PROMOÇÃO DE SAÚDE SEM CLINICALISMO: AÇÕES DA PSICOLOGIA ESCOLAR SOB UMA PERSPECTIVA CRÍTICA

  • Autor
  • Pedro Henrique Oioli Santos
  • Co-autores
  • Fernanda Degani Akuri , Nicolas Kenji Dias Takahashi , Pedro Henrique Ferreira Ayres Alves
  • Resumo
  • 1 INTRODUÇÃO

    A promoção da saúde nas instituições escolares tem se revelado um desafio urgente diante do crescente sofrimento psíquico de estudantes e educadores, agravado por contextos de violência simbólica, exclusão e precarização das condições de trabalho e aprendizagem. Ainda que discursos sobre saúde mental tenham ganhado espaço nas políticas públicas e nas escolas, observa-se que a atuação do psicólogo escolar, com frequência, permanece restrita a práticas de caráter clínico e individualizante. Essa perspectiva reduz a complexidade dos fenômenos educativos e ignora determinantes sociais, econômicos e culturais que incidem sobre o processo de escolarização.

    Não obstante, o histórico da atuação da Psicologia Escolar no Brasil esteve marcado por abordagens clinicalistas, individualizantes e patologizantes, que culpabilizam o aluno pelo fracasso escolar e ignoram os determinantes sociais, econômicos e históricos do processo educativo (Bock et al, 2003; Christofari, 2015).  Diante disso, este trabalho considera “saúde” como algo que vai muito além das definições fisiológicas e biologizantes. Entende-se “saúde” como algo multifatorial de bases biopsicossociais.

    Assim, o presente texto tem como objetivo analisar criticamente o papel do psicólogo escolar na promoção de saúde, superando o clinicalismo e assumindo uma postura transformadora que contribua para a construção de ambientes escolares saudáveis, democráticos e livres de violências. Também se objetiva o compartilhamento das práticas dentro da temática, as quais forma realizadas pelos estagiários do Projeto de Extensão da Universidade de Marília (Unimar), intitulado “Conflitos Escolares e seus paradigmas: ações da Psicologia Escolar em um projeto itinerante.

    A partir de relatos dessas experiências práticas desenvolvidas pelo Grupo Itinerante de Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar da Universidade de Marília (Unimar), pretende-se discutir como intervenções coletivas, contextualizadas e críticas podem romper com lógicas de estigmatização e abrir caminho para práticas educativas mais inclusivas e humanizadoras.

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

    O presente estudo (e relato prático) fundamenta-se em uma perspectiva crítica da Psicologia Escolar, compreendendo que o papel do psicólogo na instituição educacional ultrapassa o atendimento individual e clínico, situando-se no campo das relações institucionais, coletivas e políticas, afastando-se da tradicionalidade do consultório e do “setting terapêutico”. Essa concepção se sustenta sobre três eixos teóricos principais: a Psicologia Social Crítica, a Promoção da Saúde Coletiva e a Educação Democrática e Inclusiva.

    O primeiro eixo, ancorado nas formulações de Sílvia Lane (1989), considerando que “toda psicologia é social”, isto é, todo fenômeno subjetivo é produzido em um contexto histórico e material específico. Assim, o comportamento e o sofrimento psíquico dos sujeitos escolares não podem ser compreendidos fora das condições sociais, políticas e culturais em que se desenvolvem.

    O segundo apoia-se no conceito de Promoção da Saúde, consolidado a partir da Carta de Ottawa e da Política Nacional de Promoção da Saúde (Brasil, 2002), que definem a saúde como um processo social e coletivo, relacionado à qualidade de vida, às condições de trabalho e à participação comunitária.

    Na interface entre saúde e educação, Guardia (2005) e Guzzo (2011) destacam que o psicólogo escolar deve atuar como um agente de saúde coletiva, articulando práticas que favoreçam o bem-estar emocional e relacional dos sujeitos, e não como um técnico responsável por corrigir desvios individuais. Dessa perspectiva, a promoção da saúde mental na escola implica valorizar as redes de apoio e convivência como dispositivos de cuidado, reconhecendo o ambiente escolar como espaço privilegiado para o desenvolvimento humano (Ronchi; Iglesias; Avellar, 2018). Trata-se de uma mudança paradigmática, na qual o foco desloca-se da prevenção de doenças para o fortalecimento de capacidades e vínculos sociais.

    O terceiro eixo teórico refere-se à Educação Democrática e Integral, amparada pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (Brasil, 2018) e pelas reflexões de Marinho-Araújo e Almeida (2023), que compreendem a escola como um espaço de formação global, pautado no acolhimento, no respeito à diversidade e na construção de uma convivência ética.

    Sob esse prisma, a promoção de saúde nas escolas não é um fim em si mesma, mas um instrumento de democratização das relações educativas. Ao dialogar com o referencial histórico de Bock e colaboradores (2003); e Boarini e Yamamoto (2004), o presente estudo assume uma postura crítica frente às heranças higienistas e eugenistas que marcaram a psicologia educacional brasileira, reafirmando a necessidade de uma atuação ética, contextualizada e transformadora.

    3 METODOLOGIA

    Este que atua em escolas públicas e particulares de Marília/SP. A metodologia trabalho deriva da sistematização das experiências práticas do Grupo Itinerante de Psicologia Escolar, projeto de estágio supervisionado adotada é de caráter qualitativo-descritivo, com base na observação participante e em relatos de experiência.

    As ações foram planejadas a partir das demandas identificadas pelas próprias escolas parceiras. Entre as temáticas desenvolvidas destacam-se: saúde mental na adolescência, prevenção ao bullying, comunicação assertiva e não violenta, consentimento e respeito ao corpo, orientação profissional e relações de convivência escolar.

     O processo de cada intervenção inicia-se com um contato prévio com gestores e coordenadores pedagógicos para mapear necessidades locais. A partir disso, são elaborados projetos temáticos coletivos, com duração variável, voltados a diferentes públicos: estudantes, professores, demais agentes pedagógicos, equipes gestoras e famílias. Utilizaram-se metodologias ativas, como rodas de conversa, dinâmicas de grupo, atividades lúdicas e oficinas reflexivas, sempre com foco na criação de espaços de escuta e diálogo através de uma linguagem acessível e do respeito às singularidades dos contextos. A sistematização dos dados se deu por meio de registros de campo, diários reflexivos e devolutivas com as equipes pedagógicas.

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO (se houver)

    Os resultados obtidos com as ações evidenciam que as práticas itinerantes contribuíram para o fortalecimento da convivência e para a construção de ambientes escolares mais acolhedores. Observou-se que, ao abordar temas sensíveis por meio de metodologias participativas, os estudantes demonstraram maior engajamento e abertura ao diálogo, especialmente em ações sobre bullying e comunicação assertiva.

    Nos projetos de bullying, por exemplo, observou-se que a abordagem coletiva, pautada na empatia, na responsabilidade compartilhada e na escuta, foi mais eficaz do que estratégias punitivas ou individualizantes. Estudantes passaram a identificar formas sutis de violência (exclusão, humilhação, cyberbullying) e a propor soluções coletivas, reduzindo conflitos e fortalecendo o senso de pertencimento.

    As experiências mostraram que a promoção de saúde mental depende da articulação multiprofissional e da corresponsabilidade institucional. Em escolas nas quais os projetos contaram com o envolvimento da gestão e dos professores, os efeitos foram mais consistentes, sendo um resultado empírico e prático dos apontamentos de Lima (2018) e Damasceno, Pereira e Negreiros (2023).

    Contudo, persistem desafios. Em algumas instituições, a equipe gestora ainda esperava atendimentos individuais e encaminhamentos clínicos, revelando a força do imaginário clinicalista (Dias; Patiase; Abaid, 2018). Quando a gestão não se engajou nas ações, os impactos foram mais efêmeros. Isso reforça o preceito supracitado, a promoção de saúde só se consolida quando há corresponsabilidade institucional. Por vezes também, a prática itinerante mostrou-se como inovadora por atender um escopo maior de instituições escolares, mas traz consigo desafios de criação de vínculos com algumas turmas.

    O enfoque coletivo e territorial das ações aproxima-se do conceito de promoção da saúde como tecnologia do cuidado (Santos; Oliveira; Teixeira, 2016), fortalecendo o sentido de pertencimento e de rede de apoio. As atividades permitiram também desnaturalizar práticas de culpabilização do aluno, revelando que muitos conflitos escolares têm origem em fatores estruturais, como desorganização institucional, ausência de comunicação entre os profissionais e falta de escuta efetiva.

    Em síntese, a atuação do psicólogo escolar, quando pautada na escuta qualificada e na mediação coletiva, favorece a emergência de práticas educativas transformadoras, em consonância com uma perspectiva crítica da psicologia e da saúde coletiva.

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

    Por fim, o presente trabalho reafirma que uma promoção da saúde sem clinicalismo requer uma prática (e uma práxis) psicológica escolar comprometida com o coletivo, a democracia e a ética do cuidado, entendo o contexto psicossocial coletivo, singular e institucional e como os indivíduos que o compõe não podem ser reduzidos a determinantes meramente medicalistas.

    As ações do Grupo Itinerante (fundamentadas nesse episteme supracitado) demonstraram que é possível construir espaços de convivência mais saudáveis e inclusivos a partir de metodologias colaborativas e críticas. Contudo, essa atuação exige formação crítica dos psicólogos, políticas públicas que a sustentem (e que sejam algo além de um pedaço de papel), práticas institucionais cooperativas e uma ruptura com heranças epistemológicas que culpabilizam os sujeitos em vez de questionar o contexto e as estruturas sociais e escolares.

    A Psicologia Escolar, ao se articular com os princípios da promoção da saúde, amplia seu papel para além da prevenção e da clínica, tornando-se agente de transformação social. É essencial que a formação e a atuação do psicólogo estejam ancoradas em referenciais que reconheçam a historicidade da profissão e suas implicações políticas, para que não se reproduzam as práticas excludentes que marcaram o passado da psicologia na educação.

     

    Promover saúde nas escolas é promover cidadania, o bem-conviver e a convivência democrática, fortalecendo o compromisso ético da Psicologia com a educação pública e com a construção de uma sociedade mais justa.

  • Palavras-chave
  • Convivência Escolar, Educação, Promoção de Saúde, Psicologia Escolar, Saúde Mental.
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 1 - Convivência escolar e enfrentamento à violência: práticas que desenvolvemos para a melhoria da qualidade da escolarização
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