EDUCAÇÃO REDUCIONISTA E LÓGICA CAPITALISTA: RESISTÊNCIA EPISTEMOLÓGICA E HORIZONTE UTÓPICO

  • Autor
  • Rosa Soares Nunes
  • Co-autores
  • Alonso Bezerra de Carvalho
  • Resumo
  •  

    RESUMO EXPANDIDO

     

    Grupo de Trabalho (GT): Convivência escolar e enfrentamento à violência: práticas que desenvolvemos para a melhoria da qualidade da escolarização

    Modalidade do trabalho: Comunicação oral

    Formato de apresentação: On-line

     

    EDUCAÇÃO REDUCIONISTA E LÓGICA CAPITALISTA: RESISTÊNCIA EPISTEMOLÓGICA E HORIZONTE UTÓPICO

     

    Rosa Soares Nunes[1]

    Alonso Bezerra de Carvalho[2]

                                                                                       

    Resumo

    Este trabalho parte da crítica a uma concepção reducionista de educação que, alheia à relação intrínseca entre processos educativos e processos mais abrangentes de reprodução social, recorre a adjetivos eufemísticos (ex.: inclusiva, integrada) para ocultar seu papel instrumental na manutenção de uma ordem social violenta. O problema central reside na progressiva sujeição da educação ao capitalismo transnacional, que a converte em um mero subsetor da economia. Este processo gera um quadro de valores que, uma vez incutidos, legitimam os interesses dominantes. O objetivo principal é interrogar esta sujeição e, em sentido contrário, identificar as condições epistemológicas para uma educação emancipatória. Objetivos específicos incluem: a) analisar o carácter político e ideológico das escolhas técnicas e metodológicas na educação; b) investigar como a produção de conhecimento local, se não estruturada criticamente, pode ser cooptada pela lógica dominante; e c) reivindicar a dimensão utópica da educação como uma "nesga de memória e esperança" que resiste a essa subordinação. A metodologia baseia-se numa análise teórica crítica, dialogando com as tradições da pedagogia crítica e do materialismo histórico-dialético. Recorre à crítica conceptual de políticas e práticas educativas, examinando o seu papel na reprodução social. Os resultados desta análise indicam que o modelo hegemônico atual produz, com eficácia, uma subjetividade funcional para a acumulação de capital, neutralizando o potencial transformador da educação. Contudo, a discussão revela que o reconhecimento da não neutralidade das práticas educativas abre um espaço para a resistência. O aprofundamento criterioso da realidade local, quando articulado com uma consciência estrutural crítica, surge como um princípio metodológico fundamental para evitar tornar-se uma mera técnica a serviço da ordem estabelecida. Em conclusão, podemos afirmar que perante a instrumentalização funcional da educação, uma utopia emancipatória é necessária e possível. Esta utopia não é uma mera abstração, mas ancora-se numa práxis crítica que denuncia os eufemismos do sistema e anuncia, a partir da memória coletiva e da esperança, a construção de uma educação que verdadeiramente pertença ao mundo, enquanto prática da liberdade.

     

    PALAVRAS-CHAVE: Educação Transformadora, Determinação Social, Materialismo Dialético, Crítica ao Capital..

     

    1 INTRODUÇÃO

    Esperar da sociedade mercantilizada uma sanção activa – ou mesmo mera tolerância - de um mandato que estimule as instituições de educação formal a abraçar plenamente a grande tarefa histórica do nosso tempo, ou seja, a tarefa de romper com a lógica do capital no interesse da sobrevivência humana, seria um milagre monumental.

                                                             István Mészáros

     

    Partindo das Teses sobre Feuerbach, de Karl Marx, compreendemos que a realidade sócio-histórica é um duplo jogo: o homem é determinado pelas suas circunstâncias, mas também é seu criador. A coincidência entre a mudança das circunstâncias e a atividade humana só pode ser entendida como prática revolucionária ou transformadora. Na mesma linha, Mészáros, em A educação para além do capital (2008), argumenta que as instituições educativas estão estritamente integradas na totalidade social, sendo que apenas uma concepção ampla de educação pode almejar uma mudança que rompa com a lógica do capital. Este trabalho busca refletir sobre os limites das reformas educacionais no interior de um sistema capitalista irreformável, articulando a teoria crítica com um episódio biográfico que explicita as contradições e violências inerentes a essa ordem social. O objetivo é evidenciar como o sistema educativo, longe de ser um agente de libertação, atua frequentemente na produção de um "sujeito mínimo" funcional à acumulação capitalista.

     

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

    O pensamento de Marx e Engels fornece a base para esta análise. A premissa de que "não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência" é fundamental. Esta perspectiva materialista dialética revela como a divisão social do trabalho é o eixo articulador da exploração e interfere no desenvolvimento do indivíduo (Marx; Engels, 2004). A educação, neste contexto, não é neutra. Conforme ampliado por pensadores como Paulo Freire (apud McLaren, 2001), a educação deve ter o propósito de transformar – e não apenas interpretar – as estruturas econômicas geradoras de exploração.

    Zemelman (2004) alerta que o modelo capitalista atual necessita de um cidadão acrítico e conformista, um "sujeito mínimo" que não exerça pressões sobre o sistema. Esta construção é sustentada por uma "violência estrutural" (Maldonado, 2004) que naturaliza a desigualdade, transformando sujeitos em objetos. Prigogine (1986) reforça que a atividade científica não pode ser separada do mundo a que pertence, uma ideia que se aplica diretamente à pesquisa em educação, frequentemente alheia aos caminhos tomados pela realidade dinâmica.

     

    3 METODOLOGIA

    Esta reflexão adota uma abordagem teórico-reflexiva, ancorada na análise crítica de conceitos do materialismo histórico, da filosofia da educação e da psicologia histórico-crítica. O método articula a teorização clássica e contemporânea com a análise de um episódio autobiográfico, tratado como um caso ilustrativo das contradições sociais postas em evidência pelo referencial teórico. O episódio do transporte de um piano - quando, na mudança para o 2º andar do prédio sem elevador aonde vivia - serve como um microcosmo que permite desvelar macroestruturas de dominação, alienação e a naturalização da violência no trabalho, conectando a experiência pessoal imediata com a totalidade social.

     

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

    A análise do episódio vivido – o transporte do piano por quatro homens – revela o peso de uma determinação social que nos custa admitir. A cena expõe a sujeição a um trabalho desumano, que a sociedade neutraliza chamando-lhe "trabalho honesto". Este momento de "pequena história" desvela a auto-alienação e a violenta "harmonia" do modus vivendi capitalista.

    As interrogações que surgiram – "Porquê esta sujeição? Porque não a transgressão?" – levam a uma discussão sobre a lei como instrumento de dominação de classe. Enquanto o roubo de um bem básico por alguém sem poder é diabolizado, a espoliação naturalizada do trabalho não pago (a extorsão da mais-valia) é camuflada por eufemismos semânticos, com a nossa cumplicidade passiva.

    Estamos a viver hoje, seriamente, o que é o capitalismo: sem equilíbrios internos, sem contrapoderes consequentes, desenfreado o que se viveu até agora, mais parece a antecâmara de um perigoso jogo que, velozmente, vem retirando sentido às vidas de quem nem vislumbra que o jogo está estruturalmente viciado.

    Como nos dá a entender Zemelman (2004, p. 33), encontramo-nos face a um modelo que, para se reproduzir e amplificar, necessita da ausência de pressões. Esta situação exige um tipo de cidadão acrítico, conformista, amedrontado, com um profundo sentimento de abandono. Do que se trata, então, é de criar um “sujeito mínimo”: mínimo no desejo, mínimo no interrogar, resignado, já que um ser humano assim não pressiona, aceita.

    Esta lógica perpassa o sistema educativo. A violência dos mercados financeiros mina as bases para um sistema alternativo. A educação, nesse cenário, não fomenta o pensamento crítico, mas produz currículos mínimos para as massas, enquanto uma pequena elite é formada para gerir o sistema. Cria-se, assim, uma "assimetria sócio-cognitiva" que legitima a divisão social do trabalho e a distribuição violenta de recursos e poder, cumprindo os desígnios de reprodução da ordem hegemónica. O discurso emancipatório é, muitas vezes, apropriado e esvaziado pelo capital, que arquiteta um quadro curricular funcional à inserção no mercado.

     

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Conforme sugerido no início, se por um lado estamos determinados por condições culturais, institucionais e econômicas, por outro, somos também criadores das circunstâncias. Existe um espaço de autonomia e indeterminação não redutível a uma lógica simplista de causa e efeito. A realidade sócio-histórica é plástica e dinâmica, e o inacabamento dos processos históricos abre margem para a ação transformadora.

    A tarefa urgente, portanto, é recuperar a "ampla concepção de educação" como a "vida vivida", tal como proposta por Mészáros, e a práxis amorosa e coerente de Paulo Freire. Trata-se de negar a resignação do "sujeito mínimo" e lutar por uma educação que, conectada com a realidade, seja de fato uma prática de liberdade, capaz de questionar e transformar as estruturas desumanizantes do capital. O caminho, como sugere o poema, não está pré-determinado; são as nossas pegadas que o criam.

     

    REFERÊNCIAS

    LOURENÇO, E. O esplendor do caos. Lisboa: Gradiva, 1999.

     

    MALDONADO, S. Introducción. In: ZEMELMAN, H. et al. La escuela como territorio de intervención política. Buenos Aires: CTERA, 2004.

     

    MARX, K. Para a crítica da economia política. Salário, preço e lucro. O rendimento e suas fontes. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

     

    MARX, K.; ENGELS, F. Textos sobre educação e ensino. São Paulo: Centauro Editora, 2004.

     

    McLAREN, P. “Uma pedagogia da possibilidade: reflexões sobre a política educacional de Paulo Freire”. In: A pedagogia da libertação em Paulo Freire. São Paulo: UNESP (FEU), 2001.

     

    MÉSZÁROS, I. A educação para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2008.

     

    PRIGOGINE, I.; STENGERS, I. A nova aliança. Lisboa: Gradiva, 1986.

     

    ZEMELMAN, H. et al. La escuela como territorio de intervención política. Buenos Aires: CTERA, 2004.

     

     

    AGRADECIMENTOS

    Á FAPESP (Processo 2024/01116-7), com o financiamento para o Centro de Ciência para o Desenvolvimento da Educação Básica (CCDEB) e ao CNPq (Processo 100540/2024-4), com a bolsa de Pós-Doutorado Sênior.


    [1] Doutora em Educação, Universidade do Porto, Porto, Portugal. E-mail: rosasoaresnunes@gmail.com

    [2] Doutor em Educação, Faculdade de Filosofia e Ciências, UNESP, Marília-SP, Brasil. E-mail: alonso.carvalho@unesp.br

     

  • Palavras-chave
  • Educação Transformadora, Determinação Social, Materialismo Dialético, Crítica ao Capital..
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
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