Trajetos da medicalização: entre laços com a educação superior

  • Autor
  • Eduardo Barcellos Pantaleão
  • Co-autores
  • Marlene Guirado
  • Resumo
  •  

    1. INTRODUÇÃO

     

    O tema da minha pesquisa de Mestrado é medicalização e seus efeitos na vivência de estudantes da graduação em Psicologia. Num primeiro momento, se mostra essencial descrever qual conceito traçamos ao abordar o ato de medicalizar, bem como levantar uma reflexão a respeito de sua função em contextos socioinstitucionais.

    A partir da estratégia de pensamento da Análise Institucional do Discurso (AID) como analítica da subjetividade, é possível estudar e analisar os efeitos da ação que medicaliza na vivência e convivência entre estudantes de graduação, no caso da pesquisa, de Psicologia. Então, a pergunta de pesquisa que fazemos é: Como estudantes de Psicologia se referem ao uso de medicamentos?

    Compreendendo o aumento das demandas por diagnósticos psiquiátricos e o aumento da busca por medicamentos psicotrópicos, parece ser essencial investigar como essas práticas podem se expressar no meio universitário, em especial no curso de formação de Psicologia, que se volta a estudar, inclusive, essas questões.

    Portanto, espera-se que a pesquisa possa contribuir na formação de subsídios para enfrentamento da medicalização nas universidades de forma ética. Considerando que o tema da medicalização, compreendida como ato que normatiza, pareceu ser pouco pesquisada nesse contexto universitário, parece ser importante que o primeiro passo seja compreender os efeitos que a ação que medicaliza produz na vivência e na convivência na Educação Superior. A partir dos subsídios que a pesquisa pode oferecer, poderão ser traçadas estratégias para que essa questão seja atenuada nesse contexto.

     

    2. REFERENCIAL TEÓRICO

     

    Primeiramente, entendo como essencial explicitar o que chamamos de medicalização. Partindo de uma compreensão foucaultiana, podemos entendê-la como a ação que transporta questões de origem social e/ou institucional para o discurso médico. Trata-se de um discurso que normatiza e separa os normais dos anormais (Foucault, 1975/2010).

    Nesse sentido, entende-se que a função de medicalizar os ditos anormais é normatizar seus comportamentos, gestos, padrões e condutas, podendo gerar diagnósticos e, consequentemente, medicamentos para tratar esses transtornos. Portanto, medicalizar tem a função de normatizar e os medicamentos psicotrópicos podem se mostrar como “ferramentas” dessa normatização.

    Em minha iniciação científica, pesquisei sobre a medicalização nos cursinhos pré-vestibular e foi possível investigar os efeitos que a pressão, nas relações que constituem essas instituições, têm na vivência e convivência de estudantes que visam o ingresso na educação superior. Um desses efeitos foi a busca por medicamentos psicotrópicos, em especial estimulantes, como o Cloridato de Metilfenidato, comercializado como Ritalina ou Concerta (Pantaleão e Caldas, 2020).

    Alguns dados valem ser destacados como a estatística de que o tempo de permanência no cursinho se mostrou como uma das causas da busca pelos medicamentos; ou seja, quanto mais tempo o/a estudante permanecia no cursinho, maior era sua propensão a procurá-los. Além disso, destaca-se alguns relatos que afirmaram casos de inalação de Ritalina, bem como revenda ilícita desse tipo de fármaco dentro de cursinhos (Pantaleão e Caldas, 2020).

    Isso pode levantar algumas questões: como, essas pessoas que lidaram com esse tipo de pressão para ingressar na educação superior e que se prepararam para isso em seu trajeto na educação básica, chegam nas universidades?

    No estudo de Whitaker (2010), foi feito um levantamento histórico do vestibular e do surgimento dos cursinhos pré-vestibular. Uma contribuição desse estudo permite identificar que o vestibular surgiu como forma de gerar desigualdade social e filtrar o perfil socioeconômico de quem ingressa nas universidades. Inclusive, o modelo hipercompetitivo estabelecido pelo vestibular parece gerar, até hoje, solidão na vivência e convivência nesse processo de ingressar na educação superior. A partir disso, ao entre laçar essa lógica com a pesquisa de iniciação científica, podemos pensar que quando falta o vínculo com os pares, o vínculo é com a medicação. Ou, pelo menos, pareceu ser a situação de alguns casos da pesquisa.

    Por isso, levantamos o tema para a graduação universitária, que pode ser considerada como o pós-vestibular. Em especial, destaca-se a notícia do Uol (2023), pertencente ao Grupo Folha, que elencou casos de revendas de medicamentos psicotrópicos dentro de duas universidades de referência em São Paulo. Essas revendas são feitas por grupos que alcançam estudantes universitários e a partir disso, podemos refletir que, se há venda, há demanda.

    O objetivo da pesquisa atual, em nível de Mestrado, é investigar como a medicação é vivenciada por estudantes de Psicologia com base em seus discursos. Além disso, também busca-se configurar as relações de poder nessa formação e levantar uma discussão acerca disso.

     

    3. MÉTODO

     

    Trata-se de uma pesquisa qualitativa, cujo método é a Análise Institucional do Discurso (AID) desenvolvida por Guirado (2010). Para descrever essa estratégia de pensamento que norteia a pesquisa, apresentarei alguns de seus baluartes.

    Primeiro, destacamos a Sociologia de José Guilhon Albuquerque ao definir seu conceito de instituição, que é um conjunto de relações sociais que se repetem e, por sua repetição, são legitimadas, tornando-se naturalizadas e, consequentemente, produzem efeito de reconhecimento. Há também o conceito de discurso de Michel Foucault como ato, acontecimento e dispositivo institucional; exercício de poder e resistência nessas práticas institucionais discursivas, enunciando espaços e relações de poder. É a tensão produzida por esses exercícios de poder que são tomadas como objeto da análise (Guirado, 2010).

    Isso levanta uma questão: o que chamamos de análise? Nesse sentido, trazemos os procedimentos de análise desenvolvidos pela Linguística de Dominique Maingueneau, que parte da ideia de cena para organizar o processo analítico. Então, propõe-se que a análise de discurso seja descritiva e não interpretativa pois as cenas são montadas a partir de seu contexto, envolvendo as condições de enunciação do discurso e de subjetivação (Guirado, 2010).

    Esse método é pensado na pesquisa desde seu repertório teórico aos procedimentos metodológicos, que são organizados a partir da realização de entrevistas semiestruturadas.

    Retomando a pergunta de pesquisa, “como estudantes de Psicologia se referem ao uso de medicamentos?”, elaborou-se um roteiro de entrevista com perguntas que se voltam para elencar sua vivência universitária e os efeitos produzidos pela medicação nela. Portanto, o público-alvo das entrevistas são estudantes matriculados nesse curso que fazem uso de medicamentos psicotrópicos.

    O roteiro é iniciado com perguntas voltadas a vivência, incluindo como está sendo a graduação e os motivos que levou a escolha pelo curso de Psicologia. Então, começa-se a adentrar na questão medicamentosa perguntando se o/a entrevistado/a já passou por alguma disciplina que aborda essa questão, para então fazer indagações sobre quais medicamentos consome, desde quando os consome e seus efeitos no dia a dia. Destaca-se que todas as entrevistas serão transcritas para a análise, bem como que há aprovação do Comitê de Ética de Pesquisa em Seres Humanos para a realização da pesquisa. Todos os participantes são convidados a ler e assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) que garante seus direitos como condição para sua participação. No TCLE há a afirmação de que as entrevistas são gravadas e posteriormente, transcritas.

    A AID propõe que a análise das entrevistas se volte não apenas para o conteúdo do que fora dito, como também para as condições de enunciação, tomando como objeto o tensionamento de poder e resistência. Por exemplo, um estudante que consume diversos medicamentos, de forma excessiva, com prescrição médica, pode legitimar essa prática e justificá-la sem tomar consciência dos efeitos que a medicação produz ou deixa de produzir em sua vida, bem como não notar que se trata de que há uma exacerbação no uso dos medicamentos. Nesse caso, há pouca ou nenhuma resistência ao poder do discurso médico. Esse exemplo foi o projeto piloto da pesquisa atual e será mais elaborada e incluída na elaboração da dissertação.

    Uma possível discussão sobre o método se volta para o processo de análise das entrevistas, em que se distingue o discurso individual do/a estudante sobre o uso de medicamentos das práticas institucionais discursivas que o legitimam ou o tensionam. Essa distinção é possível quando ocorre a referência ao uso de medicamentos, daí a pergunta da pesquisa surgiu. É na forma como o estudante se refere a esse uso que ele poderá se distinguir ou se ligar às práticas institucionais discursivas que legitimam ou tensionam esse uso.

    Alguns elementos discursivos que podem indicar esse processo são as formas como essa referência ocorre, por exemplo, o lugar que o medicamento ocupa em seu discurso. É um lugar central em suas falas e gestos? Que lugar esse medicamento ocupa em sua vida? Isso se mostra ao se referir a outros assuntos não diretamente ligados ao uso, como ao se referir a família, amizades e à própria experiência universitária? É a partir do último que poderá ser investigado como a medicação poderá ser entendida ou não como medicalizada nessa vivência na Educação Superior. Se há legitimação do efeito medicalizado, portanto, a medicalização na graduação em Psicologia poderá ser inserida como instituição, partindo do conceito de José Guilhon Albuquerque. Contudo, só será possível chegar a uma conclusão mais definitiva em relação a isso quando a pesquisa for concluída.

    Por exemplo, no estudo piloto, foi possível investigar que ocorreu o efeito de reconhecimento com alguns indicadores. Pode-se elencar: se referir aos medicamentos que consome por apelidos, afinal, apelidar parece gerar afeto; se referir aos medicamentos como fatores que permitem sua existência; se referir constantemente às observações clínicas de seu psiquiatra e psicóloga/o como validação do uso da medicação; comparar sua vivência na escola com a vivência na universidade, indicando a graduação como o fator que levou a medicação, são fatores que indicam a legitimação do uso excessivo de medicamentos em sua vida. Mais indicadores poderão ser levantados com o decorrer da pesquisa até sua conclusão.

     

    4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

     

    Compreendendo que a ação que medicaliza produz efeitos na vivência de estudantes universitários, podemos levantar uma reflexão sobre como esses efeitos se expressam na convivência no contexto da Educação Superior. Nesse sentido, pensar numa perspectiva de análise institucional carrega a potência de entender a complexidade das relações de poder que estão em jogo nesse contexto.

    Na pesquisa de iniciação científica feita nos cursinhos, observou-se como a solidão se mostrou como um afeto alicerce que levou estudantes a consumir medicamentos de forma excessiva, irregular e em muitos casos, feita sem prescrição médica. A pressão para aprovação no vestibular, voltada para ingressar numa “boa universidade”, se mostrou como fundamental no processo de medicalização desse público, bem como a hiper competitividade entre candidatos nesse processo de ingresso. Nas universidades, pode-se viver a persistência desses afetos, como a solidão, competição entre seus pares, dessa vez ligados a outros tipos de pressão, como a inserção no mercado de trabalho, por exemplo. Porém, há outros afetos que também surgem nesse contexto, como um possível luto da vivência da Educação Básica, sobrecarga de atividades, como em casos de conciliação entre o curso de graduação com estágio e até mesmo trabalho em tempo integral, o que pode levar a um desamparo, ainda mais se considerarmos algumas questões ligadas ao contexto social de cada estudante: há apoio da família? amizades? Como se configura sua rede de apoio, partindo do pressuposto que ela existe? São questões que parecem ser centrais na vivência universitária, pois se lida com estudantes adultos, que carregam responsabilidades e diversas obrigações ligadas a uma vivência adulta. Portanto, todas essas questões podem elencar afetos que levam à busca pelos psicotrópicos no contexto universitário.

    Vale destacar que o foco de minhas pesquisas até agora se voltou para estudantes universitários, porém, essas mesmas questões podem ser pensadas para professoras/es da Educação Superior. Parece ser importante que seja um tema também pesquisado para esse público. Por isso, a medicalização se mostra como um tema contemporâneo que pede mais estudos e pesquisas no campo da Educação, inclusive, no meio universitário, pois o efeito de reconhecimento e legitimação de sua ação se mostrou presente desde o vestibular ao momento em que a pesquisa se encontra hoje, incluindo no estudo piloto.

    Por fim, o curso de Psicologia é o momento em que se forma os profissionais que um dia irão atuar na saúde mental, que se debruça em temas como diagnósticos e uso de medicamentos em suas mais diversas áreas de atuação, incluindo a clínica, as escolas, empresas e outras organizações. Parece ser essencial que se promova uma conscientização nesse público sobre o que é a medicalização e seus efeitos na vida cotidiana, inclusive em estudantes que fazem o uso desses medicamentos. Portanto, a intenção da pesquisa é promover cada vez mais debates e produzir efeitos de provocações nessa formação que se insere na área da saúde.

     

    5. REFERÊNCIAS

     

    FOUCAULT, Michel. Os Anormais: curso no Collège de France (1974-1975). Tradução: Eduardo Brandão – São Paulo: Editora WMF Martins Fontes (Coleção Obras de Michel Foucault), 2010 (Texto publicado originalmente em 1975).

    GUIRADO, Marlene. A análise institucional do discurso como analítica da subjetividade. 2010. Tese de Livre-Docência. Instituto de Psicologia da USP, 2010.

    PANTALEÃO, Eduardo Barcellos. CALDAS, Roseli Fernandes Lins. Medicalização e Fracasso Escolar: O Contexto de Curso Pré-Vestibular. In.: Fármacos, Remédios, Medicamentos: O que a Educação tem com isso? Editora Rede Unida, org: Ricardo Burg Ceccim e Cláudia Rodrigues de Freitas, pg. 238-259, 2020.

    SANTOS, Cesar Candido dos. Universitários abusam de remédios tarja preta: compra clandestina é fácil. Uol, 07/12/2023. Seção VivaBem. Disponível em: < https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2023/12/07/estudantes-da-usp-vendem-remedios-controlados-sem-receita-pela-rede-social.htm > Acesso em 10/09/2024.

    WHITAKER, Dulce Consuelo Andreatta. Da “invenção” do vestibular aos cursinhos populares: Um desafio para a Orientação Profissional. Universidade Estadual Paulista, Araraquara-SP, Brasil - 2010.

  • Palavras-chave
  • educação superior, medicalização, Psicologia
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
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