TALK SHOW MULTIPROFISSIONAL: AS SINGULARIDADES NO ATENDIMENTO DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA
Sessuana Inaye Aparecida Magalhães da Rosa[1]
Luciane de Azevedo Coutinho2
PALAVRAS-CHAVE: Pessoas com Deficiência; Integralidade em Saúde; Cuidado Centrado na Pessoa.
A Universidade Regional de Blumenau (FURB), promoveu uma experiência inovadora de ensino e aprendizagem por meio do talk show intitulado “Singularidades da Pessoa com Deficiência: Um Olhar Multiprofissional” em um evento da área da saúde. A atividade teve como propósito fomentar a reflexão crítica acerca da deficiência sob múltiplas perspectivas, ampliando a compreensão dos acadêmicos para além dos aspectos biológicos ou clínicos. A abordagem proposta visou destacar a importância de um olhar integrador, interdisciplinar e sensível à diversidade humana,
essencial à formação de profissionais comprometidos com a inclusão e o cuidado integral.
A discussão sobre as singularidades no atendimento da pessoa com deficiência a partir de uma perspectiva multiprofissional, como proposta no talk show “Singularidades da Pessoa com Deficiência: Um Olhar Multiprofissional”, realizado em um evento cientifico da área de saúde da FURB, representa uma iniciativa acadêmica de grande relevância para o fortalecimento de práticas inclusivas e humanizadas.
Essa proposta parte do reconhecimento de que a deficiência não deve ser compreendida apenas como uma limitação física ou biológica, mas como uma condição complexa, inserida em um contexto social, histórico e cultural, que requer uma análise ampla e interdisciplinar (Diniz, Barbosa e Santos (2009)
No contexto brasileiro, essa perspectiva é reforçada pela Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015), que estabelece que a avaliação da deficiência deve ser feita a partir de um enfoque biopsicossocial, conduzido por equipe multiprofissional e interdisciplinar, considerando fatores biológicos, psicológicos e sociais. Tal abordagem reflete um avanço significativo na forma de compreender a deficiência, deslocando o foco da limitação individual para as barreiras ambientais e sociais que dificultam a plena participação das pessoas com deficiência na vida comunitária (Brasil, 2015)).
Nesse sentido, a proposta do talk show multiprofissional foi ao encontro dessa perspectiva contemporânea, ao reconhecer que o cuidado à pessoa com deficiência requer um olhar integrado que considere dimensões físicas, emocionais e socioculturais.
A abordagem multiprofissional se torna essencial justamente por permitir a articulação entre diferentes campos de saber, ampliando a compreensão sobre as necessidades e potencialidades das pessoas com deficiência (Brasil, 2015). Em ambientes acadêmicos e de formação, como o proporcionado pelo talk show, essa integração entre áreas do conhecimento favorece a construção de competências que extrapolam o domínio técnico, fortalecendo atitudes éticas, empáticas e colaborativas. O trabalho multiprofissional amplia o olhar dos futuros profissionais da saúde, preparando-os para intervir de modo mais sensível e humanizado, respeitando a singularidade de cada sujeito (Bauab Geraldo e Andrade ,2023).
Os benefícios da discussão multiprofissional se estendem para além da formação universitária, repercutindo diretamente na sociedade e na vida das pessoas com deficiência. A construção de uma compreensão coletiva sobre o fenômeno da deficiência fortalece a luta por equidade e por políticas públicas mais inclusivas, baseadas em evidências e no reconhecimento das barreiras que impedem a plena cidadania das PcDs (www12.senado.leg.br). Além disso, forma profissionais mais preparados para atuar em contextos diversos, capazes de dialogar entre si e de compreender o indivíduo em sua totalidade, como preconiza o Sistema Único de Saúde (SUS Brasil, 2015).
Experiências práticas na atenção básica à saúde também demonstram que o trabalho conjunto entre diferentes profissionais melhora o acolhimento e o cuidado das PcDs, favorecendo o vínculo, a escuta e a comunicação empática. O estudo de Bauab Geraldo e Andrade (2023) reforça que as pessoas com deficiência frequentemente relatam insatisfações com a falta de estrutura e o atendimento fragmentado em serviços de saúde, o que torna indispensável a adoção de práticas colaborativas e interdisciplinares (Bauab Geraldo & Andrade, 2023).
Desse modo, o talk show realizado na FURB se configura como uma ação pedagógica e social de grande relevância, ao promover um espaço de escuta, reflexão e aprendizado que ultrapassa os limites do currículo formal. A troca de experiências entre diferentes áreas contribuiu para o fortalecimento de uma cultura institucional de inclusão e para o reconhecimento das pessoas com deficiência como sujeitos de direitos. Além disso, consolidou a importância da articulação entre ensino, pesquisa e extensão na formação de profissionais comprometidos com o cuidado integral, a justiça social e a promoção da diversidade.
A discussão multiprofissional sobre as singularidades da pessoa com deficiência reafirma o papel da universidade como agente transformador da sociedade. Ao adotar o modelo biopsicossocial e integrar diferentes campos de saber, a proposta do talk show “Singularidades da Pessoa com Deficiência” demonstrou que o cuidado ético e humanizado só é possível quando o conhecimento se constrói de forma compartilhada, dialógica e sensível às diferenças que compõem a experiência humana.
O presente relato de experiência foi desenvolvido a partir da realização do talk show intitulado “Singularidades da Pessoa com Deficiência: Um Olhar Multiprofissional”, atividade desenvolvida pela Universidade Regional de Blumenau (FURB) em um evento da área de saúde. A proposta metodológica teve caráter qualitativo, descritivo e reflexivo, fundamentada nos princípios da educação interprofissional e da aprendizagem significativa, com foco na formação de profissionais de saúde com visão crítica e humanizada.
A atividade foi estruturada em três etapas complementares. Na primeira etapa, realizou-se uma dinâmica interativa de sensibilização, na qual os participantes responderam à pergunta disparadora “Sobre deficiência, o que lhe vem à mente?”. As respostas foram sistematizadas por meio da criação de uma nuvem de palavras, que serviu como instrumento diagnóstico das concepções prévias dos estudantes acerca da deficiência. Essa estratégia inovadora possibilitou mapear percepções iniciais e promover o engajamento dos participantes.
Na segunda etapa, ocorreu o talk show, conduzido por docentes e profissionais convidados das áreas de Nutrição, Psicologia, Educação Física, Serviço Social e Administração. Cada participante apresentou, de forma dialogada, contribuições teóricas e experiências práticas relacionadas à temática da deficiência, abordando aspectos como a inclusão no mercado de trabalho, a prática de esportes adaptados, a saúde mental das pessoas com deficiência e os desafios enfrentados nos serviços de saúde e assistência.
Na terceira etapa, foi promovido um debate aberto com o público acadêmico, que permitiu a troca de percepções e o aprofundamento das discussões sobre a importância do olhar multiprofissional no cuidado às pessoas com deficiência. As falas dos participantes e os registros da atividade foram analisados sob a ótica da análise interpretativa de conteúdo, buscando identificar e refletir sobre os principais eixos temáticos emergentes.
A realização do talk show multiprofissional evidenciou o potencial transformador das práticas de ensino e extensão voltadas à inclusão e à saúde das pessoas com deficiência. O uso da nuvem de palavras revelou inicialmente uma predominância de associações entre deficiência e limitações físicas, reforçando a visão biomédica ainda presente no imaginário social.
No entanto, ao longo das discussões, observou-se uma mudança significativa na percepção dos estudantes, que passaram a reconhecer a deficiência como uma condição multidimensional, resultante da interação entre fatores biológicos, psicológicos e sociais — em consonância com o modelo biopsicossocial proposto pela OMS (OMS, 2001).
Os diálogos entre os profissionais convidados ampliaram a compreensão dos participantes acerca da importância da interdisciplinaridade e da escuta ativa na construção de práticas inclusivas. O compartilhamento de experiências reais de atendimento e acompanhamento de PcDs permitiu aos acadêmicos perceberem que o cuidado integral não se limita ao domínio técnico de uma área específica, mas exige cooperação, empatia e reconhecimento da singularidade de cada indivíduo.
Essa perspectiva está em conformidade com Diniz, Barbosa e Santos (2009), que destacam que a deficiência deve ser entendida como fenômeno social e cultural, e que o processo de exclusão decorre mais das barreiras impostas pela sociedade do que das condições corporais das pessoas com deficiência (Diniz, Barbosa & Santos, 2009).
Além disso, a vivência contribuiu para o desenvolvimento de competências socioemocionais, como empatia, comunicação interpessoal e sensibilidade ética, fundamentais para o trabalho humanizado em saúde. A formação acadêmica pautada na reflexão crítica e na interdisciplinaridade favorece não apenas a capacitação técnica, mas também o compromisso ético com a equidade e a justiça social, conforme enfatiza Bauab Geraldo e Andrade (2023), ao defenderem que o atendimento biopsicossocial é essencial para reduzir desigualdades e eliminar barreiras de acesso aos serviços de saúde (Bauab Geraldo & Andrade, 2023).
Desse modo, o talk show se consolidou como um espaço de produção coletiva de conhecimento e de fortalecimento do compromisso institucional com a inclusão, estimulando uma formação profissional pautada na valorização da diversidade e na defesa dos direitos humanos das pessoas com deficiência.
A experiência vivenciada na XVIII Jornada Acadêmica de Nutrição da FURB, por meio do talk show multiprofissional “Singularidades da Pessoa com Deficiência”, demonstrou a relevância de integrar saberes e promover o diálogo entre diferentes áreas no campo da saúde. A atividade possibilitou aos acadêmicos compreender a deficiência a partir de uma perspectiva ampliada, superando concepções reducionistas e fortalecendo o olhar biopsicossocial.
O evento contribuiu significativamente para a formação de profissionais mais conscientes, empáticos e preparados para atuar em equipes interdisciplinares, alinhando-se às diretrizes da Lei Brasileira de Inclusão e aos princípios da atenção integral à saúde. Ao mesmo tempo, reafirmou o papel da universidade como espaço de transformação social, ao aproximar ensino, pesquisa e extensão de práticas que promovem inclusão, cidadania e justiça social.
A discussão multiprofissional sobre as singularidades da pessoa com deficiência reafirma que o cuidado ético e humanizado depende da escuta, do diálogo e da colaboração entre os diferentes saberes. A experiência reforça, portanto, a necessidade de que ações semelhantes continuem sendo promovidas nos espaços acadêmicos, como forma de consolidar uma cultura de respeito à diversidade e de valorização da vida em todas as suas formas
REFERÊNCIAS
BAUAB GERALDO, F. J.; ANDRADE, E. A. Barreiras ao acesso de pessoas com deficiência aos serviços de saúde: uma metassíntese qualitativa. Research, Society and Development, v. 12, n. 2, p. e29012229082, 2023.
Disponível em: https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/29082. Acesso em: 2 nov. 2025.
DINIZ, D.; BARBOSA, L.; SANTOS, W. R. Deficiência, direitos humanos e justiça. Sur – Revista Internacional de Direitos Humanos, v. 6, n. 11, p. 64–77, 2009.
Disponível em: https://www.scielo.br/j/sur/a/FJZ7XbQxJHPfQzGnV4dJfyk/. Acesso em: 2 nov. 2025.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF). São Paulo: Edusp, 2003.
Disponível em: https://apps.who.int/iris/handle/10665/42407. Acesso em: 2 nov. 2025.
BRASIL. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 7 jul. 2015.
Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm. Acesso em: 2 nov. 2025.
INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS, POLÍTICAS E SAÚDE. Trabalho interdisciplinar e reabilitação no SUS: desafios do modelo biopsicossocial. Interface – Comunicação, Saúde, Educação, v. 28, e230178, 2024.
Disponível em: https://www.scielosp.org/article/icse/2024.v28/e230178/pt/. Acesso em: 2 nov. 2025.
[1] Especialista, Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB), Blumenau, Santa Catarina, Brasil, se.fisioterapia@gmail.com
2 Doutora, Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB), Blumenau, Santa Catarina, Brasil, lucianec@furb.br