EDUCAÇÃO QUE FLORESCE: HORTAS INTERGERACIONAIS COMO ESPAÇO DE APRENDIZAGEM

  • Autor
  • Laiane Gabrieli Petry
  • Co-autores
  • Johanna Budag Carvalho , Luiza Barão Otero de Abreu , Eloysa Nezello
  • Resumo
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    1 INTRODUÇÃO

    O projeto universitário UNIVIDA na Comunidade – Universidade da Vida voltado a ações educativas com foco na pessoa idosa, proporciona a oportunidade para os acadêmicos e a comunidade a transmissão de cultura e valores entre as gerações, aproveitando seu conhecimento e a ressignificando seu papel na sociedade. O projeto relaciona acadêmicos do ensino superior e indivíduos idosos, exercendo importância significativa na formação dos alunos. Ao participar dessa iniciativa, os estudantes saem do ambiente teórico da sala de aula para vivenciar uma prática real de impacto social, desenvolvendo não só habilidades técnicas, mas também competências humanísticas e cidadãs como empatia, escuta ativa, trabalho intergeracional e responsabilidade social.

    A agricultura urbana e as hortas comunitárias surgem como espaços de aprendizagem viva que promovem saúde, sustentabilidade e integração social. Elas permitem que diferentes gerações compartilhem saberes sobre produção de alimentos, nutrição e cuidado ambiental, fortalecendo a agricultura familiar e a segurança alimentar nas cidades. Além disso, essas iniciativas favorecem a vivência prática de temas ligados à alimentação saudável, à corresponsabilidade ambiental e à redução do desperdício, e ainda contribuem para a educação ambiental urbana e a mitigação das mudanças climáticas.

    Entre o público idoso, essas atividades assumem importância ainda maior. Estudos indicam que a participação em hortas e jardins comunitários está associada à melhora do bem-estar físico e mental, à redução do isolamento social e ao aumento da autoestima. A revisão de Hume et al. (2022) demonstra que a jardinagem comunitária está relacionada ao aumento da ingestão de hortaliças e aos benefícios psicossociais, enquanto a World Health Organization (OMS, 2021) reconhece essas práticas como estratégias eficazes para a promoção do envelhecimento ativo.

    Além dos benefícios à saúde física e emocional, a horticultura comunitária é um espaço de educação ao longo da vida, pois estimula o aprendizado contínuo mesmo após os 60 anos. Estudos apontam que idosos envolvidos em hortas comunitárias relatam desejo de aprender novas técnicas e troca de saberes com gerações mais jovens (Scott et al., 2020). Essa iniciativa reforça a importância da educação intergeracional nos processos de extensão universitária.

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

    As hortas comunitárias têm se consolidado como espaços de aprendizagem, convivência e promoção da saúde. Sua implementação está associada à educação ambiental e à educação alimentar e nutricional, ao incentivar o contato direto com os alimentos e o meio ambiente, promovendo a autonomia alimentar e a sustentabilidade local (São Paulo, 2020). Além de sua função produtiva, a horta é um ambiente educativo que permite a troca de saberes e práticas entre gerações, fortalecendo o vínculo comunitário e despertando o senso de responsabilidade coletiva em relação à preservação dos recursos naturais (FAO, 2024).

    No contexto da agricultura urbana e familiar, as hortas comunitárias assumem papel estratégico na segurança e soberania alimentar, pois favorecem o acesso a alimentos frescos e saudáveis, produzidos sem agrotóxicos, e fortalecem a economia solidária (CONSEA, 2024). Revisões sistemáticas recentes apontam que jardins comunitários contribuem para o aumento do consumo de frutas e hortaliças, ao bem-estar psicossocial e à coesão comunitária (Hume et al., 2022; Lampert et al., 2021). Dessa forma, além de seu valor ecológico, as hortas representam espaços de educação não formal, capazes de promover transformações sociais e culturais por meio do aprendizado coletivo (Cereali & Wiziack, 2021).

    A inclusão de idosos em atividades agrícolas comunitárias tem demonstrado benefícios físicos, cognitivos e emocionais. A revisão de Wang & MacMillan (2020) aponta que a jardinagem entre adultos mais velhos está associada à melhora do humor, aumento da vitalidade e fortalecimento das relações sociais. Essas práticas reduzem o isolamento e estimulam a sensação de pertencimento, fatores essenciais para o envelhecimento ativo, conceito definido pela OMS (2021) como o processo de otimizar oportunidades para saúde, participação e segurança, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida à medida que as pessoas envelhecem.

    Assim, as hortas comunitárias são espaços pedagógicos integradores, nos quais a agricultura familiar, a sustentabilidade e o envelhecimento ativo se entrelaçam. Para os acadêmicos envolvidos no projeto UNVIDA, a abordagem educativa sobre hortas permitiu a vivência de práticas da agricultura como instrumento de promoção da saúde, socialização e aprendizado. Ao valorizar a experiência dos idosos, o projeto contribui para reforçar a percepção de que o conhecimento não tem idade e que a busca pelo aprender pode permanecer ao longo de toda a vida.

    Nesse contexto, o projeto UNIVIDA, abordou a temática das hortas comunitárias promovendo entre os participantes idosos, a compreensão sobre a relevância desses espaços para a alimentação saudável, a sustentabilidade e o bem-estar coletivo. Por meio de dinâmicas, trocas de experiências e exemplos práticos, buscou-se reforçar que o aprendizado é contínuo e atemporal, e que o envelhecimento pode ser acompanhado pela descoberta de novos conhecimentos e práticas sustentáveis.

    Dessa forma, o projeto possibilitou aos acadêmicos e a comunidade uma educação ampla, destacando que o cultivo da terra é também o cultivo do saber, um processo que floresce em qualquer idade e transforma tanto o indivíduo quanto o território onde está inserido.

     

    3 METODOLOGIA

    O projeto foi desenvolvido como uma ação extensionista realizada em colaboração entre o os acadêmicos do ensino superior e o projeto UNIVIDA, ambos vinculados à Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), no campus Balneário Camboriú. O público-alvo foi composto por 20 alunos participantes do UNIVIDA, com idade superior a 60 anos. As atividades ocorreram em ambiente de sala de aula e em espaço aberto, com o tema “Horta Comunitária e sua importância para a saúde e a sustentabilidade”.

    A metodologia adotada baseou-se em abordagens participativas e dialógicas, fundamentadas nos princípios da educação não formal, da extensão universitária e da aprendizagem significativa, com o objetivo de promover a compreensão sobre a importância das hortas comunitárias para a alimentação saudável, o bem-estar e a integração social. Inicialmente, foi realizada uma dinâmica de grupo para estimular a socialização e o resgate de memórias afetivas relacionadas ao cultivo e às experiências prévias com hortas. Esse momento inicial permitiu que os participantes compartilhassem lembranças, saberes e percepções sobre o contato com a terra e o plantio.

    Em seguida, foi conduzida uma apresentação expositiva em slides, abordando os conceitos de soberania e segurança alimentar e nutricional, os tipos e tipologias de hortas comunitárias (urbanas, solidárias, agroecológicas e educativas) e os passos essenciais para a implantação e manutenção de uma horta coletiva. O conteúdo foi estruturado para conectar teoria e prática, utilizando exemplos reais e linguagem acessível ao público idoso.

    Como estratégia de integração entre ensino e prática comunitária, o encontro contou com a participação de dois convidados da comunidade local de Balneário Camboriú, que compartilharam suas experiências na criação e gestão de uma horta comunitária no bairro onde residem. Essa troca de vivências fortaleceu o vínculo entre o conhecimento acadêmico e o saber popular, valorizando a comunidade e o papel do idoso como agente de transformação social.

    Durante toda a atividade, foi estimulada a participação ativa dos alunos, com momentos de discussão, perguntas e relatos pessoais. A metodologia buscou respeitar o ritmo, as vivências e os interesses dos participantes, de modo a favorecer a autonomia e o aprendizado contínuo. Ao final do encontro, os alunos foram convidados a refletir sobre como poderiam aplicar os conhecimentos adquiridos em seus próprios contextos, seja por meio do cultivo doméstico, da participação em hortas coletivas ou do incentivo à sustentabilidade no cotidiano.

     

    4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    O projeto desenvolvido em parceria entre o Projeto UNIVIDA e as acadêmicas do ensino superior demonstrou de forma clara o potencial transformador das hortas comunitárias como ferramenta de educação ambiental, alimentar e intergeracional. Ao promover o diálogo entre o saber acadêmico e o conhecimento dos participantes, a ação possibilitou a construção coletiva de aprendizagens significativas. Valores como sustentabilidade, segurança alimentar e cuidado com o ambiente foram vivenciados no cotidiano do cultivo, tais espaços promovem educação ambiental, senso de responsabilidade social e participação cidadã.

    A participação das acadêmicas no projeto demonstrou-se efetiva para sua formação. Essa vivência evidencia que a educação superior ganha profundidade quando se articula com a comunidade, promovendo não apenas a aprendizagem técnica, mas também consciência, empatia e cidadania, formando profissionais mais completos e aptos a atuar de forma transformadora na sociedade.

     

    REFERÊNCIAS

    CEREALI, M.; WIZIACK, S. R. de C. Hortas em espaços urbanos como ferramenta de educação ambiental, segurança alimentar e qualidade de vida. Revista Brasileira de Educação Ambiental, v. 16, n. 3, p. 473-488, 2021.

    CONSEA. Caderno de Recomendações CONSEA 2024. Brasília: Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, 2024.  

    FAO. The State of Food and Agriculture: Value-driven transformation of agrifood systems. Rome: Food and Agriculture Organization of the United Nations, 2024.

    HUME, C. et al. Community gardens and their effects on diet, health, psychosocial and community outcomes: a systematic review. BMC Public Health, v. 22, n. 1, p. 1247, 2022.

    LAMPERT, T. et al. Evidence on the contribution of community gardens to promote physical and mental health and well-being of non-institutionalized individuals: a systematic review. Plos one, v. 16, n. 8, p. e0255621, 2021.

    OMS. Global report on ageism. Geneva: World Health Organization, 2021.

    SÃO PAULO (Estado). Hortas urbanas e comunitárias: guia técnico. São Paulo: Instituto de Saúde, 2020.

    SCOTT, T. L. et al. Positive aging benefits of home and community gardening activities. SAGE Open Medicine, v. 8, p. 2050312120901732, 2020.

    WANG, D.; MacMILLAN, T. The benefits of gardening for older adults: a systematic review of the literature. Ageing & Society, v. 40, n. 4, p. 831-857, 2020.

     

  • Palavras-chave
  • Horta Comunitária; Educação ambiental; Envelhecimento ativo; Educação ao longo da vida.
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
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