O texto “Em busca de uma teoria do valor-atenção” (Oliveira, 2025) reacendeu um debate que, como observaram Dantas (2025) e Bolaño (2025) em suas contribuições, se encontra na origem da economia política da comunicação: o texto de Smythe (1977) sobre o “ponto cego” do marxismo ocidental. O problema que sustenta o debate, encapsulado no título do texto de Oliveira (2025), é sobre a possibilidade da atenção produzir valor, portanto, sobre a possibilidade de uma teoria do valor-atenção. Vale ressaltar que o debate assombrou e continua assombrando a economia política da comunicação em diversos momentos, como, por exemplo, o debate entre Fuchs (2015a) e Bolãno (2015) na revista tripleC, originado pelos textos de Bolãno & Vieira (2014) e Fuchs (2015b). Para um resumo desse debate – que não se pretende retomar neste artigo –, há o excelente trabalho de Figueiredo (2022).
O objetivo deste artigo é resgatar as origens ideológicas que sustentam o falso problema desse debate, privilegiando a obra de Herbert Simon, bem como de outros autores ligados ao debate (Goldhaber, 1997; Beller, 2006). É consenso entre os pesquisadores da economia da atenção indicar a palestra “Designing Organizations for an Information-Rich World”, proferida por Simon em 1969 e publicada em 1971, como a obra pioneira da área (Festré; Garrouste, 2015). Ainda que não utilize o termo “economia da atenção” – na verdade, o termo é mencionado por um dos comentadores da palestra –, Simon (1971) apresenta aqui o argumento fundador dessa nova ideologia: “A escassez de atenção em um mundo rico em informações pode ser medida em termos de tempo de execução humano” (Simon, 1971, p. 41).
Ao evocar a relação entre tempo e atenção, o argumento de Simon fornece os fundamentos para uma teoria do valor atenção, pois a atenção, medida em tempo de execução humano, poderia se transformar em um “tempo de trabalho cristalizado” (Marx, 2011, l. 163). É claro que essa relação depende da definição de atenção empregada: no caso do argumento de Simon, a definição de atenção seletiva, oriunda das teorias de processamento de informação, torna possível essa mensuração. Entretanto, justamente por reduzir o ser humano a um computador, essas teorias substituem a percepção por um processo de seleção chamado indevidamente de atenção.
Percebe-se assim que uma teoria do valor-atenção é antes uma quimera liberal criada pela instrumentalização da atenção. Sua principal consequência é transformar a atenção em uma “coisa”, capaz de ser estocada, passada e recebida: como escreve Goldhaber (1997), “você tem um certo estoque de atenção à sua disposição e, neste momento, uma grande parte do estoque disponível para você está indo para mim, ou para as minhas palavras”. Temos aqui a configuração típica do mercado liberal: sujeitos livres, proprietários de coisas e dispostos a trocá-las. Entretanto, em primeiro lugar, ler as palavras do artigo de Goldhaber não me torna proprietário delas – há um copyright ao final do artigo. Em segundo lugar, do mesmo modo que a informação (Lopes, 2008; 2010), a atenção não é uma coisa, o que impossibilita sua troca e, portanto, sua valorização.
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