1 INTRODUÇÃO
O ingresso no ensino superior representa uma etapa significativa no desenvolvimento pessoal, acadêmico e social dos estudantes, marcada por transformações que exigem novos modos de organização, adaptação e construção de vínculos. Esse processo envolve não apenas o enfrentamento de desafios intelectuais, mas também emocionais e relacionais, que podem influenciar diretamente a permanência e o desempenho acadêmico.
A relevância desta pesquisa reside na necessidade de aprofundar a compreensão sobre os processos de adaptação acadêmica e suas implicações para a formação integral do estudante universitário. Ao investigar como os ingressantes vivenciam a transição para o ensino superior e quais estratégias utilizam para lidar com as demandas institucionais e pessoais, torna-se possível subsidiar práticas e políticas de apoio que promovam a permanência e o desenvolvimento estudantil. Em um contexto no qual se intensificam os índices de evasão, adoecimento psíquico e desmotivação acadêmica, a reflexão sobre o acolhimento e o acompanhamento psicológico dos discentes assume papel central. Assim, o estudo contribui para o fortalecimento de ações institucionais que visem à construção de uma cultura universitária mais inclusiva, sensível às necessidades emocionais e formativas dos estudantes.
Neste sentido, o presente estudo objetivou analisar o processo de adaptação acadêmica de estudantes ingressantes do curso de Psicologia, buscando compreender as vivências, desafios e estratégias utilizadas pelos discentes no período de transição e inserção no ensino superior, de modo a contribuir para reflexões e ações institucionais voltadas ao fortalecimento da permanência e do desenvolvimento estudantil.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
Compreender as experiências vivenciadas pelos estudantes que ingressam na universidade é fundamental, uma vez que essas primeiras vivências influenciam significativamente a permanência e o sucesso acadêmico (Andriola; Castro, 2021). A universidade constitui-se como um espaço de produção e circulação de saberes, desempenhando papel fundamental na formação de conhecimentos, na construção da identidade profissional e na ampliação das fronteiras intelectuais. Além disso, representa um ambiente capaz de estimular a criatividade e a reflexão crítica sobre o papel do indivíduo na sociedade (Fernandes et al., 2012).
A transição para a vida acadêmica, embora repleta de expectativas, pode configurar-se como um período potencialmente estressante para os jovens, interferindo na forma como aproveitam as oportunidades oferecidas pela instituição, tanto no âmbito da formação profissional quanto no desenvolvimento psicossocial (Sahão, 2019). Para o estudante universitário, ingressar na instituição representa uma etapa marcada pela busca de autonomia, pela assunção de novas responsabilidades e pela vivência de desafios próprios da fase adulta (Farias; Almeida, 2020).
O ingresso no ensino superior pode estar associado a um comprometimento da saúde mental dos estudantes, em razão das demandas de adaptação a múltiplos aspectos, como mudanças de moradia, redes de apoio social, novas exigências acadêmicas e a necessidade de reorganização da vida pessoal (Padovani et al., 2014).
3 METODOLOGIA
Trata-se de um estudo exploratório, observacional e descritivo, realizado com 47 estudantes do primeiro termo do curso de Psicologia de um Centro Universitário do interior do Estado de São Paulo, com idade igual ou superior a 18 anos e de ambos os sexos. O projeto foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (CAEE n° 79656924.8.0000.5496).
A coleta de dados foi realizada por meio do Questionário de Adaptação Acadêmica (QAES) (Ilha; Santos; Queluz, 2020), composto por 40 questões que avaliam as percepções dos alunos em relação aos âmbitos sociais, culturais, emocionais e acadêmicos, bem como suas estratégias de enfrentamento. Além disso, foi aplicado um Questionário Sociodemográfico com 20 questões, abrangendo aspectos econômicos, sociais e demográficos, possibilitando uma compreensão mais ampla do contexto de vida dos participantes.
A fundamentação teórica baseou-se em levantamento bibliográfico em bases científicas, artigos, livros e outras fontes relevantes sobre adaptação acadêmica e saúde mental no ensino superior. Os dados obtidos foram analisados e organizados em gráficos e tabelas, de forma a facilitar a interpretação dos resultados.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os instrumentos utilizados permitiram abordar diferentes dimensões da adaptação universitária, possibilitando compreender o quanto o processo de ingresso no ensino superior pode afetar a saúde psíquica dos estudantes. O questionário sociodemográfico revelou que 78,72% dos participantes são do sexo feminino e 49% têm 18 anos. A maioria (85,11%) reside com os pais, 80,85% concluíram o ensino médio em escola pública e 46,81% são os primeiros de suas famílias a cursarem o ensino superior — um dado relevante, pois expressa o caráter de ascensão social associado à universidade.
Em relação à renda, 15% possuem rendimento familiar entre R$ 3.000,00 e R$ 3.999,00. No tocante à formação acadêmica prévia, 80,85% afirmaram estar em seu primeiro curso superior, enquanto 10,64% já haviam iniciado outra graduação e 8,51% concluíram cursos anteriores.
Sobre atividades complementares, apenas 12,77% relataram participar de estágio não obrigatório, enquanto 87,23% não realizavam essa atividade. Essa baixa adesão sugere a necessidade de ampliar o conhecimento sobre o papel formativo e integrador do estágio, que pode auxiliar na familiarização com o contexto profissional e fortalecer o vínculo institucional.
No que se refere à ocupação profissional, 23,40% trabalham entre 31 e 40 horas semanais, enquanto 34,04% não informaram a carga horária. Tais números indicam que uma parcela significativa dos alunos concilia trabalho e estudo, o que pode representar fator adicional de estresse e cansaço, dificultando a adaptação ao ambiente universitário.
O desempenho acadêmico foi considerado satisfatório por grande parte dos alunos: 48,94% avaliaram seu aproveitamento entre 50% e 79%, e 46,81% entre 80% e 100%. Esse dado sugere motivação e esforço para alcançar bons resultados, mesmo diante dos desafios de adaptação.
Quanto à escolaridade dos pais, 40,43% das mães e 42,55% dos pais possuem ensino médio completo, sendo que uma parcela reduzida apresenta ensino superior. Tal configuração reforça a relevância do ingresso universitário como experiência de transformação social e familiar.
Na Dimensão F1 – Carreira e Escolha Profissional, a análise dos dados mostra que 61,7% dos estudantes afirmaram cursar o ensino superior que sempre desejaram. Conforme Sousa e Fialho (2013), a escolha profissional é elemento central na construção do projeto de vida, envolvendo não apenas fatores econômicos, mas também a busca por realização pessoal e social. A satisfação com o curso indica alinhamento entre aspirações individuais e possibilidades de desenvolvimento, fortalecendo o engajamento acadêmico e a motivação intrínseca para o aprendizado.
Estudantes que ingressam em cursos coerentes com seus objetivos tendem a apresentar maior estabilidade emocional e melhor adaptação à vida universitária, o que reforça a importância de processos de orientação vocacional e acompanhamento psicológico.
Na Dimensão F2 – Social, os resultados indicam relações sociais satisfatórias entre os alunos: 59,57% afirmaram sentir-se próximos aos amigos da universidade e 55,32% expressaram satisfação com suas amizades. Essa integração é fundamental para o bem-estar e o desenvolvimento psicossocial, conforme apontam Teixeira et al. (2008), ao destacarem que a inserção social e acadêmica influencia diretamente o aproveitamento das oportunidades educacionais.
Ambientes de convivência colaborativos favorecem o compartilhamento de experiências, fortalecem vínculos afetivos e contribuem para a construção de uma rede de apoio essencial durante o processo de adaptação.
Na Dimensão F3 – Adaptação Pessoal e Emocional, observou-se que 31,91% dos estudantes relataram sentir-se tristes ou abatidos, enquanto 25,53% apresentaram sinais de ansiedade elevada. Barreto (2020) argumenta que expectativas idealizadas sobre a vida universitária podem gerar frustrações quando confrontadas com a realidade, resultando em estados emocionais negativos.
A ansiedade, segundo Carvalho et al. (2015), afeta diretamente o desempenho acadêmico, podendo se manifestar em sintomas físicos e psicológicos, como nervosismo, esquecimento e tensão. A presença desses sintomas nos participantes indica a necessidade de ações institucionais voltadas à promoção de saúde mental e ao fortalecimento de estratégias de enfrentamento.
Os resultados da Dimensão F4 – Estudo, revelam elevado comprometimento acadêmico: 42,55% concordaram e 31,91% concordaram totalmente que se esforçam para obter bons resultados. Santos et al. (2011) destacam que o comprometimento com o estudo está relacionado à interação contínua entre o aluno e o sistema acadêmico.
Guimarães e Boruchovitch (2004) reforçam que o ambiente universitário, além de espaço de aprendizagem, é também local de socialização, sendo o papel docente fundamental na motivação discente. As práticas pedagógicas e a organização curricular influenciam diretamente o engajamento e o desempenho.
Na Dimensão F5 – Institucional, 80,85% dos alunos expressaram satisfação com os espaços físicos e com o ambiente acadêmico. De acordo com Ingold (2000), o ambiente é um campo dinâmico construído pela interação entre o sujeito e o espaço, o que significa que a percepção positiva dos ambientes universitários reflete o modo como esses locais favorecem relações e experiências significativas.
Ainda assim, uma parcela dos participantes demonstrou neutralidade ou insatisfação, indicando possíveis divergências na forma como vivenciam o espaço físico, o que pode estar relacionado a fatores socioculturais ou pessoais.
A literatura destaca a importância da criação de políticas institucionais voltadas ao acolhimento de calouros e à promoção da saúde mental. Oliveira, Dias e Piccolotoll (2013) sugerem que o incentivo ao uso de recursos já existentes, como atendimentos psicológicos individuais e em grupo, pode auxiliar no controle da ansiedade e no desenvolvimento de estratégias de enfrentamento. Além disso, grupos de apoio entre ingressantes podem favorecer a troca de experiências e o fortalecimento da rede de suporte, aspectos fundamentais para a adaptação acadêmica.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A adaptação acadêmica constitui um fenômeno multifatorial que influencia profundamente a trajetória pessoal, emocional e profissional dos estudantes universitários. O estudo realizado com discentes do curso de Psicologia permitiu analisar dimensões essenciais da vivência universitária (carreira, social, emocional, estudo e institucional) evidenciando a interdependência entre elas.
Os dados apontam que os estudantes enfrentam múltiplos desafios relacionados à autonomia, desempenho e integração social, especialmente aqueles que são os primeiros de suas famílias a ingressar no ensino superior. Tal condição, embora represente conquista e ascensão, também intensifica pressões emocionais e expectativas familiares.
A ansiedade e o estresse aparecem como fatores recorrentes, interferindo no bem-estar e no desempenho acadêmico, mesmo entre alunos motivados. Esse cenário reforça a necessidade de ações institucionais que promovam saúde mental, apoio psicopedagógico e programas de acolhimento direcionados aos ingressantes.
A adaptação não se restringe ao domínio cognitivo; envolve também dimensões emocionais, relacionais e ambientais. Assim, recomenda-se que as universidades adotem estratégias integradas que considerem a diversidade dos perfis estudantis, fortalecendo vínculos comunitários e favorecendo a construção de um ambiente inclusivo e acolhedor.
Promover o bem-estar emocional e a integração acadêmica são fundamentais para garantir não apenas a permanência, mas o sucesso formativo dos estudantes. Dessa forma, o fortalecimento de políticas institucionais voltadas à escuta, acolhimento e prevenção de sofrimento psíquico torna-se um compromisso indispensável do ensino superior contemporâneo.
REFERÊNCIAS
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