RESUMO EXPANDIDO
Grupo de Trabalho (GT): Educação Física e Esporte
Modalidade do trabalho: Comunicação oral
Formato de apresentação: On-line
JOGOS COOPERATIVOS E HABILIDADES PARA A VIDA: PRÁTICAS PARA A CONVIVÊNCIA E O DESENVOLVIMENTO INTEGRAL NO ENSINO MÉDIO
Bruno Luis Souza da Costa [1]
Matheus Belino Campi [2]
Liliane Geisler [3]
Gilberto Marcelo Zonta 4
PALAVRAS-CHAVE: Jogos cooperativos; Habilidades para a vida; Educação Física escolar.
A etapa do Ensino Médio na Educação Básica possui um papel crucial na formação integral de sujeitos capazes de atuar socialmente com responsabilidade e autonomia. Nesse contexto, a Educação Física escolar precisa ir além do mero ensino técnico-esportivo, atuando como um espaço privilegiado para a construção de valores, cooperação e habilidades essenciais para a vida em sociedade.
De acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (Brasil, 2018), o componente curricular deve articular as dimensões cognitivas, motoras e socioemocionais, favorecendo a formação integral e permitindo que as práticas corporais se tornem um meio de expressão, comunicação e, sobretudo, convivência. A escola, em sua função social, é o ambiente que prepara o indivíduo para a vida em comunidade e o pleno exercício da cidadania, demandando o desenvolvimento de habilidades como trabalho em equipe, comunicação e empatia (Castells, 1999).
Inserido nesta perspectiva, o presente estágio supervisionado propõe as Habilidades para a Vida. Estas são um conjunto de competências pessoais e sociais essenciais para lidar eficazmente com os desafios cotidianos, incluindo respeito, liderança, controle emocional e trabalho em equipe, que podem ser aprendidas em contextos esportivos e transferidas para outros âmbitos da vida (Milistetd et al., 2020).
Para corroborar com as Life Skills, os jogos cooperativos emergem como a estratégia metodológica ideal. Segundo Brotto (1999), eles ampliam o foco do desempenho individual para o fortalecimento das relações interpessoais, estimulando o respeito mútuo, a solidariedade e o senso de pertencimento.
Sendo assim, este trabalho apresenta um relato de experiência de estágio supervisionado em Educação Física no Ensino médio do Curso de Educação Física da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI), desenvolvido no âmbito do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), na Escola Básica de ensino médio Henrique da Silva Fontes (Itajaí/SC). O estudo busca compreender a inclusão de habilidades para vida a partir de jogos cooperativos na educação física escolar.
As Habilidades para a Vida (Life Skills) podem ser compreendidas como aprendizagens socioemocionais e comportamentais que capacitam os indivíduos a lidarem de forma eficaz com as demandas e desafios do cotidiano. Segundo a Organização Mundial da Saúde (Who, 1994), essas habilidades envolvem aspectos como o respeito ao outro, a tomada de decisões responsáveis, a gestão do tempo, o controle emocional, a perseverança, a empatia e a cooperação. Dessa forma, elas se configuram como competências fundamentais para o desenvolvimento pessoal e social dos sujeitos.
Essa concepção dialoga diretamente com o que a Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2018) denomina de construção de valores, uma vez que o documento orienta que o processo educativo deve promover o desenvolvimento integral dos estudantes, articulando dimensões cognitivas, afetivas e sociais. No contexto da Educação Física escolar, o trabalho com as Habilidades para a Vida torna-se ainda mais significativo, pois o esporte e os jogos são espaços privilegiados para vivenciar valores como respeito, solidariedade, honestidade e trabalho em equipe, elementos essenciais para a convivência cidadã.
Nesse sentido, os jogos cooperativos surgem como um caminho pedagógico capaz de transformar essas habilidades em experiências concretas. De acordo com Brotto (1999) ao deslocar o foco da competição para a cooperação, os jogos cooperativos criam um ambiente propício para o desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais. O sucesso no jogo cooperativo não é medido pelo desempenho individual, mas pela capacidade do grupo de trabalhar em conjunto para alcançar um objetivo comum.
O presente trabalho configura-se como um relato de experiência vinculado ao estágio supervisionado em Educação Física no Ensino Médio, do curso de Educação Física da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI). O estudo apresenta uma abordagem qualitativa de caráter tipo exploratório, desenvolvida no contexto do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID). A pesquisa qualitativa mostra-se adequada para compreender fenômenos educativos em sua complexidade, analisando percepções, relações sociais e práticas pedagógicas no ambiente escolar (Minayo, 2001).
As intervenções foram realizadas na Escola de Ensino Médio Henrique da Silva Fontes, localizada no município de Itajaí (SC), com turmas de diferentes séries do Ensino Médio. O estágio teve como eixo norteador o desenvolvimento de habilidades para a vida e de valores humanos, por meio da vivência de jogos cooperativos e práticas corporais integrativas, alinhadas aos princípios da Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2018) e à proposta da metodologia Life Skills. As atividades foram planejadas e aplicadas semanalmente, buscando favorecer a convivência, o respeito mútuo e o fortalecimento das relações interpessoais entre os estudantes.
A coleta de dados ocorreu a partir de observações participantes e registros reflexivos realizados nos relatórios de estágio, contemplando percepções sobre o engajamento, a cooperação e as atitudes dos alunos diante das propostas vivenciadas. A análise dos dados deu-se de maneira interpretativa e descritiva, orientada pela identificação de significados, aprendizagens e transformações observadas ao longo das intervenções.
As categorias de análise definidas para o estudo, com foco na prática pedagógica e nos objetivos do estágio supervisionado, foram: a inserção dos jogos cooperativos no contexto escolar e o ensino de habilidades para a vida a partir de uma abordagem explícita.
· A inserção de jogos cooperativos no contexto escolar
A introdução dos jogos cooperativos nas aulas de Educação Física apresentou-se como um processo gradual e desafiador. No início das intervenções, observou-se que os alunos estavam fortemente habituados à lógica competitiva, típica das modalidades esportivas tradicionais, o que dificultou a imediata compreensão do sentido cooperativo do jogo. Neste período de inserção dos jogos uma aluna perguntava frequentemente “Professor, mas quem vai ganhar?”. Diante desse cenário, optou-se por iniciar o trabalho com jogos semicooperativos, nos quais ainda havia elementos de disputa, mas que exigiam interdependência e colaboração entre os participantes para atingir objetivos comuns (Brotto, 1999).
Atividades como o basquete em fila e o rouba-cones exemplificam essa transição, pois permitiram manter o engajamento dos alunos enquanto introduziam valores como respeito, honestidade e espírito de equipe. Nessas práticas, o foco deslocou-se do resultado individual para o desempenho coletivo, conforme propõe Brotto (1999), possibilitando que os estudantes experimentassem novas formas de convivência e participação. A adaptação de regras como a exigência de um número mínimo de passes antes do arremesso, ou a contagem compartilhada dos pontos foi fundamental para garantir que todos os alunos tivessem oportunidades equitativas de envolvimento, fortalecendo o sentimento de pertencimento e valorizando o esforço do grupo.
Com o avanço das intervenções, notou-se uma mudança significativa na postura dos alunos, que passaram a demonstrar maior empatia, solidariedade e respeito mútuo durante as aulas. Na atividade futsal em duplas um dos alunos mais habilidosos da turma relatou “Vamos colocar as meninas no jogo”. O ambiente de aprendizagem tornou-se mais acolhedor, e as relações interpessoais foram marcadas por cooperação em vez de rivalidade. Essa experiência evidencia que, embora a implementação dos jogos cooperativos demande um período de adaptação e sensibilização, sua aplicação contribui de maneira profunda para a formação ética, social e emocional dos estudantes, reafirmando a função social da Educação Física como espaço de convivência, diálogo e humanização.
· Ensino de habilidades para a vida a partir de uma abordagem explícita
A O ensino de Habilidades para a Vida (HV) foi conduzido a partir de uma abordagem explícita, na qual os valores e competências socioemocionais eram apresentados, discutidos e aplicados intencionalmente durante os jogos. De acordo com Ciampolini et al. (2024), essa abordagem pressupõe que as habilidades sejam ensinadas de forma direta, integrando momentos de reflexão e aplicação prática.
Durante as intervenções, os momentos de apresentação das Habilidades para a Vida tornaram-se um ponto de destaque das aulas. Os alunos demonstravam grande curiosidade em compreender como valores como honestidade, respeito e empatia seriam trabalhados dentro de jogos cooperativos — especialmente por associarem o esporte, em geral, à competição e à quebra de regras. Como por exemplo na atividade Basquete cooperativo, ao apresentarmos a Honestidade um aluno relatou ““como assim ser honesto jogando basquete, professor?” Esta abordagem despertava o interesse e o envolvimento dos estudantes, que passaram a reconhecer o jogo não apenas como espaço de desempenho físico, mas também como um campo de experimentação ética e social.
Durante as intervenções, cada aula foi estruturada em três momentos: (1) apresentação da habilidade para a vida a ser trabalhada como honestidade, respeito ou cooperação, (2) vivência da atividade relacionada ao valor e (3) reflexão final sobre sua aplicabilidade em diferentes contextos. Um exemplo marcante foi a atividade de basquete em fila, em que os próprios alunos eram responsáveis pela contagem de seus acertos. Nesse contexto, a honestidade se tornou elemento central, permitindo que os estudantes exercitassem a autorregulação e a ética de maneira prática e significativa.
Além disso, os momentos de reflexão durante as práticas revelaram-se fundamentais para o aprendizado significativo. Em diversas ocasiões, os próprios alunos reconheceram atitudes egoístas ou desleais e buscaram corrigi-las. Na atividade Basquete cooperativo um aluno relatou “Eu pisei na linha professor, a bola é deles”, refletindo sobre a importância da cooperação e da justiça no contexto do jogo.
Dentro deste contexto também surgiram iniciativas espontâneas de inclusão, quando os grupos, sem intervenção direta dos professores, elaboravam estratégias para garantir que todos os colegas participassem ativamente das atividades. Esses episódios reforçam o potencial da abordagem explícita em promover a internalização das Habilidades para a Vida, uma vez que o comportamento cooperativo emergia de forma autônoma, evidenciando o desenvolvimento de competências socioemocionais que ultrapassam o espaço escolar.
Conforme Bean e Forneris (2016), a integração explícita das Habilidades para a Vida ao esporte potencializa o processo de transferência dessas aprendizagens para outras dimensões da vida cotidiana. No estágio, essa intencionalidade pedagógica mostrou-se eficaz, pois os alunos passaram a refletir sobre o valor das atitudes corretas, do respeito às regras e da cooperação, reconhecendo que os comportamentos vivenciados no jogo também se aplicam fora da quadra. Dessa forma, a abordagem explícita revelou-se um instrumento pedagógico relevante para a formação integral dos estudantes, fortalecendo a convivência e a autonomia moral no ambiente escolar.
O desenvolvimento deste estágio supervisionado evidenciou o potencial pedagógico dos jogos cooperativos como ferramenta para a formação integral dos estudantes do ensino médio. A experiência permitiu observar que, quando o foco da prática esportiva é deslocado da competição para a colaboração e o respeito mútuo, o ambiente escolar torna-se mais inclusivo, motivador e favorável ao desenvolvimento de valores essenciais à convivência cidadã. A introdução gradativa de atividades semi e totalmente cooperativas mostrou-se uma estratégia eficiente para promover a participação de todos os alunos e despertar neles o senso de pertencimento ao grupo.
A abordagem explícita das Habilidades para a Vida demonstrou-se um recurso metodológico valioso para a Educação Física escolar. Ao integrar momentos de apresentação, vivência e reflexão sobre valores como honestidade, empatia e trabalho em equipe, foi possível observar mudanças comportamentais significativas entre os alunos. Muitos passaram a reconhecer atitudes individualistas e buscar formas de inclusão espontânea, demonstrando a transferência dos aprendizados éticos e sociais para além do contexto do jogo.
De modo geral, o estágio possibilitou compreender a função social da Educação Física como promotora de experiências que contribuem para a construção de sujeitos críticos, éticos e colaborativos. Assim, conclui-se que a inserção intencional de jogos cooperativos e o ensino explícito das Habilidades para a Vida podem constituir caminhos potentes para fortalecer a convivência, a autonomia e a cidadania na escola contemporânea.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: Ministério da Educação, 2018.
BEAN, C.; FORNERIS, T. Examinando a importância de estruturar intencionalmente o contexto do esporte juvenil para facilitar o desenvolvimento positivo dos jovens. Journal of Applied Sport Psychology, v. 28, n. 4, p. 410–425, 2016. Acesso em 2 de novembro de 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1080/10413200.2016.1164764.
BROTTO, Fábio Otuzi. Jogos cooperativos: o jogo e o esporte como um exercício de convivência. Campinas, SP: [s.n.], 1999.
CIAMPOLINI, Vitor et al. Ensino de valores na Educação Física escolar: uma proposta a partir da abordagem explícita. Revista Eletrônica de Educação, [S. l.], v. 18, n. 1, p. e5461111, 2024. Disponível em: https://www.reveduc.ufscar.br/index.php/reveduc/article/view/5461. Acesso em: 3 nov. 2025.
CASTELLS, M. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra. 1999.
Milistetd et al. Coleção Cadernos do Treinador: Desenvolvimento Positivo de Jovens, 1ª ed. 68 p. Florianópolis, Santa Catarina, 2020.
MINAYO, M. C. S. (Org.). Pesquisa Social. Teoria, método e criatividade. 18 ed. Petrópolis: Vozes, 2001.
WHO. Organização Mundial da Saúde. Life skills education for children and
adolescents in schools: Introduction and guidelines to facilitate the
development and implementation of life skills programmes Geneva. 1994.
[1] Graduando pelo Curso de Educação física da Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI, brunocosta@univali.br;
[2] Graduando pelo Curso de Educação física da Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI, matheusscampi@gmail.com;
³ Doutora em Educação pela Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI, liliane.geisler@univali.br;
4 Mestre em Saúde e Gestão do Trabalho da Universidade do Vale do Itajaí - UNIVALI, gzonta@univali.br;