A educação nutricional é um dos caminhos para a promoção da saúde e o desenvolvimento de hábitos alimentares saudáveis, sendo especialmente relevante em contextos de vulnerabilidade social, nos quais o acesso à informação e aos recursos de alimentação adequada é limitado. Quando direcionada a grupos em vulnerabilidade, como as pessoas com deficiência auditiva, essa prática assume uma dimensão ainda mais significativa, pois demanda estratégias pedagógicas inclusivas e acessíveis, que respeitem as especificidades comunicacionais e culturais desse público (BRASIL, 2012).
A construção de ações educativas adaptadas, com uso da Libras, recursos visuais e metodologias participativas, fortalece a autonomia alimentar das pessoas com deficiência auditiva (Da Silva et al., 2025). O desafio de promover a equidade e o direito à educação alimentar e nutricional entre pessoas surdas está relacionado à necessidade de superação das barreiras comunicacionais e atitudinais, garantindo que o conhecimento sobre alimentação saudável seja compreendido de forma autônoma (Oliveira et al., 2015).
A construção de uma sociedade equitativa e universal, na qual todas as crianças tenham direito ao acesso, à permanência e ao aprendizado de qualidade, está relacionada a educação inclusiva. No caso das crianças surdas, a inclusão escolar ultrapassa a simples inserção física no ambiente educacional, exigindo o reconhecimento de suas particularidades linguísticas e culturais, bem como a adoção de metodologias pedagógicas que assegurem sua participação nos processos de ensino e aprendizagem (BRASIL, 2008; Quadros; Becker Karnopp, 2007).
De acordo com o Decreto nº 5.626/2005, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) é reconhecida como meio legal de comunicação e expressão das pessoas surdas, sendo dever das instituições de ensino garantirem sua presença nos espaços escolares por meio de professores bilíngues e intérpretes. A inclusão, porém, não se limita ao aspecto linguístico, engloba também equidade social e o combate às desigualdades que atravessam o cotidiano escolar. Crianças com deficiência auditiva enfrentam barreiras complexas, relacionadas à falta de recursos didáticos acessíveis, à escassez de profissionais capacitados e à marginalização histórica da comunidade surda nos espaços institucionais (Araújo, 2020).
Como destaca Ferreira (2020), promover uma educação inclusiva requer o compromisso com práticas pedagógicas que valorizem as diferenças e garantam o direito à aprendizagem de forma justa e participativa. Essa perspectiva dialoga com o que propõe Mantoan (2015), ao defender que a escola inclusiva é aquela que adapta seus processos para acolher todas as formas de aprendizado. A educação em crianças com perda auditiva também deve considerar dimensões interdisciplinares, como saúde e alimentação, visto que o aprendizado integral envolve o desenvolvimento de hábitos de vida.
A educação nutricional inclusiva, por exemplo, pode ser uma estratégia eficaz para a promoção da saúde e da autonomia de crianças surdas, desde que adaptada às suas formas de comunicação e compreensão (De Souza et al., 2025). Nesse contexto, o trabalho em questão possibilitou as acadêmicas e professoras a elaboração de um projeto em educação nutricional em um serviço de atendimento a pessoa surda.
O presente projeto trata-se de uma de metodologia ativa, que busca estimular o consumo de legumes e verduras em 12 crianças surdas atendidas em um serviço de atendimento á pessoa surda. O projeto educativo foi desenvolvido por acadêmicas e professoras de uma Universidade direcionada ao público infantil que recebe um serviço de atendimento a pessoa surda. O projeto de ação foi aplicado de forma lúdica e participativa, organizada em três etapas sequenciais, com o objetivo de promover o conhecimento sobre os benefícios do consumo de legumes e verduras, bem como estimular a diversificação alimentar entre as crianças com deficiência auditiva. A proposta fundamentou-se em estratégias pedagógicas que valorizam a aprendizagem pela experiência sensorial, considerando as especificidades comunicacionais do público participante.
Primeiro momento: elaboração e sensibilização alimentar. A primeira etapa ocorreu no refeitório da instituição, com o acompanhamento das estagiárias do curso de Nutrição, sob supervisão docente. Nessa fase, foi realizada uma oficina culinária guiada, na qual as crianças participaram do preparo de panquecas de legumes e verduras (utilizando cenoura e espinafre como ingredientes principais). O local da ação recebeu previamente as receitas e orientações técnicas referentes à atividade. Essa etapa teve como finalidade despertar o interesse das crianças pelo preparo dos alimentos e promover o aprendizado prático sobre o uso de vegetais em preparações cotidianas.
Segundo momento: Experiência sensorial e reconhecimento dos alimentos.
Na sequência, as crianças foram convidadas a participar de uma dinâmica interativa de exploração sensorial, na qual tiveram contato direto com diferentes tipos de legumes e verduras. A atividade buscou estimular os sentidos do tato e do olfato, permitindo que as crianças reconhecessem texturas, aromas e cores dos alimentos, associando-os a experiências positivas. Essa vivência contribuiu para fortalecer o vínculo afetivo com os alimentos saudáveis e favorecer a construção de hábitos alimentares mais diversificados e conscientes.
Terceiro momento: Encenação educativa e consolidação do aprendizado.
No último momento, foi apresentada uma encenação teatral intitulada “O coelho, a cenoura e o espinafre”, protagonizada pelas estagiárias. O teatro teve caráter lúdico e educativo, abordando, de forma acessível e visualmente atrativa, a importância do consumo regular de legumes e verduras para o crescimento e a saúde. Foram utilizados recursos visuais e expressivos, de modo a facilitar a compreensão do enredo pelas crianças com diversidade auditiva, reforçando as mensagens transmitidas nas etapas anteriores.
A metodologia adotada integrou educação nutricional e práticas inclusivas, utilizando abordagens sensoriais, visuais e participativas que favoreceram a aprendizagem significativa e o desenvolvimento da autonomia alimentar das crianças.
O projeto educativo demonstrou-se uma experiência significativa tanto para as crianças quanto para as estagiárias envolvidas no processo. O caráter lúdico e participativo das etapas possibilitou que o aprendizado sobre a importância do consumo de legumes e verduras ocorresse de forma prazerosa, acessível e contextualizada à realidade das crianças. A utilização de recursos visuais, experiências sensoriais e encenação teatral contribuiu para uma melhor compreensão dos conteúdos abordados, reforçando a relevância das metodologias inclusivas no processo de ensino e aprendizagem.
Além de promover o conhecimento sobre alimentação saudável, a ação favoreceu o desenvolvimento da autonomia alimentar, da socialização e da valorização das diferenças. Observou-se que o envolvimento ativo das crianças em todas as etapas ampliou o interesse pelos alimentos e fortaleceu atitudes positivas em relação à alimentação. De forma geral, o projeto demonstrou que a integração entre educação nutricional e práticas pedagógicas inclusivas pode ser uma ferramenta eficaz para a promoção da saúde e da equidade. O trabalho colaborativo entre estagiárias, docentes e as crianças atendidas em um serviço de atendimento à pessoa surda reforçou a importância da interdisciplinaridade entre educação e saúde, contribuindo para a formação acadêmica das participantes e para o fortalecimento de ações educativas voltadas à diversidade.
REFERÊNCIAS
ARAÚJO, J. A. Inclusão e equidade nas oportunidades de ensino: o estudante surdo no contexto da educação inclusiva. Revista Educação, Artes e Inclusão, Florianópolis, v. 16, n. 2, p. 218–237, 2020.
BRASIL. Ministério da Educação. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília: MEC/SEESP, 2008.
BRASIL. Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras, e o art. 18 da Lei nº 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 248, p. 11, 23 dez. 2005.
DA SILVA, T. A. et al. Educação inclusiva para surdos: desenvolvimento de práticas transformadoras no ensino. In: Anais Congresso de Educação, Interdisciplinaridade e Práticas Escolares, v. 1, n 3, p. 01-11, 2025.
DE SOUZA, B. C. et al. Deficiência auditiva e inclusão escolar: uma revisão teórica. Aracê, v. 7, n. 4, p. 17131-17150, 2025.
FERREIRA, L. G. Adequações pedagógicas: uma reeleitura reflexiva das práticas docentes para alunos surdos. Revista de Estudos em Educação e Diversidade-REED, v. 1, n. 2, p. 129-145, 2020.
MANTOAN, M. T. E. Inclusão escolar: O que é? Por quê? Como fazer?. Summus Editorial, 2015.
OLIVEIRA, Y. C. A. et al. Comunicação como ferramenta essencial para assistência à saúde dos surdos. Physis: Revista de Saúde Coletiva, v. 25, n. 1, p. 307-320, 2015.
QUADROS, R. M.; BECKER KARNOPP, L. Língua de sinais brasileira: estudos lingüísticos. 2007.