Este trabalho propõe uma leitura crítica das bibliotecas digitais associadas a linguagens de programação dominantes, a exemplo de repositórios de código e infraestruturas de organização e circulação de pacotes de software, compreendendo-as como infraestruturas centrais do capitalismo informacional. Parte-se do argumento de que tais bibliotecas não operam apenas como dispositivos técnicos de armazenamento e acesso à informação, mas como meios de produção informacional, nos quais se articulam informação, conhecimento e valor, organizando regimes de trabalho, visibilidade e governança cognitiva no ecossistema digital (MOSCO, 2009; FUCHS, 2014, OGÉCIME, 2021).
Do ponto de vista analítico, o estudo articula Economia Política da Informação e crítica da plataformização para evidenciar três mecanismos. Em primeiro lugar, a aparência de gratuidade, amparada pela retórica do “aberto”, funciona como ideologia infraestrutural, pois, embora o acesso ao código seja formalmente livre, os benefícios econômicos resultantes são apropriados de maneira concentrada por plataformas e cadeias produtivas dependentes de componentes open source (SRNICHEK, 2017). Em segundo lugar, há uma concentração de dependências críticas e um deslocamento do risco sistêmico para comunidades de manutenção, pois, poucos pacotes sustentam ecossistemas inteiros, enquanto o trabalho de correção, segurança e atualização recai sobre mantenedores precarizados, frequentemente sem financiamento estável. Em terceiro lugar, essas bibliotecas operam por meio de métricas algorítmicas de visibilidade como: número de downloads, marcações de destaque e registros de problemas que hierarquizam projetos, orientam decisões técnicas e produzem dominância informacional e cognitiva; isto recoloca, no interior da Ciência da Informação, o problema da classificação como prática ideológica e material de poder.
O trabalho demonstra como essas bibliotecas digitais materializam dinâmicas de centro–periferia e de colonialidade digital, na medida em que países e instituições do Sul Global participam majoritariamente sob condições de inclusão subordinada. Eles utilizam intensivamente padrões e dependências, mas têm baixa capacidade de incidir sobre governança, agendas e critérios de legitimação técnica. Nesse sentido, as bibliotecas digitais de código devem ser compreendidas como infraestruturas de hegemonia, com impactos diretos sobre a soberania informacional, as políticas públicas e as condições do trabalho informacional, contribuindo para a agenda crítica da Ciência da Informação ao explicitar a economia política inscrita em sistemas aparentemente “abertos” (ZUBOFF, 2019, OGÉCIME, 2021).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FROHMANN, B. Deflating information: from science studies to documentation. Toronto: University of Toronto Press, 2004.
FUCHS, C. Digital labour and Karl Marx. New York: Routledge, 2014.
MOSCO, V. The political economy of communication. 2. ed. London: Sage, 2009.
OGECIME, M. (Re)pensando a sociedade da informação e do conhecimento na periferia: um estudo de caso do Haiti. Tese (Doutorado) - Ciência da Informação. Repositório da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2021.
SRNICEK, N. Platform capitalism. Cambridge: Polity Press, 2017.
ZUBOFF, S. The age of surveillance capitalism: the fight for a human future at the new frontier of power. New York: PublicAffairs, 2019.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)