QUANDO A ÁGUA CALA, O POVO FALA: COMUNICAÇÃO POPULAR, DIGNIDADE HÍDRICA E DISPUTAS DE SENTIDO NA BACIA DO RIO PARAOPEBA

  • Autor
  • MARDOCHÉE OGÉCIME
  • Co-autores
  • PAULA JUNQUEIRA MOTA
  • Resumo
  • Este trabalho analisa o desastre socioambiental em Brumadinho (MG) a partir da contaminação das águas do Rio Paraopeba provocada pelo rompimento da barragem da Vale, compreendido como um crime socioambiental com efeitos duradouros sobre a saúde, os modos de vida e a dignidade das populações atingidas. À luz da Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura (EPTICC), o estudo investiga como, após a contaminação hídrica, se instaura um regime assimétrico de produção e circulação de informações sobre risco, qualidade da água e reparação, no qual discursos técnico-institucionais tendem a silenciar ou deslegitimar as narrativas das comunidades e suas assessorias.

    Mobiliza-se o conceito de dignidade hídrica como direito humano ao acesso à água em quantidade e qualidade adequadas, indissociável da saúde, da reprodução social e da justiça ambiental (NEVES-SILVA & HELLER, 2016; SWAN, 2018). Argumenta-se que, no contexto periférico do capitalismo (DANTAS, 2002; BOLAÑO, 2008), a contaminação da água não produz apenas danos ambientais e sanitários, mas também uma colonialidade informacional, na qual corporações e aparatos estatais concentram o poder de definir o que é água “segura”, quais danos são reconhecidos e quais evidências são consideradas legítimas (PELLOW, 2018).

    Empiricamente, o estudo se baseia em entrevistas qualitativas realizadas em novembro de 2021 com 48 moradores de 16 comunidades dos municípios de Curvelo e Pompéu, no Baixo Paraopeba. As narrativas revelam percepções recorrentes de alteração visível e sensorial da água (“parecendo sangue”, “mau cheiro”), desconfiança em relação aos monitoramentos oficiais, agravos à saúde (problemas dermatológicos, respiratórios e sofrimento psicossocial) e profundas mudanças nos modos de vida, como a interrupção da pesca, da agricultura e da comercialização de alimentos. Tais relatos evidenciam que a contaminação hídrica comprometeu práticas econômicas, culturais e afetivas, configurando um processo de desterritorialização.

    Essas falas são interpretadas como práticas de comunicação popular contra-hegemônica, nas quais os atingidos produzem sentidos próprios sobre o crime, a água e a saúde, confrontando a mercantilização da informação e a naturalização do risco. No horizonte analítico da EPTICC, sustenta-se que a disputa pela dignidade hídrica é também uma disputa comunicacional e política, na qual a soberania popular sobre a água depende do reconhecimento dos saberes locais como produção legítima de conhecimento.

    Conclui-se que enfrentar os efeitos do crime no Paraopeba exige não apenas ações técnicas de remediação, mas também a democratização da informação e a valorização das narrativas das populações atingidas como condição de justiça ambiental, soberania e reparação integral.

     

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    BARDIN, L. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2011.

    BOLAÑO, César Ricardo Siqueira. Indústria cultural, informação e capitalismo. São Paulo: Hucitec; Polis, 2008.

    DANTAS, Marcos. A lógica do capital-informação; 2da Edição. Rio de Janeiro: Contraponto, 2002.

    NEVES-SILVA, P.; HELLER, L. O direito humano à água e ao esgotamento sanitário como instrumento para promoção da saúde de populações vulneráveis.  Revista Ciênc. saúde colet, v.21, n.6, 2016.

    PELLOW, D. N. What is Critical Environmental Justice? Polity, 2018.

    SWAN, T. J. Understanding the Human Dignity Component of a Right to Water: Lahore, Pakistan. Dignity Rights Practicum. Widener University Delaware Law School, 2018.

  • Palavras-chave
  • Comunicação popular, Desastre socioambiental, Dignidade hídrica, Justiça ambiental, Populações atingidas
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 2 - Comunicação popular, alternativa e comunitária
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