A consolidação do capitalismo na ambiência acadêmica e a financeirização assimétrica da comunicação científica intensificaram o "pensamento abissal", conforme proposto por Santos (2009), acirrando as desigualdades estruturais entre o Norte e o Sul Global. Com efeito, os periódicos predatórios emergem como um sinal visível da colonialidade do saber e de uma geopolítica do conhecimento que, à semelhança da divisão internacional do trabalho, distribui papéis de protagonistas, coadjuvantes e figurantes na produção científica mundial (Alves, 2025). A consolidação do capitalismo acadêmico e a financeirização da comunicação científica intensificaram as desigualdades estruturais entre centros e periferias do sistema científico global. Nesse contexto, os periódicos predatórios emergem como um fenômeno recorrente, frequentemente tratado de forma moralizante ou restrito à conduta individual dos pesquisadores. Este trabalho adota uma perspectiva crítica, compreendendo os periódicos predatórios como expressão das assimetrias de poder que organizam o regime global de informação científica, sobretudo nos países periféricos do capitalismo. O debate sobre periódicos predatórios revela-se estratégico para os estudos críticos em Ciência da Informação, por envolver diretamente as relações entre informação, conhecimento e valor. Em diálogo com o tema do XI Encontro Nacional da Sociedade imperialismo, colonialismo e soberania na periferia do capitalismo (EPTICC), o estudo contribui para a compreensão desses periódicos não como desvios marginais, mas como produtos funcionais de um sistema científico orientado pela mercantilização, pelo produtivismo acadêmico e pela dependência epistemológica. O problema de pesquisa consiste em compreender de que modo os periódicos predatórios expressam relações de imperialismo informacional e dependência científica na periferia do capitalismo. O objetivo geral é analisar os periódicos predatórios como um fenômeno estrutural da economia política da comunicação científica contemporânea. Como objetivos específicos, busca-se: (a) examinar a relação entre produtivismo acadêmico, cobrança de APCs e a expansão desses periódicos; (b) compreender o papel das assimetrias centro/periferia na inserção de pesquisadores periféricos nesse circuito editorial; e (c) discutir implicações para a soberania científica e informacional. A pesquisa adota abordagem qualitativa e analítico-interpretativa. O referencial teórico articula a Economia Política da Comunicação Científica (Mosco, 2009; Mirowski, 2011; Fuchs, 2014), os estudos sobre capitalismo acadêmico e avaliação científica (Slaughter; Rhoades, 2004; Bourdieu, 2004; Gingras, 2014) e as transformações históricas da comunicação científica (Guédon, 2001; Packer et al., 2014), além do debate específico sobre periódicos predatórios (Beall, 2012; Grudniewicz et al., 2019; Shamseer et al., 2017; Moher et al., 2017). Metodologicamente, o estudo articula: (i) revisão bibliográfica especializada; (ii) análise documental de políticas e instrumentos institucionais de avaliação da produção científica; e (iii) exame exploratório das características editoriais recorrentes atribuídas aos periódicos predatórios. Parte-se da hipótese de que esses periódicos operam como mecanismos de captura do trabalho intelectual produzido na periferia do sistema científico, reforçando relações de subordinação informacional e econômica. Conclui-se, de forma preliminar, que seu enfrentamento exige a crítica das estruturas de avaliação, financiamento e circulação do conhecimento científico, estando diretamente vinculado à defesa da soberania científica, da autonomia epistemológica e da justiça cognitiva.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)