CAMPO DE VISÃO: EXPERIMENTAÇÕES ENTRE CORPO, ALTERIDADE E PRÁTICA ARTÍSTICO-PEDAGÓGICA

  • Autor
  • Eduardo Piras Neto
  • Resumo
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    RESUMO EXPANDIDO

     

    Grupo de Trabalho (GT): GT 6 - Arte e Educação

    Modalidade do trabalho: Oral

    Formato de apresentação: Presencial

     

    CAMPO DE VISÃO: EXPERIMENTAÇÕES ENTRE CORPO, ALTERIDADE E PRÁTICA ARTÍSTICO-PEDAGÓGICA

     

    Eduardo Piras Neto

     

    PALAVRAS-CHAVE: Campo de Visão; Alteridade; Corpo; Educação; Artes Cênicas

     

    1. INTRODUÇÃO

    O presente estudo é um recorte da minha pesquisa explorada em meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na Licenciatura em Teatro da UNESPAR / Campus II — FAP. A temática central, o conceito de Campo de Visão de Marcelo Lazzaratto, surgiu a partir da prática corporal na disciplina “Corpo, Teatralidade e Educação”, sob orientação do professor Dr. Jean Carlos Gonçalves. O contato inicial com o conceito, que despertou meu interesse, deu-se pela apresentação do professor convidado Dr. Robson Rosseto, que compartilhava aspectos de sua pesquisa. O Campo de Visão é uma metodologia de improvisação cênica que estimula a percepção expandida do ambiente e do outro, deslocando o foco da visualidade para uma escuta sensível, essencial para a criação.

    Para Lazzaratto (2011, p. 41), o Campo de Visão é um “exercício improvisacional que tem apenas uma única regra” e busca a “comunhão entre o procedimento e conteúdo entre techné e psiché”. A participação na aula sobre esse tema ressoou com a experiência anterior na graduação, aprimorando a compreensão sobre a relação entre corpo, espaço e alteridade, elevando a importância da visão periférica a um patamar ético e estético.

    O objetivo deste trabalho foi refletir sobre o corpo na metodologia Campo de Visão em articulação com uma experiência corporal artística-pedagógica, investigando como o outro, enquanto parceiro de cena, interfere no jogo e como esse encontro pode ser potencializado no ensino não formal das artes cênicas.

    O processo artístico-pedagógico foi documentado por meio de registros diversos, incluindo vídeos, fotografias e diário de bordo elaborado pelos participantes. Estes registros se referem a uma oficina ministrada por mim em parceria com a Academia Cena Hum, e supervisionada pela orientadora Prof.? Dra. Natacha Dias. Com o intuito de refletir sobre os modos de existência e criação que emergem da relação entre corpo, espaço e alteridade, esta proposta privilegiou a experiência subjetiva e coletiva dos participantes. Assim, defendo que o conceito de “Campo de Visão” é mais do que um exercício: é um campo expandido de escuta, presença e transformação. Este trabalho está em sua fase de desenvolvimento final, o qual futuramente resultará na publicação de um artigo científico.

     

    2. REFERENCIAL TEÓRICO 

    O Campo de Visão é “corpo”, e é concebido como linguagem primordial, capaz de expressar ideias, desejos e subjetividades. Ele torna-se um espaço de escuta, de afetação e de criação, onde o jogo improvisacional se configura como meio de investigação e de construção de conhecimento. Em diálogo com Rosseto (2018, p. 143), compreendemos que esta prática “é reconhecida como importante fundamento nas artes da cena, seja como etapa de processo criativo, seja especialmente na contemporaneidade, a própria obra ao ser levada ao público”, e dessa maneira, a improvisação, no Campo de Visão, enquanto prática artística e pedagógica, pode despertar a percepção, estimular a criatividade e ampliar a consciência corporal dos participantes.

    Para Lazzaratto (2011, p. 25), a improvisação além de ser um procedimento de treinamento, também se pode constituir como uma linguagem, a qual cada artista na sua maneira a utiliza como aliada.  Dado isto, a partir da proposta Campo de Visão, este trabalho teve como objetivo refletir sobre o corpo no Campo de Visão na relação com uma experiência corporal artística pedagógica, onde o “artista professor é o mediador consciente nas suas proposições, capaz de contribuir para uma formação crítica reflexiva, em um processo de constituição enquanto propositor baseado na sua práxis artístico-pedagógica. (Rosseto, 2018 p. 103)”. Um corpo que sente, interpreta, responde aos estímulos do ambiente e do outro e assim constitui a si mesmo. Portanto a proposta de realizar uma oficina qual seu objetivo foi proporcionar a experimentação do exercício Campo de Visão, possibilitando aos participantes vivenciar, na prática, os princípios de presença, escuta e alteridade. Para acompanhar e aprofundar a compreensão sobre essa experiência, durante o processo dos encontros foi elaborado no, um diário de bordo, esse instrumento de registro escolhido, foi feito de uma maneira livre, onde o participante ao longo dos cincos encontros puderam se expressar da maneira que elas desejassem. Para Machado (2002),

    [...] o Diário traz algo bastante próximo da linguagem literária e é realizado processualmente, não seria necessária sua compilação, página após página, ao longo da dissertação ou tese; não é necessário dar ao Diário uma utilização pragmática ou direta; trata-se de um metatexto, de um escrito, misto de realidade e ficção, inicialmente caótico e mais tarde reflexivo, meditativo, até mesmo confessional. Pode se compará-lo a um pano de fundo, o subtexto do próprio encenador, a explicitação da sua poéisis – e esse pode ser seu valor maior. (Machado, 2002, p. 261, grifos do autor)

    Desta maneira, a escolha deste método de registro, teve como finalidade não apenas coletar impressões, mas também mediar a leitura reflexiva do trabalho no momento em que eles estavam vivenciando a prática. O trabalho está sendo analisado pelo pouco entendimento que eu tenho sobre a perspectiva bakhtiniana, a qual venho tendo contato nos últimos 2 anos, e conforme observa Gonçalves (2019, p. 45) em seu livro “Teatro e Universidade: Cena. Pedagogia. [Dialogismo]”, “No Brasil, pouquíssimos pesquisadores têm-se dedicado com afinco a estudar as aproximações possíveis entre o pensamento bakhtiniano e as artes da cena”. Dado isto, pego emprestado a ideia de “cronotopo”, especificamente o cronotopo artístico-literário ou melhor o cronotopo artístico que é “criar uma figura, um símbolo a partir de dados concretos, encontrar uma figura, uma imagem do mundo que seja tão concreta como abstrata, que permita uma metaforização espacial e uma experiência temporal.” (Pavis, 2021, p. 149). Onde nesse processo, o corpo deixa de ser somente instrumento técnico e se transforma em sujeito criador no qual esse corpo não está interessado em repetir formas, mas em experimentar, responder e coabitar o espaço com o outro. O Campo de Visão, nesse sentido, não é um lugar fixo, mas um território em constante mutação, permeado por relações, afetos e descobertas. 

    Levando isto em conta, a metodologia “Campo de Visão” desenvolvido por Lazzaratto (2011) é central para refletir sobre a relação entre corpo, espaço e o outro. Esse conceito desloca o foco da visualidade para uma percepção expandida do ambiente, estimulando um modo de estar em cena que integra e ressignifica o espaço coletivo. “[...] o ator passa a perceber com maior nitidez tudo que o cerca, tudo que o atinge, tudo que o move.” (Lazzaratto, 2011, p.53). Os territórios no Campo de Visão encontram-se em constante mutação e estão relacionados às situações nas quais o indivíduo que participa desse jogo é mobilizado por sua própria trajetória de vida, uma vez que ambas são indissociáveis:“[...] o corpo é a fonte de sentidos, balizado pela ética e pela moral, vinculado ao contexto sociocultural” (Rosseto, 2018, p. 17). Dessa forma, as vivências e experiências de cada participante também se incorporam a esse jogo, ressignificando-o de acordo com seus percursos singulares.

    Para Bakhtin “[...] a experiência discursiva individual de qualquer pessoa se forma e se desenvolve em uma interação constante e contínua com os enunciados individuais dos outros. (Bakhtin, 2016, p. 54)”. Dessa forma, a oficina foi compreendida como um laboratório poético e pedagógico no qual o “Campo de Visão” se revela não apenas como técnica de improvisação, mas como prática de escuta, presença e alteridade. 

    3. METODOLOGIA

    O estudo é baseado na observação e reflexão de uma Oficina “Campo de Visão: Expressão, Presença e Improvisação Cênica”, conduzida por mim, realizada em parceria com a Academia Cena Hum, que  foi realizada em agosto de 2025, totalizando 5 encontros de 3 horas cada.

    O grupo foi composto por 7 participantes, com idades entre 20 e 60 anos, e perfis variados em relação à experiência cênica. É relevante destacar a presença de um participante com Transtorno do Espectro Autista (TEA). O principal método de coleta de registro foi o Diário de Bordo dos participantes, onde eles puderam expressar suas impressões livremente a partir de perguntas norteadoras sobre corpo, tempo, espaço, percepção e alteridade. A escolha do método se alinha à sua natureza de “metatexto, de um escrito, misto de realidade e ficção” (Machado, 2002), capaz de mediar a leitura reflexiva do trabalho no momento da vivência. 

    A análise dos diários e das observações empíricas foi conduzida sob a lente da alteridade bakhtiniana, buscando compreender os sentidos que emergem na relação entre os corpos e o jogo cênico.

     

    4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

    Até o atual momento da pesquisa de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), a qual ainda está em processo de finalização, as experimentações práticas e as reflexões registradas nos diários de bordo confirmaram uma eficácia da metodologia. Além disso,  também trouxeram discussões profundas sobre os desafios da mediação pedagógica em um contexto de diversidade. Nessas circunstâncias,  falas como “sentir o outro”, palavras de um dos participantes da oficina, e a sensação de êxtase confirmaram o engajamento imediato com a alteridade. Por outro lado, a mediação pedagógica foi desafiada por alguns obstáculos, como um espelho em sala, o qual desviava o foco e atrapalhava a aplicação do exercício.

    A observação da evolução dos participantes, especialmente daqueles que estavam presentes regularmente , reforçou a ideia de que a prática continuada é fundamental para o aprofundamento dessas percepções. O desafio de equilibrar a condução com permitir liberdade criativa ao grupo, de intervir sem tolher a espontaneidade, me levou a um novo entendimento sobre a sutileza da mediação e a potência do "olhar de direção para aproveitar as criações surgidas espontaneamente". Em suma, a oficina "Campo de Visão" não foi apenas um objeto de estudo, mas uma possibilidade de experimentação e aprendizado que reconfigurou minha própria percepção sobre o corpo, o outro,a arte e, como consequência, sobre as possibilidades da educação.

    5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

    O processo da oficina reconfigurou minha percepção sobre o corpo, o outro e a arte. Ao buscar o equilíbrio entre a condução metodológica e a liberdade criativa. Onde a oficina proporcionou percepções valiosas confirmando que os conceitos de presença e alteridade não se estabelecem como estado individuais ou abstratos, mas sim como condições relacionais e práticas éticas e estéticas que exigem constante negociação, adaptação e acolhimento das diferenças. Até o momento, também podemos dizer que houve uma evolução dos participantes que frequentaram a oficina em todos os encontros, demonstrando então a importância da prática continuada.

    Em suma, o trabalho busca alcançar o objetivo de demonstrar a dimensão ética e estética do Campo de Visão, assim abrindo caminho para futuras investigações que aprofundem a escuta das variedades subjetivas envolvidas na prática artística colaborativa.

     

    REFERÊNCIAS 

     

    ??BAKHTIN, Mikhail. Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas. São Paulo: Editora 34, 2017. 104 p. Tradução, posfácio e notas: Paulo Bezerra; Notas da edição Russa: Serguei Botcharov.

    BAKHTIN, Mikhail. Teoria do romance II: as formas do tempo e do cronotopo. São Paulo: Editora 34, 2018. 272 p. Tradução, posfácio e notas: Paulo Bezerra; Notas da edição Russa: Serguei Botcharov.

    GONÇALVES, Jean Carlos. Teatro e Universidade: cena. pedagogia. [dialogismo]. São Paulo: Hucitec Editora, 2019. 172 p.

     

    LAZZARATTO, Marcelo. Campo de Visão: exercício e linguagem cênica. São Paulo: Escola Superior de Artes Célia Helena, 2011. 280 p.

     

    MACHADO, Maria Marcondes. O diário de bordo como ferramenta fenomenológica para o pesquisador em artes cênicas. Sala Preta, São Paulo, Brasil, v. 2, p. 260–263, 2002. DOI: 10.11606/issn.2238-3867.v2i0p260-263. Disponível em: https://revistas.usp.br/salapreta/article/view/57101..  Acesso em: 5 out. 2025.

    PAVIS, Patrice. A Análise dos Espetáculos. Tradução: Sérgio Sálvia Coelho. 1. ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 2021.

    ROSSETO, Robson. Interfaces entre Cena Teatral e Pedagogia: a percepção sensorial na formação do espectador-artista-professor. Jundiaí: Paco Editorial, 2018. 256 p.

     

    AGRADECIMENTOS

     

    Gratidão aos participantes da oficina "Campo de Visão" pela generosidade e ao Cena Hum pela parceria. Agradeço à Orientadora pelo acompanhamento rigoroso e confiança. Um especial reconhecimento aos professores Robson Rosseto (pela pesquisa inspiradora) e Jean Carlos Gonçalves (pelo incentivo e diálogos) pelas valiosas contribuições na banca de qualificação do TCC.

     
  • Palavras-chave
  • Campo de Visão; Alteridade; Corpo; Educação; Artes Cênicas
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 6 - Arte e Educação
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