Existe uma relação entre tela e os atravessamentos em minha vida (também do coletivo da multidão de anômalos para pensar as corporalidades Queer[1] de Preciado, 2011) que me chamam a atenção ao longo dos anos que começo a pesquisar a respeito da tecnologia e questões de gênero. Tereza de Lauretis é uma referência na construção dessa relação, que começa a produzir na sua obra “Alice doesn't” (1982) sobre cinema e construção epistemológica e depois em “Tecnologias de Gênero” (1994), reitera a questão de gênero. Nas obras, ela delineou um processo de construção de visões de mundo os quais entendo ser possível classificar como uma pedagogia estética, uma educação pela imagem em tela. Tela pode ser lida de maneira expandida, seja tela de computador, celular, os canvas das pinturas, fotografias, etc. essa materialidade ficcionaliza mundos que saem da dicotomia da verdade ou falsidade construindo esteticamente um determinado cronotopo. Esse conceito que empresto de Mikhail Bakhtin (2018), derivado da teoria da relatividade, se refere ao espaço e tempo que uma determinada obra, autor e história se encontra e produz. Ou seja, os atravessamentos sociais determinam cronotopos, como foi com os cronotopos dos romances e literaturas produzidas desde a Grécia até o século 19 (período o qual o autor Bakhtin analisa e utiliza para desenvolver seus conceitos no livro Teoria do romance II: As formas do tempo e do cronotopo, 2018). Para Bakhtin (2018) a própria manifestação estética de um artista produzir um cronotopo, sendo assim, o conceito pode trabalhar como parte das operações das tecnologias de gênero de Tereza de Lauretis (aproximação minha das teorias), considerando que seu conceito se refere a um conjunto de sentidos produzidos em determinado espaço e tempo da sociedade que terão interesses específicos. Meu objetivo não é descaracterizar cada teoria, mas pensar possibilidades dialógicas complementares das perspectivas Queer com Bakhtin e o círculo. Esse resumo é manifestação do processo investigativo e criativo do que venho nomeando, com meu parceiro de pesquisa Jean Carlos Gonçalves, de queer-dialogismo. Esse conceito que mobilizamos a começar por estudos artísticos, artigos científicos e ações performativas veiculadas as poéticas, ciências e militantes Queer (Trujillo, 2022, Azzani Braga, 2023) com as teorias do círculo russo o qual Mikhail Bakhtin, Valentin Voloshinov e Pavel Medvedev fizeram partes. Também reitero que as provocações são oriundas dos atravessamentos como membro da linha de Pesquisa LiCorEs: Linguagem, Corpo e Estética na Educação do doutoramento no Programa de Pós-Graduação em Educação na Universidade Federal do Paraná (PPGE/UFPR). Destaco que essa perspectiva visa mobilizar a investigação no campo da educação estética, a partir das provocações de Jean Carlos Gonçalves (como orientador e autor) no artigo “O que (não) é educação estética” (2024), o qual o autor usa da obra “O problema do conteúdo, do material e da forma na criação literária” de Mikhail Bakhtin e “Mal-estar na estética” de Jacques Rancière para suas reflexões. Queer dentro da educação nesta pesquisa foi mobilizado a partir de Guacira Lopes Louro no livro “Um corpo estranho” (2004). A educação estética se faz nesses atravessamentos pelas materialidades que contaminam as existências. Este trabalho apresentado em forma de resumo expandido, faz parte dos estudos mais recentes que relaciona a materialidade da tela na linguagem da animação como possível para o desdobramento da autoficção (Gonçalves, 2024). Nas três obras analisadas Asparagus (1979) de Suzan Pitt, Pussy (2016) de Renata Gasiorowska, e 27 (2023) de Flóra Anna Buda, o cronotopo do corpo em desejo surge como um convite a experimentação da sua própria possibilidade libidinosa e atravessamentos sociais, percebendo que o ato do desejo e do gozo não são apenas solitárias, distantes da sociedade, mas fruto de atravessamentos, uma foda de si social. O queer-dialogismo oferta leituras dessas obras em processos de ficções de si e educação estética enquanto práticas educativas de experimentação do mundo, sendo assim, no interno do conceito de queer-dialogismo mobilizei o conceito e análise fílmica queer de Jack Halberstam a partir do livro “A arte Queer do fracasso” (2020) como possibilidade de diálogo possível entre tecnologias de gênero e dialogismo do círculo russo já mencionado.
Na introdução dei pistas do material e referencial teórico que utilizo como possibilidade de escrita. Aqui viso apenas a organizar elas de maneira a facilitar a compreensão dos lócus das obras, ainda mais nesse trabalho de fundamentação do queer-dialogismo como uma possibilidade de conversar com diferentes autores e campos. As autorias que mobilizo com o conceito de dialogismo são Mikhail Bakhtin, Valentin Voloshinov, Pavel Medvedev, Beth Brait e Jean Carlos Gonçalves. Nas perspectivas Queer (marcado pelo corpo) são as autorias Gracia Trujillo, Paul Preciado, Jack Halberstam, Judith Butler, Tereza de Lauretis e minha própria pesquisa de dissertação. Agora construo a ideia de educação estética com Jean Carlos Gonçalves e Guacira Lopes Louro.
Ao pensar um conjunto de operações e técnicas para viabilizar a produção da análise desta pesquisa em uma perspectiva queer-dialógica, venho lendo as animações escolhidas, como materialidades verbo-visuais (Brait, 2013). Para Beth Brait (2013), não podemos ver em distanciamento o verbal e visual em uma obra que se apresenta com ambas as condições e foi construída dessa forma, é um atravessamento específico que quando retiramos um elemento apenas do visual ou do verbal, isso se torna uma nova análise. Na obra “O autor e a personagem na atividade estética” (Bakhtin, 2020) teremos essa demarcação da visualidade, como a ponta a professora Bath Brait (2013), como o excedente de visão que não se daria e na própria obra. Já na obra o “Marxismo e filosofia da linguagem” de Velentin Volóchinov (2017), se apontamento é na possibilidade de analisar símbolos a partir da união entre palavra e imagem. Provocado por essa perspectiva, depurei algumas cenas que me ofertam uma verbo-visualidade para ser analisada. Quanto ao conteúdo selecionado, aqui adentrei ao campo da análise fílmica Queer de Jack Halberstam (2020), como possibilidade de pensar criticamente as rupturas e falhas com a normatividade como critérios da investigação. O sucesso não interessa para minha análise pesquisa, apenas o fracasso que possibilite o rompimento da identidade fixa de si e da sociedade. Em seu livro “A arte Queer do fracasso” (2020), fundamenta essa noção a partir de obras como o desenho animado / animação. A autoficção neste texto específico vem atravessando a possibilidade de escritas em primeira pessoa com uma construção inventiva, aqui no resumo a característica da invenção não é tão evidente, devido ao formato exigido deste resumo, mas em artigos posteriores a apresentação o ideal é se construir um texto que nuble o real e ficcional de minha própria vida, como teorizado por Anna Faedrich (2022), e debatido, teorizado e praticado por Jean Carlos Gonçalves (2024). Dessa forma me furtei a analisar a autoficção nas obras escolhidas.
Dizer que uma animação é uma tecnologia de gênero, é a pensar em sua implicação mais direta com as possibilidades de atravessamentos no corpo formando uma estética. As três obras selecionadas fazem parte de um catálogo online realizado pelo site MUBI, chamado de “Desejos Animados” o qual seleciona obras com temáticas atravessadas pelas corporalidades Queer. Na descrição da curadoria está escrito: “O sexo não se limita ao ato físico. Não é à toa que recorremos a metáforas e comparações para descrevê-lo, em vez de nos atermos apenas aos fatos: o sexo envolve imaginação.” (MUBI, 2025). As cenas ali produzidas possuem afetos em trocas de olhares ou em figuras e vegetais, desdobrando-se em atos sexuais de masturbação. A base dessas animações, em alguns casos, são experiências próprias reconstituídas em mundos animados autoficcionados. Buscar o que é verídico ali não importa, pois é o atravessamento da confusão do ficcional com o real que me oferta matéria de elaboração para pensar esses mundos. Tudo envolve a imaginação, como na animação de 27 de Florá Anna Buda (2023), pensando em uma situação o qual um acidente de bicicleta da personagem, que guia a narrativa, pode ser bem mais interessante do que a repressão e vigia do seu corpo que experiencia em casa. Na animação Pussy (2016) o clitóris se torna protagonista para fugir da rotina e experienciar as múltiplas possibilidades de texturas que o rodeiam. Já em Asparagus (1979), as formas falocêntrica de um aspargo são recriadas em cadeiras, mesas e desejos, em imaginários surrealistas, confundem o que é desejo e maldição. Em uma leitura possível, o cronotopo dessas obras se concentra no desejo da exploração de si, apesar da vigília instaurada no corpo, sobretudo dos corpos de buceta, e deslocam certas noções normativas do prazer.
Percebo as obras mencionadas podem ser associadas a outros locais possíveis de existência que não necessariamente na norma. O desejo e as fantasias sexuais ali representadas, possibilitam novos locais possíveis para pensar nos atravessamentos do corpo. Atravessamento esse da privação de se deliciar sozinho devido aos puritanismos, da relação de atropelos pelo desejo, do fracasso em depender de um outro como a única fonte do seu desejo. A imagens ali parecem ser uma ode da autonomia nesse processo para criar fantasias, demonstração de um atravessamento estético educativo para que outras pessoas possam investigar seu próprio desejo. Ao ver aqueles corpos que se esfregam em diferentes materialidades e texturas, sou convocado a pensar sobre quais outras texturas me oferecem outros prazeres: a barba rala, o toque suave do gelo e as paredes que replicam gesso. O corpo, é atravessado pela linguagem da animação, reiterando a possibilidade potente educativa dessa materialidade em outro local.
REFERÊNCIAS
AZZANI BRAGA, B. As fantasias d* verm. Dissertação (Mestrado em Comunicação) - Universidade Estadual de Londrina, Centro de Educação Comunicação e Artes, Programa de Pós-Graduação em Comunicação, 2023.
BAKHTIN, M. Teoria do romance II: As formas do tempo e do cronotopo. São Paulo: Editora 34, 2018.
BRAIT, B. Olhar e ler: verbo-visualidade em perspectiva dialógica. Bakhtiniana: Revista De Estudos Do Discurso, 8(2), 43–66, 2013. https://doi.org/10.1590/S2176-45732013000200004
BUTLER, J. Bodies that matter. New York: Routledge, 1993.
BUTLER, J. Gender Trouble. Nova York: Routledge, 1990
DE LAURETIS, T. Alice doesn't. Bloomington: Indiana University Press, 1984.
DE LAURETIS, T. A tecnologia do gênero. Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura, 206-242, 1994.
FAEDRICH, A. Teorias da autoficção. 1ª ed. [versão eletrônica – epub]. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2022
GONÇALVES, J. C. O que (não) é autoficção?: corpos que escrevem na pesquisa em educação, linguagem e teatralidades. Urdimento - Revista de Estudos em Artes Cênicas, Florianópolis, v. 4, n. 53, p. 1–15, 2024. DOI: 10.5965/1414573104532024e0101.
GONÇALVES, J. C. O que (não) é Educação Estética?. Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso, [S. l.], v. 19, n. 2, 2024. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/bakhtiniana/article/view/63561.
HALBERSTAM, J. A arte queer do fracasso. Libanio, Bhuvi. Recife: Cepe, 2020.
LOURO, G. L. Um corpo estranho: ensaios sobre a sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.
MUBI. Desejos Animados. Disponível em: https://mubi.com/pt/br/collections/animated-desires. Acesso em: 02 de novembro de 2025.
PRECIADO, B. Multidões queer: notas para uma política dos "anormais". Revista Estudos Feministas, v. 19, n. 1, p. 11–20, jan. 2011.
VOLÓCHINOV, V. Marxismo e filosofia da linguagem. Problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: Editora 34, 2017
AGRADECIMENTOS (se houver)
Agradeço ao Programa de Pós-Graduação em Educação na Universidade Federal do Paraná (PPGE/UFPR) que através do investimento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) me possibilitou ir a ANPED Nacional para trocar sobre a perspectiva queer-dialógica e ao Edital 34/2025 de apoio para missão de estudos para discentes do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) com recursos PROEX/CAPES, por me possibilitar a realizar missão para a universidade da UNIVALI – Itajaí para aperfeiçoar os estudos a respeito do corpo, linguagem e educação.
[1] Aqui me refiro a corporalidades dissidentes que expandem a norma vigente (branca, heterossexual) que Judith Butler aponta em seu livro “Gender Trouble” (1990) e “Bodies that Matters” (1993). O quer será tudo aquilo que não bem-visto as normas de privilégio, uma criança preta viada, adulto gordo ou com deficiência entre outros demarcadores sociais e corporais estarão nessa leitura, é bem mais do que sexo e gênero, por isso Paul Preciado em seu texto Multidões Queer (2011) irá apontar a imensidão do Queer nessa perspectiva como Jack Halbesrtam também o fará com a analogia do fracasso em “A arte Queer do fracasso” (2020).