A Comissão de Cultura de Paz e Convivência Escolar do IFCE: semeaduras e colheitas Ekonviventes

  • Autor
  • Elvira Pimentel
  • Co-autores
  • Ana Caroline Cabral Cristino , Bárbara Diniz Lima Vieira Arruda
  • Resumo
  • 1 INTRODUÇÃO

    O trabalho intencional com a convivência em uma instituição pública de educação é essencial para a construção de uma cultura de paz, pois a escola é um dos principais espaços de formação humana e transformação social em nível público. Para que haja uma cultura de paz, é preciso entender que o conviver deve ser ético, ou seja, as relações devem estar pautadas em valores como o respeito, a justiça por equidade, a cooperação e o diálogo.

     A construção de valores éticos, tanto individuais quanto coletivos, não ocorre de maneira espontânea ou isolada das dinâmicas sociais e de poder, como as questões étnico-raciais e de gênero. Para que o convívio com o outro e com o ambiente promova uma cultura de paz e enfrente desigualdades, é necessário planejamento e intencionalidade. No Instituto Federal do Ceará (IFCE), essa proposta está alinhada à missão institucional e ao ideal de sociedade que se deseja construir, sendo concretizada por meio de práticas contínuas e participativas que promovem o respeito, a justiça e a cooperação.

    A promoção de uma convivência ética exige o envolvimento de toda a comunidade escolar, não apenas dos estudantes. A forma como os adultos interagem entre si e com os alunos influencia diretamente o clima relacional da instituição, servindo de modelo para o desenvolvimento de atitudes e valores. Um ambiente pautado no diálogo, acolhimento e respeito favorece a cooperação e o sentimento de pertencimento coletivo.

    O projeto formativo “Ekonvivência” foi desenvolvido entre fevereiro e novembro de 2024 com o objetivo de promover uma formação em rede sobre convivência ética, relações étnico-raciais e de gênero entre equipes gestoras dos 33 campi do IFCE. Contando com a participação de 65 servidoras(es), incluindo diretoras(es) e membros das coordenações pedagógicas e de assistência estudantil, além de representantes da reitoria, o projeto também se configurou como uma pesquisa voltada à construção coletiva de práticas institucionais.

    A proposta buscou não apenas sensibilizar os participantes, mas também criar as bases para um trabalho contínuo, integrado e em rede entre os campi do IFCE.  Durante 15 encontros formativos híbridos (quatro presenciais de 12h e 11 virtuais de 2h cada) e propostas assíncronas, totalizando 80h. As ações síncronas (presenciais e virtuais) e assíncronas versaram sobre os temas organizados em sete grandes eixos: Convivência ética e comunicação construtiva; Conflitos e problemas de convivência; regras e assembleias; Convivência, pluralidade e desigualdades: relações étnico-raciais e de gênero; Bullying: Método de preocupação compartilhadas e Comunidades de Cuidado e Apoio; Planos de Convivência; Circularidade e outros princípios do Ekonviver: pensando a sustentabilidade do projeto. 

    Ao longo do processo, foram promovidos momentos de reflexão, troca de experiências e planejamento coletivo, visando transformar os aprendizados em ações concretas que pudessem promover o conviver ético comprometido com o enfrentamento das desigualdades.

    Como resultado dessa semeadura, cada equipe elaborou um projeto voltado à promoção da convivência e da cultura de paz em sua unidade e também em nível de rede do IFCE, considerando as vias institucional, curricular e interpessoal. Entre as iniciativas desenvolvidas, destacamos nesse trabalho a criação de uma comissão sistêmica, concebida como um espaço permanente de diálogo, acompanhamento e articulação das ações voltadas para o tema: A comissão de Cultura de paz e convivência escolar do IFCE (IFCE, 2025).

     

    2 REFERENCIAL TEÓRICO 

    A construção de uma convivência ética e de uma cultura de paz nas instituições educativas é um processo contínuo em que a participação e envolvimento de todas as pessoas se faz necessário. Consideramos como ético esse conviver que tem no centro valores como o respeito; equidade; justiça social; cooperação; circularidade; cuidado e amor (Vinha et al, 2017; hooks, 2021a; Trindade, 2005).  

    Contrariando o senso comum, esse conviver ético em uma cultura de paz não está ligado à ausência de conflitos, pelo contrário, o conflito é visto como possibilidade para o desenvolvimento da autonomia das e dos sujeitos em direção a relações mais respeitosas e equânimes com o outro e com o ambiente (Tognetta; Vinha, 2011). 

    As instituições educativas são palco do encontro com a diversidade de pessoas, sentidos, valores e percepções, portanto locais propícios para aprender a viver em comunidade (hooks, 2021b), construindo instituições e sociedades éticas. Entendendo a ética a partir de uma perspectiva filosófica Ubuntu (Ramose, 2002), podemos compreender que a existência individual é interdependente do coletivo, tal qual o coletivo só o é, quando cada sujeito também pode ser.

    O trabalho com a formação cidadã ética faz parte do projeto político-pedagógico  institucional do IFCE, estando presente em sua missão, valores, objetivos e ideais de sociedade e ser humano a ser formado, a saber, “um ser coletivo e político, consciente dos seus direitos e deveres que pensa e age coletivamente a favor do desenvolvimento, com responsabilidade social, ética e justiça”  (IFCE, 2018, p. 29). 

     Para Vinha et al (2017) a organização do trabalho com convivência ética nas instituições educacionais deve acontecer em três níveis: institucional, curricular e interpessoal, interconectando ações de atenção (após os conflitos), de prevenção à violência, de promoção da convivência e de seguimento. 

    Quando a escola investe na promoção de uma convivência ética — com ações de mediação de conflitos, rodas de conversa, projetos de valorização da diversidade e ações coletivas de cuidado —, ela contribui diretamente para a prevenção da violência e o fortalecimento do sentimento de pertencimento entre estudantes e profissionais.

    Pessoas que se sentem respeitadas e valorizadas tendem a se envolver mais com o trabalho e com os estudos, colaborando com colegas e contribuir com ideias e soluções. Essa participação ativa é essencial para que as ações da escola não dependam apenas de indivíduos isolados, mas de uma rede de apoio que garante a sustentabilidade das iniciativas mesmo diante de mudanças na equipe.

    Do ponto de vista pedagógico, um ambiente cooperativo, respeitoso, equânime favorece o aprendizado, pois possibilita que estudantes e adultos dialoguem sobre a indisciplina e os conflitos, fortalecendo as relações de confiança entre elas e eles. Assim, a convivência escolar atua como base para a sustentabilidade institucional, ao promover um clima organizacional que apoia o desenvolvimento humano, o desempenho coletivo e a continuidade das práticas educativas.

     

    3 METODOLOGIA 

    Esse trabalho tem como objetivo descrever e analisar criticamente as atividades desenvolvidas pela Comissão de Cultura de Paz e Convivência Escolar, no ano de 2025. A proposta se configura como um relato de experiência a partir de uma abordagem qualitativa, que busca compreender a complexidade dos fenômenos sociais a partir de uma imersão profunda na realidade estudada. Nesse processo, quem pesquisa não atua como mero ou mera observadora, mas se envolve de maneira participativa e reflexiva, podendo interagir, interferir e também transformar-se ao longo da investigação. Essa perspectiva evidencia o caráter dialógico da pesquisa qualitativa, em que o ato de pesquisar é também um exercício de formação e de construção compartilhada de conhecimento (Guerra, 2012).

    Como instrumento de produção de dados foram utilizados os registros dos encontros da comissão, bem como, a observação participante, uma vez que somos também participantes da mesma.

     

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO (2 laudas)

    Implementada em 27 de março de 2025, pela portaria 1948 (IFCE, 2025),  a Comissão de Cultura de Paz e Convivência Escolar é formada por oito servidoras(es) do IFCE, que participaram do Ekonvivência e foram escolhidos visando contemplar as quatro macrorregiões que sediam os institutos no estado. Seus princípios norteadores são o diálogo, a empatia, a cooperação e a valorização da diversidade, incentivando práticas que favorecem a resolução assertiva de conflitos e o bem-estar de toda a comunidade escolar. 

    Considerando a necessidade de criação de um Plano de Ação para Cultura de Paz e Convivência Escolar, a comissão realizou encontros mensais ao longo do ano de 2025. O primeiro semestre foi tempo de germinação interna, foram realizados estudos e discussões internas que resultaram na compreensão das e dos membros, da importância de uma atuação fortalecida em coletivo, essencialmente preventiva de violências e promotora de convivência ética, ainda que sejam realizadas ações de atenção, ou seja após os problemas de convivências estarem instaurados. 

    Além disso, foram elaborados os objetivos para os dois primeiros anos de atuação da comissão, a saber: 1) Mapear e analisar ações (pontual, inicial, contínuo) nos campi acerca da promoção da convivência ética, democrática e da cultura de paz, para constituir um banco de projetos exitosos disponível em repositório institucional (gestão IFCE), 2) Identificar as necessidades formativas das macrorregiões sobre as temáticas relacionadas à cultura de paz e convivência escolar, 3) Realizar estudos internos (na própria comissão) sobre convivência ética e cultura de paz. 4) Incentivar e apoiar as propostas de ações (formações, reflexões) nos campi, com suporte da comissão. 5) Criar um banco de materiais para consultas e estudos nos campi. 6) Elaborar um plano institucional de convivência e cultura de paz. 7) Articular com as demais comissões e núcleos afins para evitar sobreposição de ações e potencializar as propostas das várias comissões. A ideia é dar continuidade ao processos de semeadura realizado pela Ekonvivência e também em outras ações anteriores pelo IFCE, de tal modo que o compromisso com a construção de uma cultura de paz permeada por uma convivência ética seja de todas as pessoas em todos os campi.

    Ainda no primeiro semestre elaboramos um questionário que visa realizar um mapeamento inicial da convivência nos campi e na reitoria, bem como, perceber as necessidades formativas dos campi. O questionário foi inspirado nos documentos já produzidos para avaliação do clima escolar e da convivência (Vinha, Morais e Moro, 2017) e  Missori (2021). Nesse sentido foram pensadas questões fechadas e abertas para os vários públicos da comunidade.

    No segundo semestre, as sementes começaram a brotar, serem vistas e gerar novas semeaduras: a comissão foi divulgada nas redes sociais oficiais do instituto, juntamente com o link do questionário. Obtivemos 890 respostas de pessoas de todos os públicos, alcançando também todos os campi. Os dados em breve serão analisados pela comissão e divulgados para a comunidade. Ainda nesse semestre, membros da comissão começaram a atuar em formações, sendo um exemplo a oficina sobre Comunicação Não-violenta.

    Entre os principais desafios enfrentados pela comissão, destacam-se a dificuldade de conciliar horários comuns para reuniões e a sobrecarga dos servidores envolvidos, que já atuam em diversas frentes dentro do Instituto. Além disso, percebe-se que muitas ações ocorrem de forma isolada entre os grupos, sem articulação interna, o que limita a efetividade das iniciativas. Por isso, fortalecer a comunicação entre os diferentes setores também se tornou um dos objetivos da comissão, visando promover ações mais integradas e consistentes.

     

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 

    O trabalho da Comissão de Cultura de Paz e Convivência Escolar tem se mostrado relevante para que a discussão sobre convivência ética e cultura de paz se fortaleça no âmbito do IFCE, afirmando-se como um compromisso institucional voltado à construção de uma educação inclusiva, humana e promotora de paz.  

    No primeiro ano de atuação, a comissão buscou compreender internamente seus princípios, reconhecendo a importância da sua atuação, principalmente, nas dimensões da prevenção à violência e promoção da convivência ética, evitando apenas a reatividade. Além disso, foram realizadas ações de divulgação e um questionário de mapeamento da convivência no IFCE, alcançando os vários públicos e campi. Houve ainda a atuação individual de membros da comissão em ações formativas nos campi.

     Como todo processo de semeadura, há desafios e os ciclos são fundamentais pois permitem que a semente germine, floresça, frutifique e gere novas sementes. Entendemos que a atuação da Comissão dá continuidade à semeadura iniciada no projeto Ekonvivência e é uma instância fundamental para garantir uma atuação institucional de cuidado com essa área. Almejamos que cada vez mais pessoas em seus campi sejam comprometidas com a promoção de uma cultura de paz e convivência ética.

     

    REFERÊNCIAS

     

    GUERRA, Denise Moura de Jesus. Pesquisa-ação em educação: articulações significativas com a práxis formativa. Macedo, Roberto et al, [organizadores]. Currículo e Processos Formativos: Experiências, Saberes E Culturas. Salvador : EDUFBA, 2012.

     

    IFCE. Projeto político-pedagógico institucional/ Instituto Federal do Ceará. – Fortaleza: 2018. 

     

    IFCE. PORTARIA Nº 1948. Fortaleza: 2025. 

     

    hooks, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. São Paulo: Editora Elefante, 2021a.

     

    hooks, bell. Ensinando comunidade: uma pedagogia da esperança. São Paulo: Editora Elefante, 2021b. 

    MISSORI, Letícia Lavorini. A convivência como promotora da autonomia moral: construção de instrumentos de avaliação em escolas de ensino médio. 2021. 174 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2021.

    RAMOSE, Mogobe B. The ethics of ubuntu. In: COETZEE, Peter H.; ROUX, Abraham P.J. (eds). The African Philosophy Reader. New York: Routledge, 2002, p. 324-330. Tradução para uso didático por Éder Carvalho Wen. 

     

    TOGNETTA, Luciene R. P.; VINHA, Telma P. (Org.) Conflitos na instituição educativa: perigo ou oportunidade? Contribuições da psicologia. Campinas: Mercado de Letras, 2011.

     

    TRINDADE, Azoilda Loretto. Valores Civilizatórios Afro-Brasileiros na Educação Infantil. In: Revista Valores Afro-brasileiros na Educação. 2005. 

     

    VINHA, Telma., NUNES, C. A. A., SILVA, L. M. F., VIVALDI, F. M. DOS C.,MORO, A. Da escola para a vida em sociedade: o valor da convivência democrática. (Vol. 5, ed. 1, 248 pp.). (Coleção Valores Sociomorais: reflexões para a educação). Americana: Adonis, 2017

     

    VINHA, T. P.; MORAIS, A.; MORO, A. Manual de orientação para a aplicação dos questionários que avaliam o clima escolar. Campinas: FE/Unicamp, 2017.

     
  • Palavras-chave
  • Convivência ética; Cultura de paz; Instituto Federal
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 1 - Convivência escolar e enfrentamento à violência: práticas que desenvolvemos para a melhoria da qualidade da escolarização
Voltar Download
  • GT 1 - Convivência escolar e enfrentamento à violência: práticas que desenvolvemos para a melhoria da qualidade da escolarização
  • GT 2 - Filosofia e Epistemologia da Educação
  • GT 3 - Mudanças Climáticas: educação ambiental, saúde e produção de alimentos
  • GT 4 - Educação Física e Esporte
  • GT 5 - Divulgação científica/Ensino de Ciência
  • GT 6 - Arte e Educação
  • GT 7 - Educação Profissional e Tecnológica
  • GT 8 - Novas Tecnologias na Educação
  • GT 9 - Questões Étnico-Raciais na Educação
  • GT 10 - Agricultura, Sociedade e Educação
  • GT 11 - Educação Superior
  • GT 12 - Educação Comparada
  • GT 13 - Desafios, tendências e impactos das políticas públicas na educação: qualidade, equidade e gestão em perspectiva nacional e internacional
  • GT 14 - Educação Inclusiva
  • GT 15 - Plurilinguismo na Educação
  • GT 16 - Linguagens e letramentos na Educação