No segundo dia do Congresso, às 17h30, o ritmo desacelerou, não por falta de conteúdo, mas porque era hora de sentir. A poucos passos do Centro de Convenções, na Biblioteca de Obras Raras Fausto Castilho (BORA), a inauguração da Sala Ana Primavesi transformou o conhecimento em memória viva.
Entrar na sala é como atravessar o tempo. Manuscritos, livros, anotações, documentos cada detalhe da biblioteca pessoal de Ana compõe um espaço que não apenas guarda a história da agroecologia, mas a respira. Guiados por Danielle Ferreira e Isabella Pereira, os visitantes percorreram mais do que um acervo: caminharam por uma trajetória que ajudou a mudar a forma como o Brasil pensa o solo, a vida e a produção de alimentos.
A presença de Carin Primavesi, filha de Ana, trouxe ainda mais densidade ao momento. Em palavras carregadas de significado, ela relembrou a força, a sensibilidade e a coragem de uma mulher que enxergava o solo e a agricultura como um ato de cuidado.
"Agricultura e o solo são organismos vivos, e ela sabia disso, a seiva do jatobá é rica em minerais, e todos os dias ela tomava e dava uma colher para meus filhos. Apenas uma colher dessa seiva tinha a quantidade necessárias de minerais que precisamos para um dia", lembrou Carin.
Do lado de fora, a vida continuava a florescer literalmente. A exposição e venda de mudas nativas, conduzida por Emilson José Rabelo, trouxe o gesto concreto da continuidade: plantar. Algumas dessas mudas ganharão o solo da própria Unicamp, como homenagem à mulher que dedicou sua vida a ensinar que cuidar da terra é cuidar do futuro.
A música também encontrou seu lugar nesse encontro. O recital de violão, com obras de Heitor Villa-Lobos e repertório espanhol, interpretado por Tainã Daniel, envolveu o ambiente com delicadeza como se cada nota ajudasse a costurar memória, ciência e sensibilidade.
E então, os sabores. No coquetel, a agroecologia ganhou forma, textura e gosto. Ingredientes orgânicos e da sociobiodiversidade foram apresentados em sua plenitude, celebrando aquilo que o Congresso inteiro reafirma: a abundância é possível quando há respeito aos ciclos da natureza.
O lançamento de obras fundamentais, como Manejo Ecológico do Solo e a nova edição da biografia Ana Maria Primavesi: Histórias de Vida e Agroecologia fechou o encontro com um convite silencioso: continuar aprendendo, estudando e espalhando esse legado.
Mais do que uma inauguração, foi um ritual de reconhecimento. Um momento em que passado, presente e futuro se encontraram para lembrar que a agroecologia não nasce apenas da técnica, ela cresce do afeto, da escuta e da relação profunda com a terra.
E, naquela tarde, ficou claro: o legado de Ana Primavesi não está apenas preservado. Ele segue germinando.