1 INTRODUÇÃO
A promoção de um conviver ético nas instituições educativas e na sociedade perpassa pelo cuidado com um elemento essencial nas relações interpessoais: a comunicação. Para além da intenção, importa a forma como nos expressamos e ouvimos o conteúdo da nossa fala, bem como a leitura social e de mundo que imprimimos em nosso discurso e na nossa escuta.
Nesse sentido, o estudo e a reflexão sobre a comunicação de cada pessoa e também de um coletivo, pode contribuir para a melhoria da qualidade das relações. Nesse movimento, importa que possamos atrelar a ideia de melhoria a uma perspectiva ética, na qual o respeito, a equidade, a justiça social, a empatia são valores e sentimentos chave, conectados a uma formação cidadã.
As instituições educativas são locais por excelência do encontro com a pluralidade de ideias, portanto, contextos propícios para que as relações entre as pessoas possibilitem a aquisição e adesão dos valores acima mencionados, possibilitando uma formação cidadã. Essa formação por sua vez está explícita nas metas e ideal de ser humano almejados pelo Instituto Federal do Ceará-IFCE em seu Projeto Político-Pedagógico Institucional (IFCE, 2018). A comunicação por sua vez é o meio pelo qual conseguimos expressar esses valores, bem como, os mais diversos sentimentos advindos das relações vivenciadas, inclusive nos momentos de conflito.
Compreendemos que enquanto instituição educativa é necessário que possamos pensar sobre as formas pelas quais comunicamos aquilo que pensamos e sentimos, a fim de caminharmos em direção a uma convivência ética. Consideramos que o uso de uma linguagem descritiva (Vinha, 2000) e Comunicação Não-violenta (Rosemberg, 2006) podem auxiliar nessa caminhada.
Considerando as perspectivas discutidas até aqui é que a temática da comunicação foi escolhida para compor o primeiro eixo de discussão do Projeto Ekonvivência, uma formação realizada em 2024, junto a integrantes da Equipe Gestora ampliada (diretorias e coordenadorias) de 33 campi e da reitoria do IFCE. A partir dessa formação, foi criada a comissão de Cultura de Paz e Convivência escolar, composta por oito integrantes, que também participaram do projeto.
Além de compor a Comissão, as e os servidores também foram convidadas(os) a realizar propostas formativas em alguns campi. Neste trabalho compartilharemos uma reflexão sobre a experiência de oficina “Da fala à escuta: a Comunicação Não Violenta como ferramenta para a construção de relações mais acolhedoras”, desenvolvida por uma das autoras e integrante da Comissão, em um dos campi do IFCE.
A forma como nos comunicamos pode produzir pontes ou muros nas relações, inclusive naquelas que vivenciamos nas instituições educativas (Gonçalves, Oliveira, 2022). Sendo esse espaço reprodutor e também produtor de formas de nos relacionarmos em sociedade. Importa que possamos pensar as escolas como espaços potentes para o desenvolvimento individual e coletivo na direção de um conviver ético, refletindo o quanto a comunicação pode influenciar nesse processo.
Pensando nessa relação entre comunicação, desenvolvimento de valores e da autonomia moral, Wrege et al. (2014) e Vinha (2000) discutem que a linguagem utilizada por cada docente importa. Isso porque além de servir como modelo, o uso de uma fala descritiva e que não produz julgamento é potente para que estudantes compreendam melhor sobre quais pontos estão avançando ou ainda precisam avançar, seja na dimensão comportamental ou cognitiva.
Essa linguagem que descreve e não é valorativa corrobora com a abordagem da Comunicação Não Violenta (CNV) criada por Marshall Rosemberg (2006). Para ele, a maior parte dos conflitos humanos não deriva das diferenças em si, mas da forma como nos expressamos diante delas. A CNV estrutura-se em quatro componentes que visam transformar o modo de comunicar: 1) Observação sem julgamento; 2) Identificação dos sentimentos; 3) Reconhecimento das necessidades; 4) Formulação de pedidos claros e viáveis. Esses elementos deslocam a comunicação do campo da acusação para o campo do encontro. O pilar estruturante desses quatro componentes é a empatia. “Escutar o outro com o coração, sem julgar ou aconselhar, apenas compreendendo”. (Rosenberg, 2006, p. 54).
A prática da CNV exige uma escuta ativa capaz de realizar o movimento de colocar-se no lugar do outro, a partir do seu contexto e com isso, dialogar com as diferentes experiências, mas também com os sentimentos, emoções e nuances envolvidas no engajamento com o interlocutor. Para Paulo Freire (1996), saber escutar é condição para o desenvolvimento de uma prática educativa democrática. A escuta ativa é essencial para o desenvolvimento do diálogo. Essa escuta vai além de apenas ouvir o que é dito; é um ato de abertura, respeito e reconhecimento do outro como um sujeito que tem saberes, experiências e uma visão de mundo própria.
Nessa mesma direção, bell hooks (2013) entende o ato de comunicar como gesto de amor e resistência, defendendo que “ensinar é um ato de amor, e o amor é um ato de vontade”. A autora propõe uma pedagogia baseada na escuta e no envolvimento afetivo, em que o diálogo se torna meio de libertação e cuidado coletivo. Elisama Santos (2021) reforça que comunicar de forma não violenta implica “falar com consciência e escutar com intenção”, reconhecendo que toda palavra carrega poder de construir ou de ferir. A escuta, portanto, é entendida como prática de cuidado e responsabilidade, fundamento da convivência democrática e da cultura de paz.
Assim, a Comunicação Não Violenta se articula num conjunto de perspectivas teóricas que compreendem a linguagem como espaço de encontro e transformação social. Ela propõe que cada interação humana seja atravessada por empatia e consciência, permitindo que o diálogo substitua o conflito e que a palavra se torne um instrumento de reconstrução de relações humanas. No campo educacional, a CNV se propõe a contribuir para a consolidação de ambientes mais acolhedores e participativos, fortalecendo a convivência ética e o compromisso coletivo com a paz.
O presente relato de experiência fundamenta-se numa abordagem qualitativa, de natureza descritiva e interpretativa, por buscar compreender os sentidos, percepções e aprendizagens construídas pelos participantes durante a oficina “Da fala à escuta: a Comunicação Não Violenta como ferramenta para a construção de relações mais acolhedoras”, realizada em um campus do IFCE.
De acordo com Minayo (2001, p. 22), a pesquisa qualitativa é adequada a contextos que envolvem significados, motivos, aspirações, crenças e atitudes, pois permite interpretar “a realidade social como um conjunto de significações construídas pelos sujeitos em suas interações cotidianas”. Nessa perspectiva, o relato parte da experiência vivida para a compreensão reflexiva, buscando analisar as dimensões humanas, relacionais e éticas emergentes durante o processo formativo.
A oficina foi estruturada como uma atividade formativa, priorizando a participação ativa, o diálogo horizontal e a construção coletiva do conhecimento. Durante a atividade, foram registradas as interações e as falas significativas dos sujeitos envolvidos. E como instrumentos de coleta de dados foram utilizados a observação direta, e registros reflexivos produzidos ao longo da oficina. Esses dados foram analisados de forma interpretativa, à luz das categorias emergentes: linguagem e empatia, escuta ativa, gestão de conflitos e convivência ética.
A oficina evidenciou que a comunicação é um eixo estruturante das relações institucionais, e que sua transformação exige mais do que técnicas, requer consciência, escuta e compromisso ético. Ao longo da formação, foi possível perceber que a violência na linguagem muitas vezes se manifesta de forma sutil, em expressões impessoais, na frieza dos e-mails, nos julgamentos automáticos, nos silêncios prolongados. Essas microviolências, reproduzidas no cotidiano institucional, fragilizam vínculos e dificultam a cooperação entre os servidores.
Um dos pontos marcantes na oficina foi a dinâmica “traduzindo julgamentos” e teve como objetivo possibilitar aos participantes uma vivência prática dos princípios da Comunicação Não Violenta (CNV), conforme proposto por Marshall Rosenberg (2006). A proposta partiu do reconhecimento de que grande parte dos conflitos interpessoais e institucionais não se origina dos fatos em si, mas da forma como interpretamos e expressamos nossas percepções.
A atividade buscou, portanto, transformar essa lógica, convidando os participantes a reconhecerem o julgamento como sinal de necessidade não atendida. Durante a dinâmica, cada participante recebeu uma frase julgadora, expressões comuns no cotidiano escolar e profissional, como “Você nunca me escuta”, “Você não cumpre os horários”, “Ninguém aqui colabora”, entre outras. Em duplas, eles foram convidados a reformular essas frases em linguagem CNV, seguindo os quatro componentes do modelo: observação, sentimento, necessidade e pedido. O exercício demandou um deslocamento de perspectiva, sair da acusação para a autorresponsabilidade, e provocou, em muitos casos, desconforto e risos, justamente por expor o quanto é difícil abandonar o automatismo da linguagem punitiva.
A atividade também suscitou discussões sobre o contexto institucional. Muitos participantes reconheceram que as comunicações formais do IFCE ainda reproduzem uma linguagem impessoal, distante e, por vezes, hierárquica, o que contribui para o distanciamento entre os setores. Nesse sentido, a dinâmica serviu como metáfora para pensar a necessidade de rever as práticas discursivas institucionais, substituindo a linguagem punitiva por uma linguagem colaborativa e de corresponsabilidade, o que Rosenberg (2006) chama de “linguagem da vida”.
As reflexões coletivas mostraram que a tradução do julgamento exige pausa, empatia e autoconsciência. Os participantes relataram que, ao tentar reescrever as frases, precisaram parar para pensar no que realmente sentiam e precisavam, percebendo que por trás de cada julgamento há uma necessidade não atendida (Rosenberg, 2006).
Outra reflexão presente na oficina foi sobre o tom de voz necessário para se comunicar. Ter firmeza e altivez na fala é comunicar-se de forma violenta? Elisama Santos (2021) nos responde dizendo que comunicar de forma não violenta não é ser passivo, submisso e “manso”, mas sim falar com consciência e responsabilidade. Para ela, a comunicação não violenta não nos pede para “calar o incômodo” ou “evitar o conflito”, mas para expressar o que é importante com respeito e clareza, reconhecendo a humanidade tanto em quem fala quanto em quem escuta.
Nesse sentido, a oficina possibilitou um exercício coletivo de pertencimento, reforçando que o IFCE é composto por pessoas que partilham o mesmo compromisso com a educação pública e a convivência ética. Ao promover o diálogo entre docentes e técnicos administrativos, o encontro evidenciou que a escuta é o primeiro passo para o cuidado e que esse é o fundamento da convivência.
Durante os quatro encontros, observou-se um envolvimento dos participantes, que reconheceram nas práticas de diálogo e escuta empática possibilidades de transformação do cotidiano do trabalho e de reconstrução dos vínculos fragilizados pelos conflitos e pelos ruídos comunicacionais. Do ponto de vista institucional, a experiência aponta caminhos para a continuidade da formação, sugerindo que a CNV seja incorporada a políticas permanentes da instituição como forma de prevenir conflitos e avançar na construção de uma gestão participativa.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
As reflexões produzidas ao longo da oficina revelaram que, mais do que aprender um conjunto de técnicas, os participantes vivenciaram a CNV como experiência ética e, como um exercício de consciência, de cuidado com a palavra e de corresponsabilidade nas relações.
Além disso, os achados reforçam que a construção de uma convivência ética no espaço escolar implica no deslocamento do paradigma tradicional de gestão de conflitos, centrado na punição, para um modelo relacional e dialógico, alinhado ao que Freire (1996) define como prática educativa emancipadora. A formação possibilitou reconhecer que a violência simbólica presente na comunicação institucional atuam como obstáculo à democratização das relações. Assim, trabalhar a comunicação como dimensão formativa é um eixo transformador do clima organizacional, fortalecendo a corresponsabilidade entre os sujeitos que compõem o IFCE.
Outro aspecto relevante evidenciado pela experiência diz respeito à potência das formações continuadas como espaços de cuidado coletivo e de reencantamento com o trabalho. Nesse sentido, a CNV emerge como prática de resistência ao adoecimento e ao individualismo, reafirmando a educação pública como espaço de cooperação, respeito e construção conjunta de sentidos.
REFERÊNCIAS
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
GONÇALVES, Catarina Carneiro. OLIVEIRA, Vitória Hellen Holanda. Como é... Que a gente constrói pontes quando fala e não muros entre as pessoas?. In: TOGNETTA Luciene. LEPRE, Rita Melissa. Como é que se faz? Um currículo para promoção da convivência ética e prevenção da violência (orgs).Americana: Adonis, v. 1, 2022.
HOOKS, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.
IFCE. Projeto político-pedagógico institucional/ Instituto Federal do Ceará. – Fortaleza: 2018.
MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 8. ed. São Paulo: Hucitec, 2001.
ROSENBERG, Marshall. Comunicação não violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Ágora, 2006.
SANTOS, Elisama. Conversas Corajosas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.
VINHA, Telma P. O educador e a moralidade infantil: uma visão construtivista. Campinas: Mercado de Letras/FAPESP, 2000.
WREGE, M. G.; ANDRADE, B. G.; ARANHA, G. C.; LOURENCETTI, N. S. S. A. A linguagem do educador e a autonomia moral. Schème – Revista eletrônica de Psicologia e Epistemologia Genéticas, Marília, v. 6, n. 2, p. 115-132, ago-dez 2014. Disponível em: http://www2.marilia.unesp.br/revistas/index.php/scheme/article/view/4655