RESUMO EXPANDIDO
Grupo de Trabalho – GT 1: Convivência escolar e enfrentamento à violência: práticas que desenvolvemos para a melhoria da qualidade da escolarização
Modalidade do trabalho: comunicação oral
Formato de apresentação: on-line
PROPOSTAS DE EDUCAÇÃO SOCIOEMOCIONAL NA ESCOLA COMO ESTRATÉGIA DE PREVENÇÃO ÀS VIOLÊNCIAS E AO BULLYING
PALAVRAS-CHAVE: Violências na escola. Bullying. Propostas de Educação Socioemocional. Base Nacional Comum Curricular. Ensino Fundamental.
1 INTRODUÇÃO
Casos de bullying, cyberbullying e violências têm sido recorrentes no ambiente escolar. Em decorrência desses problemas, episódios de crises de ansiedade e depressão entre os estudantes, de diferentes faixas de idade, têm se acentuado.
Dados de pesquisa realizada pelo UNICEF (2019), ressaltam que, em média, pouco mais de um em cada três adolescentes, na faixa etária de 13 a 15 anos, vem sofrendo bullying. Em âmbito nacional, conforme pesquisa realizada pelo DataSenado (2023), “dados revelam que 6,7 milhões de estudantes sofreram algum tipo de violência na escola nos últimos doze meses, o que representa 11% dos quase 60 milhões de alunos matriculados” (Borges, 2023).
No estado de Santa Catarina, registros relacionados às violências efetuados pelas escolas, junto ao Núcleo de Educação e Prevenção às Violências na Escola (NEPRE), e disponibilizados no portal Educação na Palma da Mão, até outubro de 2025, evidenciam o número expressivo de 7.921 ocorrências. Destas, 284 estão relacionadas à prática de bullying.
A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE, 2019), realizada em conjunto com o IBGE e o Ministério da Saúde, revelou altos índices de humilhação entre adolescentes brasileiros, apontando o bullying como uma forma de violência interpessoal e simbólica. O estudo indicou que as principais causas das humilhações estão relacionadas à aparência do corpo (16,5%), do rosto (10,9%), à raça ou cor (4,6%) e à orientação sexual (2,5%) (Ministério da Educação, 2025).
Diante desse cenário, como agir em relação a esses problemas? Que estratégias poderiam ser utilizadas? Considerando esses aspectos, a questão orientadora deste trabalho se volta a analisar o potencial de propostas de educação socioemocional como uma estratégia de prevenção e enfrentamento às violências, ao bullying no ambiente escolar.
A educação socioemocional está diretamente relacionada ao papel da escola, que não se limita à transmissão de conteúdos instrutivos e cognitivos, mas busca contribuir para a formação integral dos estudantes. Os aspectos emocionais, sociais e intelectuais tornam-se fundamentais diante dos dilemas e desafios sociais enfrentados cotidianamente (Malta, 2023).
Nesse sentido, de que forma a escola pode organizar o trabalho pedagógico voltado à educação socioemocional? Para organizar algumas respostas a esse questionamento efetuamos uma pesquisa bibliográfica, realizada no Portal de Periódicos CAPES e na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), objetivando verificar como a produção acadêmico-científica tem compreendido a educação socioemocional e que propostas têm sido planejadas e implementadas no cotidiano escolar visando o seu alcance.
Tendo em vista o objetivo desse texto o estruturamos com a seguinte organização de partes: Introdução; o Referencial Teórico; a Metodologia da Pesquisa, com o detalhamento da investigação bibliográfica; os Resultados e sua Discussão; e, por fim, as Considerações Finais.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
Ao longo da Educação Básica, as aprendizagens essenciais definidas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2018) devem assegurar aos estudantes o desenvolvimento de dez competências gerais que fortalecem, no âmbito pedagógico, os direitos de aprendizagem e desenvolvimento. Dentre essas competências, destacam-se a oitava, que enfatiza o autoconhecimento e o autocuidado; a nona, que prioriza a empatia e a cooperação; e a décima, que ressalta a responsabilidade e a cidadania. Tais competências remetem diretamente à educação socioemocional dos estudantes. A BNCC prevê o desenvolvimento de ações pedagógicas que contribuam para a formação integral dos alunos em todos os aspectos: físico, intelectual, cognitivo e emocional.
Por que propostas de educação socioemocional se fazem necessárias no contexto da escola? Diferentes formas de respostas poderiam ser organizadas em relação a esse questionamento. Ressaltamos o argumento que a escola segue sendo um ambiente de convivência interpessoal (Trevisol; Uberti, 2016; Tognetta et al, 2017; Vinha et al, 2025). Aprender a viver em coletivo, socializar-se, respeitar e interagir, se constituem competências importantes que precisam ser desenvolvidas, independente de nível de ensino. Nesse sentido, um Projeto Político Pedagógico que valorize a dimensão socioemocional e que mobilize o planejamento do trabalho pedagógico dirigido a essa dimensão, como ao desenvolvimento integral dos estudantes, se constitui uma necessidade e sinaliza a compreensão de educação e de sociedade que se deseja construir e viver.
Enquanto um conflito interpessoal, como também compreendido como uma forma de violência na e da escola, o bullying é um problema que afeta a vida de milhares de crianças, jovens e até adultos, causando sofrimento psicológico e físico nas vítimas [...] (Tognetta et al, 2017). É caracterizado especialmente pelo abuso sistemático entre pares, cujas agressões tendem a ser premeditadas, havendo um desequilíbrio de poder entre o autor e a vítima (Olweus, 1993, 1997; Avilés Martínez, 2009a; Del Barrio; Martín; Almeida, 2003; Tognetta et al, 2010, Apud Tognetta et al, 2017). Trata-se de uma ação imoral em que alguém inflige (ou tenta infligir), intencionalmente, sofrimento ou desconforto sobre outro (Olweus, 1997 Apud Tognetta et al, 2017).
Os problemas de convivência na instituição educativa, em suas distintas manifestações (bullying, indisciplina, violências, preconceitos etc.), prejudicam o desenvolvimento de crianças e adolescentes, afetam o clima escolar, as práticas pedagógicas e as relações interpessoais (Vinha et al., 2017b).
Nesse cenário de conflitos e de violências, compreendemos que a educação socioemocional, quando planejada e implementada considerando a formação integral dos estudantes pode favorecer a reflexão, o autoconhecimento e a compreensão das emoções dos estudantes. Com isso, possui potencial de prevenir a violência, o bullying e contribui para transformar a escola em um espaço de cultura de paz.
3 METODOLOGIA
O embasamento da discussão proposta neste trabalho está sustentado em uma pesquisa de abordagem qualitativa, do tipo exploratória e bibliográfica (Oliveira, 2016).
Utilizou-se como bases de dados a produção acadêmico científica disponibilizada no Portal de Periódicos da CAPES e na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), tendo como recorte temporal o período de 2015 a 2025, nos idiomas, português, inglês e espanhol. Utilizou-se os descritores: socioemocional AND (proposta OR escola OR educação).
A pesquisa foi realizada no decorrer do dia 01 de abril de 2025. Nas duas bases de dados, foram identificados 532 trabalhos, dos quais 15 eram duplicados, resultando em 517 estudos selecionados para análise inicial. Em seguida, aplicaram-se critérios de inclusão: a) Trabalhos que abordem propostas de educação socioemocional, como forma de prevenção às práticas de bullying, desenvolvidas em escolas públicas e/ou privadas, do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental. A seleção desse período se deve ao tempo da adolescência em que estudos (Trevisol; Uberti, 2016; Pigozi; Machado, 2015, entre outros) evidenciam manifestações de conflitos relacionados a diferentes fatores, questões relacionadas à identidade, gênero, entre outros.
E, como critérios de exclusão: a) Trabalhos que não apresentem propostas de educação socioemocional, ou que descrevam iniciativas desenvolvidas com estudantes da Educação Infantil, dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, do Ensino Médio ou do Ensino Superior, em escolas públicas ou privadas. b) Trabalhos que não abordam a temáticas de pesquisa.
Após a aplicação dos critérios, selecionamos duas propostas de educação socioemocional que têm por finalidade o enfrentamento das práticas de bullying no ambiente escolar, as quais são apresentadas na seção seguinte.
4 DISCUSSÃO
Considerando a pesquisa bibliográfica realizada, cujo objetivo foi identificar propostas de educação socioemocional planejadas e implementadas com a intenção de prevenir práticas de bullying, foram localizadas duas experiências relevantes. Em âmbito internacional, identificou-se no Portal de Periódicos da CAPES, o Programa Cyberprogram 2.0, descrito em artigo científico, e, em nível nacional, a dissertação intitulada “Projeto de Aprendizagem Socioemocional para o Contexto Escolar no Ensino Fundamental: estudos, intervenção professoral e análise”, desenvolvida por Souza (2023), na Universidade Estadual Paulista, UNESP, Bauru (SP).
O Cyberprogram 2.0, tem como objetivo “avaliar experimentalmente os efeitos de um programa antibullying para prevenir ou reduzir o abuso entre pares, em termos de cognição, emoções, condutas associadas ao desenvolvimento socioemocional e à prevenção da violência” (Garaigordobil et al., 2015, p. 36). A amostra contou com 176 estudantes, de 13 a 15 anos, de três escolas de Gipuzkoa, na Espanha, divididos em grupos experimental e controle.
A intervenção teve 19 sessões de 1 hora, realizadas ao longo de um ano letivo. Nessas sessões, desenvolveram-se dinâmicas de grupo, debates com dramatização, técnicas de discurso em grupo, estudos de caso. Seguindo um manual metodológico com descrição detalhada das ações. No final, aplicou-se o questionário de avaliação CEP-Cyberprogram-2.0, os resultados apontaram melhoras significativas no gerenciamento das emoções e redução dos índices de violência e bullying entre os adolescentes (Garaigordobil et al., 2015).
A dissertação de Souza (2023) teve como objetivo analisar as perspectivas de um projeto de educação socioemocional voltado a alunos do 6º ano, por meio de intervenções pedagógicas que contribuíssem para a aprendizagem e para a melhoria das relações interpessoais em um contexto marcado por conflitos. O projeto surgiu a partir das constantes queixas dos docentes relacionadas a xingamentos, desrespeito e práticas de bullying.
Aconteceu em uma escola estadual da periferia de uma cidade do interior paulista, com a participação de 12 estudantes, de três turmas do 6º ano, de 11 a 13 anos. Teve duração de quatro meses, no 1º mês, ocorreu o levantamento das queixas dos professores; no 2º, a preparação das ações, com o convite aos participantes e a organização do calendário; e no 3º e 4º mês, a execução das atividades.
Realizam-se seis encontros de 50 minutos com foco no desenvolvimento de competências socioemocionais que envolveram temas como valores morais, proatividade, respeito, autocrítica, autocontrole e empatia. Os resultados evidenciaram engajamento e participação dos alunos, com destaque para relatos e atitudes que demonstraram crescimento emocional e empatia. Como produto, elaborou-se um e-book intitulado “Crescer para Transformar”, disponibilizado para uso de outras escolas e docentes.
Essas duas propostas, desenvolvidas em contextos territoriais e culturais distintos, demonstram a relevância e o potencial da educação socioemocional, como instrumento de prevenção e enfrentamento ao bullying e às violências escolares.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho teve como objetivo analisar o potencial de propostas de educação socioemocional como estratégia de prevenção das práticas de bullying no ambiente escolar. A partir do levantamento bibliográfico realizado, destacaram-se duas iniciativas que demonstraram efetividade em contextos distintos: o Cyberprogram 2.0, em âmbito internacional, e o projeto de intervenção de Souza (2023), em contexto nacional. Ambas reafirmam o potencial transformador da educação socioemocional na prevenção e enfrentamento do bullying, das atitudes de desrespeito e das violências escolares, durante a fase da adolescência.
Estratégias como essas promovem o bem-estar, fortalecem as relações interpessoais e estimulam a confiança mútua entre os pares, contribuindo para a construção de uma cultura de paz nas escolas. Os resultados observados nas duas pesquisas evidenciam melhorias comportamentais e emocionais nos estudantes participantes das ações educativas.
Portanto, propostas de educação socioemocional devem ser integradas às práticas pedagógicas cotidianas, de modo a contribuir para a formação integral dos indivíduos, favorecendo o desenvolvimento de competências emocionais e sociais essenciais à convivência e ao aprendizado no ambiente escolar.
REFERÊNCIAS
BORGES, Iara Farias. Pesquisa do DataSenado revela que quase 7 milhões de estudantes sofreram violência na escola. Rádio senado. Senado Federal. Brasília. 2023. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/radio/1/noticia/2023/07/04/pesquisa-do-datasenado-revela-que-quase-8-milhoes-de-estudantes-sofreram-violencia-na-escola. Acesso em: 19 out. 2025.
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MALTA, Yêda Sá. O ensino das competências socioemocionais com o uso do pixton para criação de histórias em quadrinhos pelos estudantes do ensino fundamental anos finais no colégio militar Tiradentes I. Dissertação de mestrado: Universidade Federal do Maranhão. São Luís. 2023. Disponível em: https://tedebc.ufma.br/jspui/handle/tede/tede/5171. Acesso em: 26 nov. 2025.
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