A construção e a negociação da identidade em um contexto multicultural são processos complexos e multifacetados. A cidade de Blumenau, conhecida por sua celebração da "germanidade" devido à influência da imigração, “sufoca” outras manifestações de culturas e identificação de pertencimento ao local.
A historiografia local constantemente nega a presença de escravizados em Blumenau. No entanto, Muller e Probst (2017) contradizem essa narrativa, demonstrando que a escravidão foi uma realidade no Médio Vale do Itajaí durante o contexto da imigração europeia. Dr. Blumenau e seu sócio, Fernando Hackardt, adquiriram cinco escravos em sociedade para iniciar os primeiros trabalhos na Colônia, buscando evitar os altos gastos com trabalhadores que cobravam por suas horas de trabalho.
O fundador da colônia, Dr. Hermann Blumenau, recorreu à mesma estratégia exploratória utilizada em outras localidades do país: a utilização de escravizados.
Associado a esse dado, há também a negação da presença negra no processo de evolução do Médio Vale do Itajaí. A historiografia local não apenas negou a presença de escravos na Colônia Blumenau, mas também privilegiou um discurso branco de colonização. Essa abordagem se reflete na narrativa histórica que, por muito tempo, omitiu a contribuição e a presença significativa da comunidade negra na região. Muller e Probst (2017) desafiam essas representações, evidenciando uma perspectiva mais inclusiva e precisa da história local.
Nesse sentido esta comunicação científica, através de revisão bibliográfica, busca jogar a luz o racismo epistêmico que historicamente marginalizou vozes e perspectivas não hegemônicas na cidade, findando pela autodenominação de “Vale Europeu”. Milton Santos (2020) nos diz que a cultura é o que nos dá consciência de pertencer a um grupo, nesse sentido Blumenau teceu sua histórica sufocando outros grupos étnicos em detrimento da sua “germanidade”.
Hall (2003) destaca a politização das identidades na modernidade tardia. O autor explica que, além de ser transitória, a identidade, durante esse período, é fragmentada, pois se fundamenta na forma como o "sujeito é interpelado ou representado". Dessa maneira, a identidade se esvaziará de sentido ou será preenchida a partir da determinação de quem a interpela. É por meio dessa compreensão que podemos entender as identidades.
A identidade, por conseguinte, no mundo de hoje, só vai poder ser trabalhada eficazmente do ponto de vista político, pois quando o cidadão “se defronta com um espaço que não ajudou a criar, ..., cuja memória lhe é estranha, esse lugar é a sede de uma vigorosa alienação” (Santos, 2020, p.81).
De acordo com Hall (2003), as culturas nacionais concebem identidades na medida em que produzem sentidos sobre a "nação", pelos quais as pessoas se reconhecem. Assim, existem diversas identidades que se ligam, se conectam, se desarmonizam e se ressignificam incessantemente em um mesmo grupo social ou entre grupos sociais.
Príncipe Negro, no qual trataremos na próxima seção, tentou quebrar o lugar de alienação na “germanidade” e construir uma identidade no sentido de derrubar o muro e mostrar os também pertencentes ao Vale do Itajaí.[1]
O “Vale Europeu”, slogan adotado para denominar a região do Vale do Itajaí, representa uma identidade forçada, adquirida em um processo de branqueamento no país, e apagamento étnico local. Mas há processos de resistências, como de Blumenau, que no ano de 1962, liderada por Avandié de Souza, também conhecido como o Príncipe Negro, teve o clube de negros UCHC (União Cultural dos Homens de Cor).
Contestar uma identidade forjada e criada para o turismo envolve trazer à tona figuras significativas, como Avandié de Souza, destacado por Joselina da Silva (2023) como o criador da UCHC em 1962. O Príncipe Negro, natural de Uberaba, Minas Gerais, mudou-se para Blumenau em 1961, figura pública de importância fundamental para a divulgação do nome e imagem dessa organização.
Conforme Silva (2023), a UCHC teve um papel de destaque estadual, atribuindo a si a realização do Congresso do Negro em 1967, ocorrido no Teatro Álvaro de Carvalho, em Florianópolis. O grupo buscava solidificar sua presença na sociedade local estabelecendo estreitas relações com países africanos e seus representantes em Brasília. Nesse contexto, o Príncipe Negro desempenhou um papel de destaque, recepcionando em três ocasiões distintas as delegações do Senegal (1965), da Nigéria (1973 e 1980) e da República do Togo (1982).
Paralelamente ao papel de destaque nas realizações de congressos, o Príncipe negro promoveu concurso de beleza, denominados “Miss Mulata” em várias cidades de Santa Catarina. A vencedora do primeiro concurso foi Janete Rodrigues, da cidade de Blumenau.
A necessidade de consolidar uma identidade racial, fundamentava a criação e a manutenção da UCHC, incluindo a expressiva aceitação dos concursos de beleza (Silva, 2023). Posteriormente, segundo Galarça e Piske (2020), no ano de 1999, uma jovem negra foi eleita Miss Blumenau, segundo a jovem a mesma estava orgulhosa de vencer no meio de tantas loiras.
O Príncipe Negro, ao ganhar destaque no âmbito regional e estadual, percebeu a necessidade de promover e divulgar suas intervenções diretamente ao público negro, criando assim dois jornais na cidade. Silva (2023) menciona a criação do "Colored" e "Os Kings", jornais publicados pelo grupo do Príncipe Negro.
O acervo onde consta a digitalização desses jornais se chama: “Arquivo Histórico José Ferreira da Silva - Blumenau/SC”, onde José Ferreira da Silva ex-vereador e ex-prefeito da cidade, quando a época ainda diretor da Biblioteca Pública da cidade, enviou uma carta ao então arcebispo de Curitiba, Dom Pedro Fedalto, se manifestando preocupado com a UCHC, alegando que nos estados do sul não havia preconceito de cor, nem de raça, e não havia então, a necessidade para uma sociedade de homens de cor (Silva, 2005, p.204).
Após destaque exponente nos anos 60, com a ditadura militar em voga as atividades da UCHC foram diminuindo. Após quase 20 anos de sua criação, a UCHC nos anos 80 ainda promoveria “uma solenidade comemorativa às visitas do Dr. Michel Leone e Dr. Beachir Silas (membros da comitiva da embaixada do Senegal) em Blumenau” (Silva, 2023, p.40).
Por fim ainda teríamos a comemoração de 20 anos do clube, onde o Príncipe Negro e sua organização receberia “a visita do embaixador Sr. Lambana Tachaou do Togo às cidades de Itajaí, Brusque, Blumenau e Timbre” (Silva, 2023, p.40).
O clube atuou também pensando no contexto educacional no “final da década de oitenta encontrou o Príncipe Negro anunciando que além de organizar as bodas de prata da organização daria palestras em escolas de ensino fundamental em Blumenau” (Silva, 2023, p.40).
Com um cenário desafiador para a discussão da diversidade cultural, o debate sobre a cultura afro-brasileira na sociedade blumenauense não pode e não deve ser silenciada. Pode-se dizer que há espaço destinado às questões que valorizam a igualdade racial, por meio de sua cultura, religião e manifestações identitárias na imprensa blumenauense, mas que ele é reduzido e pouco explorado, geralmente ganhando destaque em datas e comemorações específicas. As notícias sobre o negro e sobre as problemáticas culturais e sociais das populações de origem africanas são construídas, muitas vezes, em narrativas relacionadas à pobreza.
Temos como exemplo a reportagem assinada por Ana Carolina Metzger, no portal eletrônico de notícias NSC, com o título: “A história esquecida do ‘Príncipe Negro’ de SC que criou movimento antirracista há 60 anos”, em 20/11/2024 (feriado nacional referente a consciência negra), a reportagem aborda o Príncipe Negro, a UCHC e os jornais “Colored” e “Kings” (Metzger, 2024).
Silva (2023) finaliza trazendo que a importância da atuação da UCHC nos permite contribuir com pesquisas nas categorias de relações raciais e movimentos sociais, estimulando trabalhos que busquem analisar esses grupos de atores sociais e suas demandas organizativas na construção da luta antirracista.
“Ficar prisioneiro do presente ou do passado é a melhor maneira para não fazer aquele passo adiante, sem o qual nenhum povo se encontra com o futuro” (Santos, 2020, p.161). Nesse sentido, o Príncipe Negro rompeu a barreira identitária local e fez seu povo se encontrar com o futuro.
Que a convivência escolar esteja diretamente ligada a compreensão das diversidades étnico-raciais e que seja abordado em aula temas transversais e personagens de destaque como o Príncipe Negro.
REFERÊNCIAS
GALARCA, Sandro. L.; PISKE, Raquel. PÁGINAS EM BRANCO: NEGROS NA IMPRENSA BLUMENAUENSE: 1998 - 2002. Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), [S. l.], v. 12, n. 34, p. 687–710, 2020. Disponível em: https://abpnrevista.org.br/site/article/view/849. Acesso em: 1 nov. 2025.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A,2003.
METZGER, Ana Carolina. A história esquecida do “Príncipe Negro” de SC que criou movimento antirracista há 60 anos. NSC Total, Blumenau, 20 nov. 2024. Disponível em: https://www.nsctotal.com.br/noticias/a-historia-esquecida-do-principe-negro-de-sc-que-criou-movimento-antirracista-ha-60-anos. Acesso em: 2 nov. 2025.
MÜLLER JR, Geraldo; PROBST, Melissa. Invisibilidade da cultura afro-brasileira: um olhar para o Médio Vale do Itajaí – SC. EDUCA - Revista Multidisciplinar em Educação, [S. l.], v. 4, n. 8, p. 160–174, 2017. DOI: 10.26568/2359-2087.2017.2669. Disponível em: https://periodicos.unir.br/index.php/EDUCA/article/view/2669. Acesso em: 2 nov. 2025.
SANTOS, Milton. O espaço do cidadão. São Paulo: Edusp, 2020.
SILVA, Joselina da. A União Catarinense os Homens de cor (UCHC): performances de um príncipe negro. Vozes, Pretérito & Devir: Revista de história da UESPI, v. 15, n. 1, p. 26-44, 2023. Disponível em: https://revistavozes.uespi.br/index.php/revistavozes/article/view/450. Acesso em: 2 nov. 2025.
SILVA, Joselina. União dos Homens de Cor (UHC): uma rede do movimento social negro, após o Estado Novo. 2005. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2005.
Agradecimento a Professora Joselina da Silva, que no dia 16 de junho de 2025, ocorreu seu falecimento. Sua partida deixa uma lacuna imensurável na Educação, na comunidade acadêmica e familiares. Joselina da Silva investigou a presença negra em Blumenau, e que seu desejo de novas investigações acerca do tema seja realizado.
[1] As cidades do Vale do Itajaí incluem as da região do Alto Vale (como Rio do Sul e Ibirama), do Médio Vale (como Blumenau e Brusque) e da Foz do Rio Itajaí (como Itajaí e Navegantes). Ambas localizadas no estado de Santa Catarina, Brasil.