Quando se fala em processo de escolarização de crianças e jovens na Amazônia está se falando de territórios caracterizados por diversidades e saberes locais. Nesse contexto, o estado do Pará representa 29,73% da Amazônia brasileira, com uma população atual de 8.120.131 de habitantes. Um território subdividido em mesorregiões determinadas a partir de marcadores geográfico-social. São grupos humanos, cuja vivência se relacionada a agricultura, ao extrativismo, a pesca, e, a influência de grandes projetos de extração minero-metalúrgicos.
Diante da complexidade e desafios da região, há modos de vida que constituem a história originária daquele lugar que, com suas diferenciações, são como substâncias que permanecem únicas e singulares na vida informal e cotidiana do povo, como as mônadas de Leibniz (1974). O termo ‘mônadas’ usado pelo filósofo, se refere a pluralidade infinita de substâncias ou substrato de uma realidade e a origem sobre a qual todo o resto é composto. Um ponto de atenção é que as mônadas não são percebidas por mera intuição, elas necessitam da observação detida, lógica e comparada, ou seja, as suas variações e manifestações só podem ser investigadas pela razão.
Neste projeto, indaga-se acerca das orientações curriculares postuladas na Base Nacional comum curricular (BNCC) comparativamente a construção dos currículos locais, sobretudo, com o que está posto como ‘aprendizagens essenciais’ a serem ensinadas às crianças. Assim, interessa observar tanto a presença como a ausência de propostas efetivas nas escolas paraenses acerca dos saberes que constituem os povos originários da Amazônia, como forma de valorização da cultura popular local.
Acredita-se que tal investigação indaga o lugar do aprendizado escolar sobre os modos de vida dos povos das águas e das florestas nos microterritórios que compõem a Amazônia paraense. Como recorte geográfico, esta investigação pretende mapear a presença de orientações curriculares e práticas pedagógicas que contenham descritores dessas aprendizagens nas escolas municipais de Barcarena no Pará.
Para tal uma questão é fundamental: se o discurso pós-moderno na educação gira em torno de descritores de competências e habilidades (técnicas cognitivas e comportamentais), quais outras aprendizagens podem estar presentes e serem também consideradas ‘essenciais’ para o processo de escolaridade das escolas na Amazônia paraense?
Este projeto visa observar a presença da cultura ancestral dos povos das florestas e das águas nas propostas e orientações curriculares das escolas municipais de Barcarena, território no qual está localizado o campus XVI da Universidade do Estado do Pará. Um município constituído pelo ‘povo cabano’ protagonista do cenário histórico de lutas e resistências políticas e sociais no Pará. Barcarena, em sua constituição cultural, é formada por indígenas, quilombolas, ribeirinhos, comunidades extrativistas, pescadores, artesãos. Filhos sábios da terra porque produziam conhecimentos no convívio e manuseio dos recursos naturais.
O município está situado na Região Integrada do Tocantins e atualmente pertence à região Metropolitana de Belém. De acordo com último IBGE a cidade apresenta uma dimensão territorial com população de 126.650 habitantes e a densidade demográfica de 96,65 habitantes por quilômetro quadrado. Com economia diversificada Barcarena tem destaque na agricultura, no turismo e na indústria, o município possui o 8º maior PIB do estado do Pará (BRASIL, 2022).
Seu território se divide, entre Barcarena Sede, onde fica a sede administrativa do município, Distrito Murucupi, onde estão os bairros que se difundiram após a chegada do Polo Industrial de Alumínio no município, as ilhas e estradas, além das vilas, entre as quais a Vila dos Cabanos projetada para atender necessidades residenciais e comerciais das empresas e mineradoras. Uma constituição territorial atravessada por forças e relações de poder que impactam nos modos de vida atual da população e nas práticas normatizadas nas escolas.
Para o trabalho, utilizamos as ideias de Candau (2014), Gadotti (2003) e Arroyo (1989) que investigam, respectivamente, processo de ensino aprendizagem e a relevância dos saberes populares locais para, assim, observar e analisar categorias conceituais-epistemológicas de aprendizagens formativas voltadas para história oral, narrativas, brincadeiras, vocabulários, cantigas, ritmos, artefatos, nome das ervas, plantas, rios, saberes matemáticos e cosmológicos que evidenciem uma formação escolar com modos de pertencimento e cultivo das tradições e saberes ancestrais dos povos da Amazônia paraense.
De modo geral, o contexto da educação básica atual, sobretudo desde a implementação da BNCC, aponta para o alinhado do currículo escolar a marcadores de competências gerais, fazendo correspondência direta dos indicadores de aprendizagem com metas nacionais de desempenho. A partir deste projeto, abre-se na educação paraense a discussão sobre a necessidade de uma didática local que construa outros processos formativos nas crianças e jovens para além de medidores de “aprendizagens essenciais” gerais ou globais.
Em última análise, a proposição do observatório permite investigar qual didática contextual já existe ou pode ser inventada, forjada e proposta nas escolas do município de Barcarena/PA que favoreça, nas séries iniciais, um processo de ensino-aprendizagem a partir dos saberes tradicionais dos povos das águas e das florestas.
Esta pesquisa é de caráter bibliográfico e documental. Quanto a pesquisa documental, se dará por meio do site da secretária de educação municipal local para análise do Documento Curricular Municipal (DCM/Barcarena), assim como focará nos arquivos de domínio público (SAEB, INEP, SISPAE) e documentos locais produzidos na escola (PPP, Planejamento de ensino, Plano de aula docente, projetos educacionais).
Já as visitas in loco, se concentrarão em dez escolas de Barcarena para observação das práticas pedagógicas nas séries iniciais da educação básica numa amostra de instituições que representem as escolas municipais situadas na sede, vilas, estrada e ilhas. Para as visitas in loco nas escolas, será utilizado o diário de bordo para registro das observações do/a pesquisador/a sobre as práticas e vivências pedagógicas nos territórios visitados, sem qualquer identificação dos sujeitos.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO (parciais)
É importante pontuar que este projeto foi aprovado como projeto de iniciação científica - PIBIC pela PROPESP/UEPA, cujos estudos e análises iniciaram em setembro de 2025. Os bolsistas envolvidos estão inseridos nas atividades deste projeto ao longo dos 12 meses até a elaboração do relatório final previsto para agosto de 2026.
Com os resultados dos estudos e análises será sistematizado um observatório que reúna evidências acerca da situação atual de práticas de pertencimento a história ancestral e cultural na educação escolar de crianças na rede municipal de Barcarena. E ainda, serão produzidas discussões teórica-epistemológica na Universidade do Estado do Para Campus XVI- Barcarena, acerca da possibilidade de aprendizagens curriculares a partir dos saberes povos tradicionais, o que desnaturaliza o discurso da cultura exótica e mítica e abra passagem para outros saberes singulares, únicos e variados.
Numa análise documental inicial já foi possível observar no documento curricular do município de Barcarena (DCM), aprovado pelo Conselho Municipal de Educação em 2020, alguns enunciados como “Redatores de Geografia/Estudos Amazônicos”, “respeito às diversas culturas amazônicas e suas inter-relações no espaço e no tempo”, “Educação para a sustentabilidade ambiental, social e econômica”, “prática cotidiana inovadora, sustentável ambiental, social e economicamente, em suas múltiplas dimensões”, e, “uma educação que busca o crescimento do estudante como cidadão” como possíveis práticas discursivas de garantia dos saberes originários amazônicos no currículo escolar (Barcarena, 2020)
Em contato inicial com algumas escolas de Educação Infantil foi possível enxergar nos seus espaços de convivência (pátio, recreio) a presença de elementos que caracterizam a cultura barcarenense, assim como desenhos, manchetes de jornais, poemas, recortes das músicas de alguns artistas locais que cantam em suas letras histórias e encantarias da floresta.
Desses estudos preliminares, a percepção é de que o currículo oficial da SEMED/Barcarena é atravessado por propostas macroeducativas alinhadas rigorosamente ao documento geral da BNCC. Entretanto, é necessário avançar para outros documentos escolares como planejamento curricular e projetos institucionais, para evidência de práticas que garantam a regionalização do currículo.
Sobre o cotidiano das escolas ainda se pretende visitar outras realidades para observar em qual medida é recomendado, entre livros didáticos e paradidáticos, autores locais e a história dos movimentos revolucionários da cabanagem, bem como verificar se no organizador curricular do munícipio traz unidades temáticas que garantam um tempo de aprendizagem para as tradições e história das comunidades quilombolas, indígenas e ribeirinhas que formam a história do munícipio.
Barcarena é um município multicultural em saberes com uma população urbana, ribeirinha e quilombola que vive novas dinâmicas sociais de crescimento populacional com alta migração influenciada pela atividade mineradora. Dessa forma, o ambiente escolar é entendido, entre outras coisas, como guardião de relações histórico-cultural a serem preservadas e garantidas no currículo das crianças.
Enaltecer os aspectos culturais que rodeiam a rotina de cada indivíduo é fundamental para a preservação da historicidade de um lugar, seja para cultivar os bons costumes ou, também, para estabelecer “pontes” de reflexão entre passado, presente e futuro. Assim, a busca pela compreensão do mundo, de modo mais específico, a Amazônia e todas as suas transformações depende da sua ancestralidade viva.
No contexto escolar, inserir os saberes tradicionais desde as séries iniciais é fundamental para a garantia dessa continuidade histórico-cultural que se documenta em livros, vídeos, filmes e, principalmente, na memória dos antepassados. Ainda há muita história oral, brincadeiras, cantigas, cheiros, sons a serem ensinados para as crianças. Nesse sentido, a escola é o lugar para ressignificar elementos étnicos-culturais, mesmo que para isso produza práticas microeducativas forjando outras aprendizagens essenciais no currículo.
Por fim, um currículo escolar que dá espaço ao contexto e tradições de seu povo, colabora para dar sentido a uma educação formal contextual. O acolhimento das narrativas ancestrais e dos saberes contidos nelas também são campos de conhecimento. Compará-las as orientações postas pela BNCC e entre diferentes orientações e práticas nas escolas, abre espaço no currículo para relações que valorizem a identidade étnico- cultural local.
REFERÊNCIAS
ARROYO, Miguel Gonzalez. A escola e o movimento social: relativizando a escola. ANDE, n. 12, p. 16-21, 1989. BRASIL. IBGE de Barcarena 2022. Disponível https://cidades.ibge.gov.br/brasil/pa/barcarena/panorama. Acessado em 09/05/2025.
BARCARENA. Documento Curricular do município de Barcarena. Educação Infantil e ensino Fundamental. Prefeitura municipal de Barcarena. Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Desenvolvimento Social, SEMED: 2020
BRASIL. Base nacional Comum Curricular (BNCC). MEC, Brasília: 2017. Disponível: https://www.gov.br/mec/pt-br/escola-em-tempo-integral/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal.pdf
CANDAU, Vera(org.). A didática em questão. 36.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014
GADOTTI, M. Torres, Carlos A. (organizadores). Educação popular: utopia latinoamericana / Tradução de: Jaime Bizeh. 2. ed. – Brasília: Ibama, 2003.
LEIBNIZ, Gottfried; NEWTON, Isaac. A monadologia e outras obras. São Paulo: Abril Cultural,1974.
MOREIRA, Antônio Flávio Barbosa; CANDAU Vera Maria. Multiculturalismo: diferenças culturais e práticas pedagógicas. Petrópolis: Vozes, 2008.