Ressocialização sob Demanda: O Caso Elize Matsunaga e a Mercantilização da Pena na Indústria do Streaming
RESUMO
O gênero true crime vive uma ascensão global, consolidando uma nova dinâmica de consumo na qual crimes reais são convertidos em ativos estratégicos da Indústria Cultural moderna. No Brasil, o caso Elize Matsunaga exemplifica essa reconfiguração, deixando de ser um fato jurídico-penal para se tornar um produto de entretenimento de longa duração, especialmente após o lançamento de produções documentais de alto orçamento. Esta pesquisa justifica-se pela necessidade de analisar tal mercantilização da violência sob a ótica do capitalismo gore (conceito de Sayak Valencia) e da necropolítica, que instrumentaliza a morte como ferramenta de poder e lucro (POLYDORO, 2024). O problema central reside na economia da atenção, que opera por meio da captura e monetização do interesse público, transformando a trajetória da egressa em mercadoria. Diante disso, o objetivo deste trabalho é analisar como o documentário "Elize Matsunaga: Era uma Vez um Crime" (Netflix), ao conceder voz direta à ré, opera uma espetacularização da pena que colide com sua função social prevista na Lei de Execução Penal.
Para tanto, a metodologia adota uma abordagem qualitativa e exploratória, fundamentada na pesquisa bibliográfica e na análise crítica de conteúdo sob o referencial da Economia Política da Comunicação (EPC). A análise debruça-se sobre a estrutura narrativa da obra documental, que utiliza recursos cinematográficos para reconstruir o crime e o período de cárcere de Elize. Observa-se que a Netflix utiliza-se do storytelling para criar uma tensão entre a confissão do crime e a humanização da figura materna, explorando elementos da vida íntima que extrapolam o interesse público sobre o processo judicial. Essa construção estética não visa apenas informar, mas produzir um engajamento emocional que sustenta o modelo de negócios da plataforma, onde a dor e o arrependimento são editados para maximizar o tempo de tela do espectador.
A discussão preliminar aponta que a vida privada e o histórico criminal de Elize são recompactados para atender às demandas de engajamento digital, submetendo a execução penal a uma nova camada de exploração comercial. Sob a ótica da EPC, essa dinâmica cria um "tribunal paralelo" mediado pelo mercado, onde a narrativa oscila entre a humanização da egressa e a reiteração do estigma criminal. O fenômeno tensiona os princípios fundamentais do Direito, uma vez que a exposição contínua e a exploração econômica da imagem de Elize podem atuar como uma "pena perpétua" extrajudicial.
Conclui-se, como resultados esperados, que embora o documentário simule uma abertura ao contraditório, ele se apropria do sigilo e da tragédia pessoal como conteúdo rentável de ampla visibilidade. Evidencia-se que as indústrias midiáticas capitalizam o interesse por crimes violentos sem promover uma reflexão crítica sobre a real condição do egresso do cárcere. Assim, a pesquisa demonstra que a indústria do streaming atua como um obstáculo à reintegração social, priorizando a valorização do capital em detrimento da dignidade humana e da eficácia do sistema jurídico-penal brasileiro.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)