. No entanto, apesar de a escola ser um dentre todos os espaços que nos educam, deveria tratar de todos os acontecimentos da vida, os quais vão e estão além e aquém do quadrado da sala de aula. O Pensar em Movimento que estamos indicando, passa pela necessidade de valorizar tudo o que ocorre com o ser humano, durante toda a sua vida a fim de encontrar suporte, informação e conhecimento para lidar com todas as situações.

     

    Vale pensar a partir dessa proposta de modo que cada educador reveja as suas práticas pedagógicas e continue a fazer acontecer uma aprendizagem que se dê verdadeiramente de forma integralizada com toda a vida dos envolvidos.

    Freire, tem um compromisso com a vida, pensando tudo o que está ligado à existência; não apenas reproduz ideias, mas a vida em movimento contínuo. A vida, portanto, é uma práxis libertadora, o que abrange todas as nossas ações e vivências; ou seja, uma prática quotidiana em busca de libertação de muitas amarras que a sociedade apresenta, seja com relação às obrigações de cidadão – injustamente –, seja por meio de mecanismos massificadores. Tudo isso exige de cada pessoa uma leitura abrangente a respeito de sua própria vida. Para que isso ocorra, apesar de ser a libertação um processo lento, ela é possível e pode se dar aos poucos em toda a sociedade humana; isso exige o constante pensamento a respeito das formas de dominação existentes entre nós, em variadas instâncias. Para tanto, sugere-se uma Pedagogia do Oprimido de forma a possibilitar a libertação a partir da base e de cada indivíduo.

    Toda a nossa sociedade – e isso se confirma cada vez mais – é governada a partir de interesses de grupos e classes dominantes, com mentalidade dominante. Portanto, uma educação como prática da liberdade exige uma Pedagogia do Oprimido; não uma pedagogia para ele, mas uma pedagogia dele, como sujeito que se autoconfigura responsavelmente. Na sociedade e na educação como um todo há a supremacia de práticas de dominação; a Pedagogia do Oprimido sugere a libertação e a tomada de consciência de ambas as partes: dos dominantes e dos dominados. Para que isso ocorra, é necessário que ambos tenham consciência do que praticam, superando modelos estabelecidos e abrindo-se para um quefazer novo, conforme estamos propondo como um Pensar em Movimento que dê outras possibilidades e se abra para as falas de todas as pessoas envolvidas.

    O Pensar em Movimento se verifica em defesa de um processo de vida que passa do nível biológico para o biográfico; então, a alfabetização é aprender a escrever a sua vida como um autor e como testemunha de sua própria história, ou seja, é biografar-se, existenciar-se, historicizar-se. Isso poderá acontecer na sociedade e na escola quando aceitarmos a presença e o auxílio de uma Pedagogia do Oprimido como método de ensino e aprendizagem.

    Esse método – O Pensar em Movimento – também vem priorizar um humanismo pedagógico como um processo histórico em que o homem se reconhece (a si mesmo no mundo) e onde se lança com projetos de vida como tomada de consciência, bem como opções próprias, decisão e compromisso. Assim como nos indica Freire, alfabetizar é conscientizar. O Pensar em Movimento nos dá a oportunidade de ter mais plena consciência dos processos formativos e de uma leitura mais ampla e completa da realidade, aprendendo a letra, a palavra e o dinamismo do mundo.

    Para ilustrar um pouco o Pensar em Movimento, temos em Freire a afirmação de que a educação reproduz, assim, em seu plano próprio, a estrutura dinâmica e o movimento dialético do processo histórico de produção do homem. Para o homem, produzir-se é conquistar-se, conquistar a sua forma humana. Assim, a pedagogia é antropologia. Portanto, a hominização não é adaptação: o homem não se naturaliza no mundo, mas pode humanizar o mundo; sua hominização é processo biológico e processo histórico, o que se dá como processos de crescimento e desenvolvimento físico-individual do ser e histórico-coletivo da humanidade.

    Em sua metodologia, Freire valoriza o círculo; círculo feito de pessoas; círculo de cultura. Quando se dialoga em círculo, se re-vive a vida em profundidade crítica, momento em que se pode tomar plena consciência que emerge do próprio mundo vivido. Nesse momento o homem pode objetivar seu mundo, problematizar seu mundo e a própria sociedade onde está para, assim, compreender-se como projeto humano e subjetivamente constituído. Todos juntos, em círculos e em colaboração na criação e re-criação do mundo.

    Com um Pensar em Movimento, é possível permitir que cada pessoa se descubra e expresse seu ser com a maior plenitude possível; um valor fundante de expressão e comunicação de si. Desse modo, instaura-se uma alfabetização coerente com as possibilidades de dizer a sua palavra própria e como processo antropológico donde o homem pensa e escreve a sua história. A vocação humana, para Freire, está firmada no anseio de liberdade, de justiça e de luta pela recuperação de sua humanidade.

    Do mesmo modo, o Pensar em Movimento exige de nós uma visita às nossas raízes e a plena consciência do que vivemos; é lembrar de quem nos criou, nos educou, nos deu os primeiros ensinamentos, nossos pais, avós e outros educadores e todos os nossos antepassados, os quais deram raízes a nós. Além disso, ver o lugar onde iniciamos nossa vida, como uma visita ao que se passou, materialmente e espiritualmente. Há uma história atrás de nós, que nos alimentou e que precisa ser resgatada, lembrada, vivenciada na forma de uma resistência às novidades vazias de sentido na atualidade. Leitura do mundo, leitura da palavra e nova leitura do mundo, como diria Freire (2001), pois ele mesmo afirma nos inícios da carta essa possibilidade de ensinar e aprender que se dão na mesma medida e ao mesmo tempo, concomitantemente às leituras da palavra e do mundo; ou seja, se lê o mundo com todas as ferramentas e elementos que já se tem, podendo, com a palavra, realizar mais uma vez e sempre novas leituras de forma que há também novas compreensões com a palavra que cria e recria o ser no mundo onde habita.

    Portanto,

    É que não existe ensinar sem aprender e com isto eu quero dizer mais do que diria se dissesse que o ato de ensinar exige a existência de quem ensina e de quem aprende. Quero dizer que ensinar e aprender se vão dando de tal maneira que quem ensina aprende, de um lado, porque reconhece um conhecimento antes aprendido e, de outro, porque, observado a maneira como a curiosidade do aluno aprendiz trabalha para apreender o ensinando-se, sem o que não o aprende, o ensinante se ajuda a descobrir incertezas, acertos, equívocos (Freire, 2001, p. 01).

     

    É um acontecimento que se dá em via de mão dupla, momento em que se ensina e aprende no mesmo processo, respeitoso e dialógico, movimentando ideias e provocando e promovendo discussões e (re)pensamentos. Há uma riqueza nessa afirmação de freire, pois sempre que esse ensinante consegue realizar meios de auxiliar na percepção daquilo que pensou ou falou, levando o aprendiz (e ensinante) a ver seus equívocos e seus acertos, alinhando e revendo o que pensa com a leveza da compreensão, há a construção de um pensar que se movimenta com a participação efetiva dos envolvidos. Os professores não são um empecilho para a aprendizagem, mas apenas pessoas outras que auxiliam as aprendizagens, promovendo esse movimento diante da abertura e curiosidade dos que ali estão, juntos.

    Somente com tais ações e compreensão melhor de um Pensar em Movimento como método de orientação de todo o proceder acadêmico e suas práticas pedagógicas, se alcançará os feitos e os efeitos de uma aprendizagem coerente com a vida, germinando as novidades com um prazer educativo, uma realização humana no espaço escolar.

     

     

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    O modo como vemos e desejamos se realizar a escola e a própria sala de aula, nos leva a considerar que a aprendizagem exige a troca de experiências, o que é possível com a interlocução e a permissão da voz e da vez de falar o que se pensa; somente com essa realidade de ensinar e aprender na dialogicidade, poderá ser efetivada uma escola que respeita a cada um com toda a sua história de vida, com suas raízes e com todas as suas expressões, valorizando o ser humano como carregado de elementos propícios que dão o que pensar, seja qual for a realidade em que vive, buscando a humanização permanente que atenda a todas as pessoas.

    Tais provocações nos servem de indicações para seguir outro percurso de ensino/aprendizagem que não aja por meio de caprichos e vontades próprias em vias únicas, mas que sempre considere o outro e o que esse outro pode oferecer, sendo ele um indivíduo que possui variadas experiências a serem compartilhadas e que são uma riqueza para a reflexão dialógica. Talvez estejamos acostumados com a indiferença, mas é tempo de rever as estratégias e as metodologias, a fim de que prepondere a reflexão em via de mão dupla, com a contribuição do outro.

     

     

    REFERÊNCIAS

    FREIRE, P. Carta de Paulo Freire aos Professores. In: https://www.scielo.br/j/ea/a/QvgY7SD7XHW9gbW54RKWHcL/?lang=pt&format=pdf Acesso em 27 de jul de 2021.

     

    ________. Pedagogia do Oprimido. Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1961.

     

    ________. Educação como Prática da Liberdade. Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1967.

     

  • Palavras-chave
  • Educação, Freire, Pensar em Movimento, Aprendizagem.
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 2 - Filosofia e Epistemologia da Educação
Voltar Download
  • GT 1 - Convivência escolar e enfrentamento à violência: práticas que desenvolvemos para a melhoria da qualidade da escolarização
  • GT 2 - Filosofia e Epistemologia da Educação
  • GT 3 - Mudanças Climáticas: educação ambiental, saúde e produção de alimentos
  • GT 4 - Educação Física e Esporte
  • GT 5 - Divulgação científica/Ensino de Ciência
  • GT 6 - Arte e Educação
  • GT 7 - Educação Profissional e Tecnológica
  • GT 8 - Novas Tecnologias na Educação
  • GT 9 - Questões Étnico-Raciais na Educação
  • GT 10 - Agricultura, Sociedade e Educação
  • GT 11 - Educação Superior
  • GT 12 - Educação Comparada
  • GT 13 - Desafios, tendências e impactos das políticas públicas na educação: qualidade, equidade e gestão em perspectiva nacional e internacional
  • GT 14 - Educação Inclusiva
  • GT 15 - Plurilinguismo na Educação
  • GT 16 - Linguagens e letramentos na Educação