A incorporação acelerada de sistemas de Inteligência Artificial generativa às plataformas digitais tem reconfigurado profundamente os regimes contemporâneos de produção, circulação e controle da informação. Inserida nesse cenário, a plataforma X (antigo Twitter) passou a integrar o sistema de IA Grok, desenvolvido pela empresa xAI, ampliando a capacidade de geração automatizada de textos e imagens. No entanto, essa integração tem revelado problemas estruturais relacionados à ética algorítmica, à governança das plataformas e à intensificação de formas de violência informacional, especialmente no que diz respeito à produção de imagens sexualizadas de mulheres sem consentimento e à geração de conteúdos ilícitos envolvendo crianças.
A partir dos Estudos Críticos em Ciência da Informação, articulados à Economia Política da Comunicação, este trabalho analisa o caso da IA Grok como expressão de um regime informacional marcado pela assimetria de poder, pela opacidade algorítmica e pela subordinação da ética à lógica econômica das plataformas. Conforme apontam autores como Zuboff (2019) e Srnicek (2018), o capitalismo de plataforma opera por meio da extração massiva de dados e da conversão da informação em valor econômico, processo no qual os sistemas de IA assumem papel central na intensificação da vigilância e da mercantilização da vida social.
Nesse contexto, os sistemas de IA generativa não devem ser compreendidos como tecnologias neutras, mas como dispositivos sociotécnicos atravessados por ideologia, interesses econômicos e relações históricas de dominação. Estudos críticos sobre algoritmos e informação demonstram que tais sistemas tendem a reproduzir e amplificar desigualdades estruturais, particularmente aquelas relacionadas a gênero, raça e classe (NOBLE, 2018; CRAWFORD, 2021). A produção automatizada de imagens que violam direitos fundamentais evidencia a fragilidade dos mecanismos de controle e responsabilidade das plataformas, além de tensionar os limites entre inovação tecnológica, criminalidade digital e regulação.
Metodologicamente, o trabalho adota uma abordagem qualitativa e exploratória, baseada na análise documental de reportagens, debates regulatórios internacionais e literatura acadêmica recente sobre Inteligência Artificial, regimes de informação e Economia Política da Comunicação. Busca-se compreender como a governança privada das plataformas digitais tem operado como instância central de definição dos limites do aceitável no espaço informacional, deslocando responsabilidades sociais para sistemas automatizados e processos de autorregulação insuficientes.
Os resultados preliminares indicam que o caso Grok revela um cenário de crise na gestão da informação em ambientes digitais, no qual a aceleração tecnológica supera a capacidade social e institucional de estabelecer limites éticos e políticos. Ao dialogar com a Economia Política da Comunicação, o estudo também aponta para a necessidade de aprofundar os debates epistemológicos sobre a Inteligência Artificial como objeto do campo, compreendendo-a como parte das transformações contemporâneas do capitalismo informacional e das disputas por hegemonia no controle da informação. Conclui-se que a análise crítica da IA, situada entre os Estudos Críticos em Ciência da Informação e a EPC, é fundamental para compreender os impactos sociais das plataformas digitais no contexto atual.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)