A reestruturação capitalista das últimas décadas, com avanço das plataformas digitais e mudanças tecnossociais, altera mundo do trabalho, práticas e perfil profissional no Jornalismo, modificando também a relação com o público e a percepção deste sobre a atividade jornalística.
O jornalismo sai do modelo consolidado no século XX para um formato fragmentado e com heterogeneidade de atores (Mick & Tavares, 2017; Fígaro, 2018). Ao tempo em que têm acesso as formas de produzir e distribuir conteúdos, parcelas do público adquirem capacidades críticas em relação a mídia e desconfianças sobre o Jornalismo produzido. O Relatório Reuters 2025[1] apontou que, no Brasil, a confiança nas notícias é de 42%. Ou seja: mais da metade dos brasileiros desconfia do Jornalismo. Isso se associa a instabilidades da reestruturação produtiva, como diminuição de empregos formais, precarização (Antunes, 2022), ascensão do neoliberalismo (Cruz Brittos, 2022) e mudanças estruturais na profissão (Pereira & Adghirni, 2011). Para Souza (2024, p.64) “a credibilidade do jornalismo como prática profissional e serviço público é incessantemente afetada em tempos de capitalismo flexível”.
Nessas condições, muitos grupos apostam na desintermediação do Jornalismo. Mesmo assim, este continua sendo espaço de visibilidade que interessa a grupos e pautas. Enfocando os movimentos sociais, Figueiredo (2016, p.7) argumenta que eles “dependem de uma esfera pública funcionando [...] para que possa levar sua mensagem ao maior número de pessoas possível”.
Esse estudo analisa o cenário complexo em que, mesmo desconfiando do Jornalismo, pessoas e grupos buscam o espaço fornecido por este. Nossa hipótese é que, não podendo/querendo abrir mão desse espaço, desenvolve-se o que chamamos de uma confiança pragmática no Jornalismo.
A tendência é afastar a percepção do Jornalismo como conhecimento sobre a realidade, para concebê-lo como espaço a ser “aproveitado”. Enquanto se intensifica a subsunção do trabalho ao capital (Bolaño, 2000), o Jornalismo, que também tenta tirar proveito da racionalidade neoliberal, é interpretado como passível de uso para empreendimentos diversos.
Fundamentados em autores da EPC, utilizamos dados de pesquisas e entrevistas com moradores da comunidade Poti Velho, em Teresina[1]. Ao tempo em que desconfiam do Jornalismo (“Alguns jornalistas pecam” - Raimundo)[2]; eles enxergam que a mídia pode ser parceira de negócios (“Se a pessoa for pagar [por propaganda] é caro, e a gente tem esse serviço 0800” - Antônia).[3]
As análises consideram a dialética marxista e o caráter contraditório das relações onde o sujeito tanto sofre pressões a se engajar no espirito do capitalismo (Boltanski; Chiapello, 2020), como não reduz a consciência às condições dadas, mas produz e reproduz a realidade, desenvolvendo estratégias junto aos demais atores sociais.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)