O PAPEL DO PET- SAÚDE NA FORMAÇÃO ACADÊMICA E CIDADÃ DOS ESTUDANTES

  • Autor
  • Johanna Budag Carvalho
  • Co-autores
  • Eloysa Nezello , Clarice Aparecida Munaro , Ana Luiza Reis Vasques
  • Resumo
  •  

     

    Grupo de Trabalho (GT): GT 11 – Educação Superior

     

    Modalidade do trabalho: comunicação oral

     

    Formato de apresentação: presencial

     

    O Papel do PET- Saúde na Formação Acadêmica e Cidadã dos Estudantes

    Johanna Budag Carvalho[1]

    Eloysa Nezello[2]

    Clarice Aparecida Munaro[3]

    Ana Luiza Reis Vasques[4]

                                                                                       

    PALAVRAS-CHAVE: Educação em saúde; Relações comunidade-instituição; Sistema Único de Saúde.

     

    1 INTRODUÇÃO

    O Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde) é importante estratégia de integração entre ensino, serviço e comunidade, voltada à formação de profissionais comprometidos com os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS). A edição PET-Saúde: Equidade, lançada pelo Ministério da Saúde em parceria com o Ministério da Educação, tem como foco a promoção da equidade nas práticas de saúde, contemplando temáticas relacionadas a gênero, raça, etnia, deficiência, sexualidade e demais dimensões da diversidade humana com enfoque nas trabalhadoras e futuras trabalhadoras do SUS (BRASIL, 2024).

    Dessa forma, o PET-Saúde Equidade assume papel relevante no desenvolvimento acadêmico dos futuros profissionais de saúde, fortalecendo competências técnicas, relacionais e ético-políticas, e consolidando a formação voltada para a integralidade do cuidado e a transformação social.

     

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

    A formação em saúde no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS) exige a articulação entre teoria, prática e compromisso social, alinhada aos princípios da integralidade, equidade e participação social. Nesse cenário, PET-Saúde constitui-se como uma estratégia de integração ensino-serviço-comunidade (IESC), fundamentada na concepção de que o aprendizado se consolida na práxis, entendida como a unidade entre reflexão crítica e ação transformadora (Basílio; Ribeiro 2021). Inspirada em perspectivas pedagógicas críticas e na noção de educação em saúde como produção de sujeitos, a formação no SUS demanda profissionais capazes de compreender o papel social da universidade na transformação das realidades (Leandro et al., 2024).

    Assim, o PET-Saúde favorece uma formação crítica ao inserir o estudante em espaços reais de cuidado, gestão e educação, permitindo a construção do conhecimento a partir das necessidades dos territórios e da população. A vivência no serviço reorganiza o processo de aprender e de produzir saúde, estimulando a reflexão sobre práticas, tecnologias e encontros de cuidado. Dessa forma, a integração ensino-serviço não se limita à prática, mas representa um processo formativo ético-político comprometido com o SUS (Santos; Sodré, 2024).

    Os Determinantes Sociais da Saúde (DSS) são compreendidos como as condições sociais, econômicas, culturais e políticas que moldam o processo saúde-doença. Os DSS estruturam desigualdades e determinam iniquidades persistentes. Considerar a equidade na saúde implica reconhecer que desigualdades não são neutras, mas derivam de processos históricos de opressão relacionados à raça e etnia, gênero, classe e território (Schenkman, 2023).

    No campo analisado, saúde das trabalhadoras do SUS e segurança alimentar, temas que envolvem a interseção entre maternagem, trabalho e cuidado. As desigualdades de gênero fazem parte do contexto do trabalho, gerando cargas desiguais de cuidado e limitações para práticas alimentares adequadas. Tais desigualdades são intensificadas por marcadores de raça e etnia, que moldam o acesso a ocupações precarizadas e à proteção social (Fragoso, 2024). Assim, compreender essas intersecções é fundamental para analisar como o PET-Saúde: Equidade fomenta reflexões ético-políticas e ações voltadas ao enfrentamento das injustiças estruturais.

    Dessa forma, o PET- Saúde: Equidade possibilitou a oportunidade às acadêmicas, professoras e perceptoras a elaboração de um projeto de pesquisa como meio de desenvolvimento de atividades do grupo propostas pelo programa, a fim de identificar a real da comunidade e agir sobre ela.

     

    3 METODOLOGIA

    O estudo em desenvolvimento pelas acadêmicas, professoras e perceptoras do grupo PET- Saúde: Equidade, vigente até a data de hoje, trata-se de uma pesquisa com metodologia mista, qualitativa e quantitativa, com delineamento descritivo exploratório, que visa compreender como as trabalhadoras percebem seu processo de maternagem e diagnosticar sua (in)segurança alimentar e nutricional.

    A amostra do estudo é composta por trabalhadoras do Sistema Único de Saúde atuantes na Unidade Básica de Saúde Nossa Senhora das Graças, no município de Itajaí-SC, com seleção baseada na disponibilidade das voluntárias. Os critérios de inclusão abrangem trabalhadoras do SUS atuantes na Atenção Primária à Saúde na UBS pesquisada que estejam vivenciando e/ou vivenciado o processo de maternagem e assinarem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. São excluídas trabalhadoras do SUS da UBS pesquisada que estejam afastadas do trabalho no período da coleta de dados, bem como não estejam vivenciando e/ou tenham vivenciado o processo de maternagem.

    Os dados são coletados por meio de entrevista presencial com a aplicação de um questionário semiestruturado que contempla perguntas sobre maternagem e segurança alimentar e nutricional, abordando dados sociodemográficos, informações sobre o processo de maternagem (potencialidades/fragilidades), existência de rede de apoio no retorno ao trabalho, após licença maternidade, e sobre segurança alimentar e nutricional. 

    O questionário aplicado, contém as questões: na identificação (peso; altura; se é mãe ou não, se sim: os filhos moram com você? Qual a idade do(s) filho(s)?; na sua residência moram pessoas com deficiência (PCDs)?; sobre maternagem: se é mãe, quais as principais dificuldades que tiveram enquanto mãe para o retorno ao trabalho?; quais outros apoios tiveram no retorno ao trabalho, além da licença maternidade?).

    Após a coleta de dados inicial, é utilizada a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA14), validada e utilizada em pesquisas nacionais como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios e a Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017/2018 (Bortolini, et al., 2025). Também é utilizado o Formulário de Marcadores do Consumo Alimentar adotado pelo Ministério da Saúde, através do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional – SISVAN (BRASIL, 2015).

    A EBIA14 é a versão completa da EBIA, sendo composta de 14 perguntas. As quatro perguntas iniciais (1 a 4) referem-se ao acesso de alimentos do coletivo de moradores do domicílio, o que inclui crianças e adolescentes. As quatro perguntas restantes (5 a 8) avaliam esta mesma condição, porém, vivenciada por algum morador com idade superior a 18 anos. As últimas perguntas (9 a 14) são relativas ao acesso aos alimentos vivenciado pelas crianças e adolescentes do domicílio. Portanto, quando não existem moradores nesta faixa de idade (menores de 18 anos), as 6 últimas perguntas da EBIA14, não serão realizadas (Rede PENSSAN, 2024).

    Será utilizado o bloco do Formulário de Marcadores de Consumo Alimentar direcionado aos maiores de dois anos, adolescentes, adultos, idosos e gestantes. Esse bloco foi elaborado com o objetivo de identificar padrões de alimentação e comportamento saudáveis ou não saudáveis. O formulário questiona sobre os alimentos consumidos no dia anterior, o que reduz possíveis vieses de memória, ou seja, esquecimento em relação à alimentação realizada (BRASIL, 2015). 

    Por se tratar de uma pesquisa quanti-qualitativa, será utilizado para a parte qualitativa a metodologia da Minayo (2014) que é amplamente reconhecida no campo das ciências sociais aplicadas à saúde, especialmente por sua contribuição à pesquisa qualitativa. Será utilizado o método de Análise Temática que possui a estrutura em três fases: A primeira fase refere-se à pré-análise, na qual será utilizado a fase preparatória, na qual será organizado o material das entrevistas e realizado uma leitura flutuante, ou seja, uma leitura livre e atenta do conteúdo para familiarizar-se com os dados e identificar ideias iniciais.

      A segunda fase refere-se à exploração do material, na qual é realizada a codificação e classificação do mesmo, com base em unidades de registro (palavras, frases, expressões significativas). As falas dos participantes são agrupadas em categorias temáticas, que refletem os núcleos de sentido mais relevantes. Por fim, a terceira fase refere-se ao tratamento dos resultados, inferência e interpretação, nesta última fase as pesquisadoras irão interpretam os dados à luz do referencial teórico, articulando os sentidos emergentes com o problema de pesquisa, buscando compreender os significados e contextualizar os achados. 

    A análise da parte quantitativa será realizada por meio de procedimentos estatísticos descritivos apropriados à natureza quantitativa da pesquisa. Inicialmente, os dados serão organizados em planilhas eletrônicas por meio do Software Excel e posteriormente serão submetidos a uma análise descritiva, com o objetivo de caracterizar os dados e descrever as principais variáveis estudadas. Os dados do Formulário de Marcadores do Consumo Alimentar serão inseridos no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) para geração de relatórios.

    A partir da coleta de dados de gênero, etnia e deficiência, espera-se que seja possível dar visibilidade a quem são as trabalhadoras em saúde, evidenciando suas necessidades. Após a análise destes resultados, serão desenvolvidas ações com o objetivo de valorizar e apoiar as trabalhadoras e futuras trabalhadoras em seu processo de trabalho, considerando suas necessidades, para melhoria da qualidade de vida. Esse questionário possibilitará o levantamento de dados que demonstram a situação atual destas trabalhadoras, apoiando a elaboração e incorporação de serviços voltados às trabalhadoras do SUS, articulados com a Rede de Atenção à Saúde (RAS) e outros equipamentos públicos e políticas de segurança alimentar e nutricional.  

    Outro benefício indireto é a possibilidade de desenvolvimento de estratégias que promovam equidade no local de trabalho, levando em conta questões como gênero, sexualidade, raça, etnia, deficiências, vulnerabilidade social, insegurança alimentar e nutricional, saúde mental e maternagem. Além disso, espera-se que os resultados possam servir como base para projetos de lei e/ou objetivos no Plano Municipal de Saúde que estejam alicerçados na promoção da saúde e da segurança alimentar e nutricional das trabalhadoras, visando um cuidado ético e horizontal.

     

    4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    O PET-Saúde se destaca como um instrumento relevante na formação acadêmica, ao promover a articulação entre ensino, pesquisa e extensão. Como política pública voltada à educação pelo trabalho, o programa oferece aos estudantes a possibilidade de vivenciarem experiências que vão além dos limites da sala de aula, aproximando-os das realidades sociais e dos desafios cotidianos do Sistema Único de Saúde (SUS).

    Ao inserir o acadêmico em espaços reais de cuidado e educação em saúde, o programa possibilita o exercício do diálogo com a comunidade, a troca de saberes e o fortalecimento do compromisso social da universidade. Dessa forma, a extensão ocupa um papel central na formação, contribuindo para a transformação da realidade e para a consolidação de práticas inclusivas e equitativas.

    Em síntese, o PET-Saúde representa muito mais do que uma experiência extracurricular: é um instrumento de formação integral, que integra teoria, prática e compromisso social. Por meio da extensão, os acadêmicos têm a oportunidade de ampliarem seu aprendizado, desenvolvendo habilidades relacionadas à prática profissional e contribuindo de forma efetiva para o fortalecimento do SUS e para a promoção da equidade em saúde.

     

    REFERÊNCIAS

     

    BASÍLIO, E. F.; RIBEIRO, L. T. F. Ensinar exige: pressupostos necessários à prática docente sob a ótica da pedagogia da autonomia de Paulo Freire. Humanidades & Inovação, v. 8, n. 56, p. 93-103, 2021.

     

    ?BORTOLINI, G. A et al. Atenção Primária e o direito humano à alimentação no contexto de insegurança alimentar e nutricional: a entrada na agenda nacional. Nutrivisa Revista de Nutrição e Vigilância em Saúde, Fortaleza, v. 12, n. 1, p. 149 - 157, 2025.

    BRASIL. Ministério da Saúde. PET-Saúde Equidade: apresentação e diretrizes do programa. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024.

     

    BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Orientações para avaliação de marcadores de consumo alimentar na atenção básica. Brasília: Ministério da Saúde, 2015.

     

    FRAGOSO, João. A sociedade perfeita: as origens da desigualdade social no Brasil. Editora Contexto, 2024.

     

    LEANDRO, B. B. S. et al. Monitoramento e avaliação para o controle social do Sistema Único de Saúde: reflexões sobre o agir formativo. Trabalho, Educação e Saúde, v. 22, p. e02804269, 2024.

     

    Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional PENSSAN - Nota Técnica sobre a comparação das Estimativas Nacionais de Insegurança Alimentar com base nas versões da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA) curta e a completa. Grupo Técnico de Monitoramento, 2024.

     

    SANTOS, L. E.; SODRÉ, F. economia política em saúde em tempos de crise e reforço de práticas conservadoras: disputa entre público e privado no estado do espírito santo. Revista Serviço Social em Perspectiva, v. 8, n. 2, p. 248-266, 2024.

     

    SCHENKMAN, S. Epidemiologia e emancipação humana: uma revisita aos princípios da justiça. Saúde em Debate, v. 47, n. 136, p. 269-291, 2023.

     

  • Palavras-chave
  • Educação em saúde; Relações comunidade-instituição; Sistema Único de Saúde.
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
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