ETNOGRAFIA SOBRE SABERES E EXPERIÊNCIAS: REMINISCÊNCIAS DE PROFESSORAS(ES) INDÍGENAS DA ÁREA DE LINGUAGENS

  • Autor
  • Vinicius Pires de Campos dos Santos
  • Co-autores
  • Harryson Júnio Lessa Gonçalves
  • Resumo
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    TÍTULO: ETNOGRAFIA SOBRE SABERES E EXPERIÊNCIAS: REMINISCÊNCIAS DE PROFESSORAS(ES) INDÍGENAS DA ÁREA DE LINGUAGENS 

    Palavras-chave: Etnografia; Educação Escolar Indígena; Decolonialidade; Antropologia da Educação; Linguagens; 

    1. INTRODUÇÃO

    A presente pesquisa, que integra um projeto de caráter mais amplo, vinculado ao GPAE - Grupo de Pesquisa Antropologia e Educação, ligado à Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp, propõe uma investigação etnográfica sobre as reminiscências de professoras(es) indígenas formadas(os) no curso de Licenciatura Intercultural indígena da Faculdade Intercultural Indígena da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados). O trabalho busca compreender de que modo articulam se saberes escolares e saberes tradicionais no ensino, em especial, neste caso da área de Linguagens.

    Esses docentes são interlocutores fundamentais nos processos de construção do diálogo intercultural, mediando os interesses das comunidades indígenas no intermédio e na relação com os conhecimentos e práticas de conhecimento de matriz científica-ocidental, promovendo novas sistematizações de saberes e práticas. As licenciaturas interculturais indígenas configuram espaços de retomada política e epistêmica, permitindo a conciliação entre mundos e saberes por meio de alianças cosmopolíticas. Essa proposta, portanto, propõe compreender a educação escolar indígena como campo de trocas entre mundos e cosmologias distintas, com uma abordagem calcada nos referenciais e paradigmas provenientes da interface entre a educação e a antropologia.

    2. REFERENCIAL TEÓRICO

    A pesquisa ancora-se na perspectiva decolonial e nas contribuições do Grupo Modernidade/Colonialidade, com ênfase nas discussões sobre a colonialidade do saber e a ecologia de saberes. O diálogo teórico inclui autores como Davi Kopenawa (2023), que critica a centralidade da escrita e propõe uma compreensão do conhecimento como experiência vivida e compartilhada com os entes do cosmos; Morgan Ndlovu (2017), que problematiza o racismo epistêmico e os epistemicídios; e Stengers, Silva e Roque (2023), que propõem uma desaceleração das ciências e abertura para epistemologias outras. A abordagem etnográfica aqui mobilizada segue as reflexões de Clifford (1998), Caldeira (1988) e Peirano (2014), compreendendo a escrita etnográfica como exercício polifônico e sensível, que incorpora múltiplas vozes e afetos. Favret-Saada (2005) inspira a atenção às situações comunicacionais e às afetações do campo, enquanto Fonseca (1999) destaca o caráter concreto e empírico da etnografia, centrado na interação e no cotidiano.

    3. METODOLOGIA

    Provocados por Morgan Ndlovu (2017), evidenciamos que a investigação é concebida a partir de um “lugar de anunciação” não-ocidental com experiência sócio-histórica de “dominadas/os” na diferença colonial e que, consequentemente, padecem de racismo(s) epistêmico(s) e/ou epistemicídio(s). Ou seja, pretendemos neste projeto promover um diálogo sobre possibilidades alinhamento da localização epistêmica dos sujeitos investigados com a sua posição social, tencionando a “colonialidade do saber” a partir da virada decolonial, em especial no âmbito da ação docente de professoras(es) indígenas, em esteira contrária à colonialidade sobre as formas ocidentais de saber (pautado em matrizes coloniais globais de poder), na busca pelas ecologias de saberes.

    Alinhado à nossa perspectiva teórica, coaduna à Decolonialidade e ao Grupo Modernidade/Colonialidade, e, por se tratar de uma investigação no campo da Antropologia, realizaremos a pesquisa na perspectiva epistêmica (e/ou teórico-metodológica) pautada na etnografia.

    Para realização e caracterização da nossa etnografia, nos remetemos a Claudia Fonseca quando ela aponta que

     

    A etnografia é calcada numa ciência, por excelência, do concreto. O ponto de partida desse método é a interação entre o pesquisador e seus objetos de estudo, “nativos em carne e osso”. É, de certa forma, o protótipo do “qualitativo”. E, melhor ainda, com sua ênfase no cotidiano e no subjetivo, parece uma técnica ao alcance de praticamente todo mundo, uma técnica investigativa, enfim, inteligível para combater os males da quantificação. (Fonseca, 1999, p. 58).

     

    Na mesma perspectiva da autora, compreendemos a etnografia como ciência do concreto, da empiria, na qual tal empiria se constitui como ponto fundamental de tecitura das redes de comunicação (voluntárias e involuntárias, verbais e não verbais) de uma etnografia (Favret-Saada, 2005). A partir de uma acepção pautada na Antropologia Pós-moderna, concebemos a “escrita etnográfica” como um reflexo “das vozes advindas das interlocutoras de pesquisa”, em que traçaremos tecituras artesanais entre tais vozes, produzidas a partir dos sujeitos (narrativas dos sujeitos de pesquisa), de “vozes” teóricas/os decoloniais (em especial as/os que discutem a colonialidade do ser e saber) e vozes da/o(s) pesquisador/a(res/ras) (orientando e orientadores), vislumbrando a promoção de uma escrita dialogada com e entre as diversas vozes que se atravessaram durante a etnografia e transitam entre as múltiplas identidades.

    Assim, produziremos uma etnografia guiada por um modo de autoridade polifônica, defendida por James Clifford (1998), que rompe com etnografias produzidas em uma única voz, que em geral, é a do etnógrafo; uma etnografia como uma produção colaborativa; uma escrita sensível que abre espaço de “negociação com um diálogo, a expressão das trocas de uma multiplicidade de vozes” (Caldeira, 1988, p.141). E, ainda, cabe destacar que a discussão feita por Mariza Peirano (2014) sobre uma boa etnografia em que a qualidade está em ultrapassar o senso comum diante o uso da linguagem; para ela

    (...) se o trabalho de campo se faz pelo diálogo vivido que, depois, é revelado por meio da escrita, é necessário ultrapassar o senso comum ocidental que acredita que a linguagem é basicamente referencial. Que ela apenas “diz” e “descreve”, com base na relação entre uma palavra e uma coisa. Ao contrário, palavras fazem coisas, trazem consequências, realizam tarefas, comunicam e produzem resultados. E palavras não são o único meio de comunicação: silêncios comunicam. Da mesma maneira, os outros sentidos (olfato, visão, espaço, tato) têm implicações que é necessário avaliar e analisar. Dito de outra forma, é preciso colocar no texto - em palavras sequenciais, em frases que se seguem umas às outras, em parágrafos e capítulos - o que foi ação vivida. Este talvez seja um dos maiores desafios da etnografia - e não há receitas preestabelecidas de como fazê-lo. (Peirano, 2014, p. 386)

     

    Nesse ínterim é que a escrita etnográfica se materializará, a partir da experiência em campo, onde serão refletidos os entendimentos dos significados dados aos discursos tecidos entre e pelas convivências com os interlocutores da pesquisa. Desta forma, corroboramos a perspectiva de Favret-Saada (2005) acerca das situações comunicacionais que constituem uma etnografia pautada em/nas afetações: “eu, ao contrário, escolhi conceder estatuto epistemológico a essas situações de comunicação involuntária e não intencional: é voltando sucessivamente a elas que constituo minha etnografia” (p. 160).

    Para tanto, propomos realização momentos de diálogos (individualizados) com duas(dois) professoras(es) indígenas e Linguagens, visando a apreensão das suas reminiscências; os diálogos ocorrerão no mínimo em três sessões de bate-papo (aproximadamente de 1 hora cada sessão). Tais momentos de diálogo serão realizados presencialmente ou remotamente (via google meet). As sessões serão gravadas e transcritas com intuito de subsidiar a produção/construção do(s) texto(s) etnográfico(s) final(is). Para além das sessões de diálogos, serão realizadas análises de documentos e bibliografias para substanciar episódios de falas das(os) colaboradoras(es). Cabe destacar que inicialmente será realizada uma revisão de literatura sobre a temática deste projeto.

    As (Os) colaboradoras(es) da pesquisa serão professoras(es) indígenas que atuam na Educação Escolar Indígena e que tiveram sua formação inicial em curso de licenciatura intercultural indígena.

    4. DISCUSSÃO E APONTAMENTOS

    A pesquisa encontra-se em estágio inicial. Até o momento, foram concluídas as

    etapas de levantamento bibliográfico e organização do referencial teórico. As etapas de campo estão em fase de preparação, com definição das colaboradoras(es) e elaboração dos roteiros de diálogo. Espera-se que a partir dos encontros etnográficos seja possível compreender como professoras(es) indígenas reinterpretam os conteúdos escolares da área de Linguagens a partir de suas cosmologias e experiências formativas. Estima-se que os resultados possibilitem a análise das práticas docentes enquanto processos de tradução intercultural, cosmopolítica e ontológica, nos quais os saberes tradicionais e os saberes científicos se encontram, produzindo novos modos de ensino e aprendizagem na e a partir da Educação Escolar Indígena.

    5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Este estudo pretende contribuir para o fortalecimento da Educação Escolar Indígena e para a valorização das epistemologias plurais que emergem das experiências docentes. Ao promover uma etnografia sensível às vozes e aos afetos das professoras(es) indígenas, busca-se dar visibilidade às formas próprias de pensar, sentir e ensinar, reafirmando a importância das alianças cosmopolíticas e das práticas interculturais no contexto escolar. A pesquisa reafirma o compromisso com a descolonização do conhecimento e com a construção de espaços acadêmicos mais abertos à diversidade epistêmica e ontológica, reconhecendo os povos indígenas como produtores de ciência e de saberes legítimos.

     

    6. REFERÊNCIAS

    Brasil. Resolução CNE/CP nº 6/2014. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores Indígenas. MEC: Brasília- DF, 2014.

     

    BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Básica. Resolução nº 5, de 22 de junho de 2012. Define Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Indígena na Educação Básica. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 121, p. 29-30, 25 jun. 2012. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=10934-rceb005-12&category_slug=junho-2012-pdf&Itemid=30192. Acesso em: 21 maio 2025.

     

    CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Presença do autor e a pós-modernidade em Antropologia. Novos estudos. São Paulo, n. 21, p. 134 – 157, 1988.

    CHAMORRO, Graciela. Dicionário Kaiowá-Português. Editora Javali, 2023.

     

    CLIFFORD, James. A experiência etnográfica: antropologia e literatura no século XX. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1998.

     

    FAVRET-SAADA, Jeanne. “Ser afetado”. Cadernos de Campo, v. 13, n. 13, p. 155-161, 2005. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/cadernosdecampo/article/view/50263. Acesso em: 09 maio 2024.

     

    FONSECA, Claudia. Quando cada caso NÃO é um caso: pesquisa etnográfica e educação. Revista brasileira de educação. N. 10, Jan-Abr, 1999.

     

    NDLOVU, Morgan. Por que saberes indígenas no século XXI?: uma guinada decolonial. Epistemologias do Sul, Foz do Iguaçu/PR, v. 1, n. 1, p. 127-144, 2017. Disponível em: https://revistas.unila.edu.br/epistemologiasdosul/article/view/782/651. Acesso em: 21 maio 2025.

     

    PEIRANO, Marisa. Etnografia não é método. Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, ano 20, n. 42, p. 377-391, jul./dez. 2014. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ha/a/n8ypMvZZ3rJyG3j9QpMyJ9m/ . Acesso em: 21 maio 2025.

     

    SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu. Editora/PISEAGRAMA, 2023.

     

    STENGERS, Isabelle; SILVA, Fernando Silva e; ROQUE, Tatiana. Uma Outra Ciência é Possível: Manifesto Por Uma Desaceleração das Ciências. Bazar Do Tempo, 2023.

     

    KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. Editora Companhia das Letras, 2019.

     

    KOPENAWA, Davi. Në Ropë IN: CANÇADO, Wellington; CARNEVALLI, Felipe; LOBATO, Paula; MARQUEZ, Renata; REGALDO, Fernanda (Org.). Terra: antologia afro-indígena. São Paulo/Belo Horizonte: Ubu Editora/PISEAGRAMA, 2023.

     

    AGRADECIMENTOS

    À Reitoria da Unesp, pelo fomento à bolsa de Iniciação Científica (IC), que subsidia esta pesquisa.

     
  • Palavras-chave
  • Etnografia; Educação Escolar Indígena; Decolonialidade; Antropologia da Educação; Linguagens;
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
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