REFLEXÕES A RESPEITO DA CAUSALIDADE MÚLTIPLA: UMA EXPERIÊNCIA ADVINDA DO CAMPO DE ESTÁGIO

  • Autor
  • Brigitte Klemz Jung
  • Resumo
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    INTRODUÇÃO 

     

    A Educação Comparada é um campo elusivo e proteico (Schriewer, 2018). Através desta sentença percebe-se que não é possível demarcar o território deste campo de estudos, tido como amplo, gigante em possibilidades de análise, pesquisa, teorização. Isso também se dá em relação a aspectos históricos referentes aos estudos comparados e a vertentes adotadas para tais estudos.  

    A Educação em suas relações também é vasta, margeada por tantas e inúmeras opiniões. Teóricos versam a respeito do assunto e ampliam discussões. Como já se ouviu: se a Educação, para dar certo, dependesse das publicações a seu respeito, a solução já teria sido encontrada há tempo! Além de que são muitas as relações e os atores entre os quais as relações educacionais acontecem. Desde a instituição escola, professores, alunos, entorno, famílias, infraestrutura, metodologias, até discussões sobre materiais didáticos adequados, formação de professores, por aí afora.

    Como aliar a discussão da Educação Comparada com a Educação? Uma pode implicar na outra? Ou melhor, a base teórica de uma pode ser discutida e aproveitada pela outra? 

    Para tecer reflexões a respeito do assunto – complexo por si só - este trabalho foi organizado. Sua estruturação partiu da nossa pesquisa de tese cuja temática se deu em torno de Jürgen Schriewer.  Dessa pesquisa foi possível depreender que Schriewer leva em conta a história, os contextos locais, a diversidade, afirmando que esta é uma das maiores riquezas da humanidade. Ele questiona as tentativas de igualar, padronizar pelas comparações. Essa discussão também cabe às escolas. Nelas são múltiplas as relações estabelecidas. Fato é que frequente e constantemente se problematiza a escola e ela, por sua vez, está presente no cotidiano. Se a escola está presente, as relações que dizem respeito à escola, também estão. Relações estas das mais diversas, que, quando colocadas em relação (Schriewer, 2018) apresentam uma possibilidade gigantesca de nuances.  

    Elencamos o espaço escolar por atuarmos no acompanhamento de acadêmicos de licenciatura (Letras/Alemão) em seu campo de estágio.  Para o semestre em questão (II/2025), a turma foi à ‘mesma’ escola (com exceção de apenas três acadêmicos, um dos quais desistiu de realizar o estágio). Por que uma única escola? Porque, de acordo com a nossa observação, a escola elencada é um ambiente a ser observado e vivenciado, além de conter em seu currículo a língua alemã. Houve alguns entraves nas negociações, principalmente em relação à distância para chegar na instituição em questão. Ainda assim, a turma acolheu a proposta e seguiu para o campo. Apesar de ser a ‘mesma’ escola, as observações e os relatos em diário de campo, foram os mais diversos. Essa constatação (a qual, talvez, soe como óbvia) levou a reflexões teóricas a respeito de causa, causalidade múltipla, relações que são colocadas em relação.  

    Diante do exposto, ancoramo-nos em Garcia Garrido, Ruiz e Starkie (2012); Gamboa (1998); Aguilar (2013) e Schriewer (2018) para abarcar a discussão pretendida. São eles da Educação? São eles da Educação Comparada? Seguem as mesmas epistemologias? Para o momento, não era este o centro da discussão e não entendemos que estes teóricos divirjam quanto ao assunto. Vale acrescentar que, com base em Garcia Garrido, Ruiz e Starkie (1996, p.38) quando enunciam que: “el objeto que la Educación Comparada ha venido considerando como propio está constituido por los sistemas nacionales de educación” que também políticas públicas surgem (deveriam surgir) de problemas reais (contextualizados) (Aguilar, 2013), isso diz respeito, também, ao ambiente escolar.  

    A tentativa aqui apresentada pinça uma ‘pequena’ amostra para reflexão. De pequenas amostras da realidade contextualizada (local) se podem, devem pensar dimensões macro (global), ou? De acordo com os teóricos citados, em muitas das vezes o contrário costuma acontecer. Talvez, também resida aí um dos problemas do ‘insucesso’ nas questões educacionais. Ou seja, tende-se a pensar macro e que isso seja aplicado ‘por igual’ no micro.

    É em Sánchez Gamboa (1998), por exemplo, que encontramos uma definição para causa e uma diferenciação entre causa para ciências exatas e ciências humanas. É assim que o autor discute o assunto:

     

    Os naturalistas do século XVII [...] acreditavam, como Aristóteles o tinha dito, que o conhecimento de uma coisa supõe o conhecimento de suas causas. Desde Hume tornou-se claro que uma relação causal não significa mais do que uma sucessão invariável; a causa é sempre seguida pelo efeito, o estímulo, pela resposta. Isso levou a uma concepção mecanicista do mundo. Todas as mudanças no mundo eram reduzidas a simples deslocamentos mecânicos. [...] essas noções têm evoluído com a ciência empírica nos conceitos de correlação, variáveis independentes, dependentes, variáveis de contexto etc. (Sánchez Gamboa, 1998, p. 32). 

     

      Citamos Sánchez Gamboa (1998) porque nos permitiu tecer uma linha de compreensão iniciando por excertos tais como ‘a causa é sempre seguida pelo efeito, o estímulo, pela resposta. Isso levou a uma concepção mecanicista do mundo. Todas as mudanças no mundo eram reduzidas a simples deslocamentos mecânicos’. Se fosse resumir, talvez infiramos que A=B.

    Contudo, Aguilar (2013) amplia as compreensões a respeito quando, dentre outras, cita passagens como: “O contexto é fundamentalmente importante, já que as ações e os eventos ocorrem num cenário” (Aguilar, 2013, p.21). Depreendemos que se A sempre é igual a B, há um descompasso com os contextos que ocorrem num cenário. Dito isso, partimos para um acréscimo à cadeia de compreensões, quando Aguilar (2013) sugere relações causais, inferências, explicações que implicam em relacionar causas e efeitos.

    Apresentamos, então, Garcia Garrido, Ruiz e Starkie (2012), os quais sugerem proposições as quais são reiteradas por Schriewer (2018, p.111), que assim as apresenta:

     

    A complexidade das relações causais significa que:

    a)               Causas semelhantes podem dar origem a efeitos diferentes e/ou divergentes;

    b)               Causas diferentes podem dar origem a efeitos semelhantes;

    c)               Causas pequenas podem acarretar efeitos grandes;

    d)               Causas grandes podem acarretar efeitos pequenos;

    e)               Algumas causas podem dar origem a efeitos opostos;

    f)                Os efeitos de causas antagonistas são incertos (Schriewer, 2018, p. 111).

     

     

    Complexidade das relações causais. Isso deixou um pouco mais nítida – sem simplificar – a afirmação de que ‘existe virtude na diversidade’; de que a Educação Comparada é um dos campos de estudos educacionais mais difíceis que pressupõe sensibilidade com relação às diferenças, às particularidades culturais, das/nas quais a escola também está presente (em suas particularidades).

     

    METODOLOGIA 

     

    Como metodologia para a reflexão aqui proposta utilizamos os registros feitos em diário de campo, frutos de um estágio de observação. As reflexões oriundas destes registros apontam para muitas possibilidades presentes no ambiente escolar, mesmo porque os acadêmicos – ao observarem as múltiplas relações presentes no contexto escolar elencado – também acionaram suas histórias e seus contextos de vida.

     

    RESULTADOS E CONSIDERAÇÕES

     

    Os resultados deste estudo apontam para muitas nuances oriundas da prática escolar neste/deste contexto. Por exemplo, alguns registros sinalizam o papel da direção da escola em sua acolhida e encaminhamentos, outros, para o conteúdo e suas abordagens; outros, ainda, rememoram sua história escolar; além do que a nossa relação com os registros também ocorreu de maneira peculiar, tendo como base a nossa própria história de vida. Tudo isso nos levou a questionar: será que se tratava da ‘mesma escola’? Seria essa uma discussão possível? De que maneiras os resultados dos registros poderiam se desdobrar em práticas mais significativas? É nos meandros dessas tentativas de resposta que o estudo segue levando em conta a causalidade múltipla, as relações que se estabelece, as reflexões contextualizadas.

     

    REFERÊNCIAS

     

    AGUILAR, Luis E. A política pública sob a ótica da análise satisfatória: ensaios. Campinas, SP: Edições Leitura Crítica, 2013.

    GARRIDO, José L.G.; RUIZ, María J. G.; STARKIE, Elisa G. La Educación Comparada em tempos de globalización. Universidad Nacional de Educación a Distancia. Madrid, 2012.  

    SÁNCHEZ GAMBOA, Sílvio. Epistemologia da Pesquisa em Educação. Campinas, SP: Praxis, 1998.

    SCHRIEWER, Jürgen. La reconciliación entre la História y la Comparación. Revista Española de Educación Comparada, [S. l.], n. 34. jul./dez. 2019, p. 148-162.

    SCHRIEWER, Jürgen. Pesquisa em educação comparada sob condições de interconectividade global. Tradução de Geraldo Korndörfer e Luís Marcos Sander. São Leopoldo: Oikos, 2018.

     

     

     

     

     

     

     

     

     

  • Palavras-chave
  • Causalidade múltipla, Educação Comparada, Campo de estágio, Educação, Escola.
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 12 - Educação Comparada
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