Local: Instituto Central de Ciências- ICC
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Sobre as OFICINAS:
As Oficinas são atividades abertas a todo o público inscrito, dentro da Programação do 18º Encontro Nacional de História Oral: Oralidades plurais na construção de um futuro de justiça climática. As inscrições devem ser feitas previamente, no site do evento. São 14 Oficinas que acontecerão simultaneamente, das 9h às 12h, no Campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília, localizado na Asa Norte. Os participantes devem se dirigir antes para credenciamento no ICC Norte (Minhocão), a partir das 8h, no Subsolo próximo ao PPGHIS.
Data: 13/10/2026, das 8h às 12h
Local: Instituto Central de Ciências- ICC Norte e ICC Sul
Oficinas
Oficina 1. História Oral: o fazer e o aprender, o aprender e o fazer: teoria e metodologia abordagens indissociáveis- Proponente: Antonio Torres Montenegro (UFPE)
Resumo: Esta Oficina de História Oral tem como objetivo apresentar e refletir sobre o fazer historiográfico associado à construção de registros documentais elaborados com base nas entrevistas orais. Assim sendo, a proposta irá refletir como a construção da narrativa historiográfica enquanto história do tempo presente é alvo de distintas mediações. Ao historiador e a historiadora é fundamental compreender como as vivências cotidianas, as novas abordagens dos diversos campos do conhecimento, a diversidade e o cruzamento de distintos registros documentais potencializam a formulação das questões que irão se constituir no plano da escrita historiográfica. Ao mesmo tempo, a leitura e a reflexão de artigos e livros se apresentam como possibilidade de desconstruir concepções e visões do passado e do presente interiorizadas muitas vezes de maneira inconsciente. É nesse cenário que a metodologia da história oral é pensada, ou seja, como um fazer do campo historiográfico onde o historiador e a historiadora participam por meio de uma relação dialógica com o entrevistado na construção de um registro documental. Da perspectiva teórica e metodológica da oficina, um dos objetivos é também compreender como distintos autores e autoras pensaram epistemologicamente a história, a memória, a percepção e o esquecimento. Estes se constituem em referências fundadoras para o uso dessa metodologia. Diversas(os) autoras(es) que escreveram obras com reflexões sobre a história e a memória, em especial a memória coletiva, a memória social e a memória traumática estarão presentes nos debates a serem realizados. Entre os autores e as autoras que privilegio para a realização desta Oficina destaco Regina Guimarães (História Oral, Tempo Presente e Narrativas de Trabalhadoras e Trabalhadores; Marcília Gama (A Memória Esquecida da Justiça do Trabalho de Pernambuco: “ o caso Eurico” (1966); Anderson Almeida e Marcelo Tavares (Pacto de Silêncio: o golpe de 1964 - A Ditadura e a Transição em Alagoas); Gael Faye (Jacarandá); Scholastique Mukasonga (Trilogia do Genocídio de Ruanda); Jeanne-Marie Gagnebin (Lembrar escrever esquecer); José Batista Afonso e Airton Pereira (Assassinatos e Impunidade no campo do Pará: 1980 a 2024). Vale ainda assinalar que a atividade proposta abrirá espaço para a troca de experiências de pesquisas, confiante de que há um universo de projetos realizados e em desenvolvimento que ampliarão o conhecimento das temáticas propostas para este aprender/fazer- fazer/aprender. A metodologia dessa Oficina terá como princípio instituir um ambiente de escuta de relatos de vivências em projetos de pesquisa que recorreram a história oral para a construção do corpus documental que fundamenta a narrativa historiográfica, assim como de outras áreas do conhecimento. Ao mesmo tempo, serão apresentados por meio da exposição oral e da leitura de textos e de vídeos alguns deslocamentos analíticos que contribuíram para a ruptura epistemológica do que o Ocidente nomeou de modernidade. Autores do campo da filosofia ( René Descartes, Henri Bergson, Gilles Deleuze, Walter Benjamin); do campo da neurociência e da psiquiatria ( Freud, Garcia-Roza, Oliver Sacks, Karl Deisseroth); do campo da História ( Eurípedes Funes, Regina Guimarães, Durval Muniz); do campo da Psicologia Social ( Ecléa Bosi) que estarão presentes com passagens analíticas de suas obras. É importante destacar, que a perspectiva da troca de experiências é norteadora da prática didático-pedagógica que será implementada em todas as etapas das atividades desta oficina. Estamos seguros de que os projetos a serem debatidos apresentarão significativa diversidade e riqueza temáticas, alguns certamente pouco conhecidos que acredito ampliarão o conhecimento de todo o grupo e poderão instituir novos saberes aprender/fazer - fazer/aprender da metodologia da história oral.
Palavras-chave: Epistemologia da memória, Historiografia, História oral como relação dialógica.
Oficina 2. História Oral, História da Educação e Patrimônio Histórico-Cultural Religioso: Teoria, Métodos e Práticas de Pesquisa. Proponentes: César Evangelista Fernandes Bressanin (PPGHISPAM - UFT), Kiaria Mendes Rodrigues (PPGHISPAM — UFT/ SEDUC-TO), Luciene Siqueira de Freitas (PPGHISPAM — UFT/ SEDUC-TO) & Maria Zeneide Carneiro Magalhães de Almeida — (PUC Goiás)
Resumo: A crescente valorização das fontes orais na produção do conhecimento histórico tem ampliado significativamente as possibilidades de investigação sobre sujeitos, instituições, práticas educativas e patrimônios culturais, especialmente aqueles vinculados às experiências religiosas e às memórias coletivas. Nesse contexto, a presente oficina propõe uma reflexão teórico-metodológica acerca das contribuições da História Oral para as pesquisas em História da Educação e Patrimônio Histórico-Cultural Religioso, articulando fundamentos conceituais, procedimentos metodológicos e experiências concretas de investigação desenvolvidas no Centro-Oeste e na Amazônia Legal. A proposta parte da compreensão de que escolas confessionais, congregações religiosas, dioceses, paróquias, centros comunitários, santuários, festas religiosas e demais espaços educativos constituem importantes patrimônios culturais cujas histórias são preservadas não apenas pela documentação escrita, mas, sobretudo, pelas memórias de seus protagonistas. A História Oral apresenta-se, assim, como metodologia privilegiada para registrar experiências, práticas pedagógicas, culturas escolares, religiosidades, trajetórias de educadores, religiosos e comunidades, contribuindo para a preservação do patrimônio material e imaterial. A oficina abordará os principais referenciais da História Oral contemporânea, discutindo aspectos relacionados à construção do projeto de pesquisa, definição dos colaboradores, ética, elaboração de roteiros de entrevistas, produção, transcrição, transcriação, organização documental, arquivamento, análise das narrativas e possibilidades de difusão dos acervos orais. As discussões serão ilustradas por pesquisas em andamento e concluídas envolvendo escolas confessionais, congregações religiosas, processos de patrimonialização, memórias de educadores, biografias religiosas e culturas escolares desenvolvidas no âmbito da Universidade Federal do Tocantins, da Pontifícia Universidade Católica de Goiás e da Secretaria da Educação do Tocantins. Além da atualização conceitual, pretende-se proporcionar aos participantes uma experiência prática de elaboração e análise de entrevistas, incentivando a incorporação da História Oral em pesquisas acadêmicas, projetos de educação patrimonial e ações de preservação da memória institucional. Espera-se contribuir para a formação de novos pesquisadores e pesquisadoras, fortalecendo o diálogo interdisciplinar entre História Oral, História da Educação e Patrimônio Cultural, bem como ampliando o reconhecimento da memória como elemento fundamental para a compreensão das identidades, dos processos educativos e das experiências religiosas brasileiras.
Palavras-chave: História Oral; História da Educação; Patrimônio Cultural Religioso; Memória; Cultura Escolar.
Oficina 3. Como organizar documentações das pesquisas de história oral nas universidades? Desafios e soluções a partir das experiências do NECOIM, da Universidade de Brasília- Proponentes: Elizângela Carrijo (UnB) & Samantha Santos Soares (UnB)
Resumo: A proposta da oficina é mostrar ações que organizam documentos das pesquisas de história oral. Para tanto, serão compartilhados os desafios e as soluções alcançadas pelo Núcleo de Estudo da Cultura, Oralidade, Imagem e Memória (Necoim), nascido em 1987 como parte do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM) da Universidade de Brasília (UnB). Ao longo de seus 39 anos de existência, o Necoim vem produzindo entrevistas orais, documentários em vídeo, pesquisas acadêmicas, exposições fotográficas, ações de extensão e publicações de livros, revistas e artigos que tratam de memórias, oralidades, culturas e versões da história de Brasília e do Brasil. Tanto essas produções quanto outras atividades realizadas no cotidiano do núcleo proporcionaram ao acervo ricos materiais que apresentam ângulos e personagens nem sempre considerados nas versões correntes da mídia e/ou dos livros didáticos. A reunião desse material constitui um acervo com aproximadamente 20 metros lineares de documentos em diversos suportes informacionais (mais de 1.000 livros, 120 VHS, 60 DVDs, 120 Betacam e inúmeras fotografias), distribuídos em duas pequenas salas no prédio do CEAM. Embora essas salas recebam incidência direta dos raios solares, os documentos estão em bom estado de conservação, não necessitando de restauro. Todos estão acondicionados de modo básico em caixas-arquivo, pastas A-Z, pastas suspensas, gavetas e armários, contando com plano de organização, metodologia de classificação e instrumentos de pesquisa. Essa atual situação do núcleo favorece a localização de informação e/ou de documentação e interfere no ritmo das produções dos projetos, além de proporcionar o cuidado adequado para o legado do patrimônio cultural e da memória institucional. Portanto, mostrar com atividades práticas e explicativas como o Necoim tem organizado seu acervo é o foco central da oficina. A multiplicação dessa experiência pode estimular outras universidades a zelarem pelas documentações oriundas de pesquisas realizadas com os pressupostos teóricos e metodológicos da História Oral.
Palavras-chave: Acervo, Documentos, História Oral, Necoim, Universidade de Brasília.
Oficina 4. Propalar a voz: a tecnologia e redes sociais na divulgação da oralidade. Proponente: Emerson Porto Ferreira (Secretaria de Cultura do Guarujá)
Resumo: A presente oficina “Propalar a voz: a tecnologia e redes sociais na divulgação da oralidade” tem como objetivo central compreender como a pesquisa científica em História Oral pode utilizar a tecnologia — em especial as redes sociais — para a divulgação, catalogação e apresentação de resultados à sociedade, transformando o fazer historiográfico em uma prática conectada, acessível e democrática.O emprego de novas tecnologias na pesquisa histórica é hoje uma imposição da contemporaneidade. Não se trata apenas de uma modernização estética, mas de uma mudança epistemológica substancial que permite ao investigador ir além da simples aplicação técnica, potencializando a exploração de suas fontes e narrativas. Esses recursos digitais e virtuais são fundamentais para garantir a conservação de dados sensíveis, possibilitar a consulta integrada de acervos e facilitar a descoberta de informações que, em bases físicas e dispersas, seriam de difícil acesso para o público.A oficina volta-se tanto a pesquisadores interessados em aprofundar o uso de ferramentas tecnológicas e audiovisuais em suas investigações, quanto àqueles preocupados com a difusão e a circularidade desses saberes na sociedade atual. A proposta fundamenta-se em experiências práticas e consolidadas de divulgação científica e História Oral, tais como as metodologias aplicadas no 'Projeto Vozes do Guarujá' e no desenvolvimento do podcast 'Sampa Samba'. O foco é compreender meios, estratégias e técnicas para transformar a tecnologia em uma aliada na democratização e na 'viralização' qualificada da ciência histórica, visando também a criação de roteiros e a instrumentalização do audiovisual como caminhos práticos para o entendimento e a execução da divulgação científica da oralidade. O principal objetivo desta atividade, portanto, se coloca em analisar e aplicar o uso de novas tecnologias e ferramentas digitais — com ênfase em redes sociais, podcasts, produção audiovisual e roteirização — como estratégias fundamentais para a catalogação, preservação e difusão científica da pesquisa em História Oral. Desse modo, busca-se instrumentalizar os participantes e promover um diálogo mais dinâmico, horizontal e estreito entre o conhecimento produzido na academia e o público amplo, ampliando o alcance das vozes gravadas.
Palavras-chave: História Oral; Patrimônio Imaterial; Gestão Pública; Memória; Políticas Públicas
Oficina 5. HISTÓRIA ORAL NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: MÉTODOS, ÉTICA E POSSIBILIDADES PARA A PESQUISA HISTÓRICA. Proponente: Ermerson Porto Santos (UnB)
Resumo: A expansão das tecnologias de Inteligência Artificial (IA) tem provocado transformações significativas nas práticas de pesquisa em diferentes áreas do conhecimento, incluindo a História. No campo da História Oral, em particular, essas ferramentas oferecem novas possibilidades para atividades como transcrição, organização, indexação e sistematização de entrevistas, ampliando a eficiência dos processos de pesquisa. Contudo, sua incorporação também suscita importantes questionamentos relacionados à ética, à confiabilidade das informações produzidas, à preservação da autoria das narrativas e ao papel da interpretação historiográfica. Nesse contexto, torna-se imprescindível discutir não apenas o potencial dessas tecnologias, mas também seus limites e os cuidados necessários para sua utilização no trabalho do historiador. Este minicurso tem como objetivo apresentar uma introdução prática e crítica ao uso da Inteligência Artificial em pesquisas fundamentadas na História Oral, oferecendo aos participantes instrumentos para compreender como essas ferramentas podem ser incorporadas às diferentes etapas da investigação sem substituir o trabalho analítico do pesquisador. Serão abordados os fundamentos da História Oral, desde o planejamento da pesquisa e a elaboração do roteiro de entrevistas até os procedimentos de registro, transcrição, textualização, validação e análise das narrativas, estabelecendo um diálogo permanente com as possibilidades oferecidas pelas tecnologias de IA. Ao longo das atividades, serão apresentados exemplos de ferramentas capazes de auxiliar na transcrição automática de entrevistas, na organização de grandes volumes de dados, na identificação de recorrências temáticas, na elaboração de índices e na sistematização preliminar do material coletado. Paralelamente, serão discutidos aspectos relacionados à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), ao consentimento dos colaboradores, à segurança das informações, aos riscos de vieses algorítmicos, às chamadas 'alucinações' produzidas por sistemas de IA e aos critérios de validação das informações geradas por essas plataformas. O minicurso combinará exposição dialogada, demonstração de ferramentas digitais e atividades aplicadas, permitindo que os participantes experimentem diferentes recursos e reflitam sobre suas potencialidades e limitações no contexto da pesquisa histórica. Espera-se, ao final, proporcionar aos estudantes e pesquisadores uma compreensão crítica acerca do uso da Inteligência Artificial como instrumento de apoio metodológico, reafirmando que a interpretação histórica, a construção do conhecimento e a responsabilidade ética permanecem como atribuições indispensáveis do historiador.
Palavras-chave: História Oral, Inteligência Artificial, Pesquisa Histórica.
Oficina 6. Produção do documento oral: Percursos e desafios teórico-metodológicos, poéticos e políticos, éticos e estéticos. Proponente: Fernanda Cougo Mendonça (UFAC)
Resumo: A oficina propõe, em caráter introdutório e germinal, uma discussão sobre o documento oral, assumindo-o como principal referência para pesquisas com memórias vivas, narrativas orais. Compreendendo-o como um processo contínuo de produção compartilhada de conhecimento. Contraditório desde o seu nome, ele constitui o registro escrito de uma narrativa oral. Trata-se de uma delicada e subjetiva produção que engloba as leituras/estudos prévios, a pesquisa de campo, a transcrição das narrativas e finalmente sua interpretação, culminando na produção textual final da pesquisa - incluindo as múltiplas traduções que atravessam todo esse percurso. A escritura produzida a partir e dentro desse processo constitui um “gênero multivocal, resultado do trabalho comum de uma pluralidade de autores em diálogo” (Portelli, 2010, p.20). Uma produção elaborada no tempo presente, no diálogo entre pessoas que compartilham e registram narrativas de memórias, experiências e formas de compreender e narrar o mundo. A oficina tem como objetivo refletir sobre essa compreensão do documento oral, discutindo seus fundamentos teórico-metodológicos, incluindo aspectos técnicos, poéticos, políticos, éticos e estéticos de sua produção. Busca ainda tecer possíveis relações entre História Oral, Estudos Culturais e Literatura Oral/Performance; reconhecer a centralidade da escuta, da voz, do corpo e da memória na construção do conhecimento; problematizar os processos de tradução entre oralidade e escrita; e discutir possibilidades de tecitura de narrativas acadêmicas comprometidas com o diálogo com as pessoas narradoras, a pluralidade de saberes e a valorização de repertórios historicamente silenciados.Serão abordadas as diferentes etapas da produção do documento oral (incluindo a importância da devolutiva às comunidades) em diálogo com as contribuições de Alessandro Portelli, Paul Thompson, Paul Zumthor, Walter Benjamin, Édouard Glissant, Stuart Hall, Hampâté Bâ, Jorge Larrosa, Ecléa Bosi, Maria Antonieta Antonacci, entre outras. A proposta metodológica articula exposição dialogada, leitura compartilhada de textos, discussão de experiências de pesquisa e realização de atividades práticas e coletivas de entrevista e transcrição, favorecendo a reflexão crítica sobre os desafios e as escolhas que permeiam e sustentam a tecitura do documento oral.Considerando a duração de quatro horas, a oficina busca lançar sementes para a reflexão sobre o documento oral como processo (e também produto) relacional e multivocal, incentivando as participantes a aprofundarem, em suas próprias pesquisas, práticas fundamentadas na ética da escuta e na escrita tecida 'em diálogo com' e não 'sobre' as pessoas, suas memórias, culturas e identidades; comprometidas com a pluralidade de vozes e modos de lembrar e narrar.
Palavras-chave: Documento Oral; Memórias; Oralidades; Percursos e desafios.
Oficina 7. O Idioma dos Tambores: Memória, corpo e Inteligência Ancestral. Proponente: José Alves da Silva Filho (UnB)
Resumo: Esta oficina parte de uma provocação aparentemente simples: e se, antes de aprendermos a tocar um tambor, aprendêssemos a ouvi-lo? Em um encontro dedicado às oralidades, O Idioma dos Tambores propõe uma experiência teórico-vivencial que compreende os tambores não apenas como instrumentos musicais, mas como agentes de memória, produtores de narrativas e portadores de conhecimentos constituídos e transmitidos por diferentes gerações. A proposta tem como principal ponto de partida a pesquisa Memórias do Atabaque: diáspora, escravidão e emancipação negra no repertório de Os Tincoãs (1973– 1977) (SILVA FILHO, 2017), que compreende a música como linguagem, lugar de memória, pensamento e produção de conhecimento, recusando uma relação assimétrica entre a fonte musical e outras formas de construção do saber histórico. Na pesquisa, as musicalidades afro-diaspóricas são entendidas como parte de uma teia de informações capaz de conectar pessoas a imagens, palavras, experiências, conhecimentos e mistérios dos povos negros. O atabaque assume, assim, possíveis sentidos de agente no tempo histórico, atravessando experiências diaspóricas e acionando ancestralidades nas quais passado, presente e futuro se entrecruzam. A oficina pretende deslocar essa reflexão da palavra escrita para uma experiência compartilhada entre fala, escuta, tambor e corpo. Se sociedades marcadas pela oralidade constituíram formas próprias de guardar, produzir e transmitir conhecimentos, os tambores também podem ser compreendidos como sujeitos dessa circulação de saberes. Rum, Rumpi e Lé, apresentados na pesquisa como protagonistas, carregam histórias, possuem vozes próprias e continuam cantando memórias de povos que atravessaram processos de violência, diáspora, resistência e recriação. Nesse sentido, propõe-se pensar o tambor como uma espécie de primeiro Wi-Fi do mundo: uma tecnologia ancestral de conexão capaz de reunir, comunicar, convocar e colocar corpos em relação. A partir dessa imagem, a sigla I.A. será ressignificada durante a oficina: aqui, ela não significará Inteligência Artificial, mas Inteligência Ancestral, ou seja, uma inteligência construída coletivamente e transmitida pela oralidade, pela escuta, pelo gesto, pela musicalidade, pela observação, pela repetição e pela memória. A experiência prática será desenvolvida conjuntamente com três mulheres detentoras de conhecimentos corporais das danças de candomblé. Sua participação não será compreendida como acompanhamento coreográfico ou ilustração da execução musical, mas como produção e transmissão de conhecimento. Seus corpos conhecem e comunicam repertórios aprendidos e compartilhados em experiências coletivas, demonstrando que diferentes organizações sonoras dos tambores convocam movimentos e narrativas corporais específicas. Assim, os participantes serão convidados a perceber relações entre determinados toques e movimentos associados, entre outras possibilidades, à caça, à guerra, ao feitiço, ao embalo, ao festejo, ao nado e à paquera. Não se trata, entretanto, de propor uma dança livre ou uma movimentação corporal aleatória. A oficina parte da compreensão de que existe uma linguagem a ser escutada: o tambor narra, o corpo aprende a ouvir e, a partir de suas próprias possibilidades e limitações, responde. O objetivo não será uniformizar corpos ou exigir performances, mas experimentar corporalmente processos pelos quais memória, narrativa e conhecimento permanecem vivos e em movimento. O Idioma dos Tambores pretende, portanto, ampliar as possibilidades de reflexão sobre oralidade e História Oral ao perguntar o que acontece quando reconhecemos que nem toda narrativa precisa assumir a forma da palavra falada. Se a memória pode habitar vozes, silêncios, musicalidades e gestos, ouvir o idioma dos tambores pode constituir também um exercício de escuta histórica. A oficina propõe pensar dançando e dançar pensando, tomando o corpo não como complemento da narrativa, mas como um dos lugares nos quais ela acontece.
Palavras-chave: História Oral; Memória; Tambores; Corpo; Oralidade; Ancestralidade.
Oficina 8. Corpo-Oralidades em movimento. Proponentes: Juniele Rabêlo de Almeida (Labhoi-UFF), Amanda de Mello Calabria (Labhoi-UFF), Mariana Villaverde (Labhoi-UFF), Mariléa de Almeida (UNB) & Livia Lima (UNESP)
Resumo: A oficina Corpo-Oralidades em Movimento propõe uma reflexão teórico-prática sobre os trabalhos em história oral a partir do conceito de corpo-oralidade, compreendido como a indissociabilidade entre corpo, narrativa e experiência na produção de memórias e conhecimentos históricos. Ao reconhecer que a experiência é corporificada, a oficina busca ampliar as formas de escuta, acolhimento e produção compartilhada do conhecimento, estimulando práticas de pesquisa participativas (relacionais e vinculadas), mais comprometidas com a construção coletiva de sentidos sobre o passado, o presente e os futuros possíveis.A proposta parte do entendimento de que a corpo-oralidade ultrapassa a palavra falada, expandindo-se para os gestos, movimentos, silêncios, ritmos, entonações, afetos e sensibilidades corporais que participam dos processos de rememoração e compartilhamento de experiências. Nessa perspectiva, o corpo deixa de ser compreendido como mero suporte da narrativa para ser reconhecido como território de memória, produção de saberes e elaboração da experiência.As experimentações corporais dialogam com debates da história oral participativa, da história pública, dos estudos da memória, das epistemologias feministas, antirracistas e contra-coloniais, articulando ainda contribuições das práticas corporais da biodança, da sensopercepção, do teatro e das experimentações em pesquisa-intervenção. Inspirada em experiências desenvolvidas junto a coletivos de memória e grupos marcados por diferentes pertencimentos sociais, a oficina explora a noção de escuta corpo-oral coletiva, entendida como uma prática metodológica, ética e política que amplia os processos tradicionais de entrevista ao reconhecer a importância dos vínculos, da presença sensível e do acolhimento grupal na produção das narrativas.A oficina promoverá experiências coletivas que integrem dimensões cognitivas, perceptivas, sensoriais, emocionais e intuitivas da experiência. Por meio de exercícios de movimento (com música) e da construção compartilhada de narrativas autobiográficas e gestuais, serão exploradas formas ampliadas de escuta de si, do outro e do coletivo, estimulando a percepção dos passados inscritos nos corpos e das múltiplas temporalidades que atravessam as trajetórias individuais e coletivas.Ao problematizar dicotomias historicamente consolidadas, como corpo e mente, razão e sensibilidade, teoria e prática, a atividade convida participantes a refletirem sobre os modos pelos quais o conhecimento é produzido em entrevistas (entre-vistas). Também discutirá como marcadores sociais da diferença, como gênero, raça, sexualidade, geração, deficiência e classe, atravessam os corpos e produzem memórias, silenciamentos, resistências e práticas de liberdade no tempo presente.A partir da valorização dos bons encontros, da escuta sensível e da construção coletiva do conhecimento, a oficina pretende fortalecer metodologias participativas de pesquisa, ensino e extensão, reafirmando a centralidade da relação corpo-oralidade nos processos de narrativa, memória e elaboração da experiência histórica.
Palavras-chave: Corpos, Oralidades, Movimento, Experimentações.
Oficina 9. Alembranças da Tradição Oral na prática pedagógica. Proponentes: Luciana Meireles (UnB) & Augusto Niemar (UnB)
Resumo: A Oficina é uma atividade de caráter prático e vivencial, com o objetivo de sensibilizar os participantes para a valorização dos conhecimentos da tradição e história oral presentes nos brinquedos e brincadeiras das culturas populares. Este trabalho integra a ancestralidade afro-brasileira aos elementos indígenas (originários) em um grande fluxo de raízes e rizomas (raizamas) do Cerrado. Serão facilitadas vivências da Pedagogia Griô (de Lillian Pacheco), proposta articuladora de rituais de vínculo e aprendizagem entre gerações e idades, escola e comunidades, grupos étnico-raciais, oralidade e as ciências e tecnologias universais. Seguindo um modelo de ação através do encantamento, vivência, diálogo e produção partilhada, nossa proposta levará os participantes ao conhecimento de práticas pedagógicas sistematizadas: corporalidade; expressão identitária, vínculo com a ancestralidade e celebração da vida. No encontro entre a escuta (geopoética) e a contação de histórias (dos narradores e narradoras da geopoesia) realizamos uma busca do empoderamento feminino na cultura popular e na roda do teatro de terreiro. A figura encantada de Maria das Alembranças, com sua forte ligação com o Cerrado – brasiliário-goiano e com as origens ceilandenses conduz os participantes em um cortejo (pensamental e sentimental). Movimentando cantigas, brincadeiras, danças e vocalidades, invocando e evocando tradições populares o cuidar e o bem viver são fulcrais para nosso processo. No encontro da Pedagogia Griô (Pacheco, 2015) com a História Oral (Cabrera), a Figura tece uma rede de saberes e fazeres, bemdizeres e bemviveres. Nas alembranças, o feminino manifesta-se como enfronteiramento (empoderamento pela apropriação da palavra, da arte, do espaço). Como força ancestral e pedagógica, fundada na capacidade de guardar e transmitir (bocalmente), ensinar e recriar saberes no corpo criativo e criador da multidão, essa oficina compõe presenças brincantes que recuperam a memória das Avós e mulheres mais velhas, mestras e guardiãs da oralidade. Maria das Alembranças (na companhia de Luciana Meireles e Augusto Niemar) e todos e todas que estiverem na “função” surgem como mediadores (griôs, sobas, pajés, conjuradores) de alembranças e palavranças. Nesse brincar pedagógico, nossa oficina reúne aquilo que o esquecimento dispersa, o apagamento (colonizador) massacra e o etnocídio (tenta fazer desaparecer). Daquilo que recorda, rememora e se demora, esses alembramentos da mestra e avó mítica, sustentam a memória do povo. Enquanto Maria das Alembranças toca seu pandeiro, entoa cânticos e cantigas do enfronteiramento, a roda (formada por participantes e ancestrais) a lembrar, canta e celebra a força das raízes, dos rizomas e das raizamas.
Palavras-chave: pedagogia griô; contação de histórias; escuta geopoética; teatro de terreiro.
Oficina 10. Introdução à História Oral: Práticas, Métodos e Desafios. Proponentes: Mayara Costa Freire (SEEDF) & Lais Ayres da Fonseca (UFG)
Resumo: A oficina tem por proposição apresentar discussões iniciais acerca da história oral: o contexto de seu surgimento bem como o caminho percorrido no Brasil, questões acerca da metodologia, das práticas e da estrutura utilizada para fins de pesquisa acadêmica. Pretende-se também estabelecer reflexões sobre os desafios atuais enfrentados pela história oral enquanto processo ativo da cultura e da memória.Considerando que a história oral enquanto método de pesquisa faz uso das subjetividades das entrevistas como âmago da memória, pois as experiências dos indivíduos indicam horizontes diversos e também coletivos, que revelam várias leituras do mundo das representações. Uma vez que possibilita a construção da narrativa por outros ângulos, trazendo sujeitos históricos distintos como fonte primária. Entende-se a memória como um fato da história; memória não apenas como um lugar onde você “recorda” a história, mas memória “como” história. (PORTELLI, 2000. p.25) Sendo assim, a entrevista é uma dinâmica, uma força ativa da memória, uma vez que não apenas se ouve o que diz o entrevistado, mas também os tempos que reverberam em sua fala, e assim são analisadas as várias camadas do relato.A oficina tem por objetivo ainda, ampliar a compreensão da importância das entrevistas como ponto de partida de estudo e análise do pesquisador, e também dos princípios éticos que tangem esse processo. Se faz necessário apontar os caminhos estruturais que vão desde a elaboração do roteiro, a realização da entrevista, a transcrição, culminando na análise que comporá a escrita do texto final.Partindo de pesquisas em desenvolvimento, as coordenadoras têm a pretensão de estabelecer trocas de experiências teóricas e práticas com os participantes da oficina, visando apontar possibilidades e diálogos entre pesquisas, ensino e áreas afins. Abordar os processos da história oral implica em entender a cultura como parte ativa da manifestação popular e de como os sujeitos constroem narrativas sobre si e sobre o mundo ao redor, sendo aspecto comum, compartilhado e construído por todos.
Palavras-chave: História Oral; Métodos; Práticas; Introdução.
Oficina 11. Entre imagens, memórias e narrativas desenhadas: fotografia e história oral. Proponentes: Simone Borges Camargo de Oliveira (UFG) & Jiani Fernando Langaro (UFG)
Resumo: A oficina propõe uma reflexão teórico-metodológica sobre as relações entre História Oral e fotografia, compreendendo a imagem fotográfica como uma prática social inserida em diferentes circuitos de produção, circulação, apropriação e interpretação. Com esse objetivo, a atividade será organizada a partir de duas situações investigativas: os álbuns de família, onde frequentemente são conhecidos os sujeitos retratados, mas permanecem desconhecidos os autores, as circunstâncias e as trajetórias das imagens; e as fotografias produzidas por fotógrafos autores, onde muitas vezes são conhecidos o contexto de produção, o contexto histórico e as técnicas de produção das imagens, mas permanecem desconhecidas as histórias e experiências das pessoas fotografadas. Nas duas situações, que podem ser imbricadas ou não, a fotografia apresenta mundos de sutilezas a serem desveladas mediante as invisibilidades inerentes à sua materialidade. As fotografias compreendidas como documentos visuais, são dispositivos disparadores de memória, que se remetem a dimensões sensoriais, técnicas, linguísticas e documentais, orientadas para a construção das narrativas produzidas pelos sujeitos. Dessa forma, a abordagem metodológica apresenta a História Oral como instrumento capaz de reconstruir dimensões da experiência fotográfica que permanecem desconhecidas na materialidade visível da imagem, possibilitando investigar trajetórias, usos, escolhas, silêncios e processos de rememoração associados às fotografias. Essa perspectiva dialoga diretamente com a concepção de Ana Maria Mauad, em que a fotografia deve ser compreendida como documento histórico inserido em seu circuito social. Dialoga também com a discussão de Alessandro Portelli, no que diz respeito ao interesse da História Oral estar muito além da reconstituição factual, e permitir que o sujeito fotografado deixe de ser apenas objeto do olhar do fotógrafo e se torne narrador de sua própria história. A fotografia como estímulo narrativo permite investigar itinerários da intimidade, práticas sociais e processos de construção da memória. Há álbuns de família que reúnem as duas situações investigativas, organizadas em seu tempo presente-passado-presente, conjuntos de imagens arrumadas de forma não aleatória, por datas, eventos, com protagonistas que 'merecem' ser lembrados em primeiro plano, pessoas secundárias e as que ficam de fora, esquecidas e desaparecidas. Os relatos constroem imagens de pessoas, grupos sociais, fotografados ou não, sustentados pela 'ética da escuta', as narrativas constroem memórias. Como metodologia, a oficina propõe um enlace com a narrativa visual, o 'desenho de escuta'. Inspirado na perspectiva de Tim Ingold, o desenho pode ser compreendido como um modo de conhecer, resultante da atenção contínua ao mundo e do envolvimento entre o sujeito, os lugares e o ambiente. Nessa perspectiva, o desenho constitui um procedimento de produção de conhecimento que possibilita reconhecer o registro gráfico não apenas como representação visual, mas também como forma de escuta, interpretação e elaboração da experiência narrada.
Palavras-chave: História Oral; Fotografia; Álbuns de família; Memória; Metodologia.
Oficina 12. Das narrativas singulares à narrativa transversal: reapresentação da memória coletiva. Proponente: Sônia Barreto de Novaes (Prefeitura Municipal de Paulínia)
Resumo: Pretende-se nesta oficina tratar a construção de memória coletiva a partir de narrativas singulares que sustentam uma determinada narrativa transversal. Para tanto a narrativa singular será compreendida como conceito operacional que se constitui na intersecção de três elementos, a saber: o Ser, o Tempo e o Acontecimento. As narrativas singulares (oralidade) são capazes de articular temporalidades do ser, reapresentar acontecimentos e transpô-los para textos atribuindo aos seus sujeitos (aquele que diz e aquele que ouve) camadas de protagonização, retirando-os de uma condição histórica de ser-para-morte (Martin Heidegger) e conferindo-lhes uma consciência histórica do 'ser para uma possibilidade' / posso, capaz de palavra, ação, narrativa. (Paul Ricoeur). Palavra dita / palavra ouvida. Seja feito conforme a palavra. A construção da Memória Coletiva se dá, portanto, por meio de travessias, de caminhos sendo percorridos, de vivências ocorridas no presente, e entendemos os três tempos simultaneamente no processo narrativo quando consideramos a temporalidade em 'Confissões' de Santo Agostinho: 1. presente do passado (memória); 2. presente do presente (intuição ou atenção) e;3. presente do futuro (expectativa) - O ato de dizer/narra/contar traz consigo os três tempos tanto para quem ouve como para quem diz. Portanto, quando nos disponibilizamos a narrar ou a escutar, estamos nos colocando em meio a processos que requerem muito mais do que apenas de chegar a tal objetivo, Pode-se afirmar que tal processo é composto das seguintes camadas - entendendo estas camadas como aberturas: a) possibilidades (arranjo de cenários possíveis) - elencamos elementos cujas combinações tragam em si abertura para outras possibilidades; b) negociações (propósitos, oportunidades, trocas, ética e valores) - a partir das possibilidades é chegado o momento de negociar informações, histórias, lembranças - aqui deve ser apresentado interesses, seja no ouvir ou no dizer - sempre tratando tais valores com ética; c) responsabilidade (propriedade de quem é capaz de cuidar) - negociação realizada, chega o momento de cuidar e conferir destinos - a consciência responsável responderá ante o valor do ser;d) reapresentação (recognição e coesão) - destinos que se revelam sejam em textos, audiovisuais, redes sociais, mas também momentos de abrir novas possibilidades. Ao processo que envolve estas camadas denominei Mnemônica Narrativa que não se encerra na 'última camada', ao contrário, a depender de seus atores, abre-se em novas possibilidades.
Palavras-chave: Narrativas singulares; Narrativa transversal; Memória coletiva; Ser e tempo
Oficina 13. Estratégias de produção cultural com entrevistas de história oral: criação e publicação de livros e podcasts. Proponentes: Ulisses M. R. Franco (USP) & Vinicius Magnun (USP)
Resumo: Derivada das atividades de pesquisa e experimentação realizadas pelos proponentes no Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa em Cultura e Memória (CUME), a oficina tem o objetivo de compartilhar experiências e práticas de produção cultural que pesquisadores do campo da história oral podem mobilizar para criar e publicar livros e podcasts com entrevistas. A proposta é aberta a qualquer pessoa interessada que tenha conhecimento mínimo da metodologia e dos debates do campo da história oral, não sendo um pré-requisito ter experiência prévia com produção cultural, mas sim o interesse em engajar-se nos debates e nas atividades.Dessa forma, a proposta NÃO É aprofundar-se em discussões teóricas e técnicas sobre discursos de memórias ou condução, gravação e transcrição de entrevistas. Na verdade, espera-se fomentar um espaço de trocas e experimentação colaborativa para debater e aprender com exemplos já realizados de forma a favorecer o incremento e a disseminação de estratégias compartilhadas que tenham os compromissos éticos e públicos do campo da história oral como eixos de orientação. Também espera-se detalhar as atividades específicas de edição e organização de textos e áudios de entrevistas na produção de livros e podcasts, assim como a elaboração de materiais de contextualização, paratextos, metadados ou outros recursos que favorecem a apresentação dos produtos e suas possíveis associações ao campo da história oral brasileiro. Para isso, serão apresentados e discutidos brevemente alguns aspectos teóricos e práticos envolvidos nos processos de mediação que transformam os diálogos das entrevistas de história oral em produtos culturais. Sobre produção editorial, trataremos das definições genéricas dos textos de história oral a partir de suas configurações narrativas e paratextuais (Portelli, 2001; Genette, 2009), também quais sãos as decisões e atividades que engendram as transformações de resultados de pesquisas em produtos editoriais (Smith, 2012; Shopes, 2011, 2015) e como se dão as relações de negociação e colaboração com profissionais editoriais que participam e incidem nessas produções. Com relação à produção sonora, serão discutidos alguns dos formatos possíveis para podcasts que utilizam entrevistas e quais as incidências de processos e metodologias de pesquisa nesses materiais. Também trataremos de decisões e atividades que possibilitam a transformação dos registros de áudio das entrevistas em produtos para circulação, com atenção à qualidade sonora, à montagem e a elementos de sonoplastia (trilhas, foley, vinhetas etc.). As relações com profissionais especializados do setor também serão consideradas para favorecer a aproximação com práticas de criação e de circulação que não se restrinjam a públicos acadêmicos. É importante destacar que não se trata de oficina com o objetivo de ensinar detalhadamente a editar podcasts, mas softwares e outros recursos poderão ser discutidos.Para as atividades práticas da oficina, as pessoas participantes devem trazer os textos (digitais ou impressos) de ao menos duas entrevistas de história oral que tenham produzido, ou que conheçam, para que sejam desenvolvidos um dos seguintes materiais na dinâmica em grupo: um projeto editorial de publicação (considerando estrutura narrativa, forma de representação das vozes, características paratextuais etc.) ou um roteiro de podcast (definindo formas de composição do áudio, recursos complementares, metadados para publicação e difusão etc.).
Palavras-chave: Produção cultural; História pública; Livros de história oral; Podcast com entrevistas; Criatividade.
Oficina 14. REMEMORAR COLETIVAMENTE: UMA PROPOSTA PARA O ESTUDO DA MEMÓRIA COLETIVA EM COMUNIDADES TRADICIONAIS POR MEIO DA ORALIDADE. Proponentes: Yuri Caetano do Carmo (UEFS) & Danilo Melo de Morais Carvalho (UEFS)
Resumo: A oralidade tem se apresentado como um instrumento democratizador da escrita da história, oferecendo um embate dialético entre as versões já concretizadas sobre determinados momentos e vivências de povos por todo o planeta, com as narrativas próprias destes, silenciadas por anos de apagamento e negacionismo histórico. Quando interpretada desta forma, a oralidade obtém importante papel na reconfiguração das percepções históricas sobre os “excluídos da história” como, por exemplo, os povos tradicionais brasileiros, desde povos indígenas até às comunidades quilombolas, como demonstra, por exemplo, Mattos (2006). Nos quilombos, espacialidades onde a memória preserva em seus anciões as “bibliotecas vivas” (Hampaté Bâ, 2010) do saber tradicional e do histórico da resistência, os instrumentos da oralidade possibilitam: “romper com a escrita que coloca atores sociais das comunidades negras como subordinados, desumanizador e vencidos” (Oliveira e Borges, 2024, p. 145), colocando estes como sujeitos resistentes ao escravismo colonial e como sujeitos que preservam em suas memórias a tradição histórica de sua existência em luta. A utilização da oralidade como método não segue caminho homogêneo, e a opção majoritária dos pesquisadores em campo tem sido pela realização de entrevistas individuais. Porém, nestas comunidades a rememoração da história “envolve as memórias individuais, mas não se confunde com elas” (Halbwachs, 1990, p. 47), já que as experiências destes sujeitos na composição das narrativas de suas trajetórias e do histórico de resistência de seu povo são parte do que Halbwachs (1990) denomina como “memória coletiva”. Sendo assim, a coleta da oralidade em comunidades tradicionais, sobretudo nas quilombolas, nos desafia a pensar em procedimentos metodológicos específicos que considerem a necessidade de compreender a memória coletiva dessas comunidades por meio de seus sujeitos e de suas narrativas, constituindo-as como possíveis fontes primárias para o diálogo com os demais registros mobilizados na pesquisa. Busca-se, assim, contribuir para uma historiografia da experiência desses povos, que considere sua memória como ponto de partida, e não como informação secundária. Deste modo, a presente oficina, embasada na proposta de Paula Hamilton (2006) da execução de um “processo coletivo da rememoração” (Hamilton, 2006, p.85) tem como objetivo sistematizar e compartilhar a metodologia de “rememoração coletiva”, uma estratégia desenvolvida inicialmente por Carmo (2024) no projeto ‘Historializando a Matinha’, no qual sujeitos de uma comunidade quilombola baiana participaram de encontros em que jovens conduziam questionamentos aos anciões, construindo entre si os caminhos do diálogo e do resgate de suas trajetórias e que é enxergada nós como uma possível estratégia metodológica para a coleta oral em comunidades tradicionais, com foco em comunidades quilombolas. Ao seu término, a oficina também pretende compartilhar experiências e percursos metodológicos que contribuam para fortalecer a História Oral como espaço democratizador da historiografia. No contexto em que as estratégias metodológicas que serão socializadas foram desenvolvidas, a experiência possibilitou o resgate de práticas culturais comunitárias que haviam sido apagadas, a ressignificação de lugares de memória negligenciados pelo Estado e pela própria comunidade e um processo de reavivamento patrimonial. Esse movimento pavimentou caminhos para a composição de um Inventário Cultural Participativo e para o desenvolvimento de projetos educacionais que têm contribuído para transformações no campo da Educação Escolar Quilombola no município.
Palavras-chave: Comunidades Tradicionais; Memória Coletiva; Estratégias metodológicas.