MARATONAS NATURALISTAS COMO ESTRATÉGIA DE EDUCAÇÃO CIENTÍFICA E LETRAMENTO EM BIODIVERSIDADE: EXPERIÊNCIAS NA MESORREGIÃO VALE DO ITAJAÍ (SC)

  • Autor
  • Liu Idárraga Orozco
  • Co-autores
  • Tamily Roedel , Luís Olímpio Menta Giasson , Roberta Andressa Pereira
  • Resumo
  • 1 INTRODUÇÃO

    A Mata Atlântica, um dos biomas mais biodiversos do planeta, enfrenta um paradoxo contemporâneo: sua imensa riqueza natural permanece amplamente desconhecida pela população local (Sevegnani, Schroeder, 2013). Essa desconexão é sustentada por uma educação básica com limitada integração ao ambiente natural (Marpica, Logarezzi, 2010; Sevegnani, Schroeder, 2013) e escassez de iniciativas de divulgação científica que coloquem o tema no centro do debate. Como consequência, o conhecimento sobre espécies nativas restringe-se, em geral, àquelas com valor utilitário ou carismático (por ex. Lima, Fajardo, 2024).

    Esse cenário contrasta com os imperativos da Agenda 2030 da ONU para o (Des)envolvimento Sustentável, particularmente com os ODS 14 e 15, que tratam da proteção dos ecossistemas (ONU-Brasil, 2025). Apesar do reconhecimento de que a sobrevivência humana depende do equilíbrio ecossistêmico (Nunes, 2024), observa-se uma lacuna na aplicação prática desses objetivos tanto por gestores/as quanto de educadores/as (p. ex., Schons, 2024; ONU-Brasil, 2025), agravando a perda da biodiversidade e dos desequilíbrios ecossistêmicos – afetando também metas associadas à vida saudável (ODS 3) e a cidades e comunidades sustentáveis (ODS 11).

    Partindo da necessidade de transitar de uma visão antropocêntrica para uma perspectiva biocêntrica (Capra, 1997; Gudynas, 2014), este trabalho propõe e avalia as maratonas naturalistas como estratégia para promover a educação científica e o letramento em biodiversidade na mesorregião Vale do Itajaí (Santa Catarina, sul do Brasil). A iniciativa ainda busca mitigar o transtorno de déficit de natureza (Silva, 2024), a cegueira botânica (Wandersee, Schussler, 2001) e os vazios de conhecimento básico sobre espécies nativas.

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

    A fundamentação deste trabalho articula-se em três pilares inter-relacionados sob uma perspectiva biocêntrica (Gudynas, 2014):

    A Educação Científica, na perspectiva de Sasseron (2015), que transcende a simples transmissão de conteúdos, propondo-se o letramento científico das e dos cidadãos, capacitando-as/os para a compreensão e intervenção no mundo. Esta abordagem dialoga com a teoria piagetiana, que enfatiza a importância da experiência física e da interação social no desenvolvimento cognitivo (Alonso et al., 2012), e complementa-se com a Pedagogia da Autonomia (Freire, 1996), a Ecopedagogia (Gutiérrez, Prado, 2015) e a Ecosofia (Guattari, 2009) as quais propõem uma reconexão ética e subjetiva com o planeta, entendendo os seres humanos como imersos e interdependentes de um único sistema terrestre.

    A Divulgação Científica, atua como ponte entre o conhecimento especializado e o grande público (Albagli, 1996), sendo essencial para construir uma sociedade que valorize e participe ativamente da ciência.

    E a Ciência Cidadã (Bonney et al., 2009) consolida-se como eixo metodológico onde o público participa ativamente da investigação científica. Plataformas como o iNaturalist operacionalizam essa participação, atuando como ferramenta educativa de alfabetização e letramento em biodiversidade e facilitando a geração de dados em larga escala.

    A convergência destes três campos cria um ambiente fértil para uma educação ambiental crítica e transformadora, alinhando-se com os ODS 4 (Educação de Qualidade), 14 (Vida Aquática) e 15 (Vida Terrestre). Ademais, o contato com a natureza contribui para a saúde e o bem-estar (Frias et al., 2024) (ODS 3), e atua como um antídoto para o Transtorno de Déficit de Natureza (Silva, 2024). 

    3 METODOLOGIA

    Este estudo foi realizado na mesorregião Vale do Itajaí (SC, Brasil), durante as edições de 2023 e 2024 do City Nature Challenge e a Great Southern Bioblitz. A estratégia combinou ações de divulgação (redes sociais, rádio, cartazes) com um programa de capacitação, através de oficinas presenciais (estudantes de ensino fundamental, médio e universitário) e remotas (comunidade geral), sobre o uso do aplicativo e da plataforma iNaturalist, os princípios do Naturalismo e técnicas de fotografia biológica. As oficinas foram realizadas ao longo dos dois meses prévios a cada evento, com uma frequência de 1 a 2 por semana.

    A execução das maratonas seguiu duas fases. A Fase 1 (Observação) consistiu em quatro dias consecutivos de registros fotográficos e/ou sonoros de espécies nativas, com foco na documentação do maior número de espécies silvestres e no envolvimento da maior quantidade de participantes. Nesta fase, foram organizadas trilhas de observação coletiva em vários municípios da mesorregião, as quais funcionaram como espaços de imersão e prática. Nessas atividades, enfatizou-se a importância da desaceleração para aprimorar a percepção, a conexão com e o registro da biodiversidade. A Fase 2 (Identificação), com duração de 1 a 2 semanas, foi direcionada à comunidade de especialistas que participam da plataforma de iNaturalist.org, bem como a especialistas locais. Esta fase concentra as principais interações entre especialistas e o público geral, uma vez que as identificações são realizadas publicamente e ficam associadas ao perfil de cada registro biológico.

    Para a análise dos resultados, adotou-se uma abordagem mista, combinando estatísticas descritivas dos registros com análises qualitativas, de depoimentos coletados via formulários específicos, interações na plataforma e nas redes sociais do projeto (https://linktr.ee/desafiodanatureza.valedoitajai). 

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

    A participação da comunidade foi de 570 pessoas, as quais realizaram 24.196 observações, documentando em média 1.505 espécies por evento (até o encerramento da Fase 2). O perfil das e dos participantes abrangeu todas as faixas etárias com predominância de jovens adultas/os: 18-24 anos (58,0%) e 25-34 anos (16,7%), refletindo o alcance prioritário das ações no contexto universitário. Destaca-se que 91,2% das e dos participantes tiveram seu primeiro contato com o iNaturalist através das maratonas, demonstrando a eficácia das estratégias de divulgação adotadas.

    Qualitativamente, os depoimentos revelaram uma ampliação significativa da percepção da biodiversidade local. As/os participantes relataram o desenvolvimento de habilidade para distinguir espécies silvestres e cultivadas, nativas e exóticas. Um exemplo ilustrativo é o relato de Paola Viviani, estudante do ensino médio da ETEVI-FURB, registrado pela FURB TV (2024): “Eu nunca tinha participado de um evento naturalista, ainda mais de um evento dessa magnitude, mundial, e eu não esperava muito, só que acabou sendo uma das experiências mais interessantes, mais completas que eu já tive, mais para esse lado da biologia, do naturalismo. Antes de eu começar as observações, nunca imaginei que ia ter um interesse tão grande nessa área de você observar os animais, de conhecer a fauna e flora de nossa região e isso foi muito necessário, porque isso realmente me abriu os olhos para o quão bonita a natureza pode ser, foi uma experiência realmente necessária, e acredito que quem participou dessa competição também sentiram o mesmo.”

    Os resultados indicam que a estratégia empregada foi bem-sucedida na promoção de uma aprendizagem significativa e no fortalecimento do letramento ecológico. A metodologia, ao combinar tecnologia, competição lúdica e suporte acadêmico, revelou-se uma estratégia eficiente para sensibilizar e educar, criando um canal de diálogo entre a comunidade e as e os especialistas, o que constitui um dos pilares da divulgação científica de qualidade e da educação ambiental crítica.

    A metodologia mostrou-se alinhada aos princípios da epistemologia piagetiana, onde a exploração direta do ambiente e a colaboração entre participantes facilitaram a construção ativa do conhecimento. Simultaneamente, a mediação através do aplicativo, que permite consultas constantes e intercâmbio direto com cientistas, fomentou autonomia nos processos de aprendizagem, materializando os princípios da pedagogia freireana. Por outro lado, o uso de um celular ou tablet como ferramentas mediadoras, serve como estratégia atraente para as novas gerações, habituadas ao uso intensivo de tecnologias digitais, cada vez mais sedentárias e com menos interação com o mundo externo e a natureza. 

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Conclui-se que as maratonas naturalistas, quando mediadas por plataformas acessíveis como o iNaturalist e apoiadas por especialistas, constituem uma ferramenta poderosa para a alfabetização, letramento e divulgação científica em biodiversidade. A estratégia mostrou-se eficaz no seu papel educativo ao aproximar a população da biodiversidade local, fomentando curiosidade, conhecimento e senso de responsabilidade ambiental, além de gerar dados cientificamente relevantes. A experiência demonstra como estratégias inovadoras e participativas podem materializar os princípios dos ODS, contribuindo para uma educação científica crítica e significativa, que promove a convivência ética com a natureza e favorece a construção de sociedades sustentáveis e conscientes.

    REFERÊNCIAS

    AUSUBEL, D. P. Aquisição e retenção de conhecimentos: uma perspectiva Cognitiva. Lisboa: Plátano, 2003.

    BONNEY, R.; COOPER, C. B.; DICKINSON, J.; KELLING, S.; PHILLIPS, T.; ROSENBERG, K. V.; SHIRK, J. Citizen Science: A developing tool for expanding science knowledge and scientific literacy. BioScience, v. 59, n. 11, p. 977–984, 2009. DOI: 10.1525/bio.2009.59.11.9.

    BUYS, B. et al. A divulgação científica e a gestão da inovação: estudo de caso de um centro de pesquisa. Revista Brasileira de Inovação, v. 8, n. 2, p. 345-372, 2009.

    CAPRA, F. A teia da vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. 1. ed. São Paulo (SP): Cultrix, 1997. 256 p.

    FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 25. ed. São Paulo (SP): Paz e Terra, 1996.

    FRIAS, L. D. S.; COUTINHO, M. B.; FISCHER, E. M. P.; BALDINI, K. B. L.; CAVALCANTI, P. C. D. S. Áreas verdes em escolas: importância educacional, ambiental e salutogênica. Contribuciones a las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v. 17, n. 1, p. 1942–1960, 10 jan. 2024. DOI: 10.55905/revconv.17n.1-112.

    FURB TV. Especial apresenta o Desafio Mundial da Natureza - Vale do Itajaí. Blumenau: FURB TV, 21 set. 2023. 1 vídeo (16 min). Disponível em: https://youtu.be/C4t0InjC_jA. Acesso em: 24 out. 2025.

    GODOY, J. A. R. de; SILVA, A. L. C. da (Orgs.). Anais do Congresso Latino-americano de Desenvolvimento Sustentável: Gestão Ambiental. 3. ed. Tupã, SP: Anap, v. 5, 2024. 202 p. Disponível em: https://www.even3.com.br/desenvolvimento-sustentavel-2024-454182/. Acesso em: 8 out. 2025.

    GUATTARI, F. ¿Qué es la ecosofía?: textos presentados y agenciados por Stéphane Nadaud. Traduzido por Pablo Anel Ires. 1. ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Editorial Cactus, 2015. 448 p. 

    GUDYNAS, E. Derechos de la naturaleza: ética biocéntrica y políticas ambientales. 1 ed. peruana. Lima: Programa Democracia y Transformación Global, 2014. 224 p.

    GUTIÉRREZ, F; PRADO, C. Ecopedagogía y ciudadanía planetaria. 3. ed. Ciudad de México: De La Salle ediciones, 2015 (1997). 111 p.

    LIMA, C. F.; FAJARDO, V. Falta de áreas verdes impacta a educação e a rotina escolar. Lunetas, 11 dez. 2024. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/externo/2024/12/15/falta-de-areas-verdes-impacta-educacao-escolar. Acesso em: 24 out. 2025.

    MARPICA, N. S.; LOGAREZZI, A. J. M. Um panorama das pesquisas sobre livro didático e educação ambiental. Ciência & Educação, Bauru, v. 16, n. 1, p. 115–130, 2010. DOI: 10.1590/S1516-73132010000100007.

    NUNES, A. Mata e Cidade: conexão possível e necessária para a sobrevivência humana. Revista Eletrônica do NIESBF, Duque de Caxias, ano 13, v. 2, p. 1–22, 2024. https://www.e-publicacoes.uerj.br/niesbf/article/view/87780/51711.

    ONU-Brasil 2025. Sobre o nosso trabalho para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no Brasil. Nações Unidas Brasil, 2025. https://brasil.un.org/pt-br/sdgs. Acesso em: 8 out. 2025.

    SASSERON, L. H. Alfabetização científica, ensino por investigação e argumentação: relações entre ciências da natureza e escola. Revista Ensaio, Belo Horizonte), v. 17, n. especial, p. 49–67, nov. 2015. DOI 10.1590/1983-2117201517s04.

    SCHONS JUNIOR, Elder. Relação entre o crescimento populacional e o percentual de áreas verdes para municípios do estado de Santa Catarina. Monografia (Curso de Engenharia Florestal) - Udesc, Lages SC, 2024. 17 p. Disponível em: https://repositorio.udesc.br/handle/UDESC/21833. Acesso em: 24 out. 2025.

    SEVEGNANI, L.; SCHROEDER, E. (Orgs.). Biodiversidade Catarinense: características, potencialidades, ameaças. Blumenau: Edifurb. 251 p.

    SILVA, G. S. O Turismo Pedagógico (TP) na escola como ferramenta de redução do Transtorno do Déficit de Natureza (TDN). Revista Nova Paideia - Revista Interdisciplinar em Educação e Pesquisa, v. 6, n. 3, p. 798-811, 2024.

    WANDERSEE, J. H.; SCHUSSLER, E. E. Toward a theory of plant blindness. Plant Science Bulletin, n. 47, p. 2–9, 2001. 

    AGRADECIMENTOS

    California Academy of Sciences, NHM Los Angeles County e Ferox Australis (org. internac.). À FURB, UNIFEBE, Fac. São Luiz de Brusque, Bio-FURB, PPGBio-FURB, projeto Fauna & Flora FURB, PPGECIM FURB, Acaprena, Gaia-Timbó, Samae Timbó, Prefeitura de Timbó, Rotary Club-Timbó, IPAN, Esc. Mpal. Professora Maria Ivone Müller dos Santos, E.E.B. Norma Mônica Sabel, Esc. Técnica do Vale do Itajaí (ETEVI-FURB), Greenpeace Vale do Itajaí, Flona de Ibirama, Aves de Ibirama, Pé de Terra Educacional, SAASBLU; e às pessoas: Aline Antunes, Ana Sackl, André Saibra, Carlos H. Russi, Denise I. Anzorena, Douglas Meyer, Eduardo Dalabeneta, Esteban D. Koch, Fernanda Rodrigues, Francisco E. Carneiro, Jhonatan L. Ehlert, Júlio C. de Souza Jr., Luís A. Funez, Luís H. Reus, Maike L. B. Link, Michele F. M. Andrade, Nando M. Rocha, Patrícia C. Fusinato, Patrícia Mees, Simone Wagner, Tiago Cadorin, Yuri C. H. Tedéo  pelo apoio logístico, divulgação e/ou organização de eventos; e a todas as pessoas que colaboraram com as identificações. LI agradece à CAPES pela bolsa de estudos concedida.

     

  • Palavras-chave
  • Letramento Científico, Alfabetização em Biodiversidade, Biopedagogia, Conservação da Biodiversidade, Aprendizagem Experiencial, Maratonas Naturalistas, iNaturalist, Divulgação Científica
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 5 - Divulgação científica/Ensino de Ciência
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