INFLUÊNCIA DIGITAL COMO TECNOLOGIA POLÍTICA: INTERSECCIONALIDADE, RACIALIDADE E DISPUTAS POR ATENÇÃO E CREDIBILIDADE EM AMBIENTES DIGITAIS

  • Autor
  • Maria Aparecida Moura
  • Resumo
  • Analisa-se a influência digital como uma tecnologia política situada, compreendida como um conjunto de práticas, dispositivos, performances comunicacionais e mediações algorítmicas que organizam a atenção, a visibilidade e a credibilidade no espaço público digital. 

    O objetivo é compreender o papel desempenhado por influenciadores e influenciadoras digitais negros(as) na produção de agendas políticas voltadas ao enfrentamento do racismo, à luta contra a intolerância religiosa dirigida às religiões de matriz africana e ao fortalecimento do feminismo negro decolonial, tomando como campo empírico a plataforma Instagram. Sustenta-se que essas atuações incidem diretamente no confronto à credibilidade racializada, isto é, aos regimes desiguais de reconhecimento que hierarquizam quem pode falar, ser ouvido e ser tomado como fonte legítima de conhecimento no espaço público digital.

    O marco teórico articula a noção de dispositivo (Foucault, 2000) à interseccionalidade, mobilizada de forma complementar a partir das contribuições de Crenshaw e Collins. Em Crenshaw (1993), a interseccionalidade opera como ferramenta analítica para compreender a sobreposição estrutural de opressões nos campos jurídico, político e comunicacional. Em Collins (2021, 2024) , constitui uma matriz relacional de dominação e uma epistemologia situada, que evidencia o ponto de vista, a agência e a produção de conhecimento de mulheres negras. Essa articulação permite compreender a influência digital como um espaço no qual raça, gênero, classe e tecnologia operam de forma imbricada, produzindo assimetrias persistentes de visibilidade, reconhecimento e credibilidade.

    Mobiliza-se o conceito de autoridade discursiva para analisar como determinados sujeitos, narrativas e performances alcançam reconhecimento como legítimos no espaço público digital. Ancorada em Foucault, essa noção permite compreender a autoridade como efeito de relações de poder, regimes de verdade e condições de enunciação, articulando sua dimensão epistêmica à sua dimensão comunicativa. Nesse contexto, a economia da atenção e a economia da credibilidade, estruturadas por métricas, algoritmos e normas implícitas de engajamento e autoridade, operam de modo racializado. Tais mecanismos tendem a reproduzir o pacto narcísico da branquitude, entendido como um regime simbólico de autoproteção que naturaliza a centralidade branca e estabiliza hierarquias raciais de credibilidade. As práticas analisadas tensionam esse pacto ao disputar critérios de legitimidade, autoridade e reconhecimento.

    Discute-se o ecossistema da influência digital no Instagram, destacando seus principais componentes: arquitetura da plataforma, sistemas de recomendação algorítmica, métricas de engajamento, regimes de monetização, performatividade identitária e circulação dos conteúdos. Argumenta-se que esse ecossistema impõe constrangimentos estruturais à ação política, mas também oferece margens de intervenção para práticas comunicacionais contra-hegemônicas, sobretudo quando orientadas ao enfrentamento da intolerância religiosa, à pedagogia antirracista e à desnaturalização da credibilidade racializada.

    Metodologicamente, o estudo adota uma abordagem qualitativa e interpretativa, baseada na análise de seis perfis de influenciadores(as) negros(as), distribuídos em três segmentos: religiões de matriz africana e combate à intolerância religiosa (@tatakasulembê, @rodneywilliam); ativismo antirracista (@uma_intelectual_diferentona, @djamilaribeiro); e feminismo negro decolonial (@geledes, @karlaakotirene). A análise considera: (i) a agenda temática e a agenda setting construída; (ii) os princípios ético-políticos mobilizados; (iii) as estratégias discursivas e performativas; e (iv) o alcance comunicacional e tecnológico das postagens, com atenção às dinâmicas de engajamento, circulação e interação.

     

     
  • Palavras-chave
  • Influência digital, interseccionalidade, economia da atenção, economia da credibilidade, tecnologia política
  • Modalidade
  • Comunicação oral
  • Área Temática
  • GT 8 - Estudos Críticos sobre identidade, gênero e raça
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