O projeto de extensão “Mãos de vida”, desenvolvido há 12 anos na Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), propõe uma abordagem inovadora e transdisciplinar que busca integrar saberes e práticas educativas nas áreas da saúde, educação, esporte, cultura e controle social. Fundamentado nos princípios das Escolas Criativas, o projeto tem como objetivo promover experiências formativas que fortaleçam o desenvolvimento humano, a cidadania e o pertencimento comunitário, especialmente entre crianças, jovens, mulheres e profissionais de instituições socioeducativas do município de Itajaí, Santa Catarina.
De acordo com Morin (2003), a transdisciplinaridade articula emoção, razão e ética nos processos educativos e valoriza a complexidade do ser humano. Nesse sentido, as práticas do projeto ampliam o alcance social e o diálogo entre diferentes áreas do conhecimento, estimulando o protagonismo dos participantes.
Aspectos sobre a Educação Alimentar e Nutricional (EAN) foram essenciais no desenvolvimento das práticas, pois identificamos que impactavam nas condições de saúde e bem-estar das mulheres. Nesse âmbito, diversas ações foram planejadas e desenvolvidas a fim de contribuir com a educação em saúde.
A educação constitui um direito do ser humano, além de ser um instrumento de transformação social. O acesso à educação de qualidade possibilita a ampliação das oportunidades de inserção social, autonomia econômica e crescimento pessoal, contribuindo para a redução das desigualdades (Brasil, 2023). De acordo com Freire (2014), a educação tem papel libertador e formador da consciência crítica, permitindo que os indivíduos compreendam e transformem sua realidade. A ausência de educação adequada tende a perpetuar ciclos de exclusão, limitando o acesso ao trabalho formal e a serviços básicos, como saúde e moradia (UNESCO, 2022).
O humanescer na educação e na saúde envolve, para Dittrich e Meller (2015) um processo educativo de formação para a justiça social e possibilita o desenvolvimento do ser estético por meio da promoção de experiências didático-pedagógicas criativas, com expressão da imaginação espontânea na busca de sentido do conhecimento na aprendizagem.
Dessa forma, o projeto “Mãos de vida” vem desenvolvendo, por meio da atuação das acadêmicas e docentes o cuidado em saúde e da EAN das mulheres, em condição de vulnerabilidade social e dependência de substâncias químicas. No caso dessas mulheres, a educação representa um ponto de partida para o exercício da cidadania e a melhoria das condições de vida, visto que favorece o empoderamento e a participação social.
De acordo com Brasil (2014) “A alimentação adequada e saudável é um direito humano básico que envolve a garantia ao acesso permanente e regular, de forma socialmente justa, a uma prática alimentar adequada aos aspectos biológicos e sociais do indivíduo [...]” Nesse âmbito, deve atender às necessidades alimentares em quantidade e qualidade de modo equilibrado e prazeroso.
Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, desenvolvido com metodologia ativa por meio de intervenções educativas com mulheres que participam do projeto de extensão “Mãos de Vida”. Foi organizado pelos bolsistas e professores orientadores a elaboração de um cronograma semanal para as atividades em campo, realizadas no segundo semestre de 2025, em uma instituição da cidade de Itajaí. As práticas envolveram rodas de conversa e oficinas temáticas sobre alimentação saudável e saúde.
Foram realizados planejamentos diários e registros das ações resultados em diários de campo que possibilitaram a organização dos resultados e de unidades temáticas para a descrição das experiências. A primeira unidade integrou o foco da alimentação saudável e a segurança dos alimentos; a segunda envolveu as plantas medicinais, as quais integraram o humanescer na educação em saúde, como direito social.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Desenvolver práticas educativas voltadas para mulheres em situação de vulnerabilidade social e recuperação da dependência química foi um processo desafiador para contribuir com a saúde. Identificamos que a alimentação adequada era um tema necessário para contribuir com o tratamento, principalmente em virtude do crescente aumento da obesidade, consumo de alimentos industrializados e carências nutricionais. Entendemos que “[...] uma prática alimentar adequada aos aspectos biológicos e sociais do indivíduo e que deve estar em acordo com as necessidades alimentares especiais” (Brasil, 2014, p. 8).
No primeiro momento, desenvolvemos por meio de uma roda de conversa reflexões sobre alimentação saudável e o entendimento sobre os dez passos para uma alimentação saudável, conforme orientações do Guia Alimentar para a População Brasileira (Brasil, 2014). Na sequência apresentamos às participantes conhecimentos por meio de textos explicativos e imagens ilustrativas, a fim de facilitar a compreensão e tornar a abordagem mais dinâmica e acessível às participantes. Buscamos incentivar a troca de experiências, reflexões e dúvidas relacionadas aos hábitos alimentares cotidianos, valorizando o diálogo como estratégia pedagógica.
Foram realizadas dinâmicas interativas para a aprendizagem dos temas, com o propósito de reforçar o aprendizado e avaliar de forma lúdica a assimilação dos conceitos apresentados. Cada participante recebeu duas placas identificadas com as palavras “sim” e “não”. As acadêmicas, por sua vez, apresentaram imagens de diferentes tipos de alimentos, questionando o grupo sobre sua classificação - in natura, minimamente processados, processados ou ultraprocessados - tema abordado no momento teórico da atividade. As participantes deveriam levantar a placa correspondente à resposta que considerassem correta.
Buscamos estimular sensações e conhecimentos que integram a alimentação e a saúde com cuidado a fim de reconhecerem que as ações pessoais impactam no bem-estar e na conquista de benefícios no processo de viver e humanescer. Reconhecemos que, de acordo com Dittrich e Meller (2015) as aprendizagens envolvem bases ecossistêmicas que integram os conhecimentos e práticas do ser humano sensível-inteligível.
Outro momento de diálogo foi estruturado na roda de conversa, com o objetivo de promover conhecimentos sobre segurança e higiene dos alimentos, enfatizando a importância da higienização. Por meio de slides expressamos conhecimentos teóricos sobre boas práticas de higiene na manipulação de alimentos e etapas corretas para a lavagem das mãos. Incluímos imagens ilustrativas, esquemas de passo a passo e exemplos do cotidiano, com o intuito de facilitar a compreensão das mulheres e estimular a participação por meio de perguntas e comentários.
De acordo com Brasil, (2014), os modos de comer e cuidar dos alimentos particulares são partes da cultura social e se relacionam com sentimentos de pertencimento social das pessoas, autonomia e o prazer propiciado pela alimentação que ampliam o estado de bem-estar.
No processo de cuidado em saúde e bem-estar realizamos dinâmicas práticas de higienização das mãos e cada participante recebeu instruções detalhadas sobre os sete passos da lavagem correta das mãos, conforme normas da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2009). As participantes realizaram as técnicas utilizando água e sabão, guiadas pela teoria apresentada no momento anterior, integrando conteúdo teórico e prática sensorial, permitindo que as participantes assimilassem conceitos sobre higiene e segurança alimentar de forma participativa e significativa.
Com o objetivo de apresentar e incentivar o conhecimento sobre Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) e sua importância nutricional, ambiental e cultural, apresentamos o conceito de PANCs, suas características botânicas, propriedades nutricionais e formas de utilização na alimentação cotidiana. Foram utilizadas imagens ilustrativas permitindo que as participantes reconhecessem visualmente as plantas.
Uma atividade prática importante foi a organização da horta do local, com o objetivo de identificar e reconhecer as PANCs presentes no espaço. As participantes foram orientadas a observar, tocar e diferenciar as plantas comestíveis não convencionais, recebendo instruções sobre critérios de identificação, partes comestíveis e cuidados no manuseio. As acadêmicas acompanharam as ações, promovendo aprendizado prático e sensorial. Essa abordagem permitiu que as participantes assimilassem conhecimentos teóricos de forma concreta, reforçando os vínculos entre educação, sustentabilidade e alimentação saudável. O contato direto com a horta e a prática de identificação das plantas favoreceu a fixação do conteúdo e a construção de competências práticas.
O projeto “Mãos de Vida” possibilitou o poder transformador da educação como instrumento de inclusão e bem-estar, articulando saberes da saúde e práticas formativas com mulheres em situação de vulnerabilidade social. O desenvolvimento dos conhecimentos em torno da alimentação reafirmou a relevância da educação na promoção da saúde.
Foi possível contribuir com a EAN com as mulheres por meio de experiências educativas de cuidado em saúde, considerando as condições de vulnerabilidade social das participantes do projeto de extensão “Mãos de Vida”.
Além de beneficiar a comunidade atendida, as experiências proporcionaram às acadêmicas e docentes envolvidas uma vivência formativa significativa, que ampliou suas competências técnicas, sensibilidade social e compreensão sobre o papel da educação na transformação da realidade. Nesse sentido, o projeto proporcionou conhecimento, sensibilidade e compromisso social, fortalecendo tanto a formação acadêmica quanto o exercício da cidadania e da dignidade humana.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2014.
BRASIL. Ministério da Educação. Plano Nacional de Educação: diretrizes, metas e estratégias 2014–2024. Brasília: MEC, 2023.
DITTRICH, M. G.; MELLER, V. A experiência estética na docência: humanescer para a justiça social. Revista Polyphonía, Goiânia, v. 32, n. 1, p. 66–85, 2021. DOI: 10.5216/rp.v32i1.67391. Disponível em: https://revistas.ufg.br/sv/article/view/67391. Acesso em: 1 nov. 2025.
FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. Editora Paz e Terra, 2014.
MOTTA, M. A. Os sete saberes necessários à educação do futuro. Journal of Human Growth and Development, v. 13, n. 1, 2003.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Guia de higiene das mãos para profissionais de saúde. Genebra: OMS, 2009.
SILVA, M. P.; AGUIAR, P. A.; JURADO, R. G. As tecnologias digitais da informação e comunicação como polinizadoras dos projetos criativos ecoformadores na perspectiva da educação ambiental. Revista Polyphonía, Goiânia, v. 31, n. 1, p. 182–204, 2020.
UNESCO. Educação e igualdade de gênero: relatório global de monitoramento da educação 2022. Paris: UNESCO, 2022.