Educação decolonial e tecnologia educacional: realidade aumentada como estratégia pedagógica para a valorização dos povos originários Laklãnõ/Xokleng

  • Autor
  • Fabiano Pradié D'Oliveira
  • Co-autores
  • Renan Vilela
  • Resumo
  •  

     

    EDUCAÇÃO DECOLONIAL E TECNOLOGIA EDUCACIONAL: REALIDADE AUMENTADA COMO ESTRATÉGIA PEDAGÓGICA PARA A VALORIZAÇÃO DOS POVOS ORIGINÁRIOS LAKLÃNÕ/XOKLENG

     

    1 INTRODUÇÃO

     

    A promulgação da Lei nº 11.645/2008 constitui um marco na história da educação brasileira ao determinar a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena nos currículos escolares. Esse avanço representa o reconhecimento da diversidade étnico-cultural do país e a tentativa de superar estigmas e preconceitos historicamente enraizados na sociedade (BRASIL, 2008). 

    Apesar dos avanços legais, a efetivação desses princípios enfrenta desafios, especialmente pela carência de materiais didáticos adequados e de práticas pedagógicas que articulem o conhecimento indígena com recursos tecnológicos de forma sensível e significativa. Nesse cenário, a Realidade Aumentada (RA) surge como alternativa para potencializar o ensino da cultura indígena, ampliando as possibilidades de interação, imersão e compreensão cultural no espaço escolar.

    Inspirados na pedagogia crítica de Paulo Freire (2015), compreendemos que a tecnologia deve ser apropriada de forma dialógica e emancipadora. Reconhecemos seu imenso potencial produtivo e transformador e discordamos de seu uso meramente instrumental, em virtude disso, o uso da RA neste projeto não se restringe a um recurso técnico, mas se configura como uma prática de conscientização e valorização cultural, favorecendo o diálogo entre estudantes e a comunidade Laklãnõ/Xokleng.

    Dessa forma, o presente trabalho apresenta a experiência desenvolvida no projeto “Um olhar entre camadas: valorização da cultura do povo Xokleng de José Boiteux – SC”, que utilizou a RA como ferramenta pedagógica para aproximar os estudantes do 9º Ano da E.E.B.M. Professora Noemi Vieira de Campos Schroeder, da cidade de Pomerode (SC), da história e da cosmovisão do povo Laklãnõ/Xokleng. Busca-se evidenciar como o uso dessa tecnologia contribuiu para a promoção da conscientização e da valorização da diversidade cultural dos povos originários no contexto escolar.

     

    2 REFERENCIAL TEÓRICO

     

    Os povos Xokleng, também conhecidos como Laklãnõ/Xokleng, tradicionalmente habitavam as regiões montanhosas e florestais do Sul do Brasil, especialmente em Santa Catarina e no Paraná. Segundo Diegues (2006), sua rica tradição oral, repleta de mitos e narrativas, constitui um meio essencial de transmissão de saberes e preservação da memória coletiva. Contudo, o processo de colonização impôs sérios impactos a esses modos de vida, configurando um cenário de apagamento histórico e cultural.

    A abordagem decolonial, conforme Walsh (2013), propõe um movimento contínuo de resistência e reconstrução de narrativas, reconhecendo o valor dos povos originários. Pode-se questionar: seria possível utilizar a tecnologia para colaborar no projeto de decolonialidade? Acreditamos que sim, desde que tal uso envolva uma apropriação crítica e estratégica das ferramentas tecnológicas. Embora originárias da matriz de poder moderno-colonial, as tecnologias podem ser ressignificadas como instrumentos de valorização de histórias outras e de reconstrução do imaginário coletivo.

    Kenski (2012) ressalta que as tecnologias educacionais não são neutras, mas atuam como mediadoras das relações de ensino e aprendizagem. Seu uso pode tanto reforçar práticas tradicionais quanto abrir caminhos para experiências inovadoras e críticas. Ao serem articuladas ao estudo da cultura Laklãnõ/Xokleng, as tecnologias digitais, como a RA, deixam de ser meros instrumentos técnicos e passam a constituir-se como recursos de valorização intercultural e de construção de novos sentidos no espaço escolar.

    O projeto “Um olhar entre camadas: valorização da cultura do povo Xokleng de José Boiteux – SC” explorou a utilização da RA como recurso pedagógico para aproximar os estudantes das histórias, dos espaços e das memórias da comunidade indígena. Conforme Tori e Kirner (2006), a RA pode ser definida de diferentes maneiras, mas todas convergem na ideia de enriquecimento do ambiente físico com elementos digitais interativos, integrando o real e o virtual por meio de dispositivos tecnológicos.

    No contexto educacional, essa integração favorece a exploração, a descoberta e a construção ativa do conhecimento, ao mesmo tempo que mantém o estudante conectado ao espaço escolar concreto. Para Tori, Queiroz, Corrêa e Netto (2021), exemplos práticos de aplicação incluem o uso de QR codes impressos em livros didáticos e outros materiais, que, quando capturados por câmeras, projetam objetos virtuais sobre a imagem real, ampliando as possibilidades pedagógicas.

    Inspirado nessas propostas, o projeto “Um olhar entre camadas” utilizou QR codes e também a produção de conteúdos voltados à exploração de ambientes e da história da comunidade indígena. Essa abordagem permitiu que os estudantes acessassem novos significados sobre o território e a cultura Laklãnõ/Xokleng, fortalecendo o vínculo entre tecnologia, conhecimento e valorização da diversidade cultural.

     

    3 METODOLOGIA

     

    A metodologia adotada no projeto combinou pesquisa bibliográfica e pesquisa de campo. A pesquisa bibliográfica (Gil, 2002) possibilitou a construção da base teórica, permitindo aos estudantes pesquisadores contextualizar as práticas e crenças desse povo.

    A pesquisa de campo, realizada por meio de uma saída de estudo dos estudantes do 9º Ano à comunidade Laklãnõ/Xokleng, envolveu entrevistas com membros da comunidade indígena, possibilitando o contato direto com suas narrativas, percepções e experiências. Esses instrumentos foram fundamentais para a compreensão da cultura, da religião e da visão de mundo do povo Laklãnõ/Xokleng. Essa etapa revelou aspectos subjetivos da cultura e da espiritualidade, favorecendo uma compreensão mais sensível e contextualizada da realidade local.

    O trabalho foi orientado por uma abordagem antropológica inspirada no perspectivismo ameríndio de Viveiros de Castro (1996), segundo a qual compreender uma cultura requer observar o mundo a partir da visão dos próprios sujeitos. Assim, o estudante-pesquisador buscou adotar uma postura de escuta e diálogo, valorizando os saberes tradicionais e evitando interpretações centradas em referenciais externos. Essa perspectiva metodológica permitiu um olhar mais atento às nuances e complexidades da cosmovisão Laklãnõ/Xokleng, contribuindo para uma análise cultural mais profunda e respeitosa.

    Com o propósito de representar visualmente a comunidade indígena visitada, foi desenvolvida uma maquete construída com materiais diversos, como caixas de fósforo, isopor, caixas de leite e elementos vegetais artificiais, buscando reproduzir as principais estruturas observadas na aldeia. A proposta teve como objetivo ampliar a experiência de aprendizagem por meio da RA, integrando elementos físicos e digitais de forma interativa.

    Para isso, fotografias e vídeos realizados durante a visita à comunidade foram convertidos em QR codes e associados aos pontos correspondentes da maquete. Dessa maneira, ao escanear cada código com dispositivos móveis, pode-se visualizar imagens ou vídeos do local representado, ouvindo também relatos e histórias contadas pelos próprios membros da comunidade indígena. Essa estratégia possibilitou que estudantes que não participaram da visita conhecessem virtualmente o território e interagissem com os saberes e memórias do povo Laklãnõ/Xokleng.

     

    4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

     

    A pesquisa bibliográfica sobre a história e os desafios das comunidades indígenas possibilitou aos estudantes refletirem sobre os preconceitos existentes, preparando-os para a saída de campo. Durante a visita à aldeia Bugio, percebeu-se que, para os Laklãnõ/Xokleng, a história do Vale do Itajaí, especialmente no contexto da imigração europeia e dos primeiros contatos, pode ser reinterpretada sob uma perspectiva decolonial, evidenciando as diferentes formas de vivenciar o passado.

    Os relatos compartilhados pelos membros da comunidade, em especial pelo diretor da escola indígena, revelaram a memória de um processo marcado pela violência e pela resistência frente à colonização do sul do Brasil. A lembrança dos chamados bugreiros, caçadores de indígenas, emergiu como símbolo das tentativas de extermínio sofridas pelo povo Laklãnõ/Xokleng. Esse relato convidou os estudantes a questionar as versões oficiais da história e a reconhecer a importância das narrativas silenciadas.

    A utilização da RA na maquete confeccionada pelos estudantes se mostrou uma experiência pedagógica significativa. Ao permitir a interação com os QR Codes e o acesso a imagens, vídeos e relatos da comunidade indígena, a RA ampliou o alcance do projeto dentro da escola, proporcionando uma imersão sensorial e cognitiva que despertou o interesse dos estudantes que não participaram da visita. Essa estratégia contribuiu para aproximar a comunidade escolar da cultura Laklãnõ/Xokleng, promovendo empatia, valorização da diversidade e um aprendizado mediado pela tecnologia, no qual o uso da RA funcionou como um elo entre o conhecimento científico e o saber tradicional. Dessa forma, a tecnologia assumiu um papel mediador e inclusivo, fortalecendo o diálogo intercultural e ampliando as possibilidades educativas no contexto escolar.

    Essas ações resultaram na participação dos estudantes na Feira Brasileira de Iniciação Científica (FEBIC), ocasião em que apresentaram o projeto e conquistaram o prêmio de Destaque em Preservação Histórico-Cultural. A experiência favoreceu também o desenvolvimento de diversas competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (BRASIL, 2018), dentre as quais destacam-se: 1. Conhecimento, 4. Comunicação, 5. Cultura digital e 9. Empatia e cooperação.

    Além disso, o projeto se alinha ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 18 – Igualdade Étnico-Racial, reconhecido pelo Governo Federal como um objetivo nacional voluntário. Embora não integre oficialmente os 17 ODS definidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) na Agenda 2030, o ODS 18 busca enfrentar a desigualdade étnico-racial, garantir a proteção do patrimônio cultural, artístico e religioso indígena, valorizar as formas de convivência dos povos originários e assegurar o direito de existir com dignidade e representatividade (BRASIL, 2024).

    Esses resultados evidenciam que a integração entre práticas decoloniais e tecnologias educacionais pode constituir um caminho para a valorização da diversidade cultural no ensino básico.

     

    5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

     

    O projeto “Um olhar entre camadas: valorização da cultura do povo Xokleng de José Boiteux – SC” demonstrou que o uso pedagógico da RA pode constituir um recurso potente para a valorização da diversidade cultural e o fortalecimento do diálogo intercultural no ambiente escolar. Ao integrar elementos digitais interativos a uma proposta de pesquisa e vivência etnográfica, a iniciativa possibilitou que estudantes, professores e comunidade se aproximassem das histórias, crenças e tradições do povo Laklãnõ/Xokleng de forma sensível, crítica e participativa.

    A aplicação da RA na construção da maquete e na criação de QR Codes que remetem a vídeos, fotografias e relatos da comunidade ampliou as possibilidades de mediação cultural. Essa experiência permitiu que os estudantes se tornassem protagonistas no processo de ensino-aprendizagem, ao mesmo tempo em que deu visibilidade às narrativas e perspectivas indígenas, frequentemente marginalizadas nos discursos históricos e escolares. 

    Conforme Freire (2015), a tecnologia deve ser compreendida de forma dialógica e emancipadora, não como simples ferramenta. Nesse sentido, a RA foi ressignificada como instrumento de decolonialidade, promovendo o reconhecimento dos saberes e das memórias do povo Laklãnõ/Xokleng e demonstrando que os recursos digitais, quando apropriados criticamente, podem contribuir para práticas pedagógicas inovadoras e interculturais.

    Assim, o projeto contribui não apenas para a valorização da cultura Laklãnõ/Xokleng no espaço escolar, mas também para o debate acadêmico sobre o papel das tecnologias digitais na promoção de práticas educativas críticas, inclusivas e decoloniais.

     

    REFERÊNCIAS 

    BRASIL. Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11645.htm. Acesso em: 13 jun. 2024.

    BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.

    BRASIL. Ministério dos Povos Indígenas. Brasil lança 18º ODS pelo fim do racismo estrutural e da discriminação étnico-racial. Brasília, DF: Ministério dos Povos Indígenas, 16 nov. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/povosindigenas/pt-br/assuntos/noticias/2024/11/brasil-lanca-18o-ods-pelo-fim-do-racismo-estrutural-e-da-discriminacao-etnico-racial. Acesso em: 10 out. 2025.

    FREIRE, Paulo. À sombra desta mangueira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2015.

    GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo: Atlas, 2002.

    TORI, Romero ; QUEIROZ, Anna Carolina M.; CORRÊA, Ana Grasielle Dionísio; NETTO, Antonio Valerio. Educação. In: HOUNSELL, Marcelo da silva; TORI, Romero (Org.). Introdução a realidade virtual e aumentada [recurso eletrônico]. 3. ed. Porto Alegre: SBC, 2021.

    TORI, Romero; KIRNER, Cláudio. Fundamentos de Realidade Aumentada. In: TORI, Romero; KIRNER, Cláudio; SISCOUTTO, Robson. Fundamentos e tecnologia de Realidade Virtual e Aumentada. Belém: SBC, 2006.

    VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Os pronomes cosmológicos e o perspectivismo ameríndio. Mana, Rio de Janeiro, v. 2, n. 2, p. 115-144, 1996.

    WALSH, Catherine (Ed.). Pedagogías decoloniales: prácticas insurgentes de resistir, (re)existir y (re)vivir. Tomo I. Quito, Ecuador: Ediciones Abya-Yala, 2013.

  • Palavras-chave
  • Realidade aumentada, Educação decolonial, Tecnologia educacional
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
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