Este estudo analisa como as práticas de busca informacional de estudantes de Ciência da Computação de universidades públicas da Região Nordeste do Brasil se relacionam com o letramento racial no contexto do racismo algorítmico. A questão norteadora busca entender se tais práticas permitem que esses futuros profissionais orientem suas percepções e ações contra o racismo algorítmico. A construção teórica se desenvolve a partir da abordagem das práticas informacionais entrelaçada com a perspectiva crítica dos conceitos interdisciplinares que explicam os fenômenos que se configuram como objeto da pesquisa, como o racismo algorítmico (Silva, 2022), o colonialismo digital (Faustino & Lippold, 2023), as tecnologias biométricas e inteligência artificial (Birhane, 2020), e o letramento racial (Twine, 2004). A metodologia se baseou na entrevista semiestruturada orientada pela técnica de amostragem Bola de Neve (Snowball Sampling), alcançando uma amostra de 6 estudantes de 4 universidades nordestinas diferentes. Os dados foram analisados a partir do método do Discurso do Sujeito Coletivo (DSC). Ao longo da análise, ficou evidente que a percepção do sujeito coletivo identifica os algorítmicos não como um conjunto de instruções abstratas, mas como uma arquitetura política que pode, se não for devidamente vigiada, automatizar a exclusão e perpetuar o colonialismo digital (Faustino & Lippold, 2023). Um ponto central desta pesquisa foi a identificação da busca por informação (McKenzie, 2003) como uma estratégia de qualificação profissional. O acesso à informação étnico-racial (Oliveira & Aquino, 2012) funciona como um mecanismo capaz de possibilitar que o cientista da computação identifique discriminações veladas no ambiente corporativo e nos produtos desenvolvidos, contudo, o discurso coletivo ressalta que essa busca exige um rigoroso filtro crítico pois o exercício das práticas de letramento racial (Twine & Steinbugler, 2006) torna indispensável compreender o compromisso técnico-científico com o antirracismo. Conforme discutido através das Teorias Críticas da Raça, o racismo é um componente estruturante da sociedade que se encontra presente nas instituições. No contexto digital, essa infiltração ocorre quando bases de dados viciadas e equipes formuladas pelas ideologias do branquitude (Bento, 2002) e do cisheteropatriarcado (González, 1984; hooks, 2019; Collins, 2022) projetam sistemas que tratam essa homogeneidade como o padrão universal, enquanto marginaliza outras identidades. A transição para uma prática tecnológica ética exige, portanto, que o profissional não apenas domine linguagens de programação, mas desenvolva o que Ferreira (2015) define como um letramento racial crítico, capaz de ler as intenções implícitas e os impactos sociais de cada plataforma algorítmica elaborada. Nesse sentido, a incorporação do letramento racial nas profissões da área de TI não é apenas uma questão de representatividade, mas de qualidade e segurança dos sistemas.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)