A EJA representa um espaço essencial para a inclusão de sujeitos com trajetórias diversas, assegurando o direito de todos pela educação básica aqueles que por diferentes motivos não concluíram os estudos em idade regular, como é descrito na Lei 9.394 de 20 de dezembro de 1996, no artigo 4º.
Compreender as políticas publicas educacionais destinadas a EJA, como artigo 208 da Constituição Federal de 1988; a Resolução n.º 01/2021 DE 25 DE MAIO DE 2021; Resolução CNE/CEB Nº 3, DE 8 DE ABRIL DE 2025 é fundamental para analisar se tais diretrizes e normas se manifestam, ou não, nas ações de aprendizagem e desenvolvimento pedagógicos dos alunos, assim como as suas percepções cotidianas.
Ao analisar essas diretrizes e normas, nota-se que há intenção de estabelecer bases para garantir o acesso, a participação e a aprendizagem crítica destes sujeitos, sempre considerando suas demandas sociais e especificidades, como prevê a Resolução CNE/CEB nº 3/2025 ao orientar a organização curricular diversificada e a ampliação das oportunidades de escolarização deste público.
No presente trabalho, as análises buscam dialogar com a perspectiva comparada ao confrontar as diretrizes e normativas nacionais — como o artigo 208 da Constituição Federal e as resoluções mencionadas — com a realidade observada nas práticas pedagógicas da EJA na escola estudada. Este contraste evidencia diferenças e semelhanças que contribuem para compreender como essas políticas públicas são implementadas ou enfrentam desafios no cotidiano dos alunos e educadores. Assim, além de reconhecer as especificidades locais, este estudo amplia o olhar para o contexto mais amplo das políticas educacionais destinadas à EJA, promovendo uma reflexão crítica que é central para a Educação Comparada.
Reconhecer a pedagogia da EJA constitui um passo essencial para afirmar que essa modalidade de ensino transcende a simples função de certificar um aluno, tornando-se uma política afirmativa de direitos, saberes e cultura. A partir desta perspectiva, aprofunda-se a exploração das bases teóricas sobre esses sujeitos nesta modalidade, as quais fundamentam o referencial teórico deste estudo.
A roda de conversa quando pensada em um contexto educacional, proporciona uma perspectiva qualitativa das noções de práticas docentes em sala de aula e as perspectivas dos discentes da modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA) quanto ao andamento das disciplinas e apropriação dos conteúdos. Essa metodologia por sua vez favorece a expressão de vivências, opiniões e reflexões dos participantes em um ambiente coletivo e acolhedor, trazendo a possibilidade de dados mais ricos e significativos para análise em âmbito educacional. Trata-se, portanto, de um espaço formativo que estimula a comunicação, o diálogo aberto e a construção coletiva do conhecimento.
Este estudo, por sua vez, tem como objetivo compreender os sujeitos da EJA a partir dessas reflexões geradas em roda de conversa, destacando sua importância para a construção do conhecimento e fortalecimento das relações professor-aluno. A pesquisa busca contribuir para o entendimento das dinâmicas presentes no público EJA e reforçar a importância de metodologias participativas na promoção de uma educação inclusiva e democrática.
Compreender a pedagogia da EJA constitui um passo essencial para a reconhecer que essa modalidade de ensino transcende a simples função de certificar um aluno para ser uma política afirmativa de direitos, saberes e cultura. A partir desta ideia é avançar na exploração das bases teóricas sobre estes sujeitos nesta modalidade, as quais fundamentam o referencial teórico deste estudo.
Diversos autores discutem e compreendem quem são os são os sujeitos da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Entre eles, destaca-se Paulo Freire, cuja sua contribuição é fundamental para o aprofundamento das concepções teóricas que auxiliam na compreensão e no reconhecimento destes sujeitos. Além dos estudos de Freire, foram selecionados outros dois artigos que contribuem para ampliar esta discussão ao abordar as diversidades e perfis dos estudantes da EJA: Santos, Pereira e Amorim (Os sujeitos estudantes da EJA: um olhar para as diversidades) e Ferreira e Martinelli (Estudantes da Educação de Jovens e Adultos: considerações sobre o perfil e desempenho escolar). Ambos oferecem diferentes visões sobre as experiências, saberes e desafios que marcam o percurso desses estudantes.
A ideia central da pesquisa baseia-se na comparação entre dados teóricos apresentados no referencial e com os com os dados obtidos por meio de uma roda de conversa com discentes da EJA. Em função disso, o estudo adota uma abordagem exploratória de caráter qualitativo para a análise dos resultados.
O texto de Ferreira et al. (2023), contribui para compreensão de que a coleta de dados em pesquisas qualitativas na educação é essencial, especificamente quando envolve entrevista e observação, como é neste estudo. A entrevista possibilita compartilhar histórias e bagagens culturais dos participantes. Na roda de conversa, a observação ocorre por meio da observação se dá na visualização de que cada sujeito da EJA diferente um do outro.
Para este trabalho, foi adotado uma das formas do pesquisador – observado descritas por Junker (1971) e por Lüdke e André (2018), em que os participantes têm o conhecimento que será observado, bem como o que se pretende pesquisar.
Outra autora utilizada neste trabalho é Minayo (2001), que apresenta a ideia da abordagem exploratória, considerada uma fase da pesquisa qualitativa. Nesta etapa, nesta fase são construídos o referencial teórico e conceitual, realiza-se a própria investigação e ocorre a exploração de campo, aspectos que constituem o foco deste estudo.
No próximo item, Resultados e Discussões, serão apresentadas as situações e acontecimentos narrados pelos participantes, os quais se mostram de extrema importância para a análise do estudo.
Embora este trabalho apresente, até o momento, apenas resultados iniciais obtidos a parte das rodas de conversa realizadas com estudantes da EJA, os dados obtidos já se mostraram relevantes para a compreensão das dinâmicas que atravessam essa modalidade de ensino. Entretanto podemos destacar que ainda não foi possível realizar uma análise comparativa aprofundada entre as informações obtidas da roda de conversa e o referencial teórico adotado. Mesmo assim, as informações coletadas oferecem suporte suficiente para a percepção dos sentimentos, experiências e trajetórias dos discentes, contribuindo para a possibilidade de futuras investigações sobre a singularidade dos alunos da EJA.
Os múltiplos contextos sociais identificados na turma observada revelam a diversidade que constitui o público da EJA. Essa diversidade dialoga diretamente com as concepções de Paulo Freire, onde ele compreende o processo educativo não apenas como transmissão de conhecimento, mas como a prática de liberdade capaz de reconhecer os sujeitos, suas experiências de vida e seus saberes prévios. Freire enfatiza que a Educação de Jovens e Adultos precisam transcender a função somente de uma certificação, configurando a educação como uma politica de afirmação de direitos, saberes e de cultura. Essa concepção se confirma nos relatos dos alunos, que evidenciam as razões pessoais e sociais que motivam a continuidade dos estudos.
É observado em grande parcela do grupo participante, um sentimento de conformidade quanto a ideia de não prosseguir para o ensino superior. Essa escolha, segundo depoimentos, se relaciona a percepção da idade como limitante, às dificuldades enfrentadas no percurso escolar e a ausência de incentivo de colegas e professores. Um exemplo marcante é o discurso da participante identificada como indivíduo A que afirma “[... Já sou velha demais para fazer uma faculdade, quero só terminar meus estudos e dizer que consegui…]”. Essa fala não expressa somente um sentimento individual, mas também uma dimensão simbólica do que Santos, Pereira e Amorim denominam como “condicionantes sociais de aprendizagem”, que definem e restringem as expectativas formativas de muitos estudantes da EJA.
Um contraponto a essa perspectiva vem a partir da fala de uma outra estudante expressando o desejo de superação e continuidade acadêmica. O indivíduo B, manifestou a vontade de cursar o ensino superior, destacando que finalizar o ensino básico representa apenas um passo em direção a um objetivo maior de conquistar a formação universitária. Esse discurso pode ser compreendido a partir das reflexões de Ferreira e Martinelli, que identificam na EJA um ambiente para a reconstrução do autoconhecimento e do sentimento de competência, favorecendo a reinserção dos sujeitos nos espaços educativos e sociais.
Outro depoimento de grande relevância foi o de um participante que declarou “[... Mesmo com toda a dificuldade, estou aqui pela minha filha, para que ela possa olhar e falar que o pai dela concluiu pelo menos o ensino médio, para que eu possa construir uma carreira mais estruturada e dar uma vida melhor a ela…]”. Essa fala revela o caráter intergeracional da educação e reforça que, além de aspectos formativos, há também motivações afetivas e familiares que sustentam o vínculo do indivíduo com a escola. Essa dimensão humanizadora reflete integralmente a concepção freireana da educação como prática transformadora, na qual o aprender e o ensinar se constroem em um movimento de diálogo entre educador e educando.
Durante as observações, foi possível constatar a presença de dois alunos com deficiência: um com deficiência auditiva e outro com Síndrome de Down. Ambos apresentaram um desenvolvimento acadêmico e pessoal expressivo ao longo do curso, demonstrando o potencial inclusivo da Educação de Jovens e Adultos quanto mediados por práticas pedagógicas dialogadas e solidárias. Foi recorrente perceber a preocupação dos colegas da turma em incluir esses estudantes na conversa, adaptando a comunicação as suas necessidades exclusivas e recorrendo a intérprete de libras quando necessário. Essa postura nos mostra a postura coletiva dos alunos de EJA em construir um espaço de convivência acolhedor e empático.
De forma preliminar esses dados obtidos corroboram a perspectiva de que compreender a pedagogia da EJA implica em reconhecer essa modalidade não só como certificadora, mas como construtora de cidadania, reconstrução social e de reafirmação do indivíduo acadêmica e socialmente.
As análises iniciais apresentadas por esse estudo destacam a complexidade e riqueza de experiências que o indivíduo de EJA leva até a sala de aula. Apesar das limitações que obtivemos pelo recorte amostral pequeno e pelo tempo de observação, podemos destacar que a EJA vai além de uma política de certificação escolar, sendo também um espaço de afirmação de direitos, construção de identidades, de trocas culturais e construção de cidadania. Os relatos evidenciam as múltiplas motivações, desafios e expectativas que permeiam as trajetórias educacionais desses estudantes, reafirmando a necessidade de valorizar suas histórias, saberes e singularidades nas práticas pedagógicas cotidianas.
Os resultados nos mostram que o percurso formativo da EJA é marcado por obstáculos, mas principalmente por movimentos de reconstrução pessoal e busca por pertencimento. Destacamos também a necessidade de acolhimento, da inclusão e do diálogo em sala de aula, conforme proposto por Paulo Freire.
Diante dos dados coletados e das reflexões teóricas apresentadas, torna-se evidente a importância de articular as políticas públicas com as práticas pedagógicas locais, possibilitando uma compreensão mais profunda das múltiplas dimensões que envolvem a Educação de Jovens e Adultos. Essa articulação fortalece o olhar comparativo que reconhece tanto as convergências quanto as divergências entre o que está estabelecido nas normativas e o que se concretiza na realidade escolar, ampliando as possibilidades de intervenção educativa e social.
Ao cruzar essas vivências com as políticas públicas e diretrizes educacionais destinadas à EJA, observa-se um cenário de nuances, com desafios e possibilidades para a implementação efetiva dessas políticas no cotidiano escolar. Tal articulação entre normativas e práticas concretas, explorada neste estudo, revela importantes dimensões para reflexão crítica, que ultrapassa o contexto local. A análise, portanto, se fortalece ao dialogar com a Educação Comparada, considerando as convergências e divergências entre o prescrito nas políticas e o vivido nas escolas, apontando caminhos para o fortalecimento das modalidades educativas voltadas para jovens e adultos.
Desta forma, o presente trabalho reafirma o papel da EJA como instrumento social, reforçando que toda a política educacional voltada a jovens e adultos deve valorizar a escuta ativa, o respeito à diferença e a construção coletiva do conhecimento. Entretanto, recomenda-se pesquisas futuras que aprofundem ainda mais o diálogo entre teoria e prática, ampliando as possibilidades de uma intervenção pedagógica voltada principalmente para a emancipação dos estudantes dessa modalidade.