RESUMO EXPANDIDO
Grupo de Trabalho (GT): Educação Física e Esporte
Modalidade do trabalho: Comunicação oral
Formato de apresentação: On-line
A COORDENAÇÃO MOTORA COMO POSSIBILIDADE NA INICIAÇÃO ESPORTIVA DO ATLETISMO: RELATO DE EXPERIÊNCIA DE ESTÁGIO SUPERVISIONADO EM TREINAMENTO
Bruno Luis Souza da Costa [1]
Liliane Geisler [2]
Maíra Naman [3]
Gisele Lombardi 4
PALAVRAS-CHAVE: Atletismo; Iniciação esportiva; Coordenação motora; Estágio Supervisionado.
1 INTRODUÇÃO
O Estágio Curricular Supervisionado em Treinamento é uma vivência crucial na formação em Educação Física, permitindo aos acadêmicos articular teoria e prática e adquirir experiência na intervenção como treinadores. A Educação Física, com raízes históricas no século XIX e formalizada no Brasil a partir de 1939, consolidou-se como um campo de atuação relevante e em expansão (Metzner, 2020).
No contexto do estágio, é fundamental compreender o Treinamento Desportivo como um conjunto de normas e métodos organizados que visam o desenvolvimento e aperfeiçoamento individual e coletivo, buscando o máximo desempenho físico, psicológico e cognitivo dos atletas (Barbanti, 1997).
O presente relato de experiência se deu em um estágio na equipe juvenil de atletismo da Associação Comunidade do Atletismo, com atletas de 9 a 16 anos. Diante da necessidade de integrar o rigor do treinamento a práticas atrativas e eficazes para essa faixa etária na iniciação esportiva, a coordenação motora foi definida como estratégia central.
Reconhecendo que a coordenação é uma capacidade treinável, e alinhada com as habilidades motoras presentes no atletismo – correr, saltar e lançar – o foco da intervenção foi no trabalho de Equilíbrio, Agilidade e Tempo de Reação (Gallahue e Ozmun, 2005).
Desta forma, o estudo se justifica ao buscar facilitar o processo de ensino-aprendizagem do atletismo em atletas juvenis, estabelecendo uma correlação entre a Coordenação Motora, o Treinamento Desportivo e a modalidade. A questão norteadora do trabalho é: Como incluir a coordenação motora como uma possibilidade para o ensino do atletismo na iniciação esportiva? E como objetivo, busca-se compreender como a coordenação motora pode ser incluída como uma possibilidade no ensino do atletismo na iniciação esportiva.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
O atletismo é considerado a base do movimento humano, reunindo gestos fundamentais como correr, saltar e lançar, que desde os primórdios da humanidade foram essenciais para a sobrevivência (Dornelles, 2019). Sua prática acompanha a evolução histórica do homem, consolidando-se como modalidade esportiva estruturada na Grécia Antiga, onde surgiram os primeiros Jogos Olímpicos em 776 a.C., com provas de corrida, salto e lançamento (Matthiesen, 2013).
No Brasil, o atletismo se desenvolveu oficialmente a partir de 1910, sendo regulamentado pela Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) desde 1977, e consolidou-se como o esporte com maior número de medalhas olímpicas e panamericanas do país (Mariano, 2012).
O atletismo abrange atualmente cerca de 40 modalidades, divididas em corridas, saltos, lançamentos e provas combinadas, permitindo ampla participação e diversidade de habilidades motoras (CBAt, 2012). Essa variedade o torna uma ferramenta valiosa para a iniciação esportiva, favorecendo o desenvolvimento motor global e o aprendizado das capacidades físicas básicas.
De acordo com Santana (2005), a iniciação esportiva deve priorizar a vivência e o prazer pela prática, e não a competição precoce. Almeida (2005) propõe uma divisão em três estágios: iniciação (8–9 anos), aprimoramento (10–11 anos) e introdução ao treinamento (12–13 anos), destacando o papel do educador em promover experiências lúdicas e diversificadas. A ênfase deve estar na socialização, na coordenação e na cooperação entre as crianças, como também ressaltam Barbanti (1997) e Santana (2005).
Dentro deste contexto, à medida que o jovem atleta avança nesse processo, inicia-se a transição para o treinamento esportivo, momento em que as práticas passam a adquirir maior estruturação técnica e metodológica. O treinamento esportivo, segundo Barbanti (1997), evoluiu de práticas empíricas para métodos científicos, fundamentados na periodização — divisão do treino em fases que equilibram volume e intensidade. Dentre os modelos existentes, o treinamento em blocos de Verkhoshansky (1983) destaca-se por sua flexibilidade e adequação à iniciação esportiva, ao permitir adaptação individual e progressiva das capacidades físicas, respeitando os estágios de desenvolvimento infantil.
Por fim, a coordenação motora é elemento essencial no processo de iniciação e no atletismo, pois representa a capacidade do sujeito de organizar suas ações de forma integrada, articulando dimensões cognitivas, afetivas e corporais na realização do movimento (Bernstein, 1967). Conforme Gallahue e Ozmun (2001), o desenvolvimento motor é contínuo e sequencial, exigindo que o profissional de educação física compreenda as fases de maturação motora para propor atividades adequadas.
3 METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa básica de abordagem qualitativa, fundamentada nos princípios da pesquisa participante, por envolver a interação direta entre o pesquisador e o ambiente investigado (Minayo, 2001; Gil, 2002). Caracteriza-se de tipo exploratória, com o intuito de ampliar a compreensão sobre o papel da coordenação motora na iniciação esportiva do atletismo.
A experiência foi desenvolvida no contexto do estágio curricular supervisionado em Treinamento do curso de Educação Física – Bacharelado da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), realizado junto à Associação Comunidade do Atletismo, localizada na pista municipal de Itajaí (SC).
Participaram do estudo atletas da categoria de iniciação esportiva, com idades entre 9 e 16 anos, que compõem a equipe juvenil da associação. As intervenções ocorreram semanalmente, entre 18 de março e 3 de junho de 2024, totalizando 12 encontros — sendo dois destinados ao reconhecimento de campo e dez à execução das atividades práticas.
As sessões foram planejadas com base no tema “A coordenação motora como possibilidade no atletismo”, buscando o desenvolvimento das capacidades de equilíbrio, agilidade e tempo de reação. As atividades foram realizadas com os materiais disponíveis na instituição, respeitando as condições do ambiente e os princípios de segurança.
A coleta de dados ocorreu por meio de relatórios descritivos elaborados após cada encontro, contendo observações sobre o desempenho técnico, motor e comportamental dos atletas. A análise dos registros foi realizada segundo a técnica de Análise de Conteúdo, conforme Bardin (2016), contemplando as etapas de pré-análise, categorização e interpretação dos resultados.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
· Aspectos de Coordenação Motora Relacionados ao Atletismo
A coordenação motora é um elemento essencial no desenvolvimento técnico e no desempenho esportivo, especialmente no atletismo, que exige precisão e controle nos movimentos (Neto et al., 2010). De acordo com Santos (2004), trata-se da capacidade cerebral de harmonizar músculos e articulações, permitindo respostas motoras adequadas às exigências das provas atléticas.
Entre os principais aspectos observados durante o estágio supervisionado em treinamento, destacam-se o equilíbrio, o tempo de reação e a agilidade. O equilíbrio, componente essencial em modalidades como a marcha atlética (Santos, 2021), foi desenvolvido em atividades com saltos e aterrissagens controladas, permitindo aos atletas maior estabilidade e foco. Observou-se progresso significativo, especialmente na manutenção de posturas unilaterais e na concentração durante os exercícios.
O tempo de reação, definido como a capacidade de responder rapidamente a um estímulo (Carvalho, 1988), foi desenvolvido em jogos de resposta a sinais sonoros. Os atletas demonstraram boa evolução, revelando que a atenção exerce papel decisivo na resposta motora.
Por fim, a agilidade, entendida como a habilidade de mudar rapidamente a direção do corpo (Marins; Giannichi, 2003), foi vivenciada por meio de atividades de descolamento, saltos e pelos testes de agilidade, tal qual como o Illinois Agility Test. A atividade promoveu engajamento, cooperação e superação individual, reforçando o valor da ludicidade e da avaliação prática no processo formativo dos jovens atletas.
De modo geral, as intervenções evidenciaram que o desenvolvimento da coordenação motora na iniciação ao atletismo contribui não apenas para o desempenho esportivo, mas também para aspectos cognitivos e sociais, fundamentais à formação integral do atleta em formação.
· Infraestrutura e Recursos Materiais
A qualidade do treinamento esportivo está diretamente ligada às condições estruturais e materiais disponíveis (Neto, 2020). No contexto da Associação Comunidade do Atletismo, constatou-se que a falta de áreas cobertas e de equipamentos adequados limitava as intervenções, exigindo do estagiário criatividade e adaptação pedagógica.
Mesmo com as restrições, as aulas foram conduzidas com ludicidade e improvisação utilizando materiais alternativos, como tábuas e cabos de vassoura, o que manteve o envolvimento dos atletas. Essa realidade reflete a precariedade nacional do atletismo brasileiro, onde a carência estrutural é um dos principais fatores de desmotivação e abandono esportivo (Rocha; Santos, 2010).
· A Iniciação Esportiva no Atletismo
A iniciação esportiva requer um processo gradual e diversificado, evitando a especialização precoce, que pode gerar lesões e abandono (Santana, 2005). No estágio, observou-se que atletas juvenis (9 a 16 anos) frequentemente realizavam treinos semelhantes aos de rendimento, o que contraria o princípio da progressão por etapas.
Buscando elevar a motivação, uma intervenção realizada na pista de atletismo utilizou variações de largada e estímulos auditivos para trabalhar atenção e tempo de reação. O entusiasmo dos jovens revelou o valor simbólico do ambiente esportivo como fator motivacional semelhante ao “gol” no futebol, segundo Araujo (1976).
Essas observações reforçam que, na iniciação atlética, o prazer, a ludicidade e os estímulos adequados à faixa etária são determinantes para a permanência e o desenvolvimento do atleta, cabendo ao treinador criar experiências significativas e atrativas.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo buscou compreender o papel da coordenação motora como ferramenta na iniciação esportiva do atletismo, confirmando sua importância como base essencial para o desenvolvimento das habilidades atléticas. As atividades aplicadas mostraram-se eficazes, de fácil execução e com potencial de transferência para outras modalidades, favorecendo a formação de atletas mais completos.
Apesar dos desafios de adaptação e motivação, as estratégias metodológicas adotadas possibilitaram avanços significativos na concentração e nas capacidades coordenativas dos participantes.
Conclui-se que a coordenação motora deve ser considerada um eixo estruturante no processo de iniciação esportiva, reforçando a necessidade de práticas diversificadas, prazerosas e adequadas à faixa etária. O papel do treinador é fundamental na criação de estímulos significativos que mantenham o engajamento dos atletas. Recomenda-se a continuidade de estudos e experiências que integrem a coordenação motora ao planejamento do treinamento esportivo, contribuindo para o aprimoramento da formação atlética.
REFERÊNCIAS
ARAÚJO, S. O Futebol e seus fundamentos: o futebol força a serviço da arte. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
BARBANTI, V. J. Teoria e prática do treinamento esportivo. 2. ed. São Paulo: Edgard Blucher, 1997.
BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016.
BERNSTEIN N. The Coordination and Regulation of Movement. London, England: Pergamon Press; 1967.
DORNELLES, L. A. Entre o mito e a verdade: uma história do atletismo. Anais da mostra de iniciação científica do cesuca- ISSN 2317-5915, n. 13, p. 227- 244, 2019.
GALLAHUE, David L.; OZMUN, John C. Compreendendo o desenvolvimento motor: bebês, crianças, adolescentes e adultos. São Paulo: Phorte, 2005.
GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2007
MARIANO, C. Educação física: o atletismo no currículo escolar. Wak, 2.ed. Rio de Janeiro, 2012.
MARINS, J. C. B.; GIANNICHI, R. S. Avaliação & Prescrição de Atividade Física. 3ª ed., Rio de Janeiro: Shape, 2003.
MATTHIESEN, S. Q. Atletismo se aprende na escola, org. Jundiaí, SP: editora Fontoura, 2005.
MINAYO, Maria Cecília de Souza. Pesquisa Social. Teoria, método e criatividade. 18 ed. Petrópolis: Vozes, 2001.
METZNER, A. C.; DRIGO, A. J. A trajetória histórica das leis e diretrizes curriculares nacionais para a área de formação em Educação Física. Revista Brasileira de História da Educação, v. 21, n. 1, p. e154, 23 dez. 2020.
NETO, Alberto et al. Análise da coordenação motora de uma equipe sub-11 de futebol de campo em Florianópolis. Vol. 2. São Paulo: Revista Brasileira de Futsal e Futebol, 2010.
NETO, M.D.B. Educação Física escolar: soluções pedagógicas para as principais dificuldades encontradas pelos professores da educação básica. Associação Brasileira de Incentivo à Ciência, V.1, n.1.2013.
ROCHA, Priscila; SANTOS, Edivando. O abandono da modalidade esportiva na transição da categoria juvenil para adultos: estudo com talentos do atletismo. Vol. 21, n.1, p.69-77. Maringá: Revista da Educação Física/UEM, 2010.
SANTANA, Wilton Carlos de. Iniciação esportiva e algumas evidências de complexidade Ponta Grossa: Universidade Estadual de Ponta Grossa, 2002. p. 176-180.
SANTOS, Isadora et al. Avaliação da motricidade fina, global e do equilíbrio em escolares de Água Doce, SC. Vol. 7. Curitiba: Brazilian Journal of Development, 2021.
SANTOS, S.; DANTAS, L.; OLIVEIRA, J. A. Desenvolvimento motor de crianças, de idosos, e de pessoas com transtorno da coordenação. Revista Paulista de Educação Física, São Paulo, v. 18, n. 1, p. 33-44, jan./jun. 2004. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/255621524_Desenvolvimento_motor_de_crianAas_de_idosos_e_de_pessoas_com_transtornos_da_coordenaAo. Acesso em 20 de junho de 2025.
VERCHOSANSKIJ, I.V. Principios de entrenamiento para atletas de élite. Revista Stadium, n. 99, p. 3-8, 1983.
[1] Graduando pelo Curso de Educação física da Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI, brunocosta@univali.br;
[2] Doutora em Educação pela Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI, liliane.geisler@univali.br;
³ Mestre em ciências do movimento humano pela Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC, maira@univali.br
4 Mestre em Exercício físico na promoção de saúde pela Universidade Norte do Paraná - UNOPAR, gisele.lombardi@univali.br